Cientistas políticos da UFJF analisam manifestações nas ruas

Nos últimos dias, milhares de pessoas, movidas por um sentimento comum de mudanças foram às ruas em protestos coletivos. Em Juiz de Fora, o movimento recebeu o nome de “Junta Brasil” e reuniu, nesta segunda-feira, 17, cerca de cinco mil manifestantes. Em passeata pacífica, a população partiu da Praça Jarbas de Lery Santos, no bairro São Mateus, com destino a trechos das avenidas Itamar Franco, Rio Branco e Getúlio Vargas. As bandeiras de reivindicações eram diversas: os gastos com Copas, desvalorização dos trabalhadores, corrupção, luta por transporte público de qualidade e a união do povo brasileiro.

Segundo o cientista político e professor da Faculdade de Comunicação Social, Paulo Roberto Figueira Leal, é difícil especificar uma única causa dos acontecimentos, apesar da relação com o aumento nas passagens do transporte público. “Entraram manifestantes contrários aos gastos com a Copa do Mundo, lutas específicas do Movimento Estudantil ou de grupos sociais que acabam emergindo. Há dinâmicas, que vão variar de cidade para cidade, de momento para momento, a produzirem uma só percepção: de que há uma sensação de mal-estar difusa, que encontrou um canal de vocalização”, aponta.

O professor do Departamento de Ciências Sociais, Rubem Barboza Filho, comenta que, por ser apartidário, o movimento retrata a insatisfação da população e a necessidade de atitudes do governo: “Os manifestantes querem desde a redução de tarifas até a derrota da PEC 37. Isso demonstra que a sociedade não se sente representada pelos políticos, desde governadores, deputados, e mesmo a presidência. É o recado de que a população chegou ao limite”.

Docente do mesmo departamento, Raul Magalhães considera que os atuais protestos de rua refletem as ações realizadas em outras democracias do mundo, como Espanha, Itália e Turquia, e demonstram o diferencial das redes sociais como meio de agregar pessoas. “Com as novas tecnologias, as informações circulam em todo o mundo. As redes sociais passaram a ser um canal de mobilização política, notável pelas manifestações de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, convocadas por esse tipo de ferramenta”.

Magalhães acredita em uma reverberação dos protestos, com crescente adesão popular, uma vez que, segundo ele, os jovens não encontram espaço adequado para verbalizar suas reivindicações na política. “Deve haver uma multiplicação nos protestos, pois há uma descrença nos meios tradicionais da política. As pessoas vão para as ruas porque acreditam que é a única forma de serem ouvidas”, justifica. Leal faz coro e reafirma a desconfiança da sociedade em relação à política, revelada por meio do grande número de manifestações. “Talvez o grande desafio da democracia brasileira seja eliminar esse fosso que separa a sociedade das instituições políticas”.

https://www.youtube.com/watch?v=wxMrwew-Pmw

Falta de lideranças e repressão policial

A multiplicidade de causas e a falta de lideranças claramente identificadas é o que mais dificulta uma resposta por parte do poder público, na avaliação do professor da Facom. Segundo ele, o crescimento do movimento, talvez produza também líderes e uma pauta mais definida. Para Rubem Barboza, fica clara a necessidade de mudanças nas atitudes do governo.

A ação da polícia também tem sido debatida por muitos especialistas. O professor do Departamento de Ciências Sociais Raul Magalhães acredita que um temor de desordem faz com que a polícia aja repressivamente, com mais força do que o exigido. “Em vez de baixar os ânimos, dá mais gás à manifestação. Por ser muito repressivo, o resultado é mais desastroso, e, para a população, fica claro que é preciso mesmo dizer o que pensa”, completa.

O cientista político Paulo Roberto Figueira Leal comenta que, em grande parte dos episódios, era possível administrar uma relação com os participantes sem que implicasse usar força desproporcional, o que acabou ferindo indiscriminadamente pessoas. “Não fosse aquela repressão descabida em São Paulo, talvez os passos seguintes do movimento não fossem tão agigantados como foram”, avalia.

“Não se trata manifestações de jovens com bombas de efeito moral ou balas de borracha”, declara o professor Rubem Barboza. De acordo com ele, a repressão aumentou a solidariedade da população com os manifestantes.

Origem dos manifestos

Os movimentos tiveram início no dia 6 de junho na cidade de São Paulo. A proposta inicial dos protestos, idealizado originalmente pelo Movimento Passe Livre, era combater o aumento da passagem do transporte público, que subiu de R$ 3 para R$ 3,20 na capital paulista. A repressão policial e a resistência dos manifestantes acabaram desencadeando uma série de contestações em mais cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, nas cidades mineiras de Belo Horizonte, Juiz de Fora, Viçosa, Alfenas, Itabira e até no exterior, como Estados Unidos, Canadá, Irlanda, França, Inglaterra, Portugal, Itália, Bélgica, Espanha, Austrália, Japão.

No dia 14, na estreia da seleção brasileira na Copa da Confederações, milhares de pessoas foram para frente do estádio Mané Garricha, em Brasília, protestar contra o dinheiro público gasto para finalizar as obras dos estádios. No mesmo dia, também houve protestos em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, em frente ao Maracanã, pelos mesmos motivos. Diversos temas eram abordados pelos manifestantes, como o baixo investimento em saúde e educação, altas tarifas dos ônibus, além da insatisfação com as aplicações do governo federal na construções de estádios para a Copa.

Ouça um trecho da entrevista com o professor Paulo Roberto Figueira Leal

[soundcloud params=”auto_play=true&show_comments=false”https://soundcloud.com/ufjf/an-lise-dos-protestos-no[/soundcloud

Outras informações: (32) 2102-3602 (Faculdade de Comunicação)

(32) 2102-3106 (Departamento de Ciências Sociais)

Atualizada em 19/06 às 17h20

Gabriella Moura – bolsista de Jornalismo
* colaborou Eduardo Chain – bolsista de Jornalismo
Os textos são editados por jornalistas da Secom

Acompanhe a UFJF nas mídias sociais
Facebook |Twitter | Youtube | Instagram| SoundCloud