UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Short Paper: A transformação dos meios de comunicação na era digital

Data: 15 de abril de 2009

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Flávia Medeiros Cocate*

Qualquer postagem na internet pode ser comparada a uma garrafa jogada no oceano, da qual se pode esperar de tudo. A metáfora visualizada pelo autor Manuel Castells exemplifica a abrangência das possibilidades trazidas pela Internet para a comunicação em geral. Perceber as mudanças pelas quais a comunicação está passando em vista da consolidação da era digital é o objetivo desta análise sobre o capítulo “Comunicação na Era Digital”, do livro “O poder da Comunicação”, de Castells.

A Internet possibilitou uma interatividade mais imediata se comparada aos meios de comunicação anteriores à sua existência. Dessa forma, Castells observou a presença de três formas de comunicação: a interpessoal, entre pessoas; a comunicação de massa, considerada unidirecional por visar à massa e não possibilitar muita interação; e “auto-comunicação de massa”, em que emissores e receptores se tornam um só elemento, podendo ser considerados, concomitantemente, mídia e audiência. Para o autor, os três tipos coexistem, interagem-se e se complementam.

A digitalização da comunicação é outro ponto analisado, pois consiste em uma transformação tecnológica com o advento de vários elementos, como softwares avançados, redes de comunicação local e global sem fio, também chamadas de wireless, e a presença de dispositivos portáteis que facilitam o acesso à Internet. Além do avanço tecnológico, há também uma convergência de meios de comunicação para a rede digital. O autor estuda as modificações pelos quais os meios de comunicação tradicionais de televisão e rádio estão passando na adequação à era vigente.

Diante do crescente uso da Internet, faz-se necessária a economia com base em sinergia cuja proposta é integrar as várias plataformas e produtos oferecidos pela rede de comunicação. Castells explica que tal integração entre os meios possibilita a manutenção dessa rede compartilhada e dos investimentos publicitários, atualmente mais direcionados para a área da Internet. A customização da informação também é assinalada pelo autor como uma forma de associação entre o local e o global. Acompanhada a essa segmentação, a globalização da produção local também é citada como uma maneira de se buscar esta mesma junção.

A capacidade do usuário de Internet de produzir seu próprio conteúdo, selecionar os meios e os produtos de comunicação que lhe interessam e interagir na rede pode torná-lo mais individualizado e, ao mesmo tempo, integrado, como mostra os autores Downing (2003), Juris (2008) e Constanza-Chock (2008) (CASTELLS, 2009, p. 58). Estes destacam que os atores sociais e cidadãos individuais ao redor do mundo estão usando a nova capacidade de comunicação em rede para avançar seus projetos, para defender seus interesses e para afirmar seus valores. Vale acrescentar, também, a visão da autora Tubella (2008) ao ressaltar que a facilidade de acesso à Internet torna o consumismo audiovisual especializado e diversificado, direcionando a um universo multimodal, multicanal e multiplataforma. As inúmeras ferramentas oferecidas pela Internet para produção, edição e distribuição de informações e conteúdos faz com que o emissor das mensagens também possa ser visto como um consumidor das múltiplas visões do mundo em que vive. (CASTELLS, 2009, p. 135)

Para Castells, a comunicação de massa tradicional é unidirecional, pois a mensagem é enviada de um para muitos, a exemplo de livros, jornais, filmes, rádio e televisão. Até pode haver interação, por meio, por exemplo, de cartas, ligações telefônicas ou envio de e-mail. Porém, diferencia-se da interação possibilitada pela Internet caracterizada por ser em tempo real, além da capacidade de enviar mensagens de muitos para muitos. O autor considera essa análise como uma nova forma de comunicação, podendo ser traduzida como “auto-comunicação de massa”. É considerada de massa porque um vídeo postado no Youtube, por exemplo, pode chegar a infinitos usuários de Internet. E também é individual pelo fato de a produção de mensagem ser gerada nela mesma, o emissor também se torna receptor, e a recuperação de mensagens e conteúdos da web são auto-selecionados.

A convergência dos meios de comunicação torna indefinidas as linhas de separação entre tais meios, como foi identificado em 1983 por Ithiel de Sola Pool, em seu trabalho pioneiro sobre o panorama comunicacional da época (CASTELLS, 2009, p. 59). Penso que os exemplos abaixo podem demonstrar esta análise feita por Pool, como a possibilidade de assistir à televisão nas telas do computador ou em dispositivos portáteis, ou ainda, a leitura de jornais online. Vale destacar também que a audiência desse tipo de meio pode colocar em risco os investimentos publicitários nesses exemplos citados, televisão e jornal, pois softwares avançados permitem a seleção individualizada da programação.

