UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

INICIAL

Data: 30 de março de 2015

A linha de pesquisa dos estudos do software, ou somente Software Studies, foi delineada por Lev Manovich em seu livro The Language of New Media (MIT Press, 2001) e teve um impacto profundo no campo de estudos das novas mídias. A virada proposta por Manovich foi considerada como um passo inicial em direção ao estabelecimento de uma crítica dos aparatos tecnológicos e demonstrou os limites a que estávamos confinados quando analisávamos os sistemas computacionais a partir dos elementos externos do processamento da máquina, do hardware puro que mantinha os processos e produzia os efeitos em termos de imagem e cálculo.

Durante os dias 25 e 26 de fevereiro de 2006, Matthew Fuller, professor do Goldsmiths College em Londres, organizou o primeiro workshop sobre Software Studies em Roterdam e deu início a um projeto mais abrangente de analisar o software a partir de aspectos relacionados com as ciências humanas. O livro Software Studies: a lexicon (MIT Press , 2008) contém o resultado desse primeiro encontro, com textos analisando o “gênero” dos algoritmos, as propriedades culturais do código e as formas e estruturas gramaticais das linguagens de programação em relação às questões estéticas dos bancos de dados na contemporaneidade, os processos comunicacionais e ideológicos envolvidos no código, entre várias outros tópicos interdisciplinares ligados à ciência da computação, engenharia e humanidades.

Em 2008, durante os dias 21 e 22 de maio, a Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) hospedou o Software Studies Workshop, com a participação de especialistas de várias parte do mundo com um único objetivo: redigir os fundamentos dessa área de pesquisa e elaborar um instrumento metodológico para a implementação das pesquisas nesse campo que está ainda em elaboração.

O campo do Software Studies é uma área emergente, ainda em construção e tem como objetivo analisar mais detalhadamente as transformações que a cultura do software operou nas sociedades contemporânea não só olhando para os “efeitos” que o software produz, mas observando a gramática do processo de significação dessas imagens, atentando para os códigos que são utilizados, para os processos ideológicos que regulam a linguagem de programação, para os estudos de gênero que podem ser analisados quando da leitura acurada de uma linguagem de processamento, entre várias outras camadas que passam atualmente despercebidas para mais de 90% dos pesquisadores na área das tecnologias da comunicação, informação e do conhecimento. Cada objeto criado via software cria uma nova realidade de uso da máquina, às vezes a transformando em equipamento de projeção de imagens, máquina de calcular ou mesmo em uma máquina de relações sociais. Em todos esses exemplos, o que produz efeito real sobre a cultura é a forma com que se criam as linguagens e as significações a que elas estão sujeitas, ou seja, o processo comunicacional mais uma vez é estruturado entre a forma da emissão e o conteúdo e ser emitido.

O papel do software é moldar o processo de emissão e ao mesmo tempo construir a imagem a ser comunicada. Isso significa dizer que o software ocupa ao mesmo tempo o lugar da linguagem e o do processo de significação; é ao mesmo tempo a forma e o conteúdo do que se quer dizer, podendo ocupar os dois espaços ao mesmo tempo, diluindo a dicotomia clássica de forma irreversível e criando outras de forma ainda intangível.

O campo do Software Studies analisa a profusão da cultura do software e como o software vem cada vez mais alterando processos em vários níveis, interferindo na forma como ensinamos, pesquisamos, conhecemos e consumimos, isso sem falar nos mecanismos de controle social e político que hoje em dia fazem parte das práticas de utilização do software em todas as camadas das administrações públicas, em quase todos os países do mundo.

O Brasil, como não poderia deixar de ser, tem tido um papel importante nas discussões sobre Software Studies em vários níveis. Desde o surgimento da Internet, o país buscou se alinhar com políticas relacionadas ao software que buscam alterar os processos pelos quais as sociedades se organizam em torno do conhecimento, ou seja, buscou alternativas à prática da manutenção dos sistemas proprietários e se viu várias vezes diante de impasses em relação a que sistemas utilizar em seus websites , em suas operações internas, em seus processos de documentação e catalogação de dados, entre outros. A criação de uma prática mais aberta em relação ao campo do software fez com que o Brasil ocupasse um lugar de destaque nas comunidades que trabalham com Open Source , Softwares Gratuitos e nas agências de regulação da propriedade intelectual ao redor do mundo. As perguntas que podemos fazer agora são: qual o significado cultural que o Open Source teve para o Brasil em termos de democratização do acesso à informação? Quais as alterações culturais que podemos perceber com a utilização de softwares não proprietários? Qual a visão que temos de um governo que propõe a utilização de Softwares ou sistemas não proprietários em sua própria estrutura, tomando por exemplo o site do Ministério da Cultura, que utiliza o sistema WordPress em suas páginas na Internet? Como podemos desconstruir os processos computacionais operados via software e torná-los uma linguagem?

Essas e muitas outras perguntas o grupo de Software Studies tenta responder em suas reuniões mensais que acontecem na sede do grupo, mas que poderão se estender para outras instituições interessadas em pensar essa nova realidade com a qual estamos lidando.

