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Manifesto por uma Educação Tecnológica para a Universidade Federal de Juiz de Fora

NETEC – Núcleo de Estudos e Projetos em Educação e Tecnologia
Faculdade de Engenharia – Universidade Federal de Juiz de Fora – Janeiro de 2006

É comum dentro do universo técnico entender a tecnologia a partir da solução de problemas, sendo estes na maior parte de domínio específico ou especializado. O que até agora não foi equacionado dentro desta perspectiva é a origem do conceito de problema. A Educação Tecnológica tem prestado pouca atenção ao fato de que a noção de solução de problemas se baseia no entendimento de outro conceito de extrema relevância que é a “problematização”.

Da mesma forma que na filosofia durante séculos apresentou-se a razão como o início do pensamento ocidental, hoje opera um movimento libertário que questiona esta premissa, inclusive alegando a omissão da sofística como parte da filosofia, desde que ela própria, a sofística, possui um corpo de conhecimentos e técnicas, das quais surgiram muitos dos elementos questionadores fundamentais para o nascimento da filosofia.

Problematizar é a tarefa fundamental da tecnologia. Problematizar exige estar aberto para a realidade em todas as suas formas e dimensões, mas principalmente, estar aberto para a dimensão temporal. E quando se fala de estar aberto, está se revelando um entendimento temporal do ser, que é estar aberto ao movimento da vida que como tal não se contenta com previsões, senão que se constrói no eterno mudar no qual a vida nos envolve.

Mas de que forma é que o ser pode estar aberto para aquilo que ainda não acontece? Em primeiro lugar, estar aberto significa estar disposto de forma autêntica, sem ter como objetivo final a universalidade do método científico que sufoca a diferença, matriz essencial da vida.

Dizer que a tecnologia tem como base o método científico é negar a origem da técnica, que se fundamenta numa intuição questionadora da qual surge o primeiro entendimento das condições que possibilitam o seu objeto. O objeto da tecnologia deve ser intuído e o caminho da intuição não passa pelo método científico. Somente as condições de realização desse objeto podem ser submetidas ao método científico, enfatizando assim o logos da tecnologia, mas a origem da tecnologia não tem condições de ser descrita em termos universais, porque é baseada muito mais no intuir do que do raciocinar, o que resgata o sentido de techné da tecnologia. De fato, antes de a técnica ganhar um discurso, o homo faber já fazia as coisas sem fundamento científico algum. A ciência é uma invenção relativamente recente em relação ao fazer do homem.

Sendo assim, uma educação tecnológica deve saber resgatar esta dimensão criadora como o fundamento do seu fazer. O problematizar, então, desloca completamente as funções da estrutura educacional que há séculos nos impõe esta perspectiva restrita que nos leva cada dia a depender mais dos que produzem os problemas, sabidamente, os donos dos caminhos do desenvolvimento tecnológico. Por isso que é necessária uma abertura ao mundo e à vida: é necessário entender a vida a partir da nossa própria perspectiva, de modo a identificar o que nos pertence e o que nos foi legado das mais sutis formas. Ser autônomo requer ser autêntico, e autenticidade se obtém com um profundo trabalho do ser na busca do sentido das coisas, não na cômoda postura de aceitar sem questionamento como o mundo é apresentado.

Por este motivo uma Educação Tecnológica tem muito mais a contribuir se orientada por questões sociais do que por questões científicas. Com isto, é claro que a educação tecnológica deve-se preocupar mais dos desdobramentos políticos e sociais do apreender a tecnologia do que das formas de adequação dos atores sociais a uma lógica de desenvolvimento aparentemente neutra e objetiva. A Educação Tecnológica deve ser emancipadora se ela se pretende um motor de transformações sociais através do uso da tecnologia, pois do contrário ela servirá para manter a estrutura de dependência que caracteriza nossa sociedade em vias de desenvolvimento.

A Educação Tecnológica que se defende aqui é aberta à vida e por isto é que ela deve ser sempre refletida temporalmente, quer dizer, ela é um movimento, um fluxo que visa sua constante modificação: um caminhar decidido por seus atores. Por isto é que não é uma definição nem uma busca do status de verdade. A Educação Tecnológica busca um engajamento: atitudes e valores que se traduzam em ações concretas de transformação social. Daí que ela não se ergue a partir do método científico, senão que propõe seu próprio método:

Com estes elementos diretores acreditamos ser possível educar para a tecnologia de modo a nos apropriarmos de todas as dimensões que ela possui e não somente daquelas que nos foi permitido conhecer.

Documento fundacional do NETEC, da autoria dos seus fundadores: Prof. José Antonio Aravena Reyes Prof. Mauricio Leonardo Aguilar Molina e Prof. Waldyr Azevedo Junior.