UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Às margens

Posted on 28 janeiro 2019 by revistaa3 in Sem categoria

Por Carolina Nalon, Lais Cerqueira e João Chiavegatto
Imagens: Maria Otávia Rezende e Gabriel Duarte

 

 

No último dia 25, uma barragem de rejeitos de minério da Vale S/A se rompeu em Brumadinho (MG) na Mina Feijão. A Barragem I não estava em operação, possuía 11 milhões de metros cúbicos de rejeito, que tomaram a sede administrativa da empresa e a comunidade de Vila Ferteco. A tragédia é a maior deste tipo em número de mortes – 58 confirmadas até o momento e cerca de 300 desaparecidos.

O fato remete diretamente ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Em 5 de novembro de 2015, 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineradora Samarco atingiram comunidades da Bacia do Rio Doce, de Mariana (MG) até Linhares (ES), deixando 19 mortos. Em setembro de 2018, a equipe da Revista A3 esteve no local do acidente para acompanhar pesquisas da UFJF na região e entender os impactos após três anos da tragédia. O material compõe um dossiê especial a ser publicado durante este mês.

 

“Você tem um e-mail?”, pergunta o encarregado de controlar o acesso à Bento Rodrigues. Sandro responde que não, não tem e-mail de autorização e nem precisa. “Sou dono disso aí, são minhas terras”, irrita-se e sai do carro para retirar o cone que impede a aproximação das pessoas do distrito. Sandro Sobreira foi o guia desta reportagem na visita às ruínas da comunidade devastada.

“Já estou acostumado”, diz, querendo esconder a indignação que ainda lhe resta após três anos de luta pela reparação. Nascido e criado em Bento Rodrigues, ele possuía um terreno de dez mil metros quadrados no local – não restou nada da casa, da mercearia e da pequena loja de brinquedos em nome da família. Atualmente, Sandro mora em Mariana com a mãe de 76 anos, em uma casa alugada pela Samarco. O tio Henrique, seu vizinho em Bento, também foi deslocado, “mas morreu em 2016, entrou em depressão e não aguentou”, conta o sobrinho.

De acordo com Sandro, os cerca de 600 moradores do distrito tiveram cinco minutos para saírem correndo na tarde daquele 5 de novembro. “Nossa sorte foi que o ônibus estava no ponto perto da escola, e foi todo mundo entrando”. Ninguém avisou. Não havia sirene, rota de fuga, treinamento ou carro da empresa para resgate das pessoas. Nas ruínas, hoje, placas novas indicam a cada esquina para qual direção correr. “Deve ser para os bichos, né”, ironiza o morador. As Hilux agora também passam, a todo tempo, monitorando o território vazio.

Desde o rompimento da barragem, o acesso é controlado pela Samarco por questões de segurança, em acordo firmado com a Prefeitura de Mariana, Defesa Civil e Ministério Público de Minas Gerais. A entrada dos moradores só foi permitida quase um ano depois e gerou grande frustração na comunidade. “A gente não podia entrar, mas ladrão eles deixavam, saiam com caminhão cheio”, refere-se Sandro aos saques feitos nas casas da parte alta do lugar, não atingida pela lama. Estão sem portas, janelas, telhas e totalmente vazias por dentro.

Alguns dos moradores se juntaram para reformar duas dessas casas. Lá eles pernoitam quando vão às festas tradicionais como a do padroeiro São Bento e de Nossa Senhora de Mercês ou mesmo para comemorar o aniversário de algum conterrâneo. As portas da cidade fantasma foram abertas com a morte da irmã de Sandro, Suely Sobreira, que faleceu de doença renal nove meses após o rompimento da barragem e foi enterrada no local. No grupo de Whatsapp chamado “Loucos pelo Bento” eles se articulam em relação às pautas de negociação, compartilham memórias e afetos.

A história de Sandro Sobreira é parte do coro de vozes ao longo da Bacia do Rio Doce que grita por justiça. A tragédia se refaz cotidianamente diante do desafio em reparar os danos dos milhares de atingidos e o número total deles cresce a cada dia.

