UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Educação Física escolar e o “entrave” de suas pesquisas

Posted on 9 maio 2016 by revistaa3 in Revista A3:09

Cláudio Pellini Vargas*

Educação Fisica

Ilustração: Lucas Nova

Este texto aborda o tratamento que a Capes, agência responsável pela consolidação da pós-graduação no Brasil, impinge à Educação Física (EF) ao enquadrá-la na Área 21 de avaliação dos cursos de pós-graduação, situando-a no âmbito das Ciências da Saúde. O fato tem dificultado pesquisadores de sua área pedagógica a divulgar trabalhos em periódicos de impacto. Entretanto, e conforme a produção da área nos últimos anos, parece ser consenso entre os pesquisadores que a EF seja um campo de intervenção no qual operam múltiplos saberes, fato que leva ao questionamento de tal “enquadramento” pela agência.
Para ilustrar, a tabela abaixo apresenta a estratificação atual de alguns periódicos das áreas de EF e Educação, os quais possuem o interesse em pesquisas voltadas ao campo pedagógico da EF. Foram escolhidas algumas revistas mais “tradicionais” em cada área, e que alcançaram patamares elevados no triênio anterior (2012).

Periódico

Escopo

Estrato de avaliação nas áreas

 

2012

2013

2014

EF

Educ.

EF

Educ.

EF

Educ.

Motriz

EF

A2

B1

B1

C

B1

—-

Movimento

EF

A2

A2

A2

B2

A2

B2

Educação e Realidade

Educação

B1

A1

B2

A1

—-

A1

Educação em Revista

Educação

B1

A1

—-

A1

B5

A1

Fonte: CAPES

O recorte mostra diminuição das qualificações nas duas áreas, o que parece aumentar as fronteiras entre os saberes. Devido ao escopo, as revistas têm perdido a qualificação nas áreas subjacentes e o entrave nas publicações ocorre pelo fato da EF não possuir uma identidade epistemológica “clara”, seja na saúde ou na educação. Assim, os pesquisadores “pedagógicos” da EF estão muito limitados neste cenário de divulgação científica.
É necessário problematizar a forma como a Capes “pensa” a construção do conhecimento. Será a racionalidade moderna a única norteadora dessa lógica? De fato, não há também nenhum representante do campo pedagógico da EF no seu processo de avaliação enquanto pós-graduação. Mas se ela forma licenciados e é componente curricular obrigatório nas escolas, por que isso ocorre? Evidencia-se assim, mais um desprestígio com uma área que é historicamente composta por professores e que emergiu no âmbito escolar. Ainda que com seu discurso mais voltado à saúde e à esportivização, a prática pedagógica da EF é seu maior pilar de sustentação.

Agregue-se que uma das consequências mais “perversas” parece ser a de que tais pesquisadores, pressionados pelo controle exercido pela Capes no que tange a produção, tendem a publicar em revistas especializadas em outros campos, em especial, na própria área de Educação, a qual agora também começa a se “fechar” para a EF. Com pouco espaço editorial bem qualificado, eles se afastam da pós-graduação em EF e passam também a lecionar em outros programas, o que fortalece uma identidade da área tendendo às concepções biológicas e “racionalistas” de ciência.

Assim, é imprescindível que o campo se organize de modo a amenizar este entrave, pois no oceano contemporâneo de diversidade epistemológica, nossa agência avaliadora, não sei se desatenta ou negligente ao caso, parece “nadar contra a maré”.

  1. Recorte reduzido
  2. Fonte: CAPES

* Doutorando em Educação; bolsista do Programa de Pós-graduação em Educação (Fapemig)