UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Short paper: Interfaces computacionais e experiência do usuário

Data: 5 de maio de 2011

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Patrícia Rossini*

vídeo da apresentação do paper

 

Theodor Nelson e Douglas Engelbart figuram entre os pesquisadores do século XX que determinaram a forma como a informática se desenvolveu até os dias atuais, sobretudo no que se refere à interface. Para ambos, computadores eram vistos como artefatos capazes de aumentar o intelecto e extender a capacidade de trabalho dos seres humanos.

Os artigos que serão avaliados a seguir descrevem processos pensados e executados com o objetivo de fazer do computador uma extensão da mente humana. Para Ted Nelson, era necessário criar uma estrutura de arquivos capaz de acompanhar a criação humana – por meio da produção de texto não-linear e de conexões entre artefatos produzidos. Já Engelbart pensou na otimização da experiência do usuário diante do computador, por meio de periféricos como o mouse.

Interfaces computacionais: arquivamento, hipertexto e periféricos

Em “A File Structure for the Complex, the Changing and the Indeterminate”, Ted Nelson descreve uma estrutura de arquivos que seria capaz de acompanhar a evolução das ideias do indivíduo. Tal estrutura indexaria e conectaria arquivos, textos, fragmentos, comentários e ideias soltas, de forma que o autor fosse capaz de transitar entre arquivos relacionados e visualizar como evoluiu seu pensamento durante a produção textual. A proposta de Nelson era desenvolver um sistema capaz de realizar operações complexas por meio de uma interface simples – que pudesse ser utilizada por usuários leigos -, cuja finalidade era extender a capacidade produtiva do indivíduo, reduzindo o tempo que este gastaria para organizar suas ideias e seus trabalhos no papel.

A estrutura foi chamada de ELF (evolutionary list file) e deveria ser capaz de armazenar um arquivos e suas conexões, de modo que o usuário pudesse comparar e justapor informações. A partir da estrutura ELF, Nelson define a ideia de hipertexto (hypertext): um corpo de material escrito ou pictório interconectado de formas tão complexas que não poderia ser representado no papel. Poderia conter sumários, mapas de conteúdo e suas relacões; além de anotações e notas de rodapé feitas por quem o acessasse[1].

Os sistemas pensados por Nelson se caracterizam pela liberdade dada ao usuário para criação e manipulação de conteúdos. No entanto, à medida em que a informática evolui e torna-se parte do cotidiano, o que se observa é que essa liberdade não existe e a ação do usuário é cada vez mais restrita por interfaces limitadas.

Essa é a crítica que o autor faz em “Libertando-se da Prisão da Internet”. Embora seja chamado de “pai do hipertexto”, Nelson não concorda com o desenvolvimento limitado das estruturas hipertextuais. O modelo atual, de acordo com o autor, limita a ação do usuário diante do computador: os hipertextos possuem links que nos direcionam para outros conteúdos, mas são unidirecionais e não permitem que sejam feitas contribuições à sua estrutura ou às suas conexões

Os sistemas operacionais, para Nelson, são os percursores desse aprisionamento do usuário: estruturas fechadas que não exploram as possibilidades do ambiente virtual, cuja interface gráfica é estagnada, pois se restringe à imitação. Um exemplo é o documento eletrônico, criado pela Xerox Parc: uma representação virtual do papel e, como tal, não explora as possibilidades do computador.

Já o ensaio de Douglas Engelbart e William English é uma demonstração dos resultados obtidos pelos pesquisadores no laboratório de interação homem-computador do Instituto de Pesquisa Stanford e se destaca por apresentar ao mundo a realização de projetos como o mouse, pela concepção do trabalho em computadores ligados em rede e pela ideia do processador de texto.

Os autores desenvolvem um sistema de arquivamento bastante semelhante ao que é usado hoje na maioria dos computadores: arquivos são armazenados em diretórios, e poderiam ser abertos por meio da digitação do nome do arquivo ou pela seleção no display. Ao contrário da estrutura proposta por Nelson, o sistema desenvolvido organizava arquivos hierarquicamente. Engelbart e English pensavam em arquivos flexíveis, para que pudessem ser compartilhados, acessados em máquinas diferentes ou impressos.

No artigo, os autores também apresentam uma primeira versão de um processador de texto que permitia a navegação por marcadores e localizações, além de demonstrarem o funcionamento de computadores ligados em rede antes do surgimento da internet. A rede local montada no laboratório era baseada em um computador, ligado a vários monitores e a equipamentos de decodificação, de modo que fosse possível que cada estação de trabalho fosse independente, embora todas estivessem ligadas ao mesmo equipamento.

Considerações Finais

Os artigos de Nelson, Engelbart e English descrevem ideias e ferramentas voltadas para a experiência do usuário e são acurados em muitas das previsões. Embora os acesso a computadores fosse bastante limitado na época, os pesquisadores vislumbravam possíveis usos para otimizar o trabalho humano através da interface.

A estrutura de arquivos pensada por Ted Nelson deveria ser suficientemente simples de ser utilizada para beneficiar pessoas com menos habilidade para lidar com computadores. Naquele tempo, mesmo com máquinas caras e não direcionadas ao consumidor comum, o pesquisador pensava na acessibilidade de seus sistemas.

Já Engelbart e English, embora tenham sido responsáveis por invenções que representaram grande avanço na interação homem-computador, não demonstraram a mesma preocupação e desenvolveram ferramentas pensando nos usuários mais avançados. No entanto, as estruturas e artefatos criados pelos pesquisadores podem ser vistos como fundamentais para o desenvolvimento da informática, sobretudo no que se refere às interfaces computacionais voltadas para o usuário (modelo what you see is what you get). O mouse e o processador de texto evoluiram nas últimas quatro décadas e são utilizados em praticamente todos os computadores pessoais.

A visão de Nelson dos sistemas operacionais, limitadores da criatividade humana, demonstra o posicionamento do autor perante as práticas das empresas de software e sistemas operacionais, mas não considera que a simplificação destes contribuiu significativamente para a popularização das máquinas devido às interfaces amigáveis e de rápida apreensão. No entanto, a crítica à forma limitada como o hipertexto foi desenvolvido é relevante, uma vez que a estrutura concebida para ser livre, colaborativa e bi-direcional impõe limites à interação com o usuário, embora a tecnologia e o desenvolvimento dos sistemas Web nos dias de hoje fossem capazes de suportar estruturas hipertextuais como foram pensadas pelo autor para aumentar a capacidade de apreensão dos usuários de computador.

 

NELSON, Theodor. A File Structure for the Complex, the Changing and the Indeterminate. In: The The New Media Reader. Cambridge and London: MIT Press. 2003.

____________. Libertando-se da prisão da Internet. Disponivel em < http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2674,1.shl >.

ENGELBART, D.; ENGLISH, W. A Research Center for Augmenting Human Intellect. In: The The New Media Reader. Cambridge and London: MIT Press. 2003.

 


[1] Tradução livre para: “a body of written or pictorial material interconnected in such a complex way that it could not conveniently be presented or represented on paper. It may contain summaries, or maps of its contents and their interrelations; it may contain annotations, additions and footnotes from scholars who have examined it” (NELSON, 2003, p.144)

Laboratório de Software Studies (Estudos Culturais do Software) (SWS)