UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Negros do mundo

Data: 24 de janeiro de 2010

por Janaina Azevedo

mapanegros

 

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, o Brasil tem a maior população negra fora da África. Segundo a Fundação Cultural Palmares (entidade de defesa da cultura afro-brasileira ligada ao Ministério da Cultura), 44,2% da população brasileira é composta por afro-brasileiros. Mas, apesar da “africanidade” visível em nossa cultura, os estrangeiros que aqui moram ainda acham tudo muito estranho. Parecido mesmo só a alegria do povo. Isso é unânime! É tanto encanto que muitos chegam e não voltam mais para sua terra natal. E de coração aberto, o Brasil acolhe a todos


Guiné-Bissau/Minas Gerais


Com o único objetivo de estudar, o africano Samba Candé, de 24 anos, deixou o seu país para viver na histórica São João Del Rey, em Minas Gerais. “Fui selecionado para a Universidade Federal através do Convênio do Programa de Estudantes Estrangeiros do Curso de Graduação (PEC-G), que envolve alguns países da África e da América Latina. Estou muito orgulhoso por isso”, conta. Morando no Brasil há quatro anos e meio, Cande – um observador nato – já percebeu as diferenças entre os dois países e, segundo ele, são muitas. “Embora digam que o Brasil tem um pé na África, a diferença ainda é enorme em termos de cultura. Alguns Estados, como a Bahia, podem ser considerados uma parte da África, mas o Brasil tem uma cultura mais liberal e ousada. Na África a variedade é grande, mas com certas restrições, dependendo da tribo. Agora, uma das semelhanças que encontrei aqui é que tanto no Brasil como na África tem espaço para todo o mundo”, comemora. Ele mora em uma república com dois brasileiros e outro africano e pretende voltar para a Guiné-Bissau assim que se formar. Orgulhoso de sua origem, o estudante mata a saudade pensando nos amigos e na família e vai na contramão da maioria dos estrangeiros que chegam por aqui. “Onde nascemos e crescemos é sempre melhor do que qualquer lugar do mundo”. Candé é um jovem viajado e em suas andanças por 14 países da África Ocidental diz nunca ter sofrido preconceito. Por lá, o que mais incomoda é a rivalidade entre as tribos. Em Guiné-Bissau, segundo ele, o assunto racismo já está superado, “por se tratar de um país em busca de paz e estabilidade”. Mas é fato que no Brasil as coisas são bem diferentes. “É um preconceito disfarçado de peruca e com falsa identidade”, dispara o estudante.


Estados Unidos/São Paulo


A americana do Mississippi, Brinder Louise Martin, veio ao Brasil pela primeira vez em 2006, a convite de um amigo brasileiro dono de uma escola de inglês de aprendizado rápido que a convidou para trabalhar por aqui. Ser uma estrangeira dando aulas no Brasil nunca chegou a ser um problema para a americana. “É fantástica a relação que tenho com os meus alunos. Eu os amo e acho que eles sentem o mesmo por mim. Nós rimos e choramos juntos”, conta Brinder que, assim que chegou a São Paulo, trouxe consigo seu trabalho voluntário. “Sou uma missionária aqui, vou a lugares pobres em que as pessoas precisam de ajuda e dou cobertor, sapatos, além de palestras em várias igrejas. Faço o mesmo trabalho nos Estados Unidos, mas lá eu vou às prisões de mulheres e ensino a Bíblia. Possuo um trabalho em Memphis chamado Grace and Mercy”, relata. Em termos de comparação, Brinder, diz que a capital paulista não se parece em nada com Memphis. Já Nova York é a cara de São Paulo. Mas nem por isso deixou de se apaixonar pela capital paulista. “Eu amo a comida – a pizza é maravilhosa – os carros e as pessoas. Os brasileiros adoram abraçar e beijar e eu preciso muito disso”, conta, entre gargalhadas. E mesmo com pouco tempo no Brasil, ela já conquistou muitos corações por aqui, mais do que em seu país de origem. “Você não vai acreditar, mas tenho mais amigos aqui no Brasil do que nos Estados Unidos. Aqui é diferente. São todos amáveis, gentis, compreensíveis e bastante confiáveis”, afirma. Preconceito? Mesmo já sendo vítima certa vez em uma agência bancária, ela nem dá bola para isso e ensina: “Existe preconceito em qualquer lugar que você vá. Onde há pessoas diferentes, há preconceito. Mas eu não me preocupo com isso, porque eu sei o que sou e o que represento”, explica Brinder, que espera um dia se tornar cidadã brasileira.


