UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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Segundo o geógrafo brasileiro Milton Santos (2006, p. 66), o conceito de espaço é o somatório das formas depreendidas em uma paisagem mais a vida que a preenchem, um conceito geográfico em sua excelência que se coaduna com a reflexão de Rogério Haesbaert, também geógrafo brasileiro, sobre o conceito psicológico de território, baseado no que primordialmente Gilles Deleuze e Felix Guattari propuseram no livro O que é filosofia?. A reflexão de Haesbaert adequa-se à presente edição da Revista Eletrônica Darandina, uma vez que reconhece o caráter metafórico, e não propriamente geográfico, da construção territorial. Logo, pode-se deduzir uma construção territorial subjetiva, perpassando pela identidade pessoal, coletiva, que tangencia, entre outras ciências, a literatura, a qual transpassa por inúmeros espaços culturais, sociais e mesmo físicos (HAESBAERT, 2007, p. 37-38).

            É importante a explicação da possível confusão quanto ao mito da desterritorialização de Haesbaert. De um lado, há o entendimento implícito, nesse mito, de uma hipótese de destruição de territórios, que significa um apagamento de identidades culturais e de controle estatal sobre o espaço. Tais ocorrências, do ponto de vista geográfico, de forma material, não são passíveis de concretização, porque desterritorialização, para os preceitos geográficos, é um desaparecimento de territórios. De outro lado, a desterritorialização, conforme os preceitos metafóricos utilizados na literatura, é a debilidade em medir espacialmente as relações sociais. Conceito este corroborado nos artigos desta edição e também em algumas criações literárias, visto que a literatura sempre foi um campo profícuo para a coleta de dados históricos, biológicos e também geográficos, remetendo-se a datados de antes da era cristã.

            As articulistas Roseane Graziele da Silva e Eunice Terezinha Piazza Gai trouxeram, no artigo Memória e Intertexto em “O Caso Meursault”, de Kamel Daoud, uma discussão sobre colonialismo francês na Argélia, confrontado o território do colonizado e colonizador, expondo as teorias conceituais em consonância com a explanação territorial supracitada.

            Juliana Silva Cardoso Marcelino, no artigo A Performance Poética de Fabián Severo e a Inserção do Portunhol como Inflexão da Voz, primou por trabalhar com os conceitos de pluriculturalidade, tendo como ponto de partida a realidade fronteiriça entre Brasil e Uruguai, lugar territorial palco das teorias desta 25ª edição.

            Já o artigo Entre Miltons: Reflexões do Corpo Negro na Cidade a Partir da Canção “San Vicente”, elaborado pelos autores Paloma Ramos Ladeira e William Silva Rocha, traz uma reflexão sobre o território e o corpo negro, além de abordar o conceito de espaço supraexposto do geógrafo Santos.

            Juliana Machado Meanda, no artigo Um “Espaço Outro”: A Fronteira México-Estados Unidos em “The Guardians”, de Ana Castillo, propõe os conceitos foucaultianos e de Pratt, como espaços outros, heterotopia e zona de contato, respectivamente, tratando da migração e do fluxo transfronteiriço territorial. Em um outro artigo, Vitória Katherynne da Costa Holanda e Tatiana da Silva Capaverde, cujo título é As Representações da Identidade/Alteridade em “Um Velho Que Lia Romances De Amor”, de Luís Sepúlveda, também trabalham o conceito de zona de contato de Pratt. O espaço é a Amazônia, onde se passa o processo do encontro de culturas, identidades e alteridades, demonstrando o deslocamento e o posicionamento do espaço outro, para fora.

Como Haesbaert escreve é a relação entre os espaços que definirá a posição e essa posição pode ser interpretada como social, hierarquizada ou de poder. Logo, pode-se interpretar posição no espaço real como uma pré-condição da consciência de sociedade. Tem-se que o pensamento de alguma forma possa negar a realidade de um determinado espaço, fazendo desse uma projeção do espírito/corpo sobre a extensão territorial do mundo (2007, p. 364).

            O articulista Mateus da Rosa Pereira, no artigo em inglês Elementary, My Dear Watson: We Are English, trabalhou com as caracterizações de Sherlock Holmes, propondo a resolução dos casos de Holmes (p. 04) como possíveis noções de identidade nacional que poderiam projetar na personalidade do detetive imagináveis papeis desempenhados na sociedade inglesa. O nacionalismo e a identidade explanadas no artigo são exploradas de acordo com a temática proposta pela presente edição.

            O artigo A Literatura como Território: Relendo A Teoria Empenhada de Antonio Candido com Leyla Perrone-Moisés e Édouard Glissant, de Flávia Herédia Miotto, retoma a leitura de Antonio Candido, por meio do livro, Formação da literatura brasileira, propondo a discussão sobre o espaço nacional de literatura.

            A Revista contém também criações literárias, como o conto Próxima Parada, do autor Wemerson Damasio, que impacta o leitor logo na primeira linha, a qual se segue não a descrição de uma simples segunda-feira, mas de uma especial, de libertação feminina. Como o poema de Marian Mendes Flores, Social Network, instigando a reflexão dos tempos de uma sociedade líquida, como pensa Bauman (2014).

            O poeta Cristóvão dos Santos Júnior, no poema Estelionato, brilha com um soneto em sua forma rítmica, montando a impactante imagem das ocorrências do violento cotidiano do território urbano, podendo-se aludir ao espaço unificado pela produção capitalista que exclui (DEBORD, 1997, p. 130).

            A escritora indígena Aline Kayapó, ganhadora do prêmio Cátedra da Unesco por participar de uma antologia organizada por Maurício Negro e publicada pela Companhia das Letrinhas, presenteia a Revista com o conto Wayra Não Anda Só, sobre como as filhas/Wayara não andam apartadas de chuva/Ná. As mulheres/merines ao se juntarem às Yvoty fazem a sabedoria do ancestral feminino florescer e sempre se perpetuar.

            A Revista Eletrônica Darandina, no território virtual desta 25ª edição, convida à leitura que provocará reflexões e, em especial, questionamentos sobre a relação literária que os múltiplos territórios apresentam.

            Prof.ª Mestranda Beatriiz Pérez

Programa de Pós-Graduação em Letras:

Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

HAESBAERT, Rogério da Costa. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertland Brasil, 2007.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. Dos Espaços Outros. In Revista Estudos Avançados. São Paulo, v. 79, n. 27, p. 113-122, 2013.

PRATT, Mary Louise. Os Olhos do Império: relatos de viagem e transculturação. Trad. Jézio Hernani Bonfim Gutierre. Bauru: EDUSC, 1999.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: USP, 2006.

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