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História, motivações e desafios da oficina Teatro na Escola

 

Atividade de leitura de texto teatral na biblioteca da Escola Municipal Murilo Mendes (Juiz de Fora - MG), no segundo semestre de 2018

Atividade de leitura de texto teatral na biblioteca da Escola Municipal Murilo Mendes (Juiz de Fora – MG), no segundo semestre de 2018

Inicialmente registrada no Sistema Integrado de Gestão Acadêmica, da Universidade Federal de Juiz de Fora (SIGA/UFJF), como Oficina VIII: Estudos Linguísticos (LEC155), no semestre letivo 2012-1, a oficina Teatro na Escola institucionaliza academicamente o laço entre potências transformadoras de sujeitos em prol de uma sociedade mais cidadã, fiando-se indubitavelmente nos impactos afirmativos e promissores sempre resultantes da confluência entre Arte e Educação. No Projeto Pedagógico da FALE (2013), o conjunto de oficinas concernentes às práticas curriculares consiste em atividades voltadas para a articulação teoria-prática, com vistas à reflexão sobre aspectos da atuação profissional docente, enfatizando-se a imersão na Educação Básica. Assim, a história da oficina Teatro na Escola, paulatinamente, vem se consolidando. Sua ementa resume bem o propósito aplicado: práticas de ensino de língua e literatura envolvendo o gênero texto teatral em sala de aula como exercício de habilidades linguísticas de interpretação, de leitura dramática, de expressão oral, de atenção conjunta e de estímulo à apreciação estética; experiências e experimentações acerca do jogo cênico na escola como elementos motivadores do ensino e da aprendizagem de língua e literatura pelo viés da dramaturgia.

 

A criação, no âmbito da Faculdade de Letras, da UFJF, de uma oficina dessa monta, em meio a grupos de disciplinas e atividades curriculares de formação básica, formação profissional, consolidação e diversificação científico-cultural, teve motivações de fundo, oportunas de serem aqui tratadas, para que se tenha noção não apenas das justificativas pedagógicas para sua inserção no currículo, mas também do que há de afetos e questões de bastidor os quais culminaram em sua proposição. O perfil acadêmico do Prof. Luiz Fernando Matos Rocha, que foi quem propôs a criação da oficina Teatro na Escola, acolhida pelo Departamento de Letras, tem muito a ver com isso. Sua experiência em teatro, sobretudo a vivida em cinco anos de atuação no Centro de Estudos Teatrais – Grupo Divulgação (UFJF), entre os anos 1980 e 1990, somou-se à sua percepção própria acerca da acanhada representatividade de textos dramatúrgicos nas disciplinas da graduação em Letras por ele cursada no período de 1994 a 1998, na Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

Esse ensejo inicial torna-se ainda mais significativo com a apresentação de um breve currículo do Prof. Luiz Fernando. Depois de se formar em Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) pela UFJF em 1991 e atuar na área de rádio, TV e impresso, ele ingressou no curso de Letras, em 1994. Concluída sua segunda graduação, cursou ininterruptamente mestrado e doutorado na área de Linguística, na UFJF e na UFRJ, respectivamente. Nesse período, ministrou cursos de formação de professores para o município e para o estado e atuou como docente de Ensino Médio em instituições particulares por um breve tempo. Entre 2004 e 2005, foi professor pesquisador do Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Letras: linguagem, cultura e discurso, da Universidade Vale do Rio Verde (Três Corações – MG). Em 2006, o professor passou a fazer parte do corpo docente efetivo da Faculdade de Letras da UFJF, onde atua até hoje em graduação e pós-graduação.

