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por aí – pRA lÁ dE mARrAkeCH

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Por Raphaela Corrêa*

   A enorme curiosidade que eu tinha em conhecer algum país da África se tornou ainda mais latente pela proximidade com Madrid, cidade onde vivi durante os últimos onze meses (09/07 – 08/08). Afinal, bastava cruzar o famoso Estreito de Gibraltar, o que faria da aventura ainda mais interessante! Passei alguns meses analisando as possibilidades de fazer a travessia e convencendo alguma amiga para tal, até encontrar uma super promoção da companhia EasyJet, vôos low coast para Marrakech a 32 euros ida e volta, o que equivale a 80 reais aproximadamente! Claro que com este argumento não convenci uma, mas, sim, três amigas para fazer comigo esta viagem que transformou nossa maneira de ver o mundo e ficará guardada em nossa memória eternamente.
   Esperamos ansiosamente mais de dois meses para o grande dia que finalmente chegou. Era 08 de março quando embarcamos no avião que nos levaria a esta cidade que nos parecia tão exótica e misteriosa. Quatro mulheres empolgadíssimas, mas também um tanto receosas com o que poderia passar ali, onde a feminilidade é em grande parte escondida atrás dos panos e sua suposta exibição é alvo de vários casos (que não se sabe verídicos ou não) de desrespeito e, até mesmo, de abuso sexual. Contudo, este receio logo não mais existiria.
   Marrakech é uma das principais cidades do Marrocos, assim como Rabat (a Capital), Casablanca e Fez. Este país, por sua vez, está situado no extremo noroeste da África, margeado pelo Oceano Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, tão somente a 14 Km da Espanha. Apesar disso, sua paisagem é bem árida e o clima temperado seco, o que se explica pela cadeia montanhosa Atlas, que recorre o território marroquí como uma espécie de barreira da influência destas águas que, em contrapartida, dá um toque especial à paisagem, principalmente no inverno, quando é coberta pela neve.
   A origem da cidade, assim como de toda esta região, está vinculada ao povo bereber, dos tempos mais longínquos (leia-se décadas A.C.). Sua história é marcada por enfrentamentos sangrentos, sobretudo entre os séculos XI e XIII, pelas ditas Guerras Santas e Cruzadas. Atualmente, porém, Marrakech vive outro contexto. Desde a colonização francesa (séc. XIX) se vê inserida em novos conceitos urbanísticos, desenvolve o transporte coletivo, o comércio, e mesmo com sua notável pobreza estabiliza-se como um lugar seguro e começa a investir numa infra-estrutura para o turismo, que hoje movimenta significativamente a dinâmica e a economia da cidade.
   Pois bem, contextualizado o que seria o destino daquele avião aterrissamos em solos africanos. Ao sair do aeroporto, de cara já percebemos uma mudança total de realidade, ainda mais contrastante com a de origem, Espanha, Europa. Nada de BMW, nem sequer um “golzim”. Os táxis a nossa espera eram todos carros bem antigos e barulhentos e entrar aí já foi uma bela estréia da aventura. Vacinadas contra “canos” aos turistas, estávamos informadas do preço aproximado do aeroporto ao centro da cidade e de que tudo em Marrakech tinha que ser negociado. De fato, aí mesmo tivemos esta comprovação. A questão é: como negociar em um lugar cujo idioma oficial é o árabe? Claro que estava na nossa cara que isso não seria possível, então partimos para a segunda língua deles, o francês, através do qual uma de minhas companheiras conseguia nos fazer entender em meio a muitas e muitas risadas.  
    Ah, isso sim, os marroquinos são muito simpáticos e topam tudo para tentar uma comunicação, até mesmo botar os dentes pra fora como um dentuço, imitando o Ronaldinho Gaúcho! De fato, a primeira referência deles do Brasil. Valores, então! Devem saber em todos os idiomas, a vocação de comerciante está na veia deste povo. Mal descemos do táxi e ao caminhar pela rua que nos levaria ao nosso albergue, como um calçadão, vários já nos abordaram para negociar seus produtos. Inicialmente, estranhamos, mas logo nos entregamos ao jogo e nos divertíamos com ele.
   Eu disse albergue, mas não é exatamente isso, tampouco é um hotel, é um riad, típico alojamento marroquí, adaptação de casas em geral de dois andares, com um grande pátio interior, ocupado por sofás, tapetes e almofodas, climatizado por incensos, narguerês, decorados com belíssimas e grandes luminárias e cercado pelos quartos. O preço bem acessível, pagamos 100 dirham/noite, moeda local (1R$ +- 4Dh). Além disso, costumam se localizar bem no centro – na medina, que foi o nosso caso.