Em Mariana, onde o processo corre na própria comarca, separado do restante da bacia, são cerca de 3 mil pessoas cadastradas. A cidade dispensou o formulário apresentado pela Fundação Renova, responsável pelas ações de reparação das áreas e comunidades atingidas. O processo é feito, então, por meio de outro formulário, criado e aplicado pela assessoria técnica dos atingidos, a Cáritas.

De Bento até a foz do rio Doce, no Espírito Santo, foram realizados cerca de 30 mil cadastros até agora. O montante a ser gasto com ações de reparação e compensação chega a R$ 4,5 bilhões. Mas não há possibilidade de reconstrução de Bento – os moradores também não querem, preferem que o lugar seja tombado, assim como o segundo distrito atingido pela onda de lama, Paracatu de Baixo. Os dois já tiveram seus planos de reassentamento aprovados e, no caso de Bento, as obras já começaram.

Os moradores dessas duas localidades agora finalizam, individualmente, as negociações com a Renova sobre o lote ou a futura casa. Uma das exigências da comissão de atingidos é a preservação do traçado dos distritos e o posicionamento de cada casa.

Para Sandro Sobreira, no entanto, esta questão não é fácil de ser resolvida. Ele enfrentou alguns problemas relacionados à disposição de seu terreno e à posição dos vizinhos. Segundo a assessoria técnica da Cáritas, essa tem sido uma queixa recorrente entre os atingidos. Apesar de participarem de extensas reuniões de levantamento das expectativas, os projetos das residências nem sempre batem com a descrição dos moradores.mapa_rio_doce_estatico

Paracatu de Baixo

A lama rapidamente tomou o rio Gualaxo do Norte e chegou ao distrito de Paracatu de Baixo, duas horas e meia após o rompimento da barragem. A comunidade, localizada a cerca de 30km de Mariana, conseguiu ser avisada por um helicóptero dos bombeiros que pousou no campo de futebol, orgulho dos moradores locais. Os oficiais avisaram que todos deveriam correr em direção aos morros, não daria para pegar nada além de documentos. Em poucos minutos, as casas, a escola, a igreja, tudo foi coberto de lama.

Três anos depois, algumas pessoas que moravam na parte mais alta da cidade ainda estão lá – não se adaptam ao estilo de vida urbano. “Tem gente que não consegue usar sapato, por exemplo”, conta Luzia Motta Queiroz, integrante da Comissão de Atingidos. O clima hostil de Mariana também não facilita: “na escola, eles chamam os meninos de pé de lama”. 

Segundo Luzia, a maioria das pessoas do distrito é analfabeta ou semianalfabeta e, além da dificuldade de entendimento em relação ao processo judicial e toda burocracia envolvida, há traços culturais muito fortes. “A única coisa que sabem fazer é viver, plantar e criar. O homem tem a palavra e a mulher não pode falar nada, mesmo que o marido esteja errado. E filho não manda em pai.”

Com o passar do tempo, no entanto, eles aprenderam mais sobre os trâmites, passaram a registrar todas as conversas e decisões por ofício, com apoio da Cáritas. “A surpresa dos poderosos foi que eles acharam que todo mundo iria negociar qualquer coisa. Mas, não.” Os moradores têm o promotor Guilherme de Sá Meneghin como referência e confiam no trabalho dele diante da ação coletiva. Luzia, contudo, acha que Bento Rodrigues acabou recebendo mais atenção, pois é a “vitrine” da Samarco e, assim, a luta das pessoas de Paracatu de Baixo por reconhecimento tem sido particularmente difícil.

Barra Longa

Exceto pelas marcas nos coqueiros às margens do Gualaxo, não existem mais sinais dos estragos causados pelos rejeitos em Barra Longa. A cidade foi uma das poucas na Bacia do Rio Doce a ter seu centro urbano atingido e, logo nos meses seguintes ao desastre, foi reconstruída pela Samarco. A praça, submersa na lama e nos escombros, está nova em folha assim como os prédios ao redor, o parquinho e a academia a céu aberto instalada pela empresa.

