UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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           O conceito de território, em suma, segundo os estudos do geógrafo Rogério Haesbaert (2009 e 2014) é o resultado de formas, forças e estratégias de dominação material e apropriação simbólica sobre o espaço, articulado em várias dimensões e distintas perspectivas, do local ao global. Assim como são vastos os territórios físico-geográfico-culturais, também é o literário, o ponto de encontro e a zona de conflito de vários impasses que estão atrelados à constituição do sujeito. Considerando, nos termos de Tim Marshall (Prisioneiros da Geografia: 10 mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global), que o território nos limita e, ao mesmo tempo, nos define, nós, da Darandina Revisteletrônica, trazemos a público o segundo número da tríade de volumes sobre os “Territórios da Literatura” com a finalidade de ampliarmos a discussão sobre os temas que perpassam tão vasto assunto. Neste segundo número da Darandina, selecionamos artigos que tratam de questões identitárias e alteridade, exílio e processos migratórios e sua relação com a formação da identidade cultural dos sujeitos.

            No primeiro artigo, “Corpo-natureza: a experiência da paisagem no romance Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende”, de Renata Cristina Sant’Ana e Enilce Albergaria, somos confrontados com uma (re)significação da representação sertanejo no romance Outros Cantos de Maria Valéria Rezende, romance no qual as imagens regionais revelam uma interligação entre sujeito e ambiente, responsável pela elaboração da uma paisagem mediada pelo sensível e o factual, o físico e o fenomenológico.

            Em “O nordestino migrante em território virtual: possibilidades de alteridade pela presença da literatura de cordel nas plataformas digitais”, de Tatiana Martins Montenegro e Rogério de Souza Sérgio Ferreira, somos apresentados aos conflitos identitários vivenciados pelo nordestino, em uma localidade com povos de uma cultura distinta e como esse novo cenário se refletiu nas suas manifestações artísticas e literárias. Os autores ainda analisam como os nordestinos utilizam as tecnologias da informação e comunicação para preservar e compartilhar a tradição da literatura de cordel em prol da alteridade.

            Na sequência, Rodrigo de Souza Wanzeler, em “Relendo o poeta Bruno de Menezes: uma proposta etnográfica dos arquivos”, através da etnografia dos arquivos revisita Bruno de Menezes enquanto um múltiplo ser social, que através de suas experiências-vivências traduziu, em seus escritos, olhares diversos a respeito da cultura de uma Amazônia situada no espaço e no tempo.

            No próximo artigo que trazemos nesse volume, ao analisar o espaço como lugar do sentimento de unidade negra, Daniel Ferreira Santos Sobrinho e Paulo Fernando Souza Campos, em “Jorge Amado: o espaço como sentimento e unidade negra no romance regionalista Mar Morto”, analisam Mar Morto, de Jorge Amado na tentativa de responder como o espaço geográfico recupera o sentimento de unidade negra, bem como quais peculiaridades culturais negras a literatura regionalista é capaz de evocar.

            Passando do romance à poesia, adentrando no âmbito poético de Jove da Mata, poeta sertanejo da década de 70, Ivy Daniela Monteiro Matos em “‘Quem fui … quem sou!!!: representações identitárias e literárias na poesia de Jove da Mata” nos mostra como a poesia de Jove reafirma o local, sendo capaz de construir-se universal, como a subjetividade poética atua na construção de uma identidade coletiva, fundada no pertencimento, na assunção do eu, na condição humana de um povo que necessitava recorrer à literatura para se representar e para construir a sua identidade.

            A partir de uma análise do romance O velho e o Mar de Ernest Hemingway, Fernando de Oliveira Figueirêdo e Sueli Meira Liebig em “Subalternidade local: os espaços e a definição identitárias em O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway”, examinam a representação dos personagens através dos espaços apresentados na obra enquanto um reflexo das identidades subalternizadas pelo contexto neoimperialista dos Estados Unidos, sujeitos afetados pelo sistema colonial que os determina como objetos de dominação do Império.

            Os processos migratórios e a formação identitária cultural são o mote do artigo de Leonardo Júnio Sobrinho Rosa e João Barreto da Fonseca, “Processos Migratórios e a formação da identidade cultural em Cidadã de segunda classe, de Buchi Emecheta”. Ao longo do seu texto, os autores investigam o processo de formação da identidade cultural da protagonista Adah, relacionando-o à experiência de deslocamentos, em especial, às migrações.

             Em “As múltiplas Faces do exílio: uma análise do romance A Gorda, de Isabela Figueiredo”, artigo de Natacha Iria Pereira Lopes, somos apresentados a uma análise que considera as múltiplas definições, facetas e vivências, de como o tema do exílio e das migrações são retratos no romance da escritora portuguesa Isabela Figueiredo, assim como dá-se destaque a influência da escritora à produção literária contemporânea.

            Encerrando a seção de artigos, Rafael Vidal dos Reis nos apresenta um estudo da sociedade siciliana do século XIII em “A sociedade medieval siciliana na poesia Il contrasto, de Cielo D’Alcamo”, ao descrever, a partir de marcas literárias árabes, como era a sociedade siciliana no reinado de Frederico II de Hohenstaufen.

            Por fim, no segundo número do décimo terceiro volume da Darandina Revisteletrônica, ainda trazemos a público a resenha de “O verão tardio”, Luiz Ruffato, sob autoria de Lucas Neiva da Silva, na qual o autor nos apresenta uma análise do mais recente romance do escritor mineiro, “no qual a miséria humana é exposta sensorialmente, pois sentimos o que as personagens sentem: a solidão, o medo de ser, a angústia existencial, entre outros conflitos e ambivalências plenamente humanos”. Nossas últimas, e valiosas, contribuições são os textos de Criação de Wellington Ricardo Fioruci, “As babas de Caim”, e de Yvoty Rendyju, “Se Wayrá me emprestar o vento eu vou girar ao contrário”.

            A Comissão editorial gostaria de agradecer aos autores pelas valiosas contribuições enviadas à revista e, igualmente, convidar a todos à leitura de tão importantes textos que, certamente, enriquecerão o debate acerca dos Territórios da Literatura.

 

Jefferson Pontes

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários

 

Referências:

HAESBAERT, Rogério. Viver no limite: território e multi/ transterritorialidade em tempos de insegurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

HAESBAERT, Rogério. Dilema de conceitos: espaço-território e contenção territorial. In: SAQUET, M. A.; SPOSITO, E. S. Território e territorialidades: teoria, processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 95-120.

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