UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Você já foi atendido por um médico negro? por Isabela Giordan em 02/11/20

Data: 7 de novembro de 2020

Em 2018, uma publicação feita pelo médico Fred Nicácio viralizou nas redes sociais. Dona Eunice, aos 74 anos, ficou emocionada ao ser atendido por ele, um médico negro. Essa foi a primeira vez que a moradora de Conceição de Macabu (RJ) teve a chance de ver alguém da mesma cor que ela em uma profissão majoritariamente branca.

 

Se você pudesse contabilizar a quantas vezes você já foi atendido por um médico negro, qual seria o resultado? Três ou duas vezes? Uma? Será que você já foi atendido por um médico negro alguma vez na vida? 

 

De acordo com dados da Demografia Médica 2018, desenvolvida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil possui cerca de 450 mil médicos registrados pelo órgão. Entretanto, apesar do levantamento não informar qual a cor dos seus inscritos, dados do Censo da Educação Superior apontam que estudantes de Medicina negros são minoria.

 

Entre os anos de 2009 e 2019, o número de matriculados autodeclarados negros no curso aumentou em cerca de 620%, porém, mesmo com o crescimento por conta da política de cotas raciais implementada pelo governo brasileiro no início da última década, esses estudantes correspondem apenas a 25% dos inscritos nessa graduação.

 

No quinto ano de Medicina da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Kleriene Souza conta que em sua sala apenas quatro estudantes são negros. “No início, éramos 40 alunos e cinco pessoas negras. Porém, uma passou em outro lugar e ficamos em quatro alunos negros dentre o total de alunos da sala.”

 

Por que há poucos negros na Medicina?

 

Um dos primeiros negros a se formar no curso de Medicina no Brasil foi Juliano Moreira. Nascido em 1873, Moreira ingressou na graduação da Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aos 13 anos, ainda antes do fim da escravidão. Formou-se aos 19 anos e foi um dos precursores da Psiquiatria no País.

 

Inserido no mundo acadêmico, o médico lutava contra a teoria de que o surgimento de doenças mentais se devia à miscigenação entre brancos europeus e outras raças vistas como inferiores, ao invés de fatores físicos e de circunstância. 

 

A presença de negros na Medicina até o fim do século XX é tão concisa que não há registros sobre quem foi o primeiro a ingressar na carreira no Brasil. 

 

“Por conta da escravidão, estivémos por muito tempo em um lugar de servir o homem branco e só ocupávamos trabalhos que não desejaríamos estar, pois eram os únicos possíveis”, explica Cátia Cipriano, psicóloga e coordenadora do núcleo de cuidados da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora).

 

Uma parte da herança da escravidão no Brasil foi tirar a chance de que negros pudessem se desenvolver juntamente com a população branca, já que, ao fim desse período, o governo não deu apoio e suporte para que ex-escravos pudessem ser reinseridos na sociedade como um corpo digno de respeito.

 

Por que há poucos negros na Medicina?

Um dos primeiros negros a se formar no curso de Medicina no Brasil foi Juliano Moreira. Nascido em 1873, Moreira ingressou na graduação da Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aos 13 anos, ainda antes do fim da escravidão. Formou-se aos 19 anos e foi um dos precursores da Psiquiatria no País.

 

Inserido no mundo acadêmico, o médico lutava contra a teoria de que o surgimento de doenças mentais se devia à miscigenação entre brancos europeus e outras raças vistas como inferiores, ao invés de fatores físicos e de circunstância. 

 

A presença de negros na Medicina até o fim do século XX é tão concisa que não há registros sobre quem foi o primeiro a ingressar na carreira no Brasil. 

 

“Por conta da escravidão, estivémos por muito tempo em um lugar de servir o homem branco e só ocupávamos trabalhos que não desejaríamos estar, pois eram os únicos possíveis”, explica Cátia Cipriano, psicóloga e coordenadora do núcleo de cuidados da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora).

 

Uma parte da herança da escravidão no Brasil foi tirar a chance de que negros pudessem se desenvolver juntamente com a população branca, já que, ao fim desse período, o governo não deu apoio e suporte para que ex-escravos pudessem ser reinseridos na sociedade como um corpo digno de respeito.

 

Com o fim da escravidão, negros foram expulsos das fazendas, onde eram antes escravizados, e precisaram sozinhos lutar para conseguir sobreviver em meio ao racismo, sendo obrigados a aceitar subempregos para conseguir arcar com as necessidades básicas. No Brasil, por muitos anos educação foi um privilégio branco

 

Como uma forma de corrigir os erros do passado, e após décadas de luta do movimento negro, em 2012 o governo federal sancionou a Lei nº 12.711, que garante a reserva de vagas para pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência que realizaram o Ensino Médio integralmente em escolas públicas brasileiras. 

 

“Se hoje estou matriculada em uma universidade pública e em um curso elitista e classista, como a Medicina, é porque inúmeras pessoas negras e o movimento negro pavimentaram o caminho para que eu pudesse ter essa oportunidade”, ressalta Kleriene Souza. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais


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