Especialistas e estudantes da UFJF falam sobre o papel da juventude nos protestos

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Milhares de jovens voltaram às ruas nesta quinta-feira, 20, em Juiz de Fora (Fotos: Vanessa Queiroz)

O uso da internet como ferramenta de troca de informação, debate e expansão de discussões sociais e políticas não pode ser considerado algo totalmente novo. Estudos de áreas como Ciências Sociais e Comunicação dão conta do potencial dos espaços na web junto às questões propostas pela sociedade; e o que se tem visto nos últimos dias, a partir dos protestos coletivos por todo o país, permite novos olhares sobre o ciberativismo, principalmente entre os jovens.

Em Juiz de Fora, milhares de pessoas reuniram-se na última segunda-feira e nesta quinta-feira, 20, para manifestar a insatisfação e o desejo de mudança em relação a uma série de questões. O movimento “Junta Brasil”, criado no Facebook especificamente para o protesto na cidade, reuniu em seu segundo dia cerca de 15 mil juiz-foranos, número três vezes maior que o do primeiro dia, quando aproximadamente cinco mil tomaram as ruas. Grande parte dos (muitos) cartazes e das vozes que gritavam reivindicações era de jovens estudantes, que expuseram de forma pacífica, nas principais vias do Centro de Juiz de Fora, discussões originadas no espaço virtual.

Para o professor da Faculdade de Comunicação Wedencley Alves, a principal demanda dos jovens que participam do movimento é a necessidade de “ser ouvido”. “No atual cenário, os jovens ou são criminalizados (os pobres) ou são medicalizados (classe média). O espaço de constituição de sujeito do discurso é mínimo. Isso vai produzindo uma demanda em expansão, até chegar a uma reação em cadeia, graças à expressividade represada.” Ainda de acordo com o docente, o movimento não deve ser caracterizado apenas a partir da “indignação com os transportes”, ou “demandas sociais”. “Trata-se do desejo de ser ouvido. E isso é universal. Há erros claros na atribuição destes eventos no Brasil a questões eminentemente brasileiras. São questões das sociedades contemporâneas.”

De acordo com a professora da Faculdade de Comunicação, Iluska Coutinho, as redes sociais privadas têm sido mais eficientes do que as mídias tradicionais nesse contexto. “Os meios de comunicação massiva têm acessado as redes, ao pedir que o público se manifeste e contribua com opiniões ou por meio de hashtags, , já que estão percebendo um diálogo maior nessas redes”.

Novas demandas

A principal demanda dos jovens que participam do movimento é a necessidade de “ser ouvido” (Foto: Thaís Pires/Arquivo pessoal)

A principal demanda dos jovens que participam do movimento é a necessidade de “ser ouvido” (Foto: Thaís Pires/Arquivo pessoal)

Professora da Faculdade de Serviço Social, Cristina Simões Bezerra ressalta que a presença expressiva de estudantes nas manifestações nacionais é compreensível e saudável. “É legítima a vontade de construir novas demandas, contrariando a visão a respeito do jovem desta geração, de que ele era apático, alienado, sem participação”. A docente também acredita que a juventude não é contra a política, mas demonstra uma insatisfação com os instrumentos políticos e seus representantes. “A crise das instituições governamentais, como os partidos, é resultado de um processo. Os protestos, de imediato, apontam para uma decepção com esses formatos. Mas devemos considerar que é uma ação no calor da hora. Só com o desenrolar da história verificaremos os reflexos disso”.

Estudantes confiam na continuação do debate sobre polêmicas nacionais

A despeito dos comentários sobre a multiplicidade de propostas levadas às ruas, os estudantes declaram estar fazendo parte de uma fase única na história brasileira. Aluna do quarto período da Faculdade de Direito, Michelle Mendes afirma que não importa a posição política do indivíduo, “se ele compartilha a revolta diante de tantos problemas estruturais do país, ele é bem vindo”. Ela lembra que o último grande movimento social que o Brasil viveu foi o dos “Cara-Pintadas”, mas aponta a importância das redes sociais como diferencial nos protestos atuais. “Durante algum tempo, viu-se um número grande de indivíduos insatisfeitos e acreditou-se que a indignação ficaria estagnada na web. Mas o efeito foi contrário: o espaço on-line uniu as pessoas e mostrou que elas não estão sozinhas nessa luta. Além disso, foi possível que muitas questões que antes eram discutidas apenas nas áreas específicas sejam, agora, discutidas por todos, o que é ótimo porque são polêmicas e necessitam de um amplo e verdadeiro debate para que sejam, ou não, aprovadas. É essa a legitimidade que se espera em uma democracia”.

Formanda do curso de Ciências Biológicas e participante ativa das manifestações, Gabriela Menezes concorda e espera que o levante destas discussões desperte nos brasileiros não só a vontade de ir para a rua, “mas de participar ativamente da política de seu país, e passar de números em uma passeata para números em assembleias públicas. Que as reflexões propostas sejam uma faísca também para a mudança interna de percepção e de atitudes de todos nós”.

Assista ao programa Recortes Possíveis, com o cientista político e professor da UFJF Raul Magalhães:


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Cientistas políticos da UFJF analisam manifestações nas ruas

Outras informações: (32) 2102-3602 (Faculdade de Comunicação)
                                           (32) 2102- 3569 (Faculdade de Serviço Social)

Vanessa Queiroz  e
Renan Ribeiro – bolsistas de Jornalismo
Os textos são editados por jornalistas da Secom

 Atualizada às 20h15

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