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Sobre a pesquisa

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O objetivo desta pesquisa foi enfocar especificamente as práticas sócio-culturais de leitura e escrita de crianças e adolescentes na contemporaneidade. Ao pesquisar com crianças e adolescentes, o fizemos do ângulo da perspectiva sócio-histórica que os considera como sujeitos datados, concretos, marcados por uma cultura.

 

Trabalhamos, então, com o enfoque teórico de Vygotsky, Bakhtin e Benjamin. A pesquisa teve como metodologia a abordagem qualitativa. Na primeira fase, exploratória, foram realizados estudos etnográficos em instâncias de leitura e escrita: Livrarias, Bibliotecas e Salas de Aula. Estes estudos revelaram que o público que freqüenta as livrarias é eminentemente adulto.

 

Nas bibliotecas, crianças e adolescentes não buscam uma experiência prazerosa de leitura, mas a realização de pesquisas escolares. A escola trabalha com leitura e escrita e leitura artificiais, desvinculadas da realidade do aluno, acabando por estender às instâncias de leitura e escrita este conceito deturpado.

 

Na segunda fase foi realizado o trabalho de campo que se constituiu de entrevistas com crianças e adolescentes, alunos desde a 2ª série do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, que freqüentam escolas públicas e privadas, com diferentes acessos ao meios de consumo e que pertencem também, a diferentes inserções sócio-culturais. Tais entrevistas foram gravadas em áudio e vídeo e posteriormente transcritas. Duas bolsistas de Iniciação Científica receberam treinamento especializado para a execução das gravações em vídeo. Outra bolsista participou como entrevistadora. Após o trabalho de campo, foram construídos textos visando uma análise longitudinal dos dados obtidos. Finalizamos com uma análise transversal, onde elegemos as categorias a serem trabalhadas.

 

Os resultados que emergiram foram: Entre algumas crianças e adolescentes nota-se a presença dominante dos meios de comunicação de massa – televisão, computador, Internet. A escola é apresentada como local onde leitura e escrita se confundem com desprazer e obrigatoriedade. Algumas práticas de leitura e escrita fora da escola são evidenciadas e denotam a mediação de instrumentos culturais da contemporaneidade.

 

Foi produzido um vídeo em forma de documentário (A voz do novos leitores – Roteiro, Edição e Direção de Rogério Terra) que divulga a pesquisa, e um livro, Leitura escrita na formação de professores, com textos sobre achados da pesquisa.

 

ACHADOS

Como achados desta pesquisa destacamos, das análises das entrevistas feitas, mais uma vez, a escola surgiu como o lugar de uma leitura dotada apenas de um sentido escolar com um fim em si mesma, desvinculada das experiências vividas pelos alunos fora da sala de aula. Pudemos perceber que a escola trabalha voltada sobre si mesma desconhecendo as práticas de leitura e escrita de seus alunos em outras esferas sociais. Há uma defasagem entre o que a escola propõe e os interesses e as vivências das crianças e adolescentes. Os “livros de colégio”, a “escrita da escola” são vistas pelos alunos como atividades entediantes e sem sentido.

 

Cumprem-nas como uma obrigação a que têm de se submeter em função das normas impostas, das sanções e avaliações. Por sua vez o contexto sócio-cultural do qual participam tem lhes oferecido novas formas de leitura e escrita que parecem ser desconhecidas ou ignoradas pela escola.

Essas novas formas nos falam de práticas de leitura e escrita que, aliadas a objetivos diferentes dos da escola, tornam-se prazerosas para seus usuários. Nossos sujeitos, fora da escola, encontram uma leitura e escrita significativa oportunizadas pelas mediações com pessoas ou instrumentos culturais presentes em seu meio que lhes proporcionam experiências diversificadas. Vivências familiares, religiosas, esportivas, de trabalho e relacionadas aos seus interesses pelo mundo da fantasia, da imaginação e da aventura, levam a diferentes práticas sócio-culturais de leitura e escrita.