 

Discentes da UFJF e da Murilo Mendes compartilhando personagens em leitura de texto dramático (Escola Murilo Mendes, segundo semestre de 2018)

Discentes da UFJF e da Murilo Mendes compartilhando leitura de texto dramático (Escola Murilo Mendes, segundo semestre de 2018)

À medida que os desafios iniciais da docência de ensino superior em instituição pública se intensificavam, uma pergunta de caráter profissional necessitava ser respondida com ações: como é possível um docente que atua ou pretende atuar na formação em nível superior de professores não acumular experiência de magistério em Educação Básica, visto que a Educação Básica é o nível elementar de atuação profissional pertinente aos futuros licenciados dos cursos graduação de Letras em geral? É uma questão que expõe uma realidade comum a muitos colegas de profissão, nesta e em outras instituições de ensino superior. Por outro lado, há que se considerar sobremaneira o investimento das instituições brasileiras de ensino superior em termos de pós-graduação nas últimas décadas, importantíssimo do ponto de vista dos avanços das pesquisas, que indubitavelmente impactam o ensino na graduação. Entretanto, isso pode ter sido responsável, de modo colateral, pela contradição posta na pergunta acima. Tomando essa realidade como constatada, ações coletivas já são executadas para mitigar o que pode, por determinada via, ser considerada uma incoerência de base.

 

Enfim, o incômodo com a sua, até então, breve experiência em Educação Básica fez o professor, a princípio, lançar mão de horários alternativos para ele próprio buscar voluntariamente vivências de ensino em escola pública por meio de um projeto experimental isolado. Foi aí que o contato com a Escola Municipal Murilo Mendes, situada no alto do bairro Grajaú, em Juiz de Fora (MG), teve início. No começo, independentemente das atividades profissionais concernentes à sua dedicação exclusiva à UFJF, o professor desenvolveu, por conta própria, um projeto de leitura e interpretação de textos teatrais com discentes da referida escola, tendo apoio posterior de alguns estudantes de especialização da FALE-UFJF. Durante cerca de dois anos, toda semana o professor se deslocava para a Escola Murilo Mendes com esse propósito, estreitando, por conseguinte, seu contato com o cotidiano escolar.

 

Ao longo desse período, a partir de um diagnóstico adicional fornecido pela direção da escola, decidiu-se não apenas manter as atividades de leitura e interpretação de textos teatrais, mas acrescentar práticas de produção de textos teatrais. Foi aí que se produziu, em 2009, a esquete teatral “A maldição da caixa d’água”, uma criação coletiva escrita por vinte alunas e alunos da Murilo Mendes, com a supervisão e participação do Prof. Luiz Fernando, a partir de histórias do bairro Grajaú coletadas pelos próprios discentes. A peça conta uma história de cunho fantástico, embora tenha como inspiração acontecimentos reais ocorridos no entorno da caixa d’água do bairro, bem como de hábitos e costumes de moradores da comunidade. A dinâmica de escrita da peça acontecia em sessões nas quais estavam presentes os vinte estudantes e o professor, que definiam os rumos da história, perfis e falas de personagens, em debates semanais, tendo o suporte tecnológico de um projetor que exibia a tela do programa de computador Word.

Turma da oficina em visita ao alto do bairro Grajaú (Juiz de Fora - MG), no segundo semestre de 2018

Visita à caixa d’água do alto do bairro Grajaú (Juiz de Fora – MG), no segundo semestre de 2018

 

Todo esse trabalho experimental desenvolvido na escola pública contribuiu sobremaneira para fomentar e subsidiar a criação da oficina Teatro na Escola, em 2012, como disciplina, de 30 horas-aula, integrante do currículo de graduação em Letras, ainda ministrada apenas nas dependências da Faculdade de Letras da UFJF. No início, as atividades da oficina envolviam leitura e interpretação de textos variados de dramaturgia, mas, aos poucos, o percurso histórico da disciplina foi abarcando uma série de modificações e amadurecimentos oportunizada pelas relações que passaram a ser estabelecidas com profissionais de teatro. Atores, diretores e dramaturgos, fortemente comprometidos com o entendimento de que o recurso à teatralidade é um caminho consistente, eficaz e valoroso para a Educação, estiveram presentes às aulas, ministrando palestras para tratar de suas experiências e reflexões sobre teatro e escola. A oficina compensava o fato de ainda não ocorrer na escola pública trazendo para a universidade a experiência de quem vive o teatro como elemento parceiro da Educação.

