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Homeopatia

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Arlete Antoniassi*


ALGUMAS NOÇÕES


Christian Friedrich Samuel Hahnemann nascido na Saxônia em 10 de Abril de 1755 e falecido em Paris, 2 de julho de 1843, foi o fundador da homeopatia em 1779, e assim formulou os princípios da Homeopatia, a saber: (Eizayaga, 1992)

 

• Experimentações no homem: Toda substância ou droga utilizada como remédio homeopático deve ter sido antes experimentada no homem são.

• Lei da similitude: Os medicamentos homeopáticos devem ser selecionados em concordância com a lei farmacológica de similitude, onde se observa que tais remédios causam, em indivíduos sadios, os mesmos sintomas que a enfermidade causaria.

• Lei da diluição: As substâncias utilizadas como tratamento devem ser administradas em doses diminutas, diluídas e dinamizadas (técnica específica para o preparo de medicamentos homeopáticos).

• Medicamento único: As drogas homeopáticas indicadas aos pacientes devem ser de remédio único, não de complexos, onde se perderia a referência de qual medicamento estaria fazendo o efeito desejado.

 

Seus estudos e observações o levaram a formular um princípio de tratamento sintetizado na expressão latina: Similia Similibus Curentur – os semelhantes se curam pelos semelhantes. A idéia básica é o médico tentar igualar os sintomas que uma droga é capaz de provocar numa pessoa saudável aos sintomas do paciente, e esta droga então é usada para tratar a doença (Campbell, 1991).

 

HOMEOPATIA


A palavra homeopatia vem do grego homoios (similar) e pathos (sofrimento). A abordagem sintética, ou ainda uma palavra mais moderna, “holística”, é identificada com a nossa cultura pós-moderna. Mas não é novidade alguma, de fato é tão antiga quando a abordagem analítica. Sua abordagem pode ser traçada até a época de Hipocrates.

Toda a ciência grega estava baseada num conceito que é a physis. Hoje physis é traduzida como natureza, mas para os gregos era o principio, o fundamento e governo de tudo que existe. Um princípio único, eterno e imutável, de natureza até divina, que gerava e organizava o universo todo. A medicina hipocrática, portanto, baseava-se na physis, a qual, no caso das doenças, se manifestava como o poder curativo da natureza, mais tarde o termo em latim: “Vis medicatrix natura”. Usando essa ótica, o médico era um servidor da natureza, à qual deveria ajudar e imitar, porém nunca se opor.

Desde sua origem, esta abordagem parte de considerar o ser vivo como uma totalidade indivisível e animada por uma vitalidade autônoma. Na saúde, manifesta-se através da harmonia de sensações e funções. Na enfermidade, a vitalidade alterada se expressa através da perturbação das sensações e funções, ou seja, os sintomas mórbidos. Assim como a saúde é um fato geral, também o é a doença que afeta o organismo como um todo.

O médico só pode abordar aquilo que é manifesto para ele, isto é, acessível à sua sensopercepção. Isto inclui seus sentidos físicos e as modernas técnicas de diagnóstico. O médico concentra sua atenção nos sintomas e sinais do paciente que está no aqui e agora, prontamente acessível.

Séculos de observação de doentes demonstram que cada ser vivo pode expressar a alteração de sua vitalidade (ou doença) de infinitas formas próprias e singulares. O médico com visão sintética procura especialmente os sintomas e sinais próprios do doente, porque são os que melhor refletem a maneira de adoecer do individuo.

A doença não é considerada como um ataque de um inimigo externo, mas parte do próprio individuo, uma maneira de estar. Assim, os sintomas não têm valor negativo, mas são considerados como expressão visível do esforço curativo do organismo. Portanto, não devem ser eliminados com medicamentos “anti”, mas sim por medicamentos similares que acompanhem a reação de cura do organismo. Nesta abordagem, medicina não é compreender os processos internos apenas, mas a observação do enfermo para compreender o padrão singular dos sintomas.

A homeopatia não aceita a compreensão mecanicista do ser vivo. O vitalismo é um fundamento irrecusável, a autonomia da vida contra toda tentativa de reduzir o ser vivo a uma simples máquina física e química.

A homeopatia tem status científico, porque cumpre de maneira conclusiva as três exigências do conhecimento cientifico: princípios claros e racionais, metodologia adequada e explicação coerente do fenômeno saúde-enfermidade.

Utilizou-se do empirismo para descobrir os princípios que governam a equação vital do ser vivo e que permitem a recuperação da saúde quando perdida.

 

Empirismo: designa um conjunto de escolas filosóficas cuja principal idéia é a de que qualquer conhecimento só é valido se verificado por intermédio da experiência; esta só é adquirida pela observação repetida dos fenômenos, a partir da qual são deduzidas regras e leis mais gerais.

