UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Ensaio 1 (2020)

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Teatro e Escola: aproximações na diferença

 

Ora, o que teatro tem a ver com escola? Tudo? Quase tudo? Há, na verdade, diferenças. A princípio, um é voltado para encontros únicos e eventuais; já o outro, para o compromisso letivo quase que diário, respectivamente. Entretanto, ambos requerem das pessoas movimento. Teatro pode ser comumente entendido como um local para onde se vai e de onde se volta; escola também, não é mesmo? Há algo de aparentemente simples nisso, mas, por outro lado, o deslocamento concreto e real tem grandes chances de se tornar uma possibilidade de deslocamento abstrato e simbólico. Por exemplo: eu posso sair de casa rumo ao teatro ou à escola, pensando que a Terra é plana e voltar sabendo que não é bem assim ou nada assim. Enfim, eu posso ir “assim” e voltar completamente “assado”, porque eu estava “cru” em termos de ciência e de conhecimento de mundo. Teatro e escola nos fazem sair de casa. Não é mesmo? Sair de um lugar de (des)conforto. Qual seja, há movimento!

Teatro lido na biblioteca da Escola Municipal Murilo Mendes (Juiz de Fora - MG), segundo semestre de 2018

Teatro lido na biblioteca da Escola Municipal Murilo Mendes (Juiz de Fora – MG), segundo semestre de 2018

 

Há diferenças, mas ambos são ilustrativos de vida social presencial, independentemente da virtual. Teatro só acontece de fato com gente reunida muito proximamente, em um mesmo espaço físico; escola também, não é? Nesse espaço compartilhado, o mínimo que se tem, geralmente, entre as pessoas é o contato visual, fora que, tanto no teatro quanto na escola, há cumprimentos, como saudações, apertos de mão, abraços, beijos e ou manifestações como vaias e aplausos. O máximo que se tem são as interações verbais por meio das quais vivemos nossas vidas como usuários de línguas presenciando parcialmente a dos outros. A proximidade física pode, enfim, potencializar a proximidade simbólica, pois assim a linguagem se realiza em sua modalidade mais plena, através da fala e do corpo. Encontrar-se fisicamente com o outro pode fazer a gente entender melhor esse outro e o outro que há em nós mesmos. Talvez! É que teatro e escola nos fazem deparar com o diferente. Qual seja, há oportunidades que nos convidam a lidar com a diversidade de pensamentos, diversidade cultural, biológica, étnica, linguística, religiosa etc.. Muitos etc..

 

Há diferenças, mas teatro tem atores e plateia, protagonizando, juntos, o espetáculo; escola, docente e discentes, protagonizando, juntos, a aula. A princípio, a noção de protagonismo se concentraria apenas na figura dos atores e dos docentes, quando se menciona teatro e escola, respectivamente. Entretanto, ambas as cenas, como um todo, a despeito daquele que está momentânea ou majoritariamente com a palavra no palco ou diante de um quadro de giz ou pincel, necessitam sobremaneira da participação em escuta ativa daqueles que estão na audiência. Essa necessidade é tanto condição de existência para a realização do evento aula quanto para o teatro. Sendo assim, a noção de protagonismo de um ator ou docente se relativiza. Ao que tudo indica, todos os participantes de ambas as cenas teriam chances de protagonizar em certa medida, seja quando a plateia ou um espectador ri, aplaude ou fala, seja quando um discente pede a palavra para perguntar ou comentar alguma coisa. É comum haver espetáculos teatrais que dependem muito da plateia, como quando atores interagem diretamente com espectadores, bem como haver aulas em que discentes apresentam trabalhos diante da turma, em seminários, por exemplo.

 

Há diferenças sim, mas teatro faz da dramaturgia seu texto; escola faz da ciência, com todas as suas áreas de conhecimento, um texto também. Uma aula de matemática com base em texto teatral é muito viável, e uma apresentação teatral sobre os conflitos no ambiente escolar, também. As potências da dramaturgia também dizem respeito a seu valoroso atributo de propiciar contextualização dos programas das disciplinas curriculares, ao serem aproveitadas para estabelecer aproximação com a realidade cotidiana dos discentes, que é permeada de muita conversa. Teatro e escola vivem também de conversa. E conversa pode ser considerada metodologia de ensino e aprendizagem? Sim, claro que sim. Parece que, hoje em dia, na escola e sobretudo na universidade, a conversa, já inerente ao milenar gênero texto teatral mas periférica durante uma aula tradicional, começa a ser levada mais a sério como metodologia de ensino e de aprendizagem, à medida que ela, como prática cotidiana, vai espontaneamente exercendo pressão sobre os monólogos dos docentes em aulas expositivas. O recurso às rodas de conversa ilustra os desdobramentos disso. Como espaço pedagógico relativamente novo de co-construção do conhecimento, no qual há mais simetria de participação, caracteriza-se como uma dinâmica de circulação da palavra acerca de um tema previamente estabelecido, distensamente mediada por um dos participantes.