 

Muitas discussões no âmbito da disciplina foram produzidas à luz dos relatos de experiência e das reflexões teóricas fornecidos por esses profissionais. Já estiveram presentes, na oficina Teatro na Escola ministrada nas salas da FALE-UFJF, Adriana Perini, Anderson Ferigate, Camila Damasceno, Cristina Braga, Felipe Moratori, Júlio Cesar Souza Oliveira, Márcia Falabella, Russan Fadel e Tiago Fontoura. Apesar da diversidade de perspectivas e de experiências nesse sentido, um pensamento sempre foi comum em seus discursos: o teatro é um veículo de transformação subjetiva e social, de aperfeiçoamento das relações interpessoais, de crescimento intelectual, de formação educacional cidadã e de atravessamento simbólico. Foram frequentes os relatos de como o teatro foi e é relevante para suas carreiras, bem como depoimentos em que esses profissionais testemunharam e testemunham o amadurecimento de discentes em termos de visão de mundo.

 

Passada a fase em que a disciplina Teatro na Escola foi ministrada apenas nas salas da Faculdade de Letras, da UFJF, um passo desafiador se sucedeu no segundo semestre letivo de 2018 em prol da imersão efetiva dos universitários no espaço escolar de Educação Básica, em específico o da mesma Escola Municipal Murilo Mendes (Juiz de Fora – MG), cujo vínculo já havia sido conosco construído. Até então, o curto tempo de duas horas-aula semanais, encaixadas em meio a outras disciplinas a serem cumpridas pelos discentes da FALE nos turnos integral e noturno, impedia, em certa medida, o deslocamento físico desses discentes até a escola pública, de periferia.  Sendo assim, decidiu-se por ampliar a carga horária da oficina, que passou a contar com três horas-aula semanais, totalizando 45h totais e obtendo novo registro institucional (Oficina XIII: Estudos Linguísticos – LEC220). Com isso, suas aulas foram transferidas quase integralmente para o espaço físico da Escola Municipal Murilo Mendes, às terças-feiras, à tarde (horário disponibilizado pela direção da Murilo Mendes), reunindo na mesma sala de aula estudantes da UFJF e da referida escola. O acréscimo no tempo destinado à disciplina foi muito importante, pois permitiu expandir os limites de atuação, ocupando praticamente uma tarde inteira e facilitando o deslocamento dos discentes da UFJF para a escola pública, sem concorrer tanto com o horário de outras disciplinas.

 

Antes de a turma do segundo semestre letivo de 2018 começar a frequentar as dependências da escola pública, o primeiro mês de aulas da oficina foi realizado na própria Faculdade de Letras da UFJF. Esse período é considerado preparatório para a inserção no campo de atividades. E muitos aspectos foram negociados no sentido de persuadir os discentes da UFJF a terem aulas longe da instituição. Tais aspectos diziam respeito à perspectiva de atuar em comunidades que enfrentam graves problemas sociais, bem como as dificuldades práticas de deslocamento físico e de dinheiro para tomar conduções. A título de informação, usualmente a UFJF destina a docentes e discentes apoio e condições de transporte para eventos e excursões para outras cidades, mas não necessariamente para deslocamentos internos ao município. A instituição conta ainda com um seguro de acidentes pessoais para seus discentes em atividades dentro e fora da instituição. Assim, boa parte das vezes, no caso da oficina, docente e discentes se cotizam para organizar juntos o deslocamento, por meio de carona solidária e compartilhamento de transporte público.

