UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

2006

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14/01/2006

 

Este dia foi o primeiro de um ano que acabara de se iniciar, e retomava os anseios que antigos encontros haviam planejado. Assim a discussão girou em torno de quais seriam as metas e os assuntos a serem abordados no trabalho que iríamos desenvolver.

Foram propostos ao final da reunião alguns temas que poderiam ou não ser tomados como pauta algum dia, mas, além disso, ficou na idéia de cada um dos participantes de que o ano seria de renovação através da reflexão de nossos mais simples atos, como uma promessa de um feliz ano novo.

 

21/01/2006

Angústia

 

Psicologicamente, a angústia costuma ser confundida com os estados de ansiedade, e em todo caso se conceitua como um estado mental de preocupação e insegurança desmedida que paralisam a vontade, fazendo com que o indivíduo fique impotente diante do fato de ter de realizar a sua vida. Trata-se de uma vertigem espiritual própria de quem se desintegrou, se dispersou, perdeu a si mesmo por algumas das ameaças, que, segundo Buber, espreitam o desenvolvimento da pessoa: a massificação e o gregarismo ou o enclausuramento na individualidade. Diante do empobrecimento de uma vida sem metas, sem fidelidades, imediata, surge a angústia que não poucas vezes é sintoma da neurotização da vida psíquica.

Sociologicamente, a angústia foi descrita como um dos traços que definem a sociedade atual. Contra a opinião de Nietzsche, sustentava que “quem sabe para quê viver, descobrirá como”, V. Frankl pensa que “sabemos como viver, mas não para quê viver”. Realmente esta perda de apoios e de firmezas, juntamente com o fato de nos obrigarmos a viver em ritmo trepidante, produz este fenômeno. Tecnólatra, o homem descobre que a técnica não o salva, e depois da morte cultural de Deus (Nietzsche) e da ausência de qualquer ideal ou mística, somente lhe cabe sumir no narcisismo, que desembocará sempre na angústia ou na autoanestesia.

Mas, situados numa perspectiva personalista, pressentimos que o fenômeno corresponde a algo muito mais radical. A pessoa é aquele ser que tem que fazer a sua própria vida, sendo uma tarefa para si mesmo. E como a maneira concreta na qual tem que ir se realizando é um problema para si mesmo, a sua vida é inquietude (que não angústia). Situado diante da realidade, o homem abre-se a ela, para, através das possibilidades de realização que lhe são oferecidas, ir-se fazendo pleno. Na sua plenitude reside a sua felicidade. Não existe somente liberdade de, como pretendia Sartre, mas também liberdade para, liberdade que se compromete. Com quê? Com as possibilidades que ele descobre como as melhores para a sua plenificação. Por isto o homem é um ser moral: porque tem de se apropriar de possibilidades reais para se realizar. Essas possibilidades são os chamados bens. Por conseguinte, não se quer qualquer coisa, se quer o bem, e o bem é aquilo que me plenifica, e quando me aproprio dele, me alegra. Mas também pode brotar a tristeza como fruto da minha apropriação daquelas possibilidades que me satisfazem imediatamente, mas não me constituem como pessoa. Cabe ainda outra possibilidade: a desmoralização, vale dizer, a perda de sentido, do para quê da própria vida. É então que surge a angústia.

Pode-se dar as costas á realidade como fonte de possibilidades, cabe o trancamento, o não se abrir a essa fonte principal de sentido e possibilidades que são os Outros. Assim, paralisado, retraído ao seu puro estado natural, abandonado aos seus impulsos, ao seu afã de poder, de ter, de gozar (vida estética) o homem se vê lançado a agir tendo perdido o sentido do por quê agir. Deixa assim de se apropriar de possibilidades das quais poderia ou deveria se apropriar, de modo que vai se esvaziando, empobrecendo, desintegrando, desvinculando-se da sua realidade, e perdendo criatividade. A vivência deste vazio, desta paralisia, desta impotência, é a essência da angústia. Assim como a alegria provém deste estar aberto ao encontro com a realidade, e principalmente com os outros e com o Outro, de modo que por meio desta abertura eles se constituem fundamento do nosso aperfeiçoamento, a angústia consistiria em se fechar a esse encontro, que por dispersão gregária, quer pela miragem de auto-suficiência.

O estado do angustiado é insustentável. Por isso, a vivência da angústia é convite a sair dela. Uma falsa saída seria fugir de si por contínua agitação e dispersão (má fé). A opção mais razoável a de recuperar-se a si mesmo no recolhimento da intimidade, reconhecendo as próprias limitações e abrindo-se á recuperação do sentido real. Trata-se de integrar e regular a própria vida, pondo cada coisa em seu lugar, relativizando o que absolutizou e idolatrou (trabalho, sexo, jogos, diversão, o próprio eu), equilibrando a vida afetiva, de trabalho, familiar, e, saindo de si, fazer-se disponível, e assim abrir-se ao encontro fecundo com os outros, acolhendo-os com gratuidade. Receber e fazer próprias as possibilidades que me oferecem como dom que permite minha plenitude, é o caminho da alegria.

(X. M. Domínguez Prietro)

 

Dicionário de pensamento contemporâneo – Paulus

– A angústia é um desejo não realizado. Isso gera sintomas e posteriormente leva a doenças. Para a psicologia a angústia está ligada ao afeto.

– Para Nietzsche a angústia é a condição natural do homem, e para o existencialismo o único ser que não pode angustiar-se é Deus.

– Quando o homem não sabe para que viver ele vive a angústia.

– A visão sociológica propõe que a modernidade daria fim aos problemas através das ciências, mas a questão da angústia persiste.

– Quanto mais o homem possui mais ele se angustia. Ter se torna uma obsessão, e a pessoa fica frustrada por não ter aquilo que quer e ainda não tem, assim como a não realização dos desejos também leva à frustração. Ou seja, ter um desejo e não realizar, ou realizar e se decepcionar com o que conseguiu, já desejando outra coisa levam à frustração.

– As relações afetivas funcionam da mesma maneira: quando você entra em uma paixão, procura algo para te completar, mas vê que o outro é seu espelho. Quase sempre o amor é angustiado. Colocar nossa felicidade na mão do outro nos dá medo, por isso tentamos controlar a situação de alguma forma. O ciclo da paixão passa pelo estranhamento e torna-se ódio porque eu me nego nesta relação amorosa e você se nega, então começa a insatisfação e a cobrança. Aquilo que estava ótimo torna-se estranhamento, angústia.

– A falta e a busca é que fazem a vida do homem. A angústia move a busca. A angústia é negativa quando o homem não busca uma solução para esta.

– A sociedade capitalista proporciona bem estar material, mas isso não resolve todos os problemas humanos. Uma