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por aí – A Europa é isso aí….

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Por Carla Fraga¹ 

      A Europa é um continente inventado, segundo Bauman, sociólogo polonês que nos coloca frente a frente com a liquidez do mundo em seus livros. E foi com a idéia de poder me reinventar – a partir da própria invenção que é o conceito de Europa – que parti rumo a Madri, em julho de 2008.

      A escolha dos vôos e das companhias aéreas (partindo do Rio com a TAM, fazendo escala em Salvador, seguindo para Madri com a Air Europa e depois de Air France até Paris) já daria um tratado epistemológico sobre um comparativo a respeito da hospitalidade ou não dos brasileiros, espanhóis e franceses. Minha determinação foi por preço, já que decidi viajar faltando apenas um mês para o embarque e as demais companhias ofereciam tarifas condizentes com a alta temporada, afinal de contas na Europa já era verão!

      O roteiro imaginado era antes de tudo a conjugação de um instrumento de pesquisa sobre os variados modos de vida nas grandes capitais do velho continente com a visita a amigos queridos. No entanto, entre a imaginação e a realidade existe um gap!  Chegando a Paris, logo recebi um convite para ir à Holanda de carro…  Ainda bem que não fiquei cheia de resistências, pois foi um dos pontos altos da viagem. A experiência do carro entre Paris e Amsterdam, passando por Bruxelas, me fez repensar sobre como é preciso trabalhar não só aspectos operacionais – como boas estradas – mas nossa identidade e seus reflexos para o desenvolvimento do turismo de base sustentável no Brasil.

      Amsterdam, no meu imaginário e dos amigos que viajavam comigo era uma cidade louca, desprovida de limites. Claro que, além das drogas liberadas nos coffee shops e a rua do sexo, eu e meus amigos também sabíamos que a cidade é referência em educação e transportes, concentra museus e casas de artes como Van Gogh, Rembrandt, Madame Tussauds e que detém um dos principais portos da Europa. No entanto, a idéia de paraíso do sexo, drogas e música eletrônica reinava em nossas cabeças e conversas.

      Após quilômetros de placas ilegíveis, pois eram escritas em holandês, pude perceber que em Amsterdam o que reina é uma grande paz, as pessoas são simpáticas e hospitaleiras e que tudo funciona na mais pura sintonia por seus inúmeros canais e parques verdes. Mas a pergunta, sobre a loucura de Amsterdam ainda imperava em nossas cabeças e pés que nos moviam por boa parte da cidade.

      Os olhares curiosos chegaram ao seguinte dominador comum: a capital da Holanda é exibicionista! Exibem seu próprio modo de vida! O fato das casas terem suas janelas da sala de jantar viradas para a rua não seria novidade se essas, em sua grande maioria, não estivessem totalmente expostas, sem cortinas. Verdadeiras janelas indiscretas! Constatamos que a maior falta de limite que I amsterdam (referência a campanha de marketing turístico que vive a cidade, fazendo a alusão ao “Eu sou Amsterdam” ou “Eu estou em Amsterdam”) nos apresenta é o vitrinismo de seus hábitos!

      Chegando a Paris, logo parti para Londres. Todas as expectativas giravam em torno da cidade que tem a fama de ser a mais cosmopolita do mundo, além, claro, de cinza! Queria muito atravessar o Canal da Mancha no Eurostar, mas isso foi impossível devido a desleal concorrência entre o transporte aéreo e o ferroviário entre os dois destinos. Até mesmo as companhias aéreas tradicionais, como a British Airways, oferecem assentos mais baratos que os trens. Desembarquei em Heathrow, um dos maiores aeroportos do mundo com um certo frio na barriga, afinal de contas a imigração em Londres é de deixar qualquer um com medo, por mais que tenha tudo certo e documentado. Na verdade, aeroportos e imigrações é um capítulo à parte! No meu caso, a imigração só durou dez minutos e as perguntas foram tranqüilas.

      Já em Londres, partimos para Coven Garden e Soho! A vista do Big Ben me deixou reflexiva. Parecia um sonho ver que horas eram, de onde a hora é a hora certa! Iniciamos o fim de tarde em um restaurante asiático, experimentando um pato cosmopolita delicioso! Depois fiz meu tour de reconhecimento pelo cenário da noite londrina. Paramos em um bar e cheguei à conclusão de que ingleses e inglesas sabem realmente se divertir.

      De Londres, decidimos ir a Liverpool porque, em 2008, a cidade foi eleita capital européia da cultura! Depois de andar no TAV – Trem de Alta Velocidade que interliga Londres à Liverpool, descobrimos, ao chegar à Estação Line Street, que a cidade octogenária não é apenas a terra dos Beatles, mas também das Lambananas. As esculturas de Lamb (carneiro, em inglês) com rabo de banana são decoradas com os mais variados motivos e ficam espalhadas pela cidade, que se preparou para receber a demanda de turistas nacionais e internacionais no ano de 2008 com uma campanha de marketing que demonstra o amor que os moradores têm pelo lugar.

      Londres ainda me ofereceu um lugar chamado Nothing Hill. Apesar de eu não ter ido no dia da feira Porto Belo pude reconhecer o cenário do filme, onde Julia Roberts é a estrela principal. O passeio de barco pelo imponente Rio Tamisa e um rolé pelo bairro punk  Camdentown também foram pontos altos antes da partida para Lisboa!

      Lisboa ou Salvador? Lisboa ou Rio de Janeiro de 1800? Era a dúvida ao avistar, da janela do airbus, o Aeroporto Portela. O turismo urbano pela terra dos descobridores me fez refletir sobre a nossa própria identidade, como somos portugueses para algumas coisas! Mas o que me chamou atenção durante as andanças pela capital e arredores – Caiscais, Sintra, Estoril – foi a gastronomia como valor turístico! Os pastéis de Belém ou de Nata servidos ao lado de Fernando Pessoa na Brasileira são muito famosos.

      A diversidade e a modernidade de Lisboa, que ainda preserva boa parte do seu patrimônio, também é um charme à parte! E, foi no bairro Alto que terminei todas as minhas noites na capital portuguesa! Lugar boêmio, onde encontrei toda aquela loucura que esperava ver em Amsterdam, logo ali em morros lusitanos, com certeza!

      Enfim, Paris! Só conseguir saber o que era a Torre Eiffel depois de andar por boa parte do território europeu e pude tirar o teima: sim, a torre é um dos atrativos turísticos mais impressionantes! Emociona! Inspirada pelo anjo da Bastilha, que via da sacada do apartamento do querido Tiago, lembrei de  Win Wenders no filme Asas do Desejo, que afirma: o Turismo é um pecado! E, decidi viver meus últimos dias deste verão na Europa como o bom flaneur… observando o cotidiano, vagabundiano e me reinventando  pelo Le Marrais!   

¹ Carla Fraga se garduou no 2º semestre de 2003, no Curso de Turismo da UFJF, é Turismóloga da Ass.Brasileira das Operadoras de Trens Turísticos e Culturais, Professora Universitária da UNIRIO, UNESA e SUAM e Mestranda em Eng.de Transportes PET/COPPE/UFRJ

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    Graduação em Turismo


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