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Breve Histórico da Sociedade e do Evento no Brasil no ano 2000
(Contribuição de Ana Luiza Smolka)

As ideias de Vygotsky começaram a ser difundidas no ocidente nas décadas de 60 e 70, com as primeiras traduções de suas obras em várias línguas (inglês, francês, espanhol). No decorrer da década de 80, as traduções se expandiram e os estudos no âmbito da Psicologia e da e Educação intensificaram-se, sendo que se pôde observar o surgimento de vários grupos de pesquisa em diferentes países, bem como a ampliação de investigação e a produção de trabalhos que assumiam os pressupostos teóricos da perspectiva vygotskiana.
No início dos anos 90, esses pesquisadores e grupos de pesquisa começaram a se organizar para implementar diversas formas de encontro e intercâmbio. Os esforços conjuntos resultaram na promoção da I Conferencia de Pesquisa Sociocultural, realizada em Madri, em 1992, que teve, dentre os principais objetivos: explorar e aprofundar conceitos, princípios, hipóteses, implicações teóricas, metodológicas e práticas da perspectiva em questão: e conhecer e analisar o impacto das ideias de Vygotsky no pensamento contemporâneo.
Em assembléia realizada durante a I Conferência, foi oficialmente constituída a Society for Sociocultural Studies. Decidiu-se pela periodicidade de quatro anos entre as conferências, e também pela realização da II Conferência, em Genebra, em 1996, em comemoração pelo centenário de nascimento de Piaget e Vygotsky.
A partir da Conferência de Madri, em 1992, intensificaram-se os contatos, as visitas, os intercâmbios, as publicações, a formulação de projetos e convênios, nos níveis nacional e internacional. Formalizaram-se vínculos entre pesquisadores e entre instituições. Realizaram-se encontros internacionais, tais como ”Vygotsky and the contemporary human sciences”, em Moscou, 1994.
A II Conferência de Pesquisa Sociocultural teve como objetivos primordiais a discussão das contribuições sobre o desenvolvimento humano nesse século; bem como a discussão de conceitos básicos na perspectiva sociocultural e a análise de formas de intervenção das ciências humanas no mundo hoje.
No manifesto apresentado pelos organizadores da Conferência de Genebra, os autores procuram situar a perspectiva vygotskiana no contexto da psicologia contemporânea e das ciências humanas/sociais em um sentido mais abrangente, analisando os fundamentos epistemológicos de sustentação da teoria e a filiação filosófica das teses. A posição teórica do Manifesto afirma a origem social do pensamento e da consciência e a emergência histórica de instrumentos semióticos, a partir das ideias de Marx e Engels; defende o abandono do dualismo cartesiano e assume o monismo de Spinoza, propondo “considerar seriamente o papel das questões sociais e da linguagem na constituição do ser humano”; reafirma a vigência da crítica de Vygotsky á psicologia e a necessidade de persistir no objeto de sua unificação.
Em torno das ideias de Vygotsky, reuniram-se pesquisadores provenientes de várias áreas, os quais, assumindo de maneiras diferenciadas os seus pressupostos básicos (internalização e mediação das práticas culturais), encontravam pontos de ancoragem teóricos e metodológicos para a realização de suas atividades investigativas. A diversidade dos trabalhos produzidos nas áreas da psicologia, da linguística e da literatura, da educação, da antropologia, tem contribuído para a configuração de um campo interdisciplinar de investigação. Esse movimento na direção da interdisciplinaridade tem, de fato, caracterizado uma certa tendência no âmbito das ciências humanas neste fim de século.
A III Conferência de Pesquisa Sociocultural, realizada no Brasil, no ano 2000, aconteceu em um momento extremamente significativo. A passagem do século convidava, de maneira especial, à consideração da história (história das ideias, histórias das ciências; histórias da vida, narrativas do cotidiano) e a análise das condições atuais de produção do conhecimento. Estas são permeadas pelos modos específicos de organização da sociedade em um contexto globalizado, marcado pela mudança e pela complexificação tecnológica (especialmente na área da informática), pela modificação nos modos de produção, pela transformação nas relações e nos processos de trabalho e nos estilos de vida em geral.
Além disso, a realização da conferência no Brasil coincidiu com a celebração dos 500 anos do país, e isso se tornou particularmente interessante quando se procedeu a uma análise das condições sociais e econômicas no âmbito das relações internacionais. A posição do Brasil no cenário mundial, sua imagem como um país rico e prospero articulada, no entanto, a grandes dificuldades na administração interna e com graves problemas relacionados, sobretudo às condições básicas de vida e à educação, as prioridades, as políticas e as práticas.
Enfocar e estudar o desenvolvimento humano nesse contexto significa indagar sobre essas condições e essas relações nas quais as pessoas se constituem como sujeitos participantes na história. Significa retomar algumas (velhas?) questões e formulá-las a partir das novas condições, buscando o enfrentamento de problemas emergentes.
Na condição e seleção do Brasil para sediar a conferencia, foram levantados argumentos como: a significativa participação de pesquisadores brasileiros nas conferencias anteriores; a contribuição dos trabalhos de vários grupos de pesquisa no Brasil; os modos de abordagem dos problemas por eles pesquisados.
A III Conferencia foi sendo organizada a partir de três eixos temáticos – Linguagem, Cultura e Conhecimento – três focos de discussão teórica e metodológica, pesquisa empírica e visão prospectivo-participante relevantes na perspectiva histórico-cultural. Pretendia-se indagar sobre o estatuto da linguagem, da cultura, da história, nas investigações sobre o conhecimento e o desenvolvimento humano, privilegiando a pesquisa nas práticas cotidianas, discutindo formas de investigação e formas de intervenção.
Assim sendo, os organizadores da III Conferência de Pesquisa Sociocultural apresentaram como objetivos:

