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por aí – ¿Qué pasa en España?

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Por Raphaela Corrêa

 

Percepções de uma turista-imigrante desde solos madrileños

 

Viver um período em outro país, outro continente, conhecer diferentes culturas, idiomas e ainda participar de um programa de formação profissional na área que estuda e trabalha… Tudo isso era um sonho que parecia muito distante e difícil de alcançar. Até que depois de muita persistência em “cavucar” e conseguir uma oportunidade recebi a tão esperada notícia: minha aprovação no Programa de Becas Endesa de Formación en Património Cultural para Iberoamericanos oferecido pelo Ministério de Cultura da España. Isso significava ganhar passagem para Madrid, onde iria morar durante nove meses (de outubro de 2007 a junho de 2008) e uma bolsa mensal suficiente para cobrir os custos básicos de moradia, transporte, alimentação e até viajar! Hoje, portanto, escrevo desde solos espanhóis, onde vivo mais que um sonho, ainda que um tanto perturbado pela saudade de todos e tudo de meu amado Brasil! Uma experiência maravilhosa e transformadora, que compartilharei resumidamente neste espaço, onde também apresentarei minha perspectiva sobre o desenvolvimento do turismo neste país.

 

Uma história de sucessivas invasões e reconquistas (fenícios, gregos, cartagineses, romanos, visigodos, mouros) que culminam no domínio do território pelos cristãos, faz da España um país curioso pela diversidade de suas construções e monumentos e pelo seu povo sui generis. A começar pela presença de três idiomas além do espanhol: basco, galego e catalão, praticados em diferentes regiões que por muitos são afirmados como outras nações. Curioso, também, pelas contradições no jeito de ser dos espanhóis: são anárquicos e ao mesmo tempo conservadores, modernos e tradicionalistas, festivos e introvertidos.

 

Durante os quatro meses que já se passaram desde que cheguei aqui, pude presenciar tamanha diversidade em algumas cidades visitadas, como Salamanca e Segóvia, na comunidade autônoma de Castilla y León; Toledo e Consuegra, em Castilla La Mancha e Granada, em Andalucía. Há muitas ainda a serem exploradas, entre elas, claro, a famosa Barcelona, na Cataluña e Santiago de Compostela, em Galícia. Entretanto, é da capital Madrid, onde venho construindo a rotina da minha nova e temporária vida que passa de turista a residente – ou melhor dizendo, imigrante latina, como sou rotulada aqui – que posso arriscar dizer com mais propriedade minhas percepções.

 

O Programa que participo consiste em um curso sobre história e cultura da Espanha e sua relação com Iberoamérica e uma prática (estágio) em um centro cultural vinculado ao Ministério de Cultura que, no meu caso é o Centro de Investigação do Patrimônio Etnológico – Museo del Traje y Moda. Aqui desenvolvo projetos na área de difusão e educação para crianças, jovens e especiais, relacionando o acervo do museu com o tema memória social e identidade cultural, o qual já vinha trabalhando em projetos de pesquisa no mestrado em Comunicação da UFJF e também em programas de arte-educaçao vinculados à Ong’s e PJF/Funalfa. Experiência que tem sido riquíssima, pois aprendo muito com as mil possibilidades estruturais que oferece um museu estatal de primeiro mundo e, por outro lado, dissemino o jeitinho brasileiro de se virar com poucos recursos, é dizer, usar a criatividade.

 

O curso é igualmente bem enriquecedor, principalmente porque é o momento em que se reúnem os quinze becários (bolsistas) do Programa. Todos iberoamericanos provenientes de diferentes países da América do Sul e Central e que trabalham na área de patrimônio cultural. Ou seja, a vivência européia se complementa com a troca de experiências de pessoas provenientes de realidades muito próximas à que vivemos no Brasil. E é com elas que venho construindo amizades, desbravando a cidade, o país e seu entorno europa-áfrica.

 

Madrid é uma cidade intensamente movimentada seja que hora for. Passeando pelas ruas desta metrópole de mais de 3 milhões de habitantes, encontramos gente de tudo quanto é parte do planeta, escutamos os mais diversos e raros idiomas, vemos distintas e estranhas maneiras de se vestir e expressar. Durante minha busca por um lugar para morar, tive a impressão que a cidade não tem lugar para mais ninguém, tamanha dificuldade foi conseguir um lugar barato (em relação ao panorama local) e “habitável”. Demorei um mês até conseguir acolhida em uma república constituída por três espanholas. Há que relevar o fato que era outubro, início de semestre escolar, quando chegam milhões de estudantes estrangeiros na cidade, grande parte pelo Programa Europeu Erasmus. Contudo, independentemente deste fato, o tema da imigração é muito forte em Madrid e está presente diariamente nos jornais. Muitos chineses, marroquinos e latinos, entre estes, claro, muitos brasileiros atraídos, entre outras coisas, por um idioma mais próximo ao português, ainda que as diferenças de vocabulário e as dificuldades de pronunciação sejam muito maiores do que normalmente se imagina.