Ao contrário de Mariana, Barra Longa não possui relação com a atividade mineradora. Os cerca de 6 mil moradores da cidade encontram seu sustento nos pequenos comércios, no artesanato e nas fazendas do entorno. De acordo com a coordenadora da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas), Verônica Medeiros Alagoano, a presença das empresas pode ser uma novidade incômoda para os moradores.

“O povo entende que a Fundação Renova é a Samarco. Na prática, é isso o que acontece, porque, apesar desse escopo de fundação, o que a Renova faz é blindar as empresas e, ao invés de mediar a reparação, acaba sendo o impedimento.” A principal queixa refere-se ao conceito de atingido – parte dos moradores acredita que toda população sofreu os impactos do rompimento da barragem, já que as obras para tirar a lama e reconstruir o local alteraram negativamente a dinâmica da cidade.

Já a Renova não enxerga dessa forma e, segundo Verônica, traz uma visão muito limitada do processo, não contemplando avanços registrados em situações semelhantes no Brasil e no exterior. Assim, os primeiros meses da assessoria em Barra Longa, em meados de 2017, foram dedicados ao levantamento das demandas dos moradores, reunidas em um documento. A maioria dessas pautas, conta Verônica, ainda não foram atendidas, mas o conceito de atingido virou campo de disputa. “A Renova entende que ela é o grande sujeito desse processo, a grande juíza das questões. O que nós percebemos nos territórios é que não existe nada, nem ninguém, acima dela.”

De seu jardim decorado com orquídeas, a artesã Maria Aparecida Lanna avista a passagem do Gualaxo. Naquela madrugada de 2015, porém, a cena bucólica se desfez, a lama cobriu seu quintal e quase carregou seu carro. Na casa ao lado, sua sogra de 82 anos ficou ilhada por vários dias. “Meu marido subia em uma escadinha para conversar com ela e nós ficávamos tomando conta da altura da lama. Se subisse mais, a gente derrubaria o muro para resgatar. E eu estava com minha mãe idosa aqui. Um médico da Defesa Civil nos disse explicitamente: ‘se vocês quiserem sua mãe até o Natal, vocês tem que tirar ela daqui’, por causa da poeira.”

A coordenadora da Aedas explica que, nos esforços para remover a lama do centro da cidade, durante as primeiras semanas após o desastre, a Samarco depositou os rejeitos em diversos pontos nas redondezas de Barra Longa. “Quando essa lama chega no centro da cidade, a Samarco não sabe o que fazer com isso. E, com ações muito impensadas, ela levou esses resíduos para outros lugares, onde não tinha lama. Nos morros, no Parque de Exposição…”. Na verdade, três anos após o desastre ainda não há um consenso sobre o que fazer com os rejeitos, se eles devem ou não ser amontoados, retirados do fundo do rio e das margens ou mesmo se ainda é possível retornar ao estado anterior da bacia.   

“A gente voltava para casa com a pele brilhando, da poeira que os caminhões levantavam”, confirma Maria Aparecida. A propriedade de seu marido, João, foi um dos pontos escolhidos pela mineradora para depositar os resíduos. “Foi tudo muito rápido, não tinha tempo para pensar. Quando perguntaram se podiam deixar a lama lá, acho que ele não imaginava a grandiosidade do impacto. Virou um novo canteiro de obra, em frente onde ele fazia queijo, tirava leite. A lama continua lá, mas eles plantaram grama por cima, então realmente não dá para ver.”

Alguns dos animais também foram levados pela enxurrada e resgatados mais a frente, atolados no Gualaxo. Maria conta que, na época, a fazenda produzia cerca de 2 mil litros de leite por dia. Atualmente, esse número caiu quase pela metade. Maria Aparecida também perdeu boa parte dos seus bordados – deixados para lavar e secar no quintal.

Ela reconhece que outros vizinhos sofrerem mais: “teve gente que perdeu tudo, seus móveis, suas lembranças, suas fotos, sua história. Antes eu não conseguia nem conversar sobre esse assunto, me dava uma coisa ruim, mas o tempo abranda as coisas. A poeira da lama abaixou, isso está melhor. Mas a cabeça das pessoas não melhorou ainda”.