   A saída do riad já é uma imersão nas labirínticas ruelas tomadas por nativos, mulçumanos com seus trajes únicos, mulheres com burkas, várias só com os olhos destampados e toda de preto, burricos, charretes, constantes e infernais motocas e, claro, muitos turistas. Compreensível, estes becos estão repletos de ateliês e lojinhas com artesanatos tradicionais espalhados pelo chão, mesas, araras, paredes até o teto. Tecidos, colchas, tapetes, redes, “pufs”, luminárias, sapatos, jóias, instrumentos musicais, trabalhos em madeira, cerâmica, metais – do ouro ao latão. Imagina quatro mulheres em meio a esta tentação e ainda com bons preços e descontos da pechincha. Sem contar a piração com contas e conversões necessárias para não perder o controle!
   Sem precisar de mais explicações para entender porque demoramos mais de duas horas para conseguir chegar à praça central, que está colada a este labirinto, relato as curiosidades deste lugar incrível, Djemaa El-Fna. Sei que meu texto está ficando grande e já estou certa que ficará enorme, mas não consigo eliminar nada, porque é tudo tão diferente do habitual, forte e envolvente, e ainda tenho tanto a contar! Esta grande praça, patrimônio da humanidade, é um verdadeiro “museu vivo de experiências bizarras” (pegando emprestado a classificação criada por meu cunhado PP!). Está cercada por uma imponente muralha que possui 14 portas, erguida no século II. Seu nome pode ser traduzido como “Assembléia dos Mortos”. Ali, há séculos, criminosos eram executados e a cabeça deles, exposta para servir de exemplo.
    Chama atenção também a Koutoubia, mesquita que possui uma grande torre de 70 metros, de onde soa o sino de hora em hora (o chamado à reza) e se pode ter uma boa vista da cidade. Hoje, a praça é palco de uma feira de produtos variados, frutos secos, sucos de frutas, essências. E, também, de mil performances, encantadores de serpentes, de saltimbancos, engolidores de espada, curandeiros, músicos, dançarinos, contadores de histórias, mulheres fazendo tatuagem de hena, senhores confabulando todo o dia não se sabe o que e até maldades como a exibição, mediante domesticação e, não raro, maltrato, de animais exóticos como macacos e falcões. Inevitável a vontade de tirar fotos sem parar, no entanto, este espetáculo já se tornou bem turístico e qualquer “personagem” destes se te vê clicando, vem na hora te abordar solicitando “bakshish”, a famosa gorjeta.
   Já era quase noite e meio que perdidas naquele contexto, hipnotizadas com o som interrupto de gaitas, flautas e tambores tocados ao mesmo tempo, pudemos observar o ambiente começar a mudar. Demos um giro pelo entorno e quando passamos novamente por ali, a caminho do riad, a praça já tinha se tornado um restaurante gigante, corredores cercados de barracas de comidas típicas que enfumaça a Koutoubia e exala aromas que junto com suas cores e aparências se tornam irresistíveis mesmo aos receios pelas nada confiáveis condições de higiene, procedência e manipulação dos alimentos.
    Não é à toa que a gastronomia marroquí é considerada uma das melhores do mundo, tudo que comemos estava delicioso. O mais tradicional é o tajine, carnes com complementos e especiarias diversas, além de kafta, couscous, peixes e mariscos, doces e amanteigados, chás de todos os tipos. Logo, nos daríamos conta de que esta transformação acontece diariamente.
   Ali perto continuavam as performances e muitas rodinhas com batucadas e dança. Aproximamos-nos para ver e foi este o único momento que passamos uma situação desagradável. Sentimos que alguns homens estavam muito colados atrás da gente, dávamos um passo à frente e eles também, falando algo que não entendíamos e que deduzimos como piadinhas de mau gosto. O interessante é que outros ali presentes, ao perceberem nossa situação, se encarregaram em intimidar aqueles inconvenientes, como uma espécie de protetores. Depois disso não sentimos nenhum tipo de ameaça, ao contrário, nos sentíamos muito bem acolhidas.
   No dia seguinte nos dedicamos a conhecer alguns dos monumentos e patrimônios de Marrakech. No caminho para o Jardim da Menara passamos por ruas bem movimentadas e tumultuadas pelas tais motocas que dominam por toda a parte, conduzidas inclusive por mulheres mulçumanas, cena que chama a atenção. Casas e muros de tom avermelhado predominam na urbe e justifica a maneira como o lugar é conhecido, “cidade vermelha”. Deixamos-nos perder nas lojas de especiarias e música, até que, já nas proximidades do nosso objetivo, nos deparamos com um bando de camelos! Claro que não íamos resistir a um passeio e logo montamos nestes simpáticos animais, e foi muito divertido! Nada é de graça, mas é bem baratinho. Eles estavam acompanhados por pôneis, ao menos assim eu os defini, mas já ouvi outros os chamarem de cavalos árabes.
