UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Antes das Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa

Data: 29 de fevereiro de 2012

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Resenha. Antes das Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2011, 96 páginas. Introdução de Mia Couto. Fotos, ilustrações. ISBN: 978.85.209.2622-2

 

Em 2008, Braulio Tavares publicou o livro A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (Editora Marca de Fantasia), com ensaios que abordam a fantasia e o fantástico em fases diversas da carreira de João Guimarães Rosa (1908-1967), o canônico autor do Grande Romance Brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956).

 

Um interesse especial foi reivindicado pelo ensaio que dá título a esse ótimo livro de Tavares, “A Pulp Fiction de João Guimarães Rosa”, publicado em 1998 no agora extinto “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde. O texto dava conta de quatro narrativas que Rosa publicou em 1929 e 1930 (quando ainda era estudante de medicina). Essas histórias apareceram na revista O Cruzeiro e em O Jornal, todas muito distintas do que seria a tônica da carreira do autor mineiro, a partir dos livros de contos Sagarana (1946), Corpo de Baile (1956) e Primeiras Estórias (1962), além do seu consagrado romance. Na fase conhecida e consagrada do autor, imperavam a mistura do regionalismo com uma inventividade estilística que impressionou os críticos, fazendo com que fosse apontado como um autor de vanguarda e nome central no pós-modernismo brasileiro.

 

A revelação de Tavares – que pode bem ter sido anunciada antes por outros observadores literários – tornou a publicação deste Antes das Primeiras Estórias simultaneamente aguardada e frustrante, pelo tempo que o livro demorou para surgir. É o terceiro livro de contos de publicação póstuma de Rosa, seguindo a Estas Estórias e Ave, Palavra, ambos de 1969. Este, porém, é especialmente interessante para o leitor e pesquisador do campo da literatura popular, por todas as questões que incorpora, raramente levantadas no ambiente literário brasileiro.

 

O primeiro conto é “O Mistério de Highmore Hill”, publicado em O Cruzeiro em 7 de dezembro de 1929. Essa importante revista que durou de 1928 a 1975, e o conto foi ilustrado pelo “Professor” Carlos Chamberlland – que assina as ilustrações de três das quatro histórias reunidas no livro.

O Cruzeiro foi uma espécie de revista de assunto gerais que publicava ficção, provavelmente muito próxima do que eram as sofisticadas revistas slick americanas do mesmo período: The Atlantic, Esquire, The New Yorker e Saturday Evening Post. No extremo oposto dessas publicações, estavam as pulp magazines, a maior parte dedicada exclusivamente à ficção, e a uma ficção voltada para o sensacional, o extraordinário e a aventura, em gêneros como o western, a ficção de detetive, a ficção científica, o mistério e o horror.

 

Mas havia uma comunicação entre os dois campos, um mais respeitável, o outro mais popular, e muitos autores pulp falavam em se exercitar nas revistas populares até se “graduarem” para as slicks, provavelmente mantendo os seus gêneros de interesse, mas com maior atenção para o estilo e a psicologia dos personagens.[1]

 

No Brasil, começa em 1934 um ciclo das chamadas “revistas de emoção”, a versão local das general pulp magazines (vários gêneros), segundo a pesquisa original do Prof. Athos Eichler Cardoso, da Universidade de Brasília.[2] Mas os gêneros e o enfoque “emocionante” já circulavam em outras publicações, revistas e livros, lançadas anteriormente, no século XIX ou nas primeiras décadas do XX. Essa tradição latente de literatura popular ou de gênero forma a base da inspiração de Rosa para os textos de Antes das Primeiras Estórias.

 

Abre o livro “O Mistério de Highmore Hill”, narrativa gótica ambientada num ruinoso castelo escocês, onde o médico Angus Dumraid vai passar alguns dias para atender a Sir John Highmore, que vive em grande depressão depois que sua esposa, Anne, fugiu com um rapaz vizinho. Mas durante sua estada no castelo, Dumraid testemunha o ressurgimento de fatos do passado de Highmore, que vêm assombrá-lo.

