UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

As “vespas assassinas” – que história é essa?

Data: 10 de junho de 2020

“Vespas assassinas”

 

Vespas mandarinas (à direita) prestes a atacarem uma colmeia de abelhas.

Vespas mandarinas (à direita) prestes a atacarem uma colmeia de abelhas. Foto: Satoshi Kurybayashi

A espécie Vespa mandarinia, conhecida popularmente como “vespa mandarina”, “vespa assassina” ou “vespa gigante”, é nativa do Leste da Ásia e é comum em regiões temperadas, como no Japão. Esta espécie é uma das maiores do mundo, podendo chegar a 5 cm de comprimento e 7,5 cm de envergadura (abertura das asas). Diferentemente das abelhas, não chamamos seus agregados de colmeias, mas sim de colônias ou ninhos. Suas colônias são compostas por uma rainha e centenas de operárias, são predadoras, atacando insetos de médio e grande porte, inclusive abelhas de mel. O ataque começa com uma “fase de abate”, em que as vespas prendem as abelhas e cortam suas cabeças. Em 90 minutos, um pequeno grupo de vespas asiáticas pode destruir todas as operárias de uma colmeia de abelhas. Em seguida, ocupam a colônia por cerca de uma a três semanas, alimentando-se de pupas e larvas da colmeia atacada, as quais são transportadas para o ninho das vespas, gerando assim a denominação de vespas assassinas.

 

As vespas mandarinas também prestam serviços ecossistêmicos essenciais. Fonte: site da National Geographic citado abaixo.

As vespas mandarinas também prestam serviços ecossistêmicos essenciais. Fonte: site da National Geographic citado abaixo.

“Apesar do comportamento de atacar colmeias de abelhas, é importante lembrar que essas vespas também predam uma grande quantidade de insetos considerados pragas de agrossistemas, como exemplo as lagartas desfolhadoras, contribuindo assim com o serviço de controle biológico e mantendo a população destas pragas em equilíbrio”, diz o Prof. Dr. Fábio Prezoto, especialista em vespas do Departamento de Zoologia da UFJF. “Outro aspecto importante é que as vespas sociais contribuem com uma parcela da polinização de diversas espécies vegetais”, continua.

 

O professor Fábio Prezoto afirma também que “em seu ambiente natural, essas vespas nem sempre tem sucesso ao atacar uma colmeia. Em muitos casos, as abelhas conseguem eliminar a vespa batedora que encontrou a colmeia, impedindo que a batedora possa retornar ao seu ninho e recrutar companheiras para realizar um ataque, salvando assim a colmeia”.

 

As abelhas japonesas (Apis cerana japonica), que convivem com vespas gigantes há muito tempo, desenvolveram uma defesa para seu ataque: as abelhas vibram seus músculos de voo, fazendo com que a temperatura da “bola de abelhas” (formação com muitas abelhas organizadas em forma circular) chegue aos 46°C, dessa forma “cozinhando” as vespas até a morte e as sufocando com dióxido de carbono. Este tipo de estratégia pode ser enquadrado na chamada corrida armamentista evolutiva, quando as espécies desenvolvem adaptações e contra-adaptações.  O problema é que as abelhas européias (Apis mellifera), os polinizadores comerciais mais difundidos, não possuem esse mecanismo de defesa, o que fazem com que sejam presas fáceis.

 

Perigo aos seres humanos e invasão nos Estados Unidos

 

A capacidade de ataque destas vespas pode prejudicar o ser humano diretamente. Seu ferrão pode perfurar roupas de proteção que os apicultores normalmente usam, liberando uma toxina potente que causa dor extrema, podendo levar a óbito uma pessoa que sofreu ataques por uma certa quantidade de vespas ao mesmo tempo. No Japão, entre 30 e 50 pessoas morrem por ano vítimas de múltiplas picadas da vespa gigante. Os incidentes mais graves ocorrem quando as pessoas se aproximam ou perturbam as colônias dos insetos, ou seja, perturbam seu ambiente natural.

 

Uma colônia completa dos insetos foi encontrada e destruída no final de 2019 nos Estados Unidos, e virou notícia mundial em 2020. Os pesquisadores não sabem ao certo como as vespas chegaram no país, mas especula-se que tenha sido em um navio de carga de um dos países de onde são nativas. Isso significa que a vespa mandarina é uma espécie animal exótica nos Estados Unidos. As espécies exóticas, ou seja, as quais se encontram fora da sua área de distribuição natural, podem causar um grave desequilíbrio ecológico. Este desequilíbrio pode ocorrer por competição de recursos e território contra as espécies nativas, o que se se torna ainda mais grave na ausência de predadores naturais, pois a espécie exótica pode multiplicar-se muito mais rapidamente do que as nativas. Além disso, uma espécie exótica pode virar predadora direta de uma espécie nativa, como é o caso da vespa mandarina sobre as abelhas.

 

O mosquito Aedes aegypti, principal transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika vírus.

O mosquito Aedes aegypti, principal transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika vírus. Um verdadeiro “inseto assassino”.

Apesar da repercussão sobre a aparição do inseto nos Estados Unidos, não foi registrado até o momento nenhum ataque contra humanos neste país. É importante lembrar-se de qual o inseto mais letal existente entre nós: os mosquitos, que matam 1 milhão de pessoas todos os anos! Estes animais estão presentes por todo o globo, e podem transmitir uma série de doenças, incluindo malária, dengue, chikungunya, zika vírus e febre amarela. Apesar de haver vacinas contra algumas doenças, o mosquito tem rápida reprodução, e pela grande urbanização estão cada vez mais próximos dos humanos. Cabe a nós utilizarmos estratégias para mitigar seus problemas, incluindo a redução do desmatamento, que causa desequilíbrio nas dinâmicas das doenças, e destruição dos seus focos reprodutivos urbanos.

 

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FONTES:

https://www.nationalgeographic.com/animals/2020/05/asian-giant-hornets-arrive-united-states/

https://www.nytimes.com/2020/05/02/us/asian-giant-hornet-washington.html

https://edition.cnn.com/2020/05/12/us/murder-hornet-mosquitoes-scn-trnd/index.html

Maciel TT, Barbosa BC, Prezoto F. No prelo. Invasão de Vespas assassinas? A verdadeira história das Vespas-gigantes-asiáticas. Rev. Bras. Zoociências. Vol. 21 (1).