• Aprofundar conceitual e teoricamente questões relacionadas à perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano;
• Analisar formas de participação nas práticas sociais, destacando particularmente algumas condições destas práticas, como o impacto do desenvolvimento tecnológico e dos processos educacionais;
• Criar um fórum de discussão interdisciplinar;
• Intercambiar formas de conduzir pesquisas empíricas, envolvendo diferentes contextos, discutindo pressupostos e resultados;
• Refletir sobre as possibilidades de expandir as investigações, chegando a formular propostas de implementação de pesquisa cooperativa e formas de atuação em nível nacional e internacional.

Surgido a partir de 2002, a ISCAR Brasil é um grupo de trabalho da ISCAR, formado por pesquisadores e praticantes que têm como foco de interesse reflexões com base em uma perspectiva social, histórica e cultural, como desenvolvida por Vygotsky, Leontiev, Luria e seguidores. O grupo brasileiro teve como representante a Profa Dra Ana Luiza Smolka, por dois períodos, seguida pela Profa. Dra. Fernanda Liberali, como representante internacional, e com as Profas. Dras. Elaine Mateus e Maria Cristina Damianovic, como secretárias locais, e atualmente conta com a presidência da profa. Marília Ferreira da USP.
Entre os objetivos da sua criação destacam-se:
• Criar espaço para a discussão teórico-prática entre pesquisadores vygotkianos brasileiros;
• Promover o intercâmbio de atividades de pesquisas e demais aspectos do interesse desses pesquisadores;
• Ampliar o contato entre pesquisadores de áreas específicas distintas (Linguística Aplicada, Psicologia, Educação, Matemática, dentre outros);
• Permitir a discussão de tópicos relevantes e a troca de informações sobre palestras, cursos, visitas, dentre outras;
• Realizar consulta à comunidade ISCAR Brasil sobre temas em debate pela comissão internacional;
• Promover o reconhecimento e visibilidade de pesquisas realizadas no Brasil;
• Divulgar livros, teses, pesquisas em diferentes meios, inclusive nas newsletters da ISCAR;
• Desenvolver lista de discussão para contatos entre seus membros.

Desde sua organização, um conjunto de ações já ocorreram, entre elas:

• Criação da lista de discussão;
• Criação de página eletrônica;
• Divulgação de eventos e informações na área;
• Divulgação das decisões do comitê internacional;
• Oferecimento de mini-cursos conferências e palestras;
• Organização e manutenção da Lista de Discussão: brasil@lists.iscar.org;
• Organização e manutenção da Página Eletrônica ISCAR Brasil: http://iscarbrasil.wordpress.com/;
• Organização do Fórum Nacional.

(Fonte: Atualizado do Caderno de Resumos do I Fórum Nacional Iscar Brasil: por um mapa dos sentidos da Teoria da Atividade e Pesquisa Sócio-Histórico-Cultural nos grupos de pesquisa do Brasil).

II FÓRUM ISCAR BRASIL