 

O fantástico surge do grotesco e da atmosfera gótica de simultânea decadência física da propriedade, e da moral do seu senhor. A narrativa é direta e vigorosa e se casa perfeitamente com histórias semelhantes produzidas na Europa, da segunda metade do século XIX até aquele ponto, exceto talvez por certa brevidade. A linguagem é evocativa e admite apenas pequenas contorções de estilo, pare reforço do efeito do sombrio, como no exemplo: “À luz dos relâmpagos ele negrajava como mancha enorme de nanquim, e delineava-se palidamente nos intervalos de escuridade.” (Rosa 29)

 

O conto transmite um afã e uma paixão de aficionado, em realizar aquilo que os mestres europeus praticavam. O mesmo se dá com “Chronos Kai Anagte” (O Cruzeiro N.º 85, de 21 de junho de 1930), conto ambientado em um torneio internacional de xadrez em que o Tempo e a Fatalidade tomam forma humana para favorecer o jovem ucraniano Zviazline. Em clima de pesadelo, essa narrativa alegórica transmite o gosto pelo grotesco nas descrições dos personagens: “viu na sua frente uma figura estranha de grifo, que relembrava os retratos de Satanás (…).” (Rosa 58)

 

Já “Caçadores de Camurças” – este ilustrado pelo “Professor” H. Cavalleiro – soa como uma narrativa de E. T. A. Hoffmann (1776-1822), Frederick Marryat (1792-1848) ou de Guy de Maupassant (1850-1893), sobre dois amigos que disputam a mesma mulher. Ela promete se entregar àquele que caçar uma famosa camurça das montanhas, estabelecendo o terreno para uma disputa de vida e morte. O conto inquieta pelo estranho da premissa e pelo jogo moral de desejo, violência e arrependimento que se costura com o enredo. O estilo, por sua vez, é mais objetivo e cede à ambientação (aos trechos descritivos) a maior eloqüência e os efeitos mais sugestivos.

 

Em nenhum dos contos do livro, fica mais evidente o embrião daquela elaboração léxica que o Guimarães Rosa do futuro transformaria em sua marca registrada, do que em “Makiné”, publicado primeiro no suplemento dominical d’O Jornal, de 9 de fevereiro de 1920. É a única história – ou “estória”, conforme Rosa preferia – ambientada no Brasil. A ambientação sugere um elo importante entre essa fase inicial da carreira de Rosa, com sua fase regionalista/experimental.

 

Trata-se de um Brasil pré-cabralino, visitado por Kartpheq, um astrólogo fenício que aqui aporta com todo um séquito de egípcios, etíopes e outros povos da África e Ásia que já freqüentariam o nosso território muito antes da chegada dos portugueses. O enredo narra a chegada, apresenta um discurso de Kartpheq aos seus acólitos, seguido do sacrifício de uma criança tupinambá e a subseqüente revolta dos índios contra os invasores. A história pode facilmente ser lida como espada e feitiçaria ou como weird fiction,[3] e sua proposta, excetuando o estilo, não está longe do projeto de Christopher Kastensmidt na sua série A Bandeira do Elefante e da Arara.[4]

 

Além do enfoque da visita anterior a 1500, que tem sido objeto de um sem-número de especulações históricas e místicas – sobre vikings, celtas, egípcios, japoneses, chineses e cretenses que teriam visitado o Brasil e a América do Sul antes da descoberta histórica do continente ­–, “Makiné” agrega o mito nativo de “Sumé”, primeiro relatado pelo Padre Manuel da Nóbrega em 1549, que o interpretou como a vinda, antes dos descobridores europeus, de São Tomé em missão civilizadora junto aos índios.[5]

 

Em “Makiné”, Sumé é “Summér, o arquimago, [que] quis também ficar aqui sozinho, quando da nossa primeira viagem, e nunca mais se teve notícia dele!” (Rosa 39) e “o ‘Sumé’ dos vermelhos” (49). Dessa forma, na interpretação ficcional de Rosa, Sumé é um outro mago fenício que já havia aportado antes no Brasil, e que, segundo Kartpheq, teria sido “um visionário, que tratava como iguais os homens tupinambás” (39). Kartpheq, porém, trata mal os indígenas e está nas terras deles para recuperar uma fortuna em diamantes guardados por Summér na gruta de Mag-Kinnér, chamada de Makiné pelos tupinambás, que, no conto, podem ser descendentes dos lemurianos – o que pode remeter a ficção de Rosa às especulações teosofistas de Helena Blavatsky (1831-1891), uma influência muito comum sobre os primeiros escritores de weird fiction como Lord Dunsany (1878-1957), Robert E. Howard (1906-1936) e H. P. Lovecraft (1890-1937).