 

Procedimento científico moderno: surge e se baseia, para a sua apreensão do mundo e de seus fenômenos, na postura filosófica empírica, e se caracteriza de forma mais completa com a adoção da experimentação como procedimento definitivo para consolidar o saber. A medicina moderna está aqui totalmente incluída.

 

A homeopatia é, portanto, uma técnica de intervenção médica que possui uma iatrofilosofia (filosofia médica) própria. Sua característica principal é buscar a obtenção de um medicamento apropriado, que se assemelhe aos distúrbios relacionados pelo paciente, mediante o estudo da totalidade sintomatológica. Esta semelhança é detectada por meio da experimentação sobre o homem são. Quando o medicamento está correto e age apropriadamente, convencionou-se chamá-lo de simillimum.

Simillimum é uma expressão latina que designa “o mais similar possível”.

 

 

Uma Biografia

Arlete Antoniassi*

Christian Friedrich Samuel Hahnemann nasceu em Meissen, Saxônia em 10 de Abril de 1755 e faleceu em Paris, 2 de julho de 1843, foi o fundador da homeopatia em 1779 (24 anos).

Era o terceiro dos quatro filhos, do segundo casamento de Christian Gottfried Hahnemann, um pintor de porcelana, considerado um mestre na sua arte, que tentou fazer com que seu filho continuasse a sua profissão, mas Samuel tinha forte inclinação intelectual e uma insaciável procura por conhecimento. Tornou-se o aluno predileto de seu professor que, após os estudos primários, seguiu seus estudos em Santa Afra como aluno particular do professor Müller. Era aluno externo, residia com o professor e não pagava a escolaridade. Esta escola era frequentada por nobres locais, e tinha reputação de seriedade e qualidade de ensino.

Hahnemann, após estudos no liceu, foi em 1775 (20 anos) para Leipzig estudar medicina. Leipzig era a capital intelectual da Saxónia apesar de sua Universidade ser muito famosa, a faculdade de medicina apenas contemplava disciplinas de ensino teórico, não havia ensino prático perto do doente. Esta tendência de dar mais importância à teoria que à prática encontrava-se difundida por toda a Alemanha em 1790.

Samuel Hahnemann fez muitas traduções de obras no domínio da medicina e química, o que permitiu estudar em pormenor estes campos.

Em 1777 (22 anos) Hahnemann permanece seis meses em Viena, onde vai frequentar a nova escola médica de Van Swieten, que tomava como importante a observação e ensino clínico junto do doente. Torna-se médico privado e bibliotecário do Governador da Transilvânia.

Em 1779 (24 anos) vai para Erlangen, onde defende a sua tese de doutorado em medicina, seguindo depois para Dessau, onde conhece o farmacêutico Haeseler e a sua filha Henriette, com quem se casou.

Na sala interior da farmácia do seu sogro, Samuel Hahnemann inicia suas experiências de química, ao mesmo tempo que mantém a atividade médica e continua fazendo traduções, às quais acrescentou sempre anotações pessoais. Trabalhou muito na pesquisa química, publicando diversos artigos em várias revistas de química e farmácia da sua época.

Samuel Hahnemann descontente com a forma de atuação da medicina de seu tempo, onde os tratamentos utilizados nesta época tinham uma conotação um tanto radical com o uso de sangrias, cáusticos e laxantes. Desistiu, então, daquela medicina que não o convencia e se dedicou à tradução de livros, mas ainda da área médica, como profissão para seu sustento.

Ao traduzir a obra As leituras da Matéria Médica de Cullen, médico escocês, sobre a influência da casca de quinino, erva utilizada, naqueles tempos, no tratamento da malária. Hahnemann escreveu uma anotação onde criticou a opinião do autor sobre os efeitos da quina no tratamento da malária. O autor dizia tratar a malária pelo seu sabor amargo da quina, mas Hahnemann escreveu que não se pode considerar que a quina cure a malária por ser amarga, mas por causar os efeitos semelhantes aos da malária se tomada por alguém saudável, o que ele experimentou. Isto dá origem ao primeiro enunciado do princípio da semelhança.

Hahnemann confirmou as suas descobertas no que diz respeito à chinchona, ao observar que os trabalhadores das fábricas de quinino sofriam do envenenamento da chinchona, que era semelhante à febre intermitente. Começou então a perceber que um remédio pode provocar as condições mórbidas de doença como curá-las, quando testado em voluntários humanos saudáveis.