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Comemoração de encerramento semestral das atividades da oficina na Escola Municipal Murilo Mendes, primeiro semestre de 2019

 

Há diferenças entre teatro e escola, mas teatro mesmo só se constrói pela via afeto; escola também, não é assim? Para capturar a audiência, o teatro busca meios de afetação, tentando sempre trazer os olhos, concretos e abstratos, da plateia para o interior das cenas e intentando adesão ao conteúdo daquilo que está sendo encenado. Não é isso que o docente almeja? Adesão? Que o discente se engaje naquilo que se ensina? Mais do que nunca, hoje em dia, é realmente interessante que essa adesão do discente seja conquistada pela via da autoridade afetuosa, pela via do amor construído e comprometido. Não há mais outra via. Insistir no contrário é, no mínimo, perda de tempo em termos de Educação, pois a via da autoridade autoritária não tem sido ou nunca foi saudavelmente produtiva. Na atualidade, os discentes, vigorosos em termos de comunicação, não são muito passivos diante de professores ou professoras afeitos a um modo exageradamente impositivo de ensino. Não se deixam mais atravessar desse modo. Então, o que fazer? De novo: conversa, conversa, conversa… E o texto teatral, artefato de cultura, mostra-se especial nesse sentido pois ensina o exercício do falar-escutar. Como um todo, a gramática das línguas, compartilhada por todos nós, está aí para isso. Engajada no uso, ela já sugere pedagogia por natureza, porque existe para nos licenciar a negociar sentidos, que, quando são divergentes, requerem mais conversa, nada mais democrático. Além disso, seu uso pressiona sua estrutura, sendo que a estrutura tem que se haver com certa flexibilização para se manter viva. Então, melhor conversa dentro que fora.

 

Há diferenças, mas teatro vive de palavras e silêncios, de atenção e desatenção; escola também, não é? A princípio, para que uma peça de teatro seja encenada, para que uma aula seja ministrada, um pacto se estabelece entre os que falam e os que escutam, entre atores e plateia, entre docentes e discentes. Há algo a ser dito que está disponível para ser escutado. Porém, na prática, esse acordo nunca foi e talvez nunca seja algo de fácil negociação. Nem mesmo uma audiência silenciosa é garantia de engajamento. Talvez uma turma falante esteja mais engajada na aula. Por outro lado, uma plateia silenciosa em um espetáculo de comédia não seja nada bom para quem encena. O silêncio pode significar atenção ou desatenção em ambas as cenas. Teatro e escola são, ou deveriam ser, os lugares mais bem equipados em termos de recursos estratégicos de busca de atenção. Se não vestem o “figurino” da sábia mulher das mil e uma noites, para saber narrar muitíssimo bem uma história, “morrem no dia seguinte”. O teatro deve trabalhar, em certo sentido, para ser Sherazade; a escola, também.

Preparação artística e vocal ministrada pelo discente Fernando Andrade Guimarães, no segundo semestre de 2019

Preparação artística e vocal ministrada pelo discente Fernando Andrade Guimarães, no segundo semestre de 2019

 

Não vamos tratar das muitas diferenças entre teatro e escola. É bem verdade que, ao longo dos séculos, ambos se distanciaram, na forma e no conteúdo. Cada um adquiriu especialidades próprias, esquecendo-se, por vezes, um do outro, ou mesmo não se importando, por vezes, um com o outro, mas mantendo-se sempre vivos a seu jeito. Por outro lado, parece haver hoje em dia um movimento contrário a isso, de assumida reaproximação. Há, sim, muitos projetos extremamente louváveis enlaçando teatro e escola, como escola vai ao teatro, teatro vai à escola, oficinas de teatro, apresentações teatrais de fim de ano ou em datas comemorativas. O que não há muito é o teatro efetivo na escola, por exemplo o decorrente da inserção regular e sistemática do profissional de teatro no ambiente escolar, como trabalhador pertencente ao corpo docente efetivo das instituições de ensino de Educação Básica. Mais comuns são os contratos esporádicos. Então, ainda estamos longe de plenamente absorver a força transformadora e adaptativa do teatro, com políticas trabalhistas efetivas capazes de acolher os profissionais da área. Afinal, o que teatro aprendeu em sua viagem solo que pode ensinar para a escola? O que faz com que o teatro sobreviva tanto tempo e a tantos concorrentes, como cinema, TV, rádio e internet? A escola precisa descobrir isso por conta própria e talvez, quem sabe, encontre a diferença que faz o teatro nunca sucumbir. Mesmo sob efeito da pandemia de covid-19, a oficina Teatro na Escola ainda está atrás dessa resposta, que talvez esteja atrelada à ideia de teatro da escola e não apenas na escola.

 

Luiz Fernando Matos Rocha, 26 de abril de 2020