Entrelinhas com o deputado federal Júlio Delgado sobre o processo de criação do Jardim Botânico

Deputado Júlio Delgado na coletiva de imprensa sobre o anúncio da criação do Jardim Botânico

Deputado Júlio Delgado na coletiva de imprensa sobre o anúncio da criação do Jardim Botânico

“SE MUITO VALE O JÁ FEITO, MAIS VALE O QUE SERÁ”. O trecho da música de Milton Nascimento traduz, na essência, o que representa para a cidade de Juiz de Fora a aquisição do Sítio Malícia pela Universidade Federal (UFJF). A luta vitoriosa conjugou uma junção de forças políticas e ambientais voltadas para um único objetivo, a criação do Jardim Botânico da instituição. Os capítulos finais dessa história foram acompanhados, particularmente, pelo deputado federal Júlio Delgado (PPS), que, na solenidade de assinatura do protocolo de intenções, realizada no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), no dia 3 de agosto, registrou parte deste trabalho para os anais da história da cidade.

Dircom – Como começou essa parceria para aquisição do Sítio Malícia?

Júlio Delgado – Em 2007, nos meses de junho, julho e agosto, Juiz de Fora vivia o fervor da eventualidade da construção de um condomínio no sítio Malícia na Mata do Krambeck. Já tinha passado no conselho municipal e sido aprovado em outros órgãos também do município e no ministério público ambiental. Tudo apontava no sentido de que fosse construído um condomínio no Sítio Malícia.

Dircom – O condomínio iria abranger qual área?

Júlio Delgado – Todo mundo aqui sabe que quando a gente fala da Mata envolve três áreas: o Retiro Novo, o Retiro Velho e a área que estava sob domínio particular, o Sítio Malícia. Já estava tudo autorizado, tudo viabilizado para que fosse construído ali um condomínio.
Havia um tumulto político na cidade em função da conturbada gestão do ex-prefeito. A gente vivia aquele clima complicado, e como é que nós poderíamos trabalhar para adquirir o Sítio Malícia sem que tivesse intervenção ou participação da Prefeitura? Pois a prefeitura poderia ter feito ali, no momento que ela teve chance, ou autorizado, através do órgão o funcionamento, um parque florestal e não o fez. E a Prefeitura vivia um momento político em que se colocássemos um recurso orçamentário naquela área, talvez nós perdêssemos todo o dinheiro e não teríamos a garantia de conquistar finalmente uma área preservada para toda Juiz de Fora.

Dircom – Como foi a primeira conversa com o reitor Henrique Duque sobre o assunto?

Júlio Delgado – Nossa conversar aconteceu em uma dessas idas do Reitor à Brasília para tratar das questões do Hospital Universitário e de obtenção de recursos para a Universidade. Foi quando eu falei: “Reitor, porque que a Universidade não adquire essa área? Por ser um ente federativo ligado à União, não tem os impedimentos do poder público municipal”. Por exemplo, se nós tivéssemos investido dinheiro pela Prefeitura naquele momento o recurso não sairia, o recurso estaria perdido porque a Prefeitura estava inadimplente. Basta lembrar que somente esse ano, com a votação da prorrogação da dívida com o INSS, é que nós tivemos a possibilidade de liberação de recursos federais novamente para o poder público municipal. A Prefeitura não podia receber recursos. Agora, imagina se nós colocássemos R$ 5 milhões ou R$6 milhões? Qualquer valor para a Prefeitura, chegava ao final do ano, do ano seguinte do orçamento aprovado, o recurso seria perdido por falta de certidão negativa e aí não seria empenhado, dificuldade que a Universidade não teria, por ser vinculada à União e ao Ministério da Educação.
Eu disse ao Reitor: “Vamos transformar tudo em um jardim botânico e, se o senhor bancar, passa a ser da Universidade, passa a ser da União, passa a ser da sociedade, passa a ser de Juiz de Fora e passa a ser órgão não só de defesa ambiental. Com a questão de estudo, ciência e evolução, com a melhoria da qualidade de atendimento de quem é da área no setor da Universidade Federal”. No mesmo momento ele falou assim: “Olha, eu assumo, eu só não tenho recursos para fazer essa grandiosidade, que seria um sonho para nós e uma conquista para nós todos”. Aí eu falei assim: “Então eu vou fazer minha parte, eu vou correr atrás do dinheiro e tentaremos viabilizar depois a forma prática, operacional de recursos para isso”.