Mais tarde observou dois casos que o ajudaram em sua teoria: numa família com quatro crianças, três tiveram escarlatina e apenas uma, que estava tomando Belladona para a artrite, escapou à infecção. Numa outra família com oito crianças, três tinham escarlatina, e Hahnemann deu às outras cinco Belladona em doses muito baixas. Nenhuma das cinco crianças ficou doente.

A partir de 1796 (41 anos), Hahnemann volta aos seus trabalhos de tradução, apurando a sua doutrina e publicando diversos artigos em jornais de medicina prática. Nestes artigos expunha os absurdos e erros da medicina ortodoxa, a que eles chamava Alopatia. Durante anos andou inconstante, mudando de casa diversas vezes em poucos anos. Os seus recursos vinham quase exclusivamente das suas traduções.

Em 1804 (49 anos) mantém-se em Torgau por sete anos, praticando medicina regularmente, num longo período de estabilidade. Regressa depois a Leipzig, e muda de casa mais duas vezes.

Em Köthen exerceu prática médica regular, o que o possibilitou alguma estabilidade financeira, sendo então o período de maturidade da doutrina homeopática.

Juntaram-se à Hahnemann diversos entusiastas e a partir da prática em conjunto, testaram várias drogas com todos os cuidados possíveis para eliminar o erro. Estes testes foram meticulosamente relatados, formando o núcleo da matéria médica homeopática, compilados na clássica Matéria Médica Pura , em 1811 (56 anos).

Durante alguns anos foi estudando diversas drogas e seus efeitos e aplicações, ficando com uma profunda compreensão da patogenesia de muitas substâncias poderosas, e utilizou-as como remédios. Nesta base contruiu a arte da prática homeopática. Devido aos relatos incompletos ou inadequados dos toxicologistas, patologistas e clínicos, Hahnemann não teve opção senão testar os remédios e venenos em indivíduos saudáveis, que seriam ele, a sua família e amigos.

Em 1810 (55 anos), Hahnemann publicou a primeira edição do famoso ORGANON da medicina racional, que foi uma ampliação do seu trabalho A medicina da experiência. Em vida publicou mais quatro edições, corrigidas e aumentadas em função das modificações da sua teoria, segundo a sua experiência. Passou a chamar-se ORGANON A Arte de Curar, a partir da segunda edição.

Entre 1811 e 1821, Hahnemann produziu os seis volumes da sua MATÉRIA MÉDICA PURA. Morava nessa ocasião em Leipzing, depois retirou-se para Anhalt-Coethen, onde o duque reinante lhe ofereceu asilo contra as perseguições que era vítima.

Em 1829, na 4ª edição do ORGANON, Hahnemann fala pela primeira vez na psora.

Entre 1828 a 1839 dedicou-se aos quatro volumes do TRATADO DAS MOLÉSTIAS CRÔNICAS. Em 1935, tendo sido perseguido pelos médicos alopatas, que movia a população contra ele, chegando sua casa a ser apedrejada (Hahnemann alcançou uma dupla fortuna em riqueza e glória: sua clientela era colossal e em suas consultas era considerado um oráculo), mudou-se para Paris, onde veio a falecer com 88 anos.

A homeopatia da Alemanha, difundiu-se para a Austria-Hungria, mas sua prática foi proibida entre 1819. Em 1937, após uma epidemia de cólera em Viena, a homeopatia, por demonstrar superioridade no tratamento desta moléstia, teve o decreto revogado.

Difundiu-se em seguida, para a Itália, França (ao se exilar nessa localidade, hahnemann já encontrou discipulos seguidores organizado em Sociedade) e Inglaterra.

A homeopatia veio para o Brasil (Rio de Janeiro) em 1818, mas só alcançou voz a partir de 1940 com a chegada do Dr. Bento Mure, médico francês. Em 12 de dezembro de 1943 foi fundado o Instituto Hahnemaniano do Brasil (IHB), entre muitos cita-se o Dr. Manoel Soares de Meireles.

Em 1980, o Conselho Federal de Medicina reconheceu a homeopatia como especialidade médica no Brasil.

Em 12 de janeiro de 1845 foi aberto o primeiro Curso de Homeopatia, cujos certificados foram reconhecidos pelo Governo Imperial do Brasil.

 

 

*Dra Arlete Antoniassi. Médica graduada pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro – UNI-RIO, em 1987. Título de Especialista em Homeopatia pela Sociedade de Homeopatia do Estado do Rio de Janeiro, SOHERJ, em 1990. Homeopatia nos Distúrbios Psíquicos, 1991. Especialista em Saúde da Família e Medicina Comunitária pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, em 2002. Aconselhadora Biográfica em formação pelo Curso de Formação Biográfica, Juiz de Fora, MG.


 

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