   O passeio pela Menara foi bem relaxante. É um pequeno palácio mouro erguido em 1870, com um grande lago cercado por oliveiras e com vista para o Atlas, que nesta ocasião estava coberto de gelo. Dali, fomos almoçar em um restaurante bem gostoso, que fica ao lado de ninhos de cegonha e, casualmente, presenciamos o acasalamento de um casal destes pássaros enormes. Logo, passamos pela Medersa Ali Ben Youssef, uma escola religiosa fundada no século XV, o mais próximo que um estrangeiro pode chegar de um edifício religioso muçulmano, já que, com exceção da mesquita de Casablanca, os não-muçulmanos não podem penetrar em lugares de culto. Na seqüência, o Museu de Marrakech, que funciona onde era o imponente palácio Dar M’nebhi e hoje acolhe obras de arte contemporâneas e orientais. Depois tínhamos a intenção de relaxar nos famosos banhos árabes, mas não demos sorte, o lugar já estava fechado. Decidimos então ir descansar já que no outro dia madrugaríamos para visitar outra cidade, desta vez no litoral.
   Pra lá de Marrakesh está Essaouira, na costa atlântica. Para chegar até lá viajamos duas horas em um ônibus que só tinha nativo, bem parecido àqueles cata-jecas do interior do Brasil. Passamos por várias bibocas à beira da estrada, habitadas, predominantemente, por homens com um vestido longo até os pés e encapuzados, como magos. Ali se nota ainda mais a pobreza do continente, a terra muito seca, paisagem já bem próxima à do deserto. Foi uma experiência muito interessante e forte visitar esta cidade que foi, inclusive, cenário do filme Othello. Como já esperávamos, o comércio de artesanatos variados está por toda parte e ainda mais barato, principalmente ao longo de uma extensa rua que desemboca numa praia bem charmosa. Pena que era inverno e a água estava gelada, além do vento que nos dava um banho de areia.
   No retorno, já de noite, e chegando à Marrakech, decidimos descer em Gueliz, nome dado a parte nova da cidade que está fora da muralha que demarca o centro histórico. Em princípio, nossa grande motivação em parar ali, mesmo estando bem cansadas, era tomar uma cervejinha! Isso porque na cidade antiga, por questões religiosas, é quase impossível encontrar algum lugar que vende bebida alcoólica e quando encontramos é absurdamente caro, destinado aos turistas europeus. De fato, bastou descermos do ônibus para percebermos que estávamos mesmo em outra cidade, o padrão moderno das edificações, os carros que por ali circulavam, a presença das típicas lojas encontradas na Europa e, claro, um McDonald’s com direito a McArábia. Suprindo nossos “desejos ocidentais”, aproveitamos nossa última noite africana.
   Acordamos com aquela triste sensação de que ainda tínhamos tanto por ver e viver naquele lugar e, no entanto, tínhamos que ir embora. Contudo, o horário do nosso vôo, pela tarde, nos permitia mais um passeio, e foi no impressionante Palácio Bahia nossa despedia com chave de ouro. Construído nos anos 1880, é uma autêntica obra de arte marroquí, com seus jardins simétricos, seu interior labiríntico, que nos leva a grandes salões decorados por todas as partes, chão e paredes com mosaicos de pisos e azulejos, portas e corredores com arcos esculpidos em alto relevo, nos mínimos detalhes, assim como tetos, minuciosamente, pintados. Raios de sol entravam pelas janelas e energizava o ambiente de tal modo que nos deixava arrepiadas.
   Ainda mais emocionante foi nossa partida. Já com os mochilões nas costas, passamos pelas ruelas das lojinhas e pela praça, trajeto inevitável para se ter acesso aos táxis. E neste momento, na medida em que íamos caminhando os nativos iam acenando sorridentes para nós e dizendo em nosso idioma que lamentavam nossa partida e para voltarmos sempre. Lógico que, se possível, voltaremos, pois esta imagem, assim como toda esta surpreendente viagem, tocou verdadeiramente nossos corações, provocou todos os nossos sentidos e evidenciou a possibilidade de culturas tão distintas conviverem em um mesmo ambiente com paz, valor, respeito, diálogo, troca, alegria.  

*Raphaela Corrêa é graduada em Turismo pela UFJF (2000-2004), especialista em Turismo Regional-Estrada Real (2004-2005), mestranda em Comunicação e Sociedade pela UFJF (desde 2007), atua em projetos culturais, sendo bolsista do Programa de Formación Profesional Becas Endesa de Património Cultural pelo Ministério de Cultura da España, em Madrid (2007-2008).
Obs: Quem tiver interesse em ver mais fotos, pode acessar meu álbum, clicando em:
http://picasaweb.google.es/raphajf/FRICAMARROCOSMarrakechEEssaouira812Mar08?authkey=tneJMmhFrZw   

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    Graduação em Turismo


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