 

Festa de encerramento das atividades do segundo semestre de 2018

Comemoração de encerramento das atividades do segundo semestre de 2018

Nesse momento preliminar das atividades da oficina, o trabalho de convencimento dos estudantes para aderir à proposta da disciplina é extremamente importante, porque enfrenta o que subjaz às tentativas de rompimento de fronteiras concretas e abstratas da instituição. O caminho inicial da oficina é o de se fazer uma primeira visita sem o compromisso de mantermos o trabalho nas dependências da escola pública. Não é que todas as expectativas caem por terra logo no primeiro dia de visita, quando equipe pedagógica e discentes da Murilo Mendes nos recebem? O acolhimento excepcional é bastante para que os próprios universitários afirmem em seus relatórios finais que não há necessidade de manter o primeiro mês de aulas nas dependências da UFJF, mas na própria escola pública. Contudo, mesmo assim, a prática de manter a oficina nas dependências da FALE, durante as semanas iniciais, é preservada em nome do tempo de reflexão sobre o deslocamento físico e simbólico.

 

A proposta de trabalho destinada à turma de estudantes da UFJF para o segundo semestre letivo de 2018, na Escola Municipal Murilo Mendes, encampou o objetivo de promover ações de leitura e produção de textos teatrais. Das atividades envolvendo discentes da universidade e da escola pública, fizeram semanalmente parte a leitura e interpretação de textos teatrais com o propósito de se estudarem sua estrutura e sistematização, com vistas à posterior produção textual de uma peça de teatro. Um dos aspectos mais marcantes nessa fase de estudo sobre o gênero texto teatral é como ele se estrutura linguística e literariamente. Observou-se como característica central o fato de que, quando um personagem fala, os outros participantes da leitura ou da cena devem ativamente escutá-lo para que o ato de escuta, sendo bem realizado, crie condições de interpretação adequadas a fim de que a fala subsequente de outro personagem seja produzida em conformidade com as intenções interpretativas que se pretende veicular.

 

Assim, o ensino-aprendizagem das habilidades comunicativas orais é reiteradamente exercitado até que se consiga estabelecer condições mínimas entre os atos de falar e escutar. E não é esse o exercício que se almeja em sala de aula para o estabelecimento da atenção conjunta? Então, quando o caos se instala em sala de aula, com muitas sobreposições de falas de docentes e discentes, é sinal de que alguma atividade deva ser proposta para se tentar dar conta da sistemática de trabalho em prol do engajamento simbólico no tema da aula. O texto teatral é oportuno nesse sentido, porque, além de exercitar fala e escuta, contribui para equilibrar as necessidades de protagonismo de professores e alunas(os). Se os discentes falam muito, parecem clamar pela vez de fala e para fazer valer seu lugar de fala. Então passar a palavra a eles, propondo-lhes o protagonismo supervisionado, faz com que se desloquem da informalidade e do descomprometimento da fala privada para a fala pública, comprometida e engajada com propósitos coletivos.

 

Uma das estratégias adotadas ao longo da oficina, já deslocada para o espaço da escola pública, foi a de, inicialmente, atribuir aos discentes de Educação Básica mais participativos as personagens do texto com maior número de falas. Se alguns gostam de tomar a palavra, que a passem tomar em prol do trabalho coletivo. Em contrapartida, aos mais tímidos, destinavam-se, a princípio, as personagens com menor número de falas, em respeito ao tempo de superação de obstáculos de cada um. Aos poucos, essa estratégia se invertia, obtendo-se maior equilíbrio na distribuição de falas. Essa inversão vai, aos poucos, sendo negociada à medida que os desafios de se ler em voz alta e em público vão se tornando mais reiterados e naturalizados. Há muitos ganhos com o uso de textos teatrais em sala de aula, seja como texto ou até mesmo pretexto para se trabalharem conteúdos, relações interpessoais e negociar sentidos, enfim, para se trabalhar a dimensão crítica da formação cidadã.

