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SoftCult | O uso da tecnologia para o aperfeiçoamento do intelecto humano | ISSN 2236-3181

Data: 23 de maio de 2011

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Igor Silva Oliveira

A guerra é um dos cenários que mais instigam o ser humano a pensar sobre seu futuro. Vannevar Bush, ao final da Segunda Guerra Mundial, escreveu seu texto As We May Think (Como Podemos Pensar) imaginando como o potencial dos cientistas poderia ser usado em tempos de paz.  Observa que as descobertas e produções científicas aumentam cada vez mais, mas os meios de registro e acesso a tais experiências continuam antiquados. Sendo assim, não se pode fazer uso eficaz dessas informações para contribuir ao desenvolvimento da civilização. Segundo Bush, a classificação alfabética ou numérica não acompanha o trabalho da mente humana, já que esta opera principalmente com associações de ideias e símbolos. As máquinas deveriam se ocupar dos pensamentos repetitivos (como cálculos matemáticos) e de armazenarem de maneira mais prática todas as informações necessárias às pesquisas, deixando o cérebro livre para tarefas mais proveitosas. Para ilustrar seu raciocínio, Bush imaginou um aparelho (chamado de Memex) que permitiria ao pesquisador construir seu próprio acervo de informações associadas, constituído principalmente de microfilmes dos arquivos selecionados que podem vir acompanhados de alguma anotação feita por teleautógrafo. Cada conjunto particular de pesquisas pode ser oferecido a outro estudioso, formando assim um novo entrelaçamento de informações.

Influenciado pelo pensamento de Vannevar Bush, o inventor Douglas Engelbart orientou o seu trabalho pelo ideal de que as máquinas deveriam ajudar o homem a solucionar os problemas cada vez mais complexos do mundo. Em 1962, Engelbart escreveu o relatório “Augmenting Human Intellect: A Conceptual Framework” (Aumentando o Intelecto Humano: Uma Estrutura Conceitual), onde argumentava que a inteligência humana coletiva poderia ser aprimorada com o auxílio de computadores e utilizando uma hierarquia e estrutura do aprendizado. Ainda neste relatório, Engelbart expõe suas ideias sobre a interface do computador e os links associativos presentes em um texto digital (criando assim uma das sementes para o desenvolvimento do hipertexto). A co-evolução do homem e da tecnologia de informática seria essencial para ampliar a inteligência humana e, assim, solucionar os desafios emergentes no mundo.

As obras de Vannevar Bush e Douglas Engelbart foram visionárias ao prever o uso da memória associativa e a interação com o computador como elementos-chaves para o registro e pesquisa das produções científicas. Bush já especulava sobre o aspecto rudimentar dos movimentos mecânicos predominantes no funcionamento de uma máquina (o que depois foi confirmado por Engelbart, que se voltou para os computadores) e sabia da necessidade de aperfeiçoar o registro e a pesquisa dos resultados adquiridos pela Ciência. Contudo, ainda que atualmente seja possível encontrar diversas fontes de informações na internet, facilitando a publicação e o conhecimento de produções artísticas e científicas, o volume de dados que pode ser acessado ultrapassa nossa perspectiva. Dessa forma, há ainda um desequilíbrio entre o que está disponível na rede e o que poderia estar sendo utilizado em pesquisas. É preciso levar em conta ainda o fato que o conhecimento acumulado (e ainda produzido) pela humanidade é extenso demais para se tornar acessível pelos computadores num futuro iminente. Tal situação não deixa de lembrar a disparidade criticada por Bush décadas atrás: nosso acervo de experiências ainda é maior do que nossa capacidade de divulgação.

Engelbart, mesmo antecipando a importância do que viria a ser o hipertexto e da necessidade de uma interface mais dinâmica entre homem e computador (é atribuída a ele a invenção do mouse), não previu o cenário onde a principal rede de inteligência humana, a internet, seria antes coletiva do que comunitária, onde os indivíduos produzem informação seguindo mais parâmetros individuais do que visando um benefício em grande escala. Por isso, sua tentativa de organizar e hierarquizar a inteligência humana em uma estrutura sinérgica provavelmente não seria capaz de abranger os processos comunicacionais da internet, onde as “pessoas construíram seus próprios sistemas de comunicação de massa (…) possibilitando a circulação, mistura e reformatação de qualquer conteúdo digitalizado” (CASTELLS, 2009, p.65). O compartilhamento de conteúdo é massivo, mas não homogêneo nem tão organizado como pretendia Engelbart.

Ainda nessa linha de raciocínio e se deslocando para o campo da comunicação, é possível perceber que a tecnologia digital tornou imprecisa a definição de meio de acordo com estudos clássicos da área, já que as manifestações do sujeito se dão principalmente na linguagem digital. Os papéis de produtor e receptor desse conhecimento digitalizado e compartilhado passam a ser dinâmicos e difusos, o que acaba por influenciar a maneira de como utilizar essa produção disponível.

Os dois autores expressaram suas convicções de que a tecnologia deveria auxiliar o homem a desenvolver sua capacidade neural para, assim, produzir benefícios para a humanidade antes que ela encontre o seu colapso ou sua extinção. Atualmente, a digitalização e os softwares não somente aprimoraram como até substituíram o intelecto humano na operação de diversos setores e atividades. Mesmo que não estejamos diante da iminência de uma guerra em escala mundial, é preciso avaliar quais podem ser as implicações da tecnologia de informação na nossa comunicação e cultura. Se quisermos aumentar nossa inteligência e, a longo prazo, melhorar nossa civilização, como idealizado por Bush e Engelbart, é necessário passar por essas áreas.

Referências

BUSH, Vannevar. As we may think. In: WARDRIP-FRUIN, Noah; MONTFORT, Nick (ed.). The New Media Reader. Disponível em: <www.newmediareader.com>.

CASTELLS, Manuel. Communication in the Digital Age. In: CASTELLS, Manuel. Communication Power. Cap. 2, p. 54-136. Oxford (UK): Oxford University Press, 2009.

ENGELBART, Douglas. Augmenting Human Intellect. A conceptual Framework. In: WARDRIP-FRUIN, Noah; MONTFORT, Nick (ed.). The New Media Reader. Disponível em: <www.newmediareader.com>.

Laboratório de Software Studies (Estudos Culturais do Software) (SWS)