 

As perdas foram sentidas também nas relações de trabalho. A coordenadora da Aedas aponta que, ignorando as demandas dos moradores por empregar os profissionais locais nas obras de reparos, como pedreiros e jardineiros, a fundação preferiu trazer trabalhadores externos.

Na última semana de setembro, durante a apuração deste dossiê, a equipe da Revista A3 se deparou com  um grupo de moradores que, em protesto, bloquearam a entrada de carros da Fundação Renova em Barra Longa. Reunidos na entrada da cidade, bem ao lado da ponte sob o Rio Gualaxo, eles enumeraram suas profissões –  garimpeiros, pescadores, cortadores de cana, costureiras, manicures, faxineiras. “Até manicures e costureiras?”, pergunta a repórter. “É lógico”, responde rápido Raquel Coelho. “As mulheres foram muito atingidas porque elas perderam a renda delas. Tudo ficou caro em Barra Longa. A vida é outra.”

Uma olhada rápida para o grupo e a força das mulheres se revela nas histórias.“Eu plantava uma horta aqui e foi tudo embora. A gente plantava, garimpava, e até hoje não fomos reconhecidos, nada foi resolvido. Fiz o cadastro há três anos. Moramos lá no meio”, aponta Rosa Ferreira para sua casa. “O barranco tá quase chegando no asfalto. Minha casa caiu e eu tive que levantar ela do meu próprio bolso, e eles ainda falam que não temos direito. Marcam reunião e não vem. O que a gente faz numa situação dessas?”

Segundo a moradora, a rua está cedendo e representantes da Renova insinuam que não seria culpa da empresa já que o local não foi atingido diretamente pela lama. “Eles falam que não é culpa deles, é da gente que fez as coisas mal feitas. Eles não querem reconhecer que eles são responsáveis. Eles querem dizer que a gente não colocou engenheiros na casa da gente. E lá na represa? Eles não colocaram engenheiros? E ela [a barragem] não desceu? A gente não fez casa para segurar lama, mas sim para morar e viver tranquilo.”

Gesteira

Localizada na área rural de Barra Longa, a comunidade de Gesteira já estava acostumada com as cheias do rio Gualaxo. Em 1979, uma grande enchente destruiu as casas e as famílias se fixaram na parte mais alta da cidade, conhecida como “mutirão”. Em novembro de 2015, apesar do alerta de que uma barragem havia se rompido, os moradores esperavam algo parecido com mais uma enchente – alguns chegaram a levantar seus móveis, outros subiram nas lajes das casas para monitorar a enxurrada. O que viram, porém, foi bastante diferente de qualquer experiência anterior. No escuro da noite, eles saíram em direção aos morros do local às pressas.

Moacir Carneiro estava em sua casa no “mutirão” e a perda foi do lote, às margens do rio, onde ele plantava toda sorte de verduras, legumes e frutas, para seu próprio sustento e dos filhos. Apesar de ser um atingido diretamente, só recebeu seu cartão de auxílio emergencial dois anos depois da tragédia. Segundo ele, foi com a chegada da Aedas, assessoria técnica dos atingidos de Barra Longa, que a comunidade começou a entender mais sobre seus direitos.  

A lama ainda está depositada nos lotes às margens do rio. Não é possível plantar ou pescar e Moacir se vê, pela primeira vez na vida, tendo que comprar hortaliças. Os vizinhos sempre se ajudaram, trocando alimentos – quem tinha milho trocava por feijão, e assim por diante. A solidariedade permanece, mas a esperança anda abalada. Com 74 anos, Moacir não sabe se vai conseguir ver a “nova Gesteira”, referindo-se ao reassentamento.

Médio Doce

Depois de passar por Barra Longa, os rejeitos ganham o Rio Doce – parte do volume (cerca de 10 milhões de metros cúbicos) é retido na Usina Hidrelétrica de Risoleta Neves e o restante segue atingindo pequenas cidades e comunidades rurais até chegar à região metropolitana do Vale do Aço e, posteriormente, à Governador Valadares. Com cerca de 300 mil habitantes, a cidade é a mais populosa da bacia.