 

Apontamentos para a produção da esquete teatral, coletivamente criada pelos discentes da Murilo, "O Enigma do Rubi"

Apontamentos para a produção da esquete teatral, coletivamente criada pelos discentes da Murilo, “O Enigma do Rubi”

Na verdade, um passo pressupõe outro e mais outro. A lida cotidiana com a leitura de textos teatrais acaba consequentemente por fundamentar o trabalho com a produção de textos teatrais, que prestigie e valorize o linguajar de quem almeja sempre ocupar o turno de fala. Desse modo, a turma de discentes da UFJF, do segundo semestre letivo de 2018, supervisionou a produção de outra esquete teatral produzida por discentes da Escola Municipal Murilo Mendes: “O Enigma do Rubi”, uma história de suspense escrita a partir de narrativas cotidianas trazidas de casa pelos discentes da escola pública. Quando o trabalho de revisão final do texto se deu por concluído, a peça foi apresentada na própria escola, coroando a festa de encerramento de atividades daquele semestre. Assim, as vozes dos discentes estavam contempladas, e o processo de engajamento ao ensino-aprendizagem, um pouco mais garantido.

 

Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo professor da oficina, bem como pelos discentes da UFJF, naquele semestre, foi a questão do bullying, a conhecida “zoação”, que, quando levada aos limites máximos, pode representar prejuízos subjetivos dificilmente contornáveis. Um caso nos chamou atenção sobremaneira, mas relatá-lo em detalhes aqui comprometeria eticamente os partícipes da situação. Mas o que se pode genericamente dizer é que alunos e alunas calados, por múltiplas razões, passam a se autorizar a falar de modo mais fluido e comprometido, assim que o trabalho com texto teatral vai paulatinamente ganhando corpo. Observa-se, então, uma crescente politização de suas subjetividades. Já os que têm por hábito sempre participar começam a exercitar um pouco mais a escuta. Muita energia é dispendida para que se obtenham avanços mínimos, considerados, por nós, grandiosos ao longo da jornada.

 

Já no primeiro semestre de 2019, novos discentes da Faculdade de Letras se matricularam na Oficina XIII: Estudos Linguísticos – LEC22 (Teatro na Escola), ao passo que os da Murilo praticamente permaneciam os mesmos ao longo dos semestres da oficina. Repetiu-se o rito inicial de discussão na UFJF, sobre os propósitos da disciplina, bem como a visita inicial de acolhimento por parte da equipe pedagógica e dos discentes na escola pública. Outra estratégia já anteriormente adotada foi a de que os universitários seriam sorteados como monitores dos estudantes da Murilo Mendes, pactuando-se assim um acompanhamento personalizado durante todo o semestre. A turma da UFJF sempre se sentava em meio à da Murilo, sem separação de cadeiras e mesas. Todos ocupavam lugares não repetidos, havendo discentes da UFJF sempre fisicamente ao lado dos da Murilo, o que ainda ocorre. Isso funciona bem no sentido de equilibrar as expectativas de assimetria. Aproxima os universitários aos discentes da escola pública, ao mesmo tempo que reciprocamente propicia um pouco mais de comprometimento com as tarefas propostas.

 

Prof. Luiz Fernando (à esquerda) com a turma de discentes da Murilo e da UFJF, primeiro semestre de 2019

Prof. Luiz Fernando (à esquerda) com a turma de discentes da Murilo e da UFJF, primeiro semestre de 2019