No cenário da convergência digital, um ponto a ser ressaltado é a segmentação orientada da audiência, com a diversificação da programação. Castells afirma que, embora a televisão ainda seja o meio dominante de comunicação de massa, a tecnologia uniu sua difusão de massa com a difusão para um público limitado, segmentado. No entanto, enquanto esse fenômeno acontece, possibilitado pela nova infraestrutura tecnológica e desenvolvimento de cabo e satélite de difusão, está havendo também uma integração vertical das estações locais de televisão induzidas à padronização de conteúdos sob a aparência de diferenciação realizada pelas redes nacionais de corporações maiores, como acontece nos Estados Unidos, Itália e Austrália, segundo Castells. O mesmo sucede com o rádio cuja integração vertical demonstra uma aparente regionalização, baseada em padrões de conteúdo das corporações. O autor Iwabuchi (2008) refere-se a esse mesmo processo como uma “camuflagem local” (CASTELLS, 2009, p. 90).

Castells afirma que outra revolução da tecnologia da comunicação ocorrida a partir de 1990 foi a explosão da comunicação wireless, trazendo conectividade e banda larga para dispositivos móveis. Estudos comprovam que a maioria das chamadas e mensagens de dispositivos portáteis é feita dentro de casa, trabalho e escola (Katz e Aakhus, 2002; Ito et. al., 2005; Castells et. al. 2006; Katz, 2008) (CASTELLS, 2009, p. 70). Pode-se concluir que as pessoas dão mais importância à sensação de conectividade perpétua, pois utilizam o serviço em locais que, provavelmente, apresentariam a conexão feita por meio da linha de telefone fixo. Apesar da comprovação do fato acima, penso que a conexão realizada através de telefone fixo não seja tão interessante para os usuários, pois limita-o a um espaço físico. Por mais que a conexão com fio seja feita em um ambiente totalmente propício ao usuário, a sensação de liberdade ao conectar de qualquer lugar é o que possibilita o interesse pelo wireless.

Diante do número crescente de usuários conectados, Castells adianta que as receitas de publicidade na internet estão crescendo em média seis vezes mais rápido que as receitas da mídia tradicional. Dois dos mais respeitáveis pesquisadores de publicidade, Opmedia e Bob Cohen, também apontaram essa tendência estimando que, em 2010, haveria mais publicidade na internet do que em rádio ou revistas (CASTELLS, 2009, p. 81). Esse cenário demonstra a possibilidade de as programações dos meios de comunicação tradicionais, como a televisão, rádio e jornal, perderem campo para a publicidade. Porém, uma vez que esses mesmos meios se transferirem para a rede, suas receitas em publicidade avançarão juntas.

Essa já é uma realidade existente, mas, ainda, não feita na mesma velocidade com que evolui a Internet. Porém, na mesma proporção que as tecnologias de comunicação se desenvolvem, grande parte da população mundial não consegue se atualizar ao mesmo tempo, ficando à margem dos avanços da Internet. Por isso, os meios de comunicação devem se atentar para os dois tipos de consumidores existentes: os chamados, coloquialmente, de “antenados” e os “não antenados” na evolução da tecnologia.

Mesmo existindo uma parcela da população ainda não totalmente familiarizada com as possibilidades da Internet, é interessante verificar a que resultados as várias conexões via web estabelecidas no Egito chegaram. A crise que abalou o país no início de fevereiro deste ano teve início com as manifestações realizadas por meio da Internet, principalmente, neste caso, em redes sociais. Como consequência, a população egípcia tomou as ruas para o manifesto contra a ditadura de Hosni Mubarak que já se mantinha no poder há 30 anos. Por pressões populares, pode-se dizer que Mubarak renunciou graças, inicialmente, às possibilidades das ferramentas da Internet (SHANE, 2011). Castells afirma que, ao longo da história, o controle do governo sobre a comunicação foi sendo um domínio que, por vezes, apresentava um viés em nome do interesse público, ou um viés despido de poder do estado, porém o interesse de mercado sempre esteve envolvido em segundas intenções.

Na verdade, bloquear os serviços de Internet e de comunicações pode até ocorrer, como aconteceu no Egito, em que o ditador ordenou tal iniciativa após o início das insurreições da população. Porém, segundo Castells, não se consegue bloquear o envio de trilhões de mensagens de e-mails e milhões de web sites no processo constante da renovação. Para Deibert (2008), a internet está de fato sendo ativamente supervisionada por todos os governos do mundo (CASTELLS, 2009, p. 114). Legislações podem até ser aplicadas pelos governos para regular a Internet, sendo verdade que alguns culpados infelizes serão punidos, enquanto outros irão desfrutar dos caminhos livres e possíveis da Internet. Trata-se da mesma idéia da garrafa no oceano, em que tudo pode acontecer, isto é, não temos como definir seu caminho, muito menos nas mãos de quem a mensagem irá chegar. O melhor seria mesmo conduzi-la até o ponto certo em que desejamos que chegasse. Porém, seu devir é inquestionável.

* Mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora

REFERÊNCIAS

CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. New York: Oxford University Press, 2009.

SHANE, Scott. A internet usada para fazer o mal. Publicado no site do jornal O Estado de São Paulo. Disponível em http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110202/not_imp674162,0.php Acessado em março de 2011.

 

Laboratório de Software Studies (Estudos Culturais do Software) (SWS)