Um lugar único


O músico Derrick Green, 38 anos (nascido em Ohio – onde ficou até os 22 anos – e ex-morador de Nova York), chegou ao país há mais de 10 anos, quando assumiu o posto de vocalista da banda Sepultura. Completamente adaptado, Derrick é outro estrangeiro que diz amar o Brasil que, segundo ele, é um lugar único para se viver. “Em todo o mundo, não há lugar como aqui. Fico muito orgulhoso de fazer parte de tudo isso”, declara. A integração é tanta que Derrick já fala com naturalidade sobre os problemas brasileiros e ainda arrisca soluções. “Eu diria que aqui falta mais respeito pelas leis, em todos os níveis, desde os políticos corruptos até o cidadão em geral. É importante fornecer uma boa educação a todas as pessoas. A união da população pode fazer do Brasil um país sem rédeas para crescer e aparecer no mundo. E comparando com os Estados Unidos, creio que lá existem mais oportunidades e melhores salários, mas as semelhanças também são grandes, como o senso de humor da população e o amor a música e festas. Com mais de dez anos de Brasil, ele já constatou a situação do negro no país. “Existe um grande número vivendo em péssimas condições de vida”, lamenta o músico.


Cabo Verde/Ceará


O estudante e modelo Alexis Andrade Monteiro, de 22 anos, deixou Cabo Verde, na África, para, inicialmente, morar em São Paulo. Os planos, porém, mudaram quando ele esteve de férias no Ceará, em 2002, em companhia da mãe e se apaixonou pelo clima e alegria do povo. “Me senti maravilhado por esse Estado”, confessa. Morando em Fortaleza há 3 anos e meio, Alexis encontrou na cidade um ótimo ambiente para estudar – atualmente, ele cursa o último semestre do curso de Analista de Sistemas na Faculdade do Nordeste (Fanor) – e trabalhar. “Já fiz desfiles, eventos, fotos e propagandas de TV”, conta, orgulhoso. Como destaque, ele cita o concurso Beleza Negra de Fortaleza, realizado em 2007, quando ganhou o primeiro lugar. “Aqui no Ceará tem uma carência de negros tão grande que as pessoas nos estranham, então esse concurso tinha o objetivo de resgatar os negros daqui, que se escondem da sociedade”, relata o cabo-verdiano. Trocar um arquipélago de dez ilhas vulcânicas por um país imenso como o Brasil não fez com que o modelo se sentisse longe de sua terra. O clima de Cabo Verde (tropical seco) é bem parecido, a culinária e o gosto pelas festas, praias e surfe, também. Para ele, apenas em relação à cultura é que as coisas ficam mais distantes, mas nada que o faça pensar em voltar tão cedo para sua terra natal. “Adoro o meu país e a África em geral, mas se conseguir uma oportunidade de trabalhar aqui e crescer profissionalmente, gostaria muito de ficar por mais uns anos”. Como fator negativo, apenas o racismo tira o modelo do sério, coisa que presenciou nos dois países. “Mas a discriminação começa por nós mesmos. Aquela velha frase que diz que o negro é o principal e o primeiro racista da sua própria raça é verdade. Temos que parar de ser frágeis, nos impor mais para não sermos discriminados.”


O caminho inverso


E para quem deixa o Brasil atrás de emprego, melhores salários e reconhecimento profissional o que não falta é a “saudade de casa” e uma imensa vontade de voltar ao país. Sim! Quem deixa o Brasil reclamando, passa a amar ainda mais a pátria verde-amarela


Brasil/Japão


Natural de São Caetano do Sul, no Grande ABC, em São Paulo, o modelo Paulo Eduardo Ravelli, de 26 anos, resolveu, como milhões de brasileiros, “ganhar dinheiro no Japão para melhorar o padrão de vida”. Em abril de 2005, ele e sua esposa foram para o outro lado do planeta. Mas, diferentemente da viagem, o casamento não foi adiante e os dois se separaram. Sozinho em uma terra estranha, Paulo estudou por um ano o método de ensino de leitura e escrita da língua japonesa (Kumon). “Não aprendi a falar a língua 100%, mas uns 70%. Achei muito difícil e, por ter uma grande concentração de brasileiros onde eu estava morando, acabava não utilizando muito, mas aprendi também o inglês e um pouco de tailandês com minha atual namorada, pois ela já morou na Tailândia”, explica. O seu primeiro emprego no Japão não fugiu à regra da maioria dos estrangeiros: linha de produção em uma empresa automotiva. Depois foi soldador, inspetor de qualidade e trabalhou nas áreas comercial e atendimento ao público. “O mercado de trabalho no Japão é bem diferente, pois não exige formação ou qualificação. Basta que você tenha força de vontade”, explica Paulo, que teve também a oportunidade de trabalhar como modelo. “E estou adorando essa carreira”, confessa.


Sobre Brasil e Japão, a educação e o respeito entre as pessoas estão entre as principais diferenças percebidas por ele desde o início. E para os que pensam que a cor da pele faz alguma diferença por lá… “Sempre me trataram de igual para igual, independente da minha cor de pele ou classe social. No Japão, o negro é muito bem visto, graças a Deus nunca tive problema com discriminação. Lá, andava na rua e percebia que os japoneses me observavam, mas não com o olhar de preconceito e sim de admiração, me cumprimentavam, sorriam”, relembra Paulo. Com a experiência internacional, ele percebeu que o Brasil tem muito a crescer e aprender ainda. “Pelo fato do Brasil ter uma grande diversidade de etnias, tem que deixar de vez a discriminação e o preconceito de lado. Costumo dizer que no Brasil sou só mais um negro na estatística, mas lá não, é muito diferente, os japoneses adoram negros.”


O modelo está de volta a São Paulo para visitar a família, mas a estada, segundo conta, não deve ser longa. “Pretendo voltar logo para lá”. Além do Japão, Paulo teve a oportunidade de morar na Tailândia por seis meses, fato que só fez aumentar o seu amor pelo Brasil. “Depois que fui morar fora, percebi que aqui é realmente a minha casa. Apesar dos defeitos, não existe nada melhor que o calor humano e o ritmo de vida encontrado aqui. Não trocaria o Brasil por nada”, confessa.


Brasil/Alemanha


Era apenas uma viagem de férias para visitar uma parente, mas a brasileira Valeska Lange, de 28 anos, gostou tanto da pequena cidadezinha de Kirchseelte, na Alemanha, que não voltou mais. Depois de dar expediente por três meses em uma das gelaterias de Luigi, marido de sua prima, ela foi chamada para trabalhar em um restaurante italiano, o Trattoria Mangia e Bevi. Convite feito, convite aceito! A gaúcha, que cresceu em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, tomou gosto pela área e aprendeu muito rápido o serviço. “Gosto de gastronomia, tinha interesse em aprender e, com muita dedicação, um ano depois, o Luigi me convidou para ser gerente da Trattoria”, conta. Apesar de tamanha responsabilidade, Valeska aceitou o desafio. “Gerenciar não é fácil, manter a qualidade, conversar com os clientes, fazer propaganda, mas consegui e a cada dia sempre aprendo mais”, diz, orgulhosa.


Em 2007, a brasileira foi convidada por um cliente amigo para ser a capa de um folder do aeroporto de Bremem . “Fui a primeira negra a sair na capa de um folder alemão”, conta.


Como é viver em um país como a Alemanha?


As pessoas são mais distantes, não têm aquele calor humano. Eu sou muito alegre, gosto de dançar e sempre estou sorrindo. Eles ficam admirados com isso. São muito fechados e, às vezes, egoístas, só pensam neles mesmos. Hoje falo alemão e italiano, mas no começo ficava muito quieta por pura insegurança. As pessoas perguntavam se eu era tímida, mas não sabia a língua direito e tinha medo de falar errado.


O esforço inicial e a difícil adaptação valeram a pena?


Sim! Aqui a vida é mais fácil. Você ganha muito mais que no Brasil e a qualidade de vida é melhor. A Alemanha é um país lindo e o mais rico da Europa, com sistema social completo, o Estado ajuda quem está desempregado. A arquitetura das cidades é antiga, as ruas são limpas e as leis são respeitadas. Minha única reclamação é com o frio, mas já estou acostumada.


Em geral, a imagem da Alemanha é de um país racista. Isso é verdade?


Os alemães se sentem envergonhados com o racismo devido ao Holocausto na Segunda Guerra Mundial, mas ainda existe preconceito, só que não é demonstrado diretamente. Você é julgado pela capacidade que tem e não se tem um rosto bonitinho. Moro em Kirchseelte faz sete anos e nunca fui discriminada, mas já vi grupos racistas baterem em negros. É um absurdo, só que aqui ninguém fica impune como no Brasil. As leis funcionam.


Sobre o futuro, pensa em ficar na Alemanha?


Me sinto orgulhosa de ser negra e chegar onde estou. Não é qualquer um que consegue, mas tem que trabalhar duro. Quero voltar para o meu país maravilhoso e montar um restaurante italiano diferenciado. Tenho certeza que vai dar certo e para conseguir isso, me atualizo a cada dia, mas não esqueço de agradecer à minha prima, que sempre me apoiou e me deu essa oportunidade.


Fonte: Revista Raça Brasil

Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais


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