 

Também em “Makiné” se tem uma prosa mais elaborada, sugerindo na ambientação brasileira dessa narrativa um embrião da sua futura exploração inventiva do regionalismo. Tavares a chamou de “peculiaríssima interpretação do regionalismo que começa a brotar no autor”.[6] O parágrafo de abertura já o sugere: “Karthpheq, o astrólogo, assomou à boca da gruta e arrastou o olhar pelo campo que se declinava a seus pés. Contemplou as tendas trapezoidais de peles de texugo e linho colorido do arraial fenício, onde se movimentavam homens e animais nos últimos preparos da partida, em azáfama zumbidora de colmeal, e, mais além, na orilha do bosque, a a taba dos tupinambás amigos, mastreada de lanças compridas, cujos enfeites de penas multicores se agitavam à bafagem da brisa. E o viridário vegetal, aquarelado com todas as nuances de folhagem, desde as tintas chlorineas dos sarçais e relvados até o verde-fundo de pântano das frondes rupestres, esmeraldejava numa orgia de seiva, rodeando e invadindo os dois acampamentos.” (Rosa 35-36)

 

Já o seguinte trecho descritivo soa mais exótico e fantástico: “Estavam ali Narr-Baal de Tyro, valido do rei Hiram e chefe da expedição, trajando manto de seda púrpura, com o cinto e o turbante emperlados de jaspes, cravejados de esmeraldas e jacintos e granidos de gemas sardônicas; Quaimph de Sidon, de cujas relhas penduravam-se grossos brincos de ouro, em forma de carangueijos; Han-Dagon de Kitim, cujo pescoço esguio se ocultava nas contas de âmbar de um imenso colar; Kisdab e Bakbakkar, agentes hebreus do rei Salomão, vestido de túnicas azuis com lavores e colchetes dourados.” (38)

 

Em seu livro, Braulio Tavares se apressa em declarar: “Não afirmo que Rosa conhecia as obras [de certos autores pulp], mas sim que todos eles respiravam, na época, a mesma atmosfera.”[7] Mas a hipótese de que Rosa tivesse tido contato com a literatura popular de fantasia não deve ser descartada. Na Revista do Livro Nº. 45 (2002), da Fundação Biblioteca Nacional, Agnes, uma das filhas de Rosa, informa que ele recomendava autores de aventura como Rudyard Kipling (1865-1936) e Joseph Conrad (1857-1924), e que foi leitor da Ellery Queen Mystery Magazine.[8] A crônica literária também dá testemunho de que ele conhecia a ficção científica (refiro-me ao ensaio de Fausto Cunha, “Ficção Científica no Brasil”).[9] Inclusive, seu conto “Um Moço Muito Branco”, presente em Primeira Estórias (1962), trata de um alienígena sinistrado na Terra.

 

Contos de Machado de Assis (1839-1908), Afonso Schmidt (1890-1964) e Lima Barreto (1881-1922) publicados nas antologias Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, organizadas por mim para a Devir, dão testemunho de que autores importantes do mainstream literário brasileiro escreveram essa forma de literatura popular. Sabe-se que Patrícia “Pagu” Galvão (1910-1962) e Nelson Rodrigues (1912-1980) também escreveram ficção pulp sob pseudônimo para as revistas de emoção. Em busca de dinheiro, de leitores, ou apenas do diálogo literário com gêneros e idéias que circulavam na sua época, esses e outros grandes nomes deram sua contribuição a uma literatura popular nacional que permanece em grande parte não-mapeada.

Antes das Primeiras Estórias não é uma antologia crítica: não contextualiza bem nem a escrita nem as publicações originais dessas histórias, trabalho que foi melhor realizado por Braulio Tavares em A Pulp Fiction de João Guimarães Rosa. A curta introdução do renomado escritor moçambicano Mia Couto discorre apenas sobre a evolução do estilo de Rosa, e há trechos de “Makiné” ilegíveis, porque a cópia de O Jornal consultada estava degradada. (Supõe-se que todos estes anos decorridos desde o artigo de Braulio Tavares não significaram uma pesquisa maior junto a outras fontes, bibliotecas, colecionadores, etc.)

 

Enfim, juntamente com a introdução laudatória de Couto, uma foto de Rosa na página 94, vestindo o fardão da Academia Brasileira de Letras em 1967, deixa claro que este é um livro que se integrará à mítica de Guimarães Rosa apenas como curiosidade editorial. O seu potencial revolucionário é provavelmente maior para o leitor e o pesquisador de ficção de gênero brasileira, que tem em mãos um volume precioso que nos leva a um outro tempo, a outras circunstâncias e que nos fala de outras influências literárias.

 

“O fantástico foi a primeira opção literária de Guimarães Rosa”, Tavares escreveu. “Houvesse naquele momento uma tendência geral favorável na literatura brasileira, e Rosa possivelmente teria prosseguido nesse caminho.”[10]

 

 

Notas:

 

 


[1] Depoimentos sobre essa “graduação” podem ser encontrados em Pulp Fictioneers: Adventures in the Storytelling Business, John Locke, ed. Silver Spring, MD: Adventure House, 2004.

[2] Cardoso, Athos Eichler. “As Revistas de Emoção no Brasil (1934-1949): O Último Lance da Invasão Cultural Americana.” Disponível em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-1833-2.pdf

[3] Clute, John. “Weird Fiction.” The Encyclopedia of Fantasy . Eds. John Clube & John Grant. Nova York: St. Martin’s Press, 1997): “Termo frouxamente empregado para descrever histórias de FANTASIA, FICÇÃO SOBRENATURAL e HORROR [sic] que incorporem material transgressivo: histórias onde os motivos do ESGARÇAMENTO [thinning] e do SINISTRO [uncanny ou “o estranho”] predominam, e onde assuntos como OCULTISMO ou SATANISMO [sic] podem ser centrais, e onde DOPPELGÄNGERS [sic] abundam. A revista WEIRD TALES [sic] é rica em [weird fiction]. (…)” (p. 1000)

[4] Veja o site de Kastensmidt em http://www.eamb.org/brasil/

[5] Sobre Sumé, veja Câmara Cascudo. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 4.ª edição, 2001, pp. 647-48.

[6] Tavares, Braulio. A Pulp Fiction de Guimarães Rosa. João Pessoa, PB: Marca de Fantasia, 2008, p. 16.

[7] Tavares, Braulio. A Pulp Fiction de Guimarães Rosa. P. 20.

[8] Rosa, Agnes Guimarães. “Lembranças do ‘João Papai Beleza’.”  Revista do Livro da Fundação Biblioteca Nacional N.º 45, Ano 14 (outubro 2002), p. 14. Na apresentação, o autor anônimo da entrevista afirma: “Passa-se a saber, [pelas lembranças de Agnes], que em matéria de literatura Guimarães Rosa fazia concessões ao gosto popular. Com o mesmo interesse com que lia os clássicos, divertia-se com as histórias do Mistério Magazine de Ellery Queen, revista de grande aceitação, publicada pela antiga Editora Globo, que circulou no Brasil nos anos 1950/60.” (9) A revista era versão de um título norte-americano, e chegou ao Brasil em 1949.

[9] Cunha, Fausto. “Ficção Científica no Brasil: Um Planeta Quase Desabitado”. ALLEN, L. David. No Mundo da Ficção Científica (Science Fiction Reader’s Guide). São Paulo: Summus Editorial, s.d., p. 10.

[10] TAVARES, Braulio. A Pulp Fiction de Guimarães Rosa. P. 26.

Laboratório de Estudos em Ficção Científica Audiovisual