Dircom – A Audiência Pública realizada na Câmara Municipal foi importante?

Júlio Delgado – A Audiência Pública, convocada pelo vereador José Sotter Figueirôa, foi importantíssima. Nessa nova audiência pública já tinha a mobilização dos setores da sociedade, ligados a organismos ambientais, na defesa do sítio Malícia. O deputado Fernando Gabeira, eleito pelo Rio de Janeiro, mas que é nosso conterrâneo, voluntariamente, se dispôs a participar da audiência. Eu o recebi na minha casa e num diálogo franco e aberto recebemos a visita de parte dos proprietários do Sítio Malícia que nos convidaram a conhecer a área e o projeto sobre o condomínio que iria ser construído lá.
Antes de irmos para a audiência fomos ao local e dissemos “é muito bonito, é muito bom, o empreendimento é belíssimo e quem dera tivéssemos condições de morar neste local, mas isso aqui poderia ser de toda Juiz de Fora, servir para estudos, se tornar uma área ambiental”. E aí o Fernando Gabeira sugeriu que a área poderia ser transformada em um Jardim Botânico e os proprietários, então, se mostraram abertos, caso não fosse possível construir o condomínio, a negociar a permuta ou alienação da área, o que acabou se concretizando.

Dircom – Como foram as negociações para conseguir os recursos?

Júlio Delgado – Fomos para a audiência pública e Fernando Gabeira se comprometeu a colocar recursos e conversar com os demais integrantes de bancada do Partido Verde para conseguir mais emendas parlamentares. Ao mesmo tempo, eu e o Reitor saímos atrás dos deputados da região, com o compromisso de que o Reitor trabalharia para conseguir uma forma de complementar os recursos das emendas que viessem a ser liberados. Os deputados têm R$8 milhões em emendas para atender a todo o estado e os compromissos individuais precisam ser respeitados.

Dircom – Quem ajudou?

Júlio Delgado – Gabeira se dispôs a colocar R$500 mil e após uma conversa com o Ministro das Comunicações, Hélio Costa, ficou combinado que o senador Welligton Salgado também destinaria o mesmo valor. Os deputados da região, Luiz Fernando Faria, Mário Heringer e Jorge Hilton se disponibilizaram a destinar entre R$100 mil e R$200 mil.

Dircom – Quanto foi arrecadado e como foi viabilizado o repasse para UFJF?

Júlio Delgado – Os recursos totalizaram R$1,8 milhão e daí pra frente iniciou-se um trabalho de articulação interna através do meu gabinete e do Reitor Henrique Duque. Foi preparado um espelho das emendas de todos os parlamentares para ser votado. Nesse momento surgiu o impasse sobre onde alocar os recursos para a UFJF adquirir o Sítio Malícia.

Dircom – Qual foi o encaminhamento final?

Júlio Delgado – Após consultas técnicas, a resposta foi a de que nenhum outro órgão, nem Ministério do Meio Ambiente e nem a recém-criada fundação Chico Mendes, poderia receber esses recursos. A solução foi mesmo alocá-los na própria Universidade, na rubrica de investimentos com o compromisso do Reitor de que seu fim seria mantido, ou seja, a aquisição do sítio malícia.

Contribuiu para essa decisão o bom relacionamento do Reitor com as autoridades em Brasília e o fato de que uma universidade pública tem mais facilidades para receber recursos públicos do que prefeituras e organizações não-governamentais. A partir dessa decisão fizemos o espelho para o Ministério da Educação com toda argumentação sobre a importância de se criar numa área urbana, a maior reserva de mata atlântica do mundo. Isso é um fato que vai ter uma conotação para a história de Juiz de Fora, para o futuro de nossa cidade e do Brasil e, talvez, do mundo. Temos uma área que será preservada até quando for a vontade não dos homens, mas de Deus.

Dircom – Qual o seu sentimento por ter participado desse processo?

Júlio Delgado – Ter lutado dentro do Congresso por isso é uma honra muito grande assim como é gratificante ter participado da concretização desse sonho, que foi alimentado por muita gente e que nós abraçamos. E que, hoje, através da UFJF, Juiz de Fora conquista. Parabéns ao Reitor pelo dinamismo e pela forma que recebeu e transformou os recursos e à comunidade universitária que soube entender a dimensão e fazer a transformação para que as negociações chegassem a um final feliz. Fico honrado e emocionado de ter participado desse capítulo da história.

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