A construção dessa iniciativa se deu ao longo de alguns anos, começando com a vinda do pesquisador Noah Wardrip-Fruin para o Brasil em 2006, para uma série de conferências em universidades e centros culturais e com o desenvolvimento de um pós-doutorado na área de tecnologias interativas, software studies e comunicação, desenvolvido por mim entre 2006 e 2007 junto ao departamento de Comunicação, sob a supervisão de Wardrip-Fruin e Ted Nelson, com apoio da CAPES, na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD). Com essa iniciativa no Brasil pretendemos analisar a forma com a qual o país poderá se inserir no campo da cultura do software e de que maneira poderemos analisar questões relacionadas à disseminação do conhecimento e da cultura vivendo em uma sociedade do software, regida pelas linguagens do processo computacional e por métodos de comunicação mediados pelas estruturas dos computadores.

Os fundadores do Software Studies na Universidade da Califórnia em San Diego são Lev Manovich, diretor e Noah Wardrip-Fruin, diretor assistente.

O Grupo Software Studies é dirigido no Brasil por Lev Manovich com a coordenação-geral de Cicero Silva.

 

english version

Why Software Studies in Brazil

The research line of Software Studies was drawn by Lev Manovich in his book The Language of New Media (MIT Press, 2001), and it had a deep impact on the field of new media studies. The turn proposed by Manovich was considered a first step toward the establishment of a criticism of the technological apparatus, and it has shown the limits that confined us when we analyzed computer systems from the external elements of the machine’s processing, from the pure hardware that ran the processes and produced effects in terms of image and calculation.

During February 25 and 26, 2006, Matthew Fuller, professor at the Goldsmiths College in London, organized the first Software Studies Workshop in Rotterdam, and led off a more encompassing project of analyzing software from aspects related to human sciences. The book Software Studies: a lexicon (MIT Press, 2008) contains the result of that first meeting, with texts analyzing the algorithms’ “gender”, the cultural properties of code and the forms and grammatical structures of programming languages in relation to the aesthetic subjects of databases in contemporaneity, the communicational and ideological processes involved in code, among many other interdisciplinary topics related to computer science, engineering and humanities.

In 2008, on May 21-22, the University of California, San Diego (UCSD) hosted the Software Studies Workshop, with specialists from different parts of the world and one objective: to lay down the foundations of that research area and elaborate a methodological instrument for implementing research in that field, which is still being worked out.

The Software Studies field is an emerging area, still in construction, and its object is to analyze in detail the transformations operated by the Software culture in contemporary societies, not just looking of the “effects” produced by software, but observing the grammar of those images’ signification process, attempting to the codes that are used, to the ideological processes that regulate the programming language, to the gender studies that may be analyzed in an accurate reading of a processing language, among several other layers that now go unnoticed to more than 90% of researchers in the field of communication and information technologies. Each object created via software generates a new reality of the machine’s usefulness, sometimes transforming it into an image-projection device, a calculator or even into a social-relationships machine. In all those examples, what produces a real effect on culture is the way how we create the languages and significances to which they are subjected, that is to say, the communicational process is once again structured between the form of the emission and the content to be emitted.

The software’s function is to shape the emission process and, at the same time, to build the image to be communicated. It means that the software occupies simultaneously the place of the language and that of the signification process; it is at the same time the form and the content of what one means, and could occupy both spaces at the same time, diluting the classic dichotomy in an irreversible way and creating others in a still intangible way.

The Software Studies field analyzes the software culture profusion and how software growingly modify processes in several levels, interfering on our way of teaching, researching, knowing and consuming, besides the social and political mechanisms which today make part of software uses in all the layers of public administrations in almost every nation in the world.

Brazil has an important role in the discussions on Software Studies, in several levels. Since the emergence of the Internet, the country has tried to align with software-related policies that intend to modify the processes through which societies are organized around knowledge, that is, it has looked for alternatives to the maintenance of proprietary systems and has been in several stalemates in relation to what systems to use in its websites, in its internal operations, in documentation and data cataloguing processes, among many others. The creation of a more open practice regarding the software field led Brazil to occupy a prominent place among communities that work with Open Source, free software, and in the intellectual property regulatory agencies around the world.

The questions we can make now are: which was the cultural significance of Open Source to Brazil in terms of democratization of the access to information? Which are the cultural changes we can notice with the use of non-proprietary software? What is the vision that we, Brazilians, have of a government that proposes the use of non-proprietary software or systems in its own structure, for example, the Ministry of Culture website, that uses the Wordpress system in its pages? How can we deconstruct computational processes operated through software and turn them into a language?

The Software Studies group will try to answer those and many other questions in its monthly meetings, that will happen at UFJF, at first at IAD (Art Institute), but that may be extended to other institutions interested in thinking that new reality we face today.

The construction of this Initiative has taken a few years, beginning with the visit of the researcher Noah Wardrip-Fruin to Brazil in 2006, for a series of conferences in universities and cultural centers, and with the development of a post-doctoral program in the are of interactive technologies, software studies and communication, developed by me between 2006 and 2007 at the Department of Communication, under the supervision of Wardrip-Fruin and Ted Nelson, with the support

Laboratório de Software Studies (Estudos Culturais do Software) (SWS)