À turma de graduandos da FALE, no primeiro semestre letivo de 2019, coube a tarefa de trabalhar a partir de um diagnóstico não diretamente proposto pela equipe pedagógica da escola, mas levantado por nós mesmos, com a experiência do segundo semestre letivo de 2018. Precisávamos efetivamente lidar com a questão do bullying. Demos início ao semestre, discutindo textos sobre a temática e elegemos como peça teatral a ser trabalhada “A Aurora da Minha Vida”, de Naum Alves de Souza. Como diz o texto de apresentação sobre a peça por nós encenada ao final de 2019: “escrita em 1981, a comédia ‘A Aurora da Minha Vida’, de Naum Alves de Souza, situa-se em uma sala de aula da década de 1970, em plena ditadura militar. Ilustrativa das mazelas, dos desmandos e do autoritarismo de uma escola cujo “partido” é, contraditoriamente, a pátria, a peça é atravessada pelo humor fino e ao mesmo tempo sarcástico quando denuncia o racismo, o bullying, a lgbtfobia, a gordofobia, o autoritarismo militar, o manicomialismo, a delação e diversos tipos de preconceito, como os de natureza social, religiosa e linguística”.

 

Assim, as atividades da oficina no primeiro semestre letivo de 2019 concentraram-se na leitura e na interpretação do texto da referida peça teatral, bem como em estudos sobre temáticas denunciadas por ela, como os aspectos listados acima. O desafio maior nesse momento foi o de fazer os alunos e as alunas da Murilo entenderem que os bullyings presentes no texto da própria peça, de professor para aluno, de professor para professor, de aluno para professor e de aluno para aluno, como recursos de comédia, estavam sendo usados irônica e sarcasticamente pelo autor para criticar as mazelas de um ensino calcado no autoritarismo. Esse tipo de compreensão exigiu amadurecimento. Não é possível garantir plenamente que conseguimos chegar a cem por cento nesse ponto, mas testemunhamos muitas vezes estudantes da Murilo indignados com momentos da peça de Naum: o comportamento discriminatório e segregador da professora de inglês, a violência simbólica do diretor ao demitir uma professora diante da turma, simplesmente porque ela estava ensaiando o hino nacional a quatro vozes, etc.

 

A necessidade de dar sequência ao trabalho já no segundo semestre letivo de 2019 tem a ver com outra discussão contemporânea importantíssima relacionada à pedagogia do ensino e da aprendizagem: a ancoragem do conhecimento que se ensina na escola com o cotidiano de vida dos alunos, com seu linguajar, na promoção efetiva do binômio teoria e prática. A energia acumulada com todo o estudo promovido a partir da peça de Naum Alves de Souza, no primeiro semestre de 2019, deveria ser canalizada em forma de apresentação de um espetáculo. Dar maior visibilidade ao trabalho, como elemento motivador, é dar sentido concreto ao estudo, como compensação dos esforços empregados, possibilitando uma noção maior de compromisso e engajamento para todos os envolvidos. Sendo assim, no início do segundo semestre letivo de 2019, o Prof. Luiz Fernando se reuniu com os discentes da Murilo realmente dispostos a ensaiar a peça de Naum ao longo de todo o semestre, com o propósito de se realizar uma apresentação ao final de 2019, nas dependências da Faculdade de Letras, da UFJF. Isso foi motivo de grande euforia para os discentes da Murilo. Então, decidiu-se que apenas aqueles que se comprometessem com o projeto iriam continuar a frequentar as atividades da oficina, as quais seriam monitoradas pelos novos discentes da UFJF que estavam por se matricular na disciplina. Por fim, firmou-se o grupo da Murilo.

 

Ensaio da peça "A Aurora da Minha Vida", de Naun Alves de Souza, na biblioteca da Escola Municipal Murilo Mendes

Ensaio da peça “A Aurora da Minha Vida”, de Naun Alves de Souza, na biblioteca da Escola Municipal Murilo Mendes

Nas aulas iniciais da oficina para os discentes novos da UFJF, no primeiro semestre de 2019, ainda nas dependências da Faculdade de Letras, foram-lhes apresentados os objetivos da oficina e o texto de Naum Alves de Souza, já trabalhado anteriormente com os discentes da Murilo. A primeira leitura coletiva dos estudantes da FALE foi tão empolgante e tão bem executada que se optou por dividir a execução da peça em dois atos: o primeiro, que diz respeito ao jardim de infância, seria interpretado pelos discentes da Murilo Mendes; já o segundo ficaria a cargo dos estudantes da UFJF e interessantemente por uma professora da Murilo Mendes, Sandra Almeida, que é também atriz e se tornou entusiasta do projeto e da montagem. Como a peça é muito longa, promoveram-se cortes e adaptações. Para ambientar os discentes da Murilo, por duas vezes, nós os levamos à UFJF para conhecer o prédio da Faculdade de Letras e a praça cívica da instituição. Realizamos ensaios na universidade e chegamos a ouvir de muitos deles: “ainda vou estudar aqui”.