O rio corta toda a área urbana e é o único manancial de abastecimento para a população. Com a chegada da lama no dia 8 de novembro, a captação de água teve que ser interrompida e o abastecimento só foi reestabelecido uma semana depois. Durante esses dias, caminhões pipa foram escoltados até a cidade e filas imensas se formaram nos postos de distribuição de água. As aulas na UFJF também foram interrompidas, assim como centenas de serviços.

O morador do distrito de Baguari, Elmirio Eugênio Guimarães, conhecido como Mirim, recorda o episódio: “nossa comunidade humilde sempre usufruiu do rio Doce com pesca para manutenção, lavando roupas em suas margens e irrigação das plantações. De repente, vimos suas águas sendo devastadas por aquela lama resultando em peixes mortos e pessoas simplesmente tentando sobreviver”. O distrito fica às margens do rio a 20 quilômetros do centro de Valadares e possui cerca de 2 mil moradores.

Além da falta de abastecimento, pequenas comunidades como Baguari e de povos tradicionais, quilombolas e indígenas, tiveram seus modos de vida profundamente alterados desde o rompimento da barragem. Pesquisadores da UFJF têm estreitado relações com essas comunidades por meio de projetos de extensão, oficinas e iniciativas como a Caravana Territorial da Bacia do Rio Doce. Realizada em abril de 2016, com a participação de 150 pessoas em quatro rotas diferentes, percorridas nos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo.  

médio doce

A Caravana reuniu mais 60 organizações em rede como coletivos, associações, grupos de pesquisa e movimentos sociais. Entre eles, o Núcleo de Agroecologia da UFJF em Governador Valadares, sob coordenação do professor Reinaldo Duque. O objetivo da ação foi o de produzir leituras compartilhadas sobre o crime socioambiental, analisar os impactos, mobilizar ações de denúncias e reivindicações e apontar saídas de desenvolvimento territorial sustentáveis.

Na região do Médio Doce, a constatação é de que vários empreendimentos têm gerado problemas de manutenção dos recursos hídricos – como a instalação de barragens para hidrelétricas e de minerodutos e a expansão da monocultura de eucalipto. De modo geral, segundo Duque, a região é historicamente marcada por conflitos e disputas de terras com indígenas e camponeses. O resultado é degradação ambiental, concentração fundiária e perda da diversidade biológica e cultural.

Nas aldeias Krenak, localizadas às margens do rio, perto da cidade de Resplendor, a relação do povo com o Watu (rio Doce) não é mais a mesma. “Toda nossa coletividade era voltada para o rio”, explica Shirley Krenak. Além da pesca, o sentido do rio é espiritual e banhar em suas águas também é um ato de purificação, que acontece no dia a dia e em rituais especiais como no nascimento de uma criança. “É fundamental para o índio que seus filhos saibam nadar, e minha filha não tem mais essa opção”, diz. Segundo Shirley, o impacto do rompimento da barragem para os Krenak é “espiritual, alimentar e psicológico”, e  a luta pela recuperação deve ser compartilhada por toda sociedade.

“O nome dos Krenak deveria ser resistência, não existe povo que resistiu mais contra a maldade do que o meu”, relembra ela sobre o processo de colonização, de espoliação das terras, a perseguição durante a ditadura militar, os assassinatos, estupros e roubos. “E agora, para arrebentar com tudo, vem a morte do nosso Watu.” Ainda assim, ela tem esperança quanto a recuperação do Watu e a luta pelos direitos da mãe natureza.


+ Em breve, na A3:

Volta Samarco

A Samarco atuava nos arredores de Mariana desde a década de 1970, e era vista como a melhor empregadora da região e sua ausência vêm sendo sentida pelos marianenses, com os quais cultivava uma relação de proximidade. Conforme o professor Bruno Milanez – do grupo de pesquisa Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS) -, o vínculo entre a empresa e os moradores vai muito além do salário no fim do mês. Andando pelo centro de Mariana é possível encontrar frases como não existe progresso sem emprego: sou a favor da retomada das atividades da Samarco” ou, simplesmente, “volta Samarco” penduradas nas fachadas de alguns comércios. A cinquenta quilômetros das ruínas de Bento Rodrigues, essa área da cidade não foi impactada pela lama, mas enfrenta o desemprego com a paralisação das operações do Complexo do Germano.