 

Isso sem contar os milhões de turistas que vêm visitar a “capital cultural da Espanha”, assim conhecida por seus belos monumentos e excelentes museus, como o Prado, que tem um dos melhores acervos de arte moderna do mundo, incluindo as principais obras de Velázquez e Goya; o Thyssen-Bornemisza, que narra a evolução da arte européia do século 13 ao 20 e inclui preciosidades de Van Gogh, Monet e Cézanne; e o contemporâneo Reina Sofía, onde está o famoso Guernica, de Picasso. Outros atrativos são seus ícones urbanos como a Puerta del Sol, praça que é o coração de Madrid, e a Plaza Mayor – construída em 1617 – foi o principal cenário das festas da cidade, touradas e julgamentos da Inquisição. Suas arcadas levam a vielas e becos muito charmosos que hoje são tomados por lojas, bares e simpáticos cafés com mesinhas ao ar livre. A capital possui, ainda, atrativos naturais, como o Parque del Retiro, grande área verde no centro da cidade que era uma antiga reserva da família real e onde se encontra um bosque de oliveiras plantado em homenagem às vitimas do atentado de 11 de março de 2004.

 

Outra atração internacional de Madrid é sua reputação boêmia, comprovada pela legião de pessoas que pinga de bar em bar até o sol raiar. Trata-se da chamada “marcha” pelas copas de vinho ou cañas (chope) acompanhadas pelas “tapas” – petiscos normalmente servidos como cortesia da casa – uma das mais particulares instituições locais. E tem para todos os gostos, basta escolher a “zona de marcha”. Na região da Calle Huertas, Puerta del Sol, Gran Via e Callao é mais turística e muitas vezes concentra-se em danceterias. Salamanca e Retiro reúnem a galera mais arrumadinha, os “pijos”. Moncloa, os universitários. La Latina e Lavapiés são bairros mais alternativos, meio “ripongas”. Em Tribunal estão os pub’s onde há uma mistura entre moradores e turistas e não é nem muito zen nem muito badalado, é animado e toca boa música. Chueca é a área dos GLS (que são muitos, diga-se de passagem) e moderninhos. Entretanto, há um destino em comum para terminar a tradicional noite espanhola, um fim de noite (ou um bom dia) diante de um chocolate quente cremoso e uma porção de churros na Chocolatería San Ginés.

 

Já que provoquei o paladar, tenho que considerar também os atrativos gastronômicos locais, as magníficas paellas e pratos recheados de frutos do mar; as tortillas (uma espécie de omelete com batata); o gazpacho (um creme de tomate e especiarias, servido gelado com pão, mais comum no verão); porções e bocadillos (sanduíches) feitos com o típico jamón ibérico (presunto cru), elaborado artesanalmente e com um tratamento vip comparado ao dos bons vinhos, necessário para alcançar um sabor levemente adocicado misturado com sua generosa camada de gordura. Nada “light”, como é possível perceber. Outra curiosidade sobre o hábito gastronômico local é o ritual de comer. A começar pelo fato de que a cidade simplesmente para (com exceção do centro turístico) de 14h às 17 horas. Praticamente todos os serviços fecham. Bancos, mercados, lojas, farmácias. Tudo para degustar com calma a seqüência de dois ou três pratos, postre (sobremesa) e aquela dormidinha básica, a tradicional “sesta madrileña”.

 

Um ponto positivo para o turismo em Madrid é que, quando comparado às outras capitais européias, é uma cidade econômica e acessível a diferentes tipos de bolsos. Pode se encontrar desde um albergue por 11 euros até um hotel cinco estrelas como o Ritz, construído pelo famoso hoteleiro Cesar Ritz, cujas diárias podem chegar 800 euros.

 

Entretanto, é preciso apontar os aspectos negativos também e, entre estes, o atendimento espanhol se destaca. Vendedores, garçons, atendentes em geral, salvo raras exceções, são muito preguiçosos e, principalmente, não tem a menor paciência em explicar o produto ao cliente estrangeiro assim como de esperar sua decisão. São uns “gilipoias” como dizem aqui! Além disso, pós passar o encantamento de turista, no dia a dia em uma cidade como Madrid, vamos desmistificando o tão idolatrado primeiro mundo. Em minha temporada por aqui já presenciei greves de funcionários de limpeza do metrô (que ficou imundo durante mais de um mês), cenas de furtos e trânsito caótico, acompanhei pelos jornais casos de agressão à mulher, negros e imigrantes, recém-nascido jogado em container, manifestações pelo direito de uma moradia digna, entre outros problemas que julgamos existir somente em países subdesenvolvidos como o nosso. E, atualmente, período em que as eleições se aproximam, ronda uma tensão por atentados terroristas, decorrente do trauma pelos acontecimentos durante a última seleção do presidente de governo. “Ojalá” que nada aconteça. Apesar de tudo, a maioria dos casos de violência é desprovida de armas de fogo, coisa que grande parte da população española nunca viu nem chegou perto… o que infelizmente é muito diferente da nossa realidade.

 

Prós e contras a parte, é fato que estar em Madrid e, acredito eu, em qualquer cidade da Europa, nos faz sentir com o mundo inteiro ao nosso alcance. As possibilidades de deslocamento sejam de trem, avião ou navio, são muito acessíveis para qualquer canto do planeta mesmo para estudantes e trabalhadores menos “afortunados”. Logo, para nós que temos “muchas ganas” de desfrutar a arte de viajar, é uma verdadeira tentação. Eu claro, não tenho feito o mínimo esforço para resistí-la!

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    Graduação em Turismo


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