UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

A igualdade incomoda, artigo de Daniel Clemente

Data: 25 de janeiro de 2016

[EcoDebate] O pavor a igualdade está disseminado na sociedade brasileira, ser igual ao outro traz a tona o sentimento de rebaixamento no âmbito social e moral, desqualificação das virtudes e desprezo as qualidades individuais, menosprezo as habilidades e apequenamento das potencialidades. O “outro” sempre foi uma referência a ser ultrapassada ou um obstáculo a ser superado, quanto mais próximo mais concorrente, quanto mais distante mais admirável. O pavor a igualdade no Brasil está diretamente ligada ás raízes históricas da formação cultural baseada em uma elite monárquica e uma sociedade escravocrata.

 

Na primeira metade do século XIX o Brasil tornou-se independente, declarando o fim de uma relação colonial de expropriação europeia. Surge uma nação monárquica em 1822 com um rei europeu, corte ociosa e ausência de uma população com viés nacionalista. A nova elite aristocrática herdava costumes oriundos das práticas mais atrasados da política econômica do velho mundo, explorando recursos naturais, monocultura agrária com a manutenção da mão de obra escrava. Todo esse enredo resultou na impossibilidade do surgimento do conceito de igualdade de direitos e deveres entre os residentes do território brasileiro, a desigualdade transformou-se na base das relações de poder.

 

Mesmo após o ano de 1889 quando o Brasil enterra sua monarquia e adota o sistema republicano, a elite política e econômica se apropria do Estado, mantendo os privilégios a uma pequena fatia da sociedade, faz da “coisa pública” um balcão de negócios, uma ferramenta a serviço dos empreendimentos privados utilizando-se de recursos públicos. Ao contrário dos liberais europeus oradores de um Estado diminuto e afastado das questões econômicas, a elite brasileira fez do Estado sua muleta e seus tentáculos, e os privilégios foram se tornando oficiais e custosos. Na atualidade, a elite política nacional representa um custo dezenas de vezes superior aos gastos da família real inglesa, somente o congresso nacional representa uma despesa da ordem de R$ 24 milhões de reais por dia, independente de sua eficiência ou decadência. A igualdade de direitos é esmagada pela perseverança dos privilégios institucionalizados.

 

A reprodução dos privilégios da elite governamental fez surgir um vírus altamente contagioso nas classes afastadas do poder, capaz de atacar quase a totalidade da população e adoecer suas relações, esse vírus atende pelo codinome “jeitinho brasileiro”. Essa praga ataca todas as relações de igualdade possíveis e despeja seu veneno nas situações mais cotidianas: Na fila do banco passa a ser prazeroso encontrar um conhecido já próximo do caixa e repassá-lo suas tarefas, evitando tempo de espera. No supermercado esse vírus opera em equipe, enquanto um aguarda a vaga na fila de pagamento outro faz a compra. No trânsito o sinal amarelo vira a extensão do verde e o acostamento nas estradas torna-se a via rápida dos contaminados.

 

No setor público a amizade com o servidor diminui o tempo de serviço. Rotineiramente se realiza atividades que evitam a igualdade de direitos e faz do “jeitinho brasileiro” uma extensão da desigualdade institucionalizada e enraizada da política nacional.

 

A igualdade passa pelo compartilhamento de direitos e deveres, desde enfrentar uma longa fila na padaria até contestar atos ilícitos praticados pelos representantes eleitos pelo voto popular, usufruir de conquistas materiais e morais na mesma intensidade com os demais. Discurso e prática, diminuindo suas distâncias aproxima a sociedade de uma igualdade de direitos e deveres, tão aclamado e pouco praticado.

 

Daniel Clemente é Professor de História e Sociologia no Colégio Adventista de Santos
Pós Graduando em História, Sociedade e Cultura PUC-SP

Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais


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