Comissão da Verdade de Juiz de Fora devolve documentos a presos da ditadura

Conceição Imaculada de Oliveira, uma das ex-presas políticas, recebeu seus documentos durante a cerimônia (Foto: Géssica Leine)

Conceição Imaculada de Oliveira, uma das ex-presas políticas, recebeu seus documentos durante a cerimônia (Foto: Géssica Leine)

A Comissão da Verdade de Juiz de Fora (CMV-JF), da qual a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é parceira, e a Auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar (4ª CJM) promoveram nesta segunda-feira, dia 17, no plenário da sede da Auditoria, evento para devolução de documentos pessoais retidos no período da ditadura que não haviam sido resgatados pelas pessoas que responderam inquérito ou processo no local no período de 1964 a 1985. No evento, documentos de nove pessoas foram entregues a elas próprias ou a seus representantes.

Entre esses documentos, se encontram fotos, carteiras de identidade e de trabalho, títulos eleitorais e passaportes, entre outros. A presidente da República Dilma Rousseff e o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, figuram entre as 32 pessoas que tiveram a documentação retida, mas não estiveram presentes neste ato.

Um dos ex-presos presentes ao evento, Rouberdário Diniz Valério relembrou seus tempos na cidade. “Apesar de eu ter ficado detido aqui por dois anos e meio, é uma cidade que foi muito solidária conosco, sentíamos nas pessoas daqui uma afeição”. Já Marco Antônio Victoria Barros, que ficou cinco anos preso em Juiz de Fora, passando grande parte deste tempo na Penitenciária de Linhares, reforçou a importância histórica do ato. “Mostra que nossa luta contra a ditadura valeu a pena. Hoje temos democracia, eleições livres”, contou. “Fui julgado aqui cinco vezes e hoje sou lembrado como um dos que lutaram contra a ditadura, o que é uma prova de reconhecimento.”

A anfitriã da solenidade, a juíza da 4ª Circunscrição Judiciária Militar, Maria do Socorro Leal, assinalou o valor simbólico da cerimônia e salientou que “a Justiça Militar da União mantém o firme compromisso com a verdade e refuta quaisquer atentados aos interesses individuais”. Para a presidente da Comissão Municipal da Verdade, Helena da Motta Salles, o trabalho desenvolvido em Juiz de Fora tem sido emocionante e revelador. “O gesto de resgatar e devolver os pertences aqui confiscados é um ato histórico de respeito aos direitos democráticos”

Representando a Comissão Estadual da Verdade, Jurandir Persichini Cunha relembrou seus próprios tempos como preso político em Juiz de Fora, e considerou a solenidade um exemplo a ser seguido pelas demais comissões. Preso nos primeiros dias após o golpe, o fundador da União Nacional dos Servidores Públicos Civis de Minas Gerais, Henrique Roberti Sobrinho, foi o encarregado para ser o porta-voz dos ex-presos, e durante seu discurso emocionou-se com o “inusitado regresso ao lugar em que foi espezinhado e julgado” e considerou o evento como um marco no processo de “resgate das lutas sociais”.

Os documentos devolvidos na solenidade são referentes a Ângelo Pezzuti da Silva, Afonso Celso Lana Leite (representados no ato por Ângela Pezzuti), Conceição Imaculada de Oliveira, Henrique Roberti Sobrinho, Marco Antônio Victoria Barros, Maria José Nahas, Jorge Nahas (marido de Maria e representado por ela), Rouberdário Diniz Valério e Ana Lúcia Batista.

 Projeto Memórias Possíveis

A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é parceira da Comissão, através do projeto “Memórias Possíveis”, em que professores e pesquisadores da instituição contribuem com os trabalhos desenvolvidos pela CMV. Além disso, são garantidas 20 bolsas para estudantes de cinco cursos (Artes e Design, Ciências Sociais, Comunicação Social, Direito e História), que participam das atividades de pesquisa e extensão, atuando na gravação e transcrição de depoimentos, digitalização e análise de documentos, busca em acervos e divulgação das atividades da Comissão, entre outras. A proposta é que, após o término dos trabalhos, todo o conteúdo da pesquisa seja disponibilizado para parceiros e para a população em geral, uma vez que trata-se de documentos de domínio público.

Outras informações em http://comissaodaverdadejf.blogspot.com.br/

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