UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

SoftCult | Tecnologias de Informação e Comunicação a serviço da cultura e do conhecimento | ISSN 2236-3181

Data: 23 de maio de 2011

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Bárbara Garrido de Paiva Schlaucher*

 

Vivemos em uma sociedade de ação, onde o tempo é curto e as rotinas são aceleradas. Dessa forma, o ser humano conta com poucos momentos para refletir sobre o que acontece no mundo e no seu próprio núcleo de convivência. Ao mesmo tempo, ele é constantemente bombardeado por diferentes mensagens e submetido a diversas formas de interação.

Esse cenário, somado ao advento e desenvolvimento dos computadores, motivou a busca por parte de muitos pesquisadores pela melhor forma de se obter, organizar e transmitir informações e idéias, de modo que o conhecimento e a capacidade criativa de homens e mulheres pudessem ser potencializados. Em Computer Lib/ Dream Machines, Theodore Nelson defende a necessidade de se democratizar o conhecimento acerca dos computadores a fim de que estes se tornem um aparato acessível e cujo domínio não esteja centralizado em especialistas. Com o poder nas mãos do povo e os usuários em mente, Nelson apresenta uma série de propostas de apresentação e manipulação de informações via telas de computador, dando o primeiro passo para o surgimento de novas gerações de mídia, capazes de provocar uma explosão de conhecimento.

Já Stacy Schiff, em Know It All: can Wikipedia conquer expertise?, artigo publicado na revista norte-americana The New Yorker, faz uma análise crítica a respeito da Wikipédia, ao relatar o nascimento e o desenvolvimento da enciclopédia interativa online criada por Jimmy Wales. Schiff traça, entre outros aspectos, as transformações sofridas ao longo do tempo pelo site colaborativo, que inicialmente funcionava de maneira quase anárquica – de modo que todo usuário poderia submeter e editar textos livremente – até o estabelecimento de políticas, procedimentos e estruturas hierárquicas e reguladoras que passariam a restringir tal colaboração.

 

Usuários em foco e colaboração em massa

Ted Nelson pode ser considerado um homem à frente de seu tempo, se considerarmos a complexidade de algumas de suas ideias propostas ainda em 1974. O autor defende que, com a chegada dos computadores, a necessidade de um novo sistema de educação e aprendizagem se torna mais clara e evidente.

De acordo com Nelson, o método de ensino tradicional “poda” toda a potencialidade criativa natural do ser humano ao dividir o conhecimento de modo artificial em “matérias” ou “assuntos” – tratados separadamente e seguindo uma sequência preestabelecida e sem interligações. Tal forma arbitrária de ensino é mantida mesmo com o processo de incorporação dos computadores nos sistemas educacionais. A instrução assistida por computador ou “CAI” (computer-assisted instruction) seria uma extensão do formato anterior, pois estabelece itens, sequências e diálogos que controlam os movimentos do usuário em meio ao conteúdo e minam o interesse, a iniciativa e a criatividade.

O autor elucida ainda como os objetos físicos determinam e limitam o uso dos computadores e reconhece a necessidade de se pensar e inventar novas técnicas de apresentação, e não apenas transpor construções já estabelecidas em suportes anteriores. É importante ressaltar também, que Nelson defende a criação de sistemas simples (na perspectiva do usuário) e fáceis de serem apreendidos e que auxiliam o pensar e o desenvolvimento de ideias. Nelson, então, idealiza formas interativas, não arbitrárias, não hierárquicas e não lineares de exposição e visualização de informação em que o usuário está no controle e pode navegar livremente pelo conteúdo traçando os caminhos que bem entender.

Dessa forma, Ted Nelson apresenta concepções pioneiras de hipertexto e hipermídia, como por exemplo: blocos de textos separados conectados por links (Discrete Hypertexts); figuras performáticas e que podem se ramificar (Performing Hypergrams e Queriable Illustrations); textos que podem apresentar mais ou menos detalhes de acordo com os comandos do usuário (Stretchtext); sistemas que possibilitam a visualização de dois documentos interligados colateralmente (Parallel Textface). Este último teria impulsionado o Xanadu, descrito no artigo como uma espécie de processador de texto que permite a apresentação colateral e o gerenciamento automático de vários documentos e versões, além de tornar possível a reversão de operações.

Com o Projeto Xanadu, Ted Nelson tinha a intenção de interligar conteúdos eletrônicos universalmente em sistemas informacionais através do computador. Podemos notar as influências de seu pensamento na concepção da World Wide Web, que permite a interconexão de documentos em hipermídia em uma rede de publicação. Entretanto, em seu site, o autor critica as limitações da Web, que para ele simularia o papel, ao invés de explorar as reais potencialidades da hipermídia enquanto linguagem. Ainda de acordo com Nelson, a rede mundial trivializa o modelo de hipertexto ao estabelecer links de mão única e não permitir o gerenciamento de versões e conteúdos.

Podemos dizer que a Wikipédia incorpora parte das idéias de Ted Nelson, pois possibilita a coleção de documentos em hipertexto e sua escrita e edição coletivas, promovendo uma estrutura livre e uma forma de interação/interferência bi-direcional. Em seu texto, Schiff evidencia a necessidade de se modernizar a distribuição do conhecimento, além de tornar a sua produção mais acessível e descentralizada. Com uma proposta semelhante, surge a enciclopédia online de Jimmy Wales, como um exemplo de democracia irrestrita que, como ressalta a autora, “não favorece o Ph.D. em detrimento do jovem bem informado de apenas 15 anos”. Uma promessa que revolucionaria a manipulação do conhecimento, pois atuaria como um filtro para o excesso de informação e colocaria o controle do conhecimento nas mãos dos usuários, trabalhando colaborativamente.

De fato, a Wikipédia abre espaço para a auto-expressão e tira o controle das mãos de uma elite do conhecimento. Entretanto, desperta nossa atenção para conceitos como verdade, precisão, confiabilidade, certeza e liberdade. Como coloca Schiff, o projeto utópico não estava imune à complexa natureza humana. Com o tempo, o aumento de erros, obscenidades e guerras de edição entre colaboradores fez com que políticas e procedimentos se tornassem necessários, de modo que o estabelecimento de uma estrutura hierárquica fizesse da colaboração um ato não tão mais massivo, tornando o projeto mais limitado para os usuários.

Em uma modernidade líquida, como conceitua Zygmunt Bauman, as tecnologias da informação e da comunicação figuram um papel importante no que se refere à produção e disseminação do conhecimento e da cultura. O mundo globalizado e a Internet intensificam ainda mais o intercambio de informação, cuja liquidez e natureza flutuante tornam necessária a concepção de interfaces que ao mesmo tempo estimulem e auxiliem a organização do pensamento criativo e deem maior liberdade de interferência ao usuário – mas que também levem em consideração a responsabilidade social nos espaços de publicação em rede. Hoje os computadores já estão incluídos nos meios representacionais e de pensamento, mas ainda não exploram todas as possibilidades oferecidas em hipermídia e interatividade e limitam o poder do usuário.

* Graduada em Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Aluna da disciplina Estudos Comunicacionais do Software do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFJF.

REFERÊNCIAS

NELSON, Theodor. Computer Lib/Dream Machines. In: WARDRIP-FRUIN, Noah; MONTFORT, Nick (Editors). The The New Media Reader. Cambridge and London: MIT Press, 2003.

SCHIFF, Stacy. Know it all: Can Wikipedia conquer expertise? New Yorker, 31 de julho de 2006. Disponível em: http://www.witz.com.br/cibercultura/wikipedia.html

Laboratório de Software Studies (Estudos Culturais do Software) (SWS)