Pesquisador busca desvendar como nascem descobertas e novas ideias

(Foto: Caique Cahon)

Professor da Universidade de Helsinki, na Finlândia, Sami Paavola, discutiu razões, processos e características de descobertas e novas ideias (Foto: Caique Cahon)

“A inspiração vem de onde?”, pergunta o cantor Ney Matogrosso na música “Transpiração”. A própria canção sugere origens que vão desde uma carta, noites e risos como também da “medida exata, do gesto preciso”. Pesquisadores também buscam saber precisamente o caminho que leva cientistas a realizarem descobertas. E artistas também querem destrinchar o processo criativo. O que levou grandes mestres a romperem padrões estilísticos, cientistas como Charles Darwin a elaborar novas teorias, ou mesmo outras pequenas descobertas e inovações do dia a dia?

Professores e alunos do grupo Iconicity, do  Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF,  que investiga desdobramentos e influências da criatividade em vários domínios do conhecimento, convidaram o professor da Universidade de Helsinki, na Finlândia, Sami Paavola, doutor em filosofia da ciência, para discutir razões, processos e características de descobertas e novas ideias. Paavola é um dos palestrantes do seminário “Criatividade e Inferência Abdutiva” que ocorre desde terça-feira, 17, e termina nesta quinta, 19, no auditório do IAD.

As respostas do pesquisador finlandês para se chegar a descobertas? “Não há uma fórmula, um manual”, adverte Paavola na palestra “Os processos de descoberta podem ser entendidos por meios filosóficos ou lógicos?”. A investigação baseia-se principalmente nas pesquisas do filósofo e matemático Charles Peirce (1839-1914), também estudado pelo grupo de pesquisa, liderado  pelo professor da UFJF João Queiroz.

Peirce defendeu a abdução como terceiro método de inferência, de produção lógica, além da indução e da dedução (leia mais abaixo). Nesse contexto, abduzir significa sugerir causas para um determinado tema a partir de pistas, características, que se somam em um passo a passo. Esse processo envolve intuição e lógica e também está próximo à percepção. Sami Paavola compara a modalidade da abdução ao trabalho de um detetive, que coleta pistas, compara provas, rejeita outras, mas também guia-se pela intuição, por um instinto, a fim de desvendar os motivos de algo maior.

Estratégias

(Foto: Caique Cahon)

Professor acrescenta que para as descobertas é preciso “transcender a tradição, ser ou tornar-se realmente apto a quebrá-la, entender aspectos anteriores sobre o tema, destacar realizações pessoais e processos sociais e culturais envolvidos na pesquisa” (Foto: Caique Cahon)

A abdução é, de forma geral, adotada quando se inicia o estudo de um campo novo e por que não de uma descoberta ou inovação artística? “Há alguma racionalidade em ter novas ideias? Pode haver alguma lógica da descoberta ou mesmo da criatividade?”, questiona Sami. O palestrante apontou sete estratégias de abdução que levaram a descobertas, citando exemplos relacionados a Charles Darwin (1809-1882), autor da teoria da evolução das espécies:

1 – pesquisar algum fenômeno surpreendente, anômalo ou perturbador e observações. Enfatizar aspectos anormais é um caminho para motivar a busca por hipóteses e casos potencialmente novos. Darwin não deixava exceções passarem despercebidas, e a pesquisa precisaria ser motivadora;

2 – observar detalhes, pequenas pistas e tonalidades. Não apenas as anomalias explícitas podem prover material para novas explicações, mas também pequenos detalhes. Intuição, palpites e insights são tão importantes quanto os dados para incentivar o processo. O cientista inglês prestava atenção a aspectos que poderiam ser menos importantes para a maioria das pessoas, mas que trouxeram contribuições para seu trabalho;

3 – buscar continuamente hipótese, notando seu status. Conforme o professor, “descobridores” faziam pesquisas continuamente e tinham em mente que as teorias existentes poderiam ser revistas. Seria preciso nutrir palpites e cultivar  a dúvida. Darwin não ficava fixado às teorias existentes como verdade, mantinha a “mente aberta” a novas possibilidades e até para desistir de sua premissa inicial;

4 – objetivar encontrar quais tipos de explanações ou hipóteses podem ser viáveis para restringir a busca a um modo preliminar. O investigador usa métodos experimentais para limitar a busca por certos tipos de explicações.

5 – objetivar encontrar explicações (ou ideias) que podem ser explicáveis ou demonstradas como cabíveis, plausíveis;

6 – procurar padrões e conexões que se encaixam para criar uma unidade razoável, racional. A meta de encontrar hipóteses que põem todas as pistas e informações relevantes como parte de um padrão promissor fornece direções para a investigação;

7 – prestar atenção aos processos de descoberta e às diferentes fases e elementos da pesquisa. O criador da teoria da evolução queria explicar tudo que via na juventude e escreveu um diário em que relatou detalhes de seu processo de descoberta.

Doutor em filosofia com foco em métodos de aprendizado e de investigação científica, Sami Paavola acrescenta ainda que para as descobertas é preciso “transcender a tradição, ser ou tornar-se realmente apto a quebrá-la, entender aspectos anteriores sobre o tema, destacar realizações pessoais e processos sociais e culturais envolvidos na pesquisa”.

Para o professor João Queiroz, a vinda de pesquisadores de áreas que, a princípio não se relacionam com a arte, instigam a reflexão sobre como metodologias podem ser aplicadas na área. Colabora também para desmistificar a percepção de que ideias ou criatividade surgem do nada, são produtos apenas do acaso, de algo obscuro. Ela pode ser ocasionada pela junção de processos metodológicos e de inspiração.

Deduzir, induzir

Charles Peirce inaugurou o método da abdução, adicionado às já descritas dedução e indução. Na dedução, o indivíduo parte de uma teoria geral para classificar algo particular, incluindo-o nessa perspectiva ampla. Por exemplo, de forma geral, todo metal é bom condutor de eletricidade. Ao se deparar com um tipo de alumínio, a pessoa o incluirá nessa teoria geral, de poder conduzir cargas elétricas.

Pela indução, parte-se de um caso particular para procurar uma definição mais ampla, a fim de explicá-lo. A elaboração da teoria é o ponto final. Por exemplo, a partir de experimentos clínicos, percebe-se a reação de animais a determinada dosagem de um medicamento em teste. Logo, chega-se à conclusão mais ampla de aceptabilidade da droga no organismo da espécie estudada.

Simpósio

Aberto ao público e sem necessidade de inscrição, o simpósio “Criatividade e Inferência Abdutiva – uma Abordagem Peirceana” traz nesta quarta-feira, 18, nova palestra com o professor Sami Paavola sobre abdução, até 17h. Nesta quinta-feira, 19, o pesquisador finlandês volta a conversar com os participantes, que terão também mais duas palestras com membros do grupo de pesquisa Iconicity sobre “Dança, Criatividade e Artefatos Cognitivos”, com a aluna de pós-doutorado em Estudos Literários na UFJF Daniella Aguiar, e “Tradução Gráfica Criativa de Gertrude Stein”, com Mariana Salimena, estudante de graduação em Artes e Design, também na UFJF.

Confira programação do simpósio

Outras informações:

(32) 2102-3350 (Instituto de Artes e Design)

Iconicity  – Grupo de Pesquisa

sami.paavola@helsinki.fi

Artigo de Sami Paavola sobre passos e fases da abdução

 

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