 

O trabalho poderia já ser considerado praticamente concluído, em certa medida, a partir de produções de fala como essa. Afinal, a aproximação física dos discentes da escola pública com a universidade pareceu já marcar uma processo de aproximação abstrata e simbólica. Mas, é claro, o compromisso com a apresentação foi mantido. No dia 19 de novembro de 2019, às 17h, no auditório da Faculdade de Letras, a comédia “A Aurora da Minha Vida”, de Naum Alves de Souza, foi encenada de forma mesclada – encenação e teatro lido. Com a divulgação nos portais da UFJF , da Prefeitura de Juiz de Fora, no Instagram @teatronaescola2019, em murais da Faculdade de Letras da UFJF, WhatsApp e boca-a-boca, discentes e docentes atores coroaram um ano e meio de trabalho com uma apresentação emocionante, diante de uma plateia receptiva, risonha e participativa.

 

Certamente, as linhas gerais desse breve histórico não dão conta de retratar todos os aspectos envolvidos ao longo desses três semestres de trabalho, porém uma certeza se consolidou. A princípio, as expectativas de representantes da universidade, como docentes e discentes, ao se deslocarem fisicamente, de modo regular e sistemático (ou não), para a escola pública, vinculam-se a objetivos intervencionistas nas situações, às vezes precárias, da Educação Básica. Por outro lado, o que a oficina Teatro na Escola tem testemunhado é também o inverso disso. É o “interventor” que passa a ser intervindo, estabelecendo-se aí uma via de mão dupla no quem aprende com quem. A transformação se dá de ambos os lados, é mútua, é recíproca. Metonimicamente falando, a universidade intervém e sofre intervenção da escola pública. O testemunho dos discentes da UFJF, em vídeo ou textual, explicita isso, como se verifica nas abas correspondentes a vídeos, fotos e depoimentos. A máxima de levar cultura às comunidades carentes é uma falácia, à medida que quem acha que a leva volta com a bagagem bem mais abarrotada de lições, questões, motivações e ideias para projetos futuros do que quando iniciou a intervenção. O deslocar físico para a comunidade é, sem dúvida, um deslocar simbólico.

Final da apresentação da peça "A Aurora da Minha Vida", de Naum Alves de Souza, no auditório da FALE/UFJF, em novembro de 2019

Final da apresentação da peça “A Aurora da Minha Vida”, de Naum Alves de Souza, no auditório da FALE/UFJF, em novembro de 2019

 

Certamente, mais parágrafos dessa história serão adicionados aqui no futuro. Este site, como já se afirmou, é um livro em constante escrita. Por ora, podemos encerrar com uma provocação que fará com que nos movamos em outras direções: no teatro da escola, quem seria o ator protagonista, quem seria o coadjuvante: professor ou aluno? Presumimos, de antemão, que a resposta não deveria enquadrar apenas o “quem” da questão, mas o “quando”, que diz respeito à maior e melhor distribuição do tempo do turno de fala almejado por todas e todos no espaço escolar. Que sejamos capazes de organizar e equilibrar democraticamente os desejos e as reivindicações de docentes e discentes de protagonizar na cena teatral da aula, fomentando a emergência de sujeitos coletivos, políticos e cidadãos, na vida cotidiana.

Há muita escuta por se fazer ainda!

 

Luiz Fernando Matos Rocha

17 de abril de 2020