Economia do desastre

Os rompimentos de barragens podem ser compreendidos a partir da leitura do mercado internacional e do modelo de operação das mineradoras. A hipótese de sua pesquisa, apoiada pela Fapemig, é de que, para além dos aspectos técnicos e de segurança, há uma correlação entre o aumento de ocorrências e os períodos expansivos e recessivos no preço de minério de ferro.

Na casa de Cristo Rei

O complexo de barragens é 50% maior do que a barragem de Fundão – a mesma que, há três anos, se rompeu e deixou um rastro de destruição que nós, como humanos, não seremos capazes de enxergar o fim. Casa de Pedra ainda carrega consigo uma anunciação ainda mais sinistra – daqui de onde estamos, em Congonhas, enxergamos com clareza o porquê. A barragem está localizada ao lado da área urbana da cidade. Se for rompida, atinge, imediatamente, até mil e quinhentas pessoas. Em agosto deste ano, um alarme falso de emergência foi disparado em Casa de Pedra. Caso fosse verdadeiro, repito, mil e quinhentas pessoas e suas respectivas casas seriam imediatamente atingidas. No dia do alarme, era esperado que ao menos 400 moradores respondessem de prontidão. No fim das contas, só 19 se mobilizaram.

Por um rio bom de novo

“Repito a mesma coisa desde o rompimento da barragem até hoje, três anos depois: não sei quanto tempo vai levar para recuperar, mas tenho certeza de que eu não vou ver”, diz o professor do Departamento de Geociências da UFJF,Miguel Fernandes Felippe, sobre os impactos ambientais ao longo da Bacia do Rio Doce. Segundo ele, os primeiros resultados sobre técnicas, processos e alternativas de recuperação das áreas degradadas estão começando a ser publicados neste ano. De acordo com o pesquisador, a Samarco deveria ter feito esses estudos de base logo de imediato, ou seja, uma profunda varredura dos danos nos meios físicos, ambientais, ecológicos e sociais, para então subsidiar as tomadas de decisões. Na opinião de Felippe, as organizações não governamentais também perderam tempo – fizeram relatórios muito tardios e burocráticos. Universidades e centros de pesquisa tentam suprir parte dessa demanda, mas enfrentam seus próprios problemas com investimentos.

Semeando na Lama

Na fazenda Ocidente – cheia de árvores ainda marcadas pela onda de lama – brotam os resultados da pesquisa liderada pelo professor Paulo Henrique Peixoto, do Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF. O objetivo é identificar as melhores espécies para recompor a mata ciliar (ou seja, às margens) do Rio Gualaxo, considerando o depósito de rejeitos não apenas no fundo do rio, mas nas terras ao seu redor. Há dois anos, Peixoto obteve permissão de um proprietário rural para o plantio de mudas de diferentes espécies de leguminosas em uma área de suas terras, no distrito de Gesteira. Segundo o pesquisador, levar o experimento para o solo diretamente impactado é uma caixinha de surpresas – suas condições são muito heterogêneas, especialmente, após a remoção de parte dos rejeitos pela Samarco. “É como se tivessem limpado a casa, mas a poeira ficou.”

O que diz a Renova

A Fundação Renova foi constituída em junho de 2016 após assinatura do Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC) entre Samarco Mineração – com o apoio de suas acionistas, Vale e BHP Billiton – Governo Federal, Governos Estaduais de Minas Gerais e Espírito Santo e outros órgãos governamentais. O Termo define a Renova como o ente responsável pela criação, gestão e execução das ações de reparação e compensação das áreas e comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão. Questões mais sensíveis apontadas pelos atingidos nos territórios e também nas declarações dos pesquisadores foram encaminhadas por e-mail para a assessoria de comunicação da fundação, no dia 26 de outubro, e respondida pela equipe.