 

Percebemos que nas famílias em que os livros são presentes, há crianças e adolescentes que deles se aproximam com gosto. A interação com pessoas amigas dos livros é um caminho para a constituição de novos leitores. Uma outra forma de leitura se liga às atividades implementadas por costumes religiosos que se concretizam na leitura da Bíblia e em textos proporcionados pelas aulas de catecismo. Há aqueles que buscam satisfazer pela leitura seus interesses diversos como o gosto por carros, cinema, brinquedos, jogos, informática, esporte. Estes interesses levam os jovens leitores a visitarem as revistas especializadas ou seções específicas de periódicos em busca dos últimos lançamentos ou das notícias sobre os times de futebol de sua preferência e seus jogadores prediletos. Outros, como alguns adolescentes de classes trabalhadoras, procuram os periódicos para resolver necessidades imediatas como a busca de oportunidades de emprego na seção de classificados.

 

Novos instrumentos culturais da contemporaneidade têm se tornado mediadores de outras formas de leitura e escrita. Assim, é significativa a influência da presença de uma leitura de imagem desencadeada pelo próprio ambiente icônico da cidade e principalmente encontrada nas telas da TV, do cinema ou do computador. O que essa leitura imagética tem oferecido em matéria de programação, temas e propaganda, leva a um consumo que se reflete na procura de crianças e adolescentes por revistas e, algumas vezes, livros nos quais vão ao encontro dos heróis e das aventuras que estão acostumados a ver no cinema ou na televisão.

 

Em relação à escrita percebemos que, mesmo fora da escola, esta se apresenta mais tímida que a leitura. Parece que crianças e adolescentes, contaminados por uma escrita sem função, da escola e para a escola, não encontram em seu dia a dia um motivo para a ela se entregarem. É muito pouco usada em sua forma comunicativa: são raros os relatos que nos falam de cartas escritas, ou de textos utilizados como registro ou como expressão pessoal. No entanto, observamos que existe entre os sujeitos entrevistados uma escrita propiciada pelo jogo de RPG e pelo uso da internet.

 

Nesse quadro delineado, dois fatos – as possibilidades de leitura e escrita presentes através do computador, via internet, e do jogo de RPG ( Role Playng Game) – nos chamaram a atenção de uma maneira especial. Internet e RPG têm ocupado grande parte do tempo livre de nossos sujeitos, principalmente os adolescentes de maior poder aquisitivo e pelos dados observados percebemos que novas formas de leitura e escrita estão sendo desenvolvidas a partir de seu uso. Isto demonstra a necessidade de pesquisas que possam focalizar essas novas práticas procurando compreendê-las.

 

Quanto ao uso do computador e principalmente da internet, observamos que nossos sujeitos, em sua maioria, tanto crianças como adolescentes, têm contato com o computador divertindo-se com os jogos, com os programas de desenhos, de edição de textos e principalmente navegando pela internet. Buscam aí sites de acordo com os seus interesses: cinema, música, bandas, esporte, RPG, etc e participam de listas de discussão, de chats. Via internet vão descobrindo a possibilidade de satisfazer sua curiosidade sobre os assuntos de seu interesse e de entrar em contato com pessoas distantes. Foi observado em nossa pesquisa que adolescentes ao navegarem pela tela, ficam horas a fio envolvidos em atividades de leitura e escrita com características próprias e específicas.

 

Realizam uma leitura vertical passando seus olhos pela tela onde desfilam cores, imagens e textos que trazem até eles informações a que, até poucos anos atrás, não tinham acesso. Deixando de lado o esforço do manuscrito, dos traços no papel com lápis ou caneta, envolvem-se com uma escrita possibilitada pelo uso do computador, digitando teclas, manuseando o mouse para entrar em comunicação com pessoas de diferentes partes do país e do mundo. Têm interlocutores reais num tempo também real. Envolvem-se nestas novas formas de leitura e escrita com entusiasmo ocupando nelas grande parte de seu tempo livre, produzindo um sentido pessoal para essas atividades. É interessante ver que aquelas pessoas que lêem e escrevem apenas na escola e para a escola ou que ainda dizem detestar escrever passam horas diante da tela lendo e escrevendo. Ao analisar o material que alguns sujeitos nos trouxeram sobre o que lêem e escrevem na internet observamos duas coisas que nos chamaram a atenção: o emprego da língua inglesa e a forma da linguagem usada.

 

A partir destes dados, buscando compreendê-los, como uma nova forma de leitura e escrita que está surgindo na contemporaneidade formulamos uma outra pesquisa focalizando a construção/produção da escrita na internet para o período de 1999 a 2001.

 

 

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LIC – Linguagem, Interação e Conhecimento