UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Abordagem geral das intoxicações

Você está em: Projeto de Extensão > Sistema cardiovascular > Abordagem geral das intoxicações

 

Quatorze pacientes intoxicados com dietilenoglicol continuam internados em estado grave, com risco de morte, informou a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), durante a entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira (7). Segundo a pasta, todos eles ingeriram a cerveja produzida pela Backer.

Até então chamada de síndrome nefroneural pelas autoridades de saúde, os casos passam a ser denominados, a partir de agora, de intoxicação por dietilenoglicol. A denominação de “síndrome”, segundo a secretaria, era porque não se sabia o que estaria provocando quadros de insuficiência renal e alterações neurológicas nos pacientes.

Segundo o Subsecretário de Estado de Saúde Felipe Laguardia, já são 18 casos notificados Quatro pessoas morreram. Os casos surgiram possivelmente após a ingestão de dietilenoglicol, substância tóxica que foi encontrada nas cervejas, nos tanques e na água para produção das bebidas da Backer.

(Fonte: G1 – 17/01/2020)

O termo intoxicação designa um processo patológico, causado por substâncias endógenas ou exógenas, caracterizado por desequilíbrio fisiológico consequente de alterações bioquímicas no organismo. O processo é evidenciado por sinais e sintomas, assim como dados laboratoriais. A quantidade capaz de gerar uma intoxicação varia de acordo com a substância envolvida. Abordaremos aqui a conduta geral na prática clínica frente a uma suspeita de intoxicação.

Entre os mais de 12 milhões de produtos químicos conhecidos, menos de 3.000 causam a maioria das intoxicações acidentais ou premeditadas. Contudo , praticamente qualquer substância ingerida em grande quantidade pode ser tóxica. As fontes mais conhecidas incluem drogas, produtos agrícolas, plantas, produtos químicos industriais e substâncias alimentícias. A identificação do produto tóxico e a avaliação exata do perigo envolvido são fundamentais para um tratamento eficaz.

Apesar de uma infinidade de substâncias serem potencialmente danosas ao organismo, a abordagem do paciente em um momento inicial é a mesma. Visa-se a sua estabilização clínica, para depois prosseguir com a investigação sobre a etiologia específica do causador do agravo.

Ao se deparar com um paciente vítima de suposta intoxicação, a prioridade é garantir que as vias aéreas estejam pérvias (o que é dificultado caso haja diminuição do nível de consciência e o paciente não seja capaz de respirar, por exemplo) e a circulação sanguínea estabilizada. A pressão arterial do paciente deve ser monitorada e mantida através da infusão de solução cristaloide em acessos venosos periféricos.

Após essa estabilização inicial, passa-se para a fase de descontaminação, na qual tenta-se diminuir a absorção daquela substância ingerida ou que tenha entrado em contato com a pele do paciente. Para isso, existem diversos métodos de desintoxicação cuja aplicação é individualizada e de acordo com a suspeita inicial e o tempo decorrido desde o incidente. Alguns métodos, como a indução do vômito, não são recomendados, pois o paciente pode estar com diminuição do nível de consciência e broncoaspirar conteúdo gástrico.

Em linhas gerais, se dispõe da lavagem gástrica e do uso carvão ativado para a intoxicação oral. Para a intoxicação cutânea é recomendada a lavagem do local com água corrente durante no mínimo 10 minutos. Sempre que houver antídoto disponível para a substância causadora da intoxicação, esse deve ser fornecido ao paciente.

A lavagem gástrica é um método de desintoxicação que tem sua aplicação restrita ao tempo decorrido desde a ingestão do material. Enquanto sua eficácia é de aproximadamente 90%, caso seja realizada em torno de 5 minutos após a ingestão, em 10 minutos essa eficácia cai para em torno de 45%. Ela ainda é um recurso muito utilizado em conjunto com outros métodos de desintoxicação, como o uso do carvão ativado.

O carvão ativado tem propriedade de adsorção, ou seja, funciona como uma esponja que puxa a substância para si e impede que a mesma seja absorvida pela parede intestinal. É o recurso mais utilizado, mas também tem sua eficácia dependente do número de horas decorridas desde a ingestão do material.

Diversas substâncias são capazes de gerar intoxicação no corpo humano, e a suspeita do causador é gerada pelos sinais e sintomas gerados – sendo muitas vezes extremamente difícil que se encontre o causador. Entretanto, a abordagem inicial é idêntica em todos os casos, e deve ser conhecida por todos os médicos para que o atendimento seja rápido e aumente as chances de salvar a vida daquele paciente.

Referências bibliográficas:

ZAMBOLIM, C. M. et al. Perfil das intoxicações exógenas em um hospital universitário. Revista Médica de Minas Gerais, v. 18, n. 1, p. 5 – 10, 2008.

LEAO, Sydney Correia et al . Management of exogenous intoxication by carbamates and organophosphates at an emergency unit. Rev. Assoc. Med. Bras.,  São Paulo ,  v. 61, n. 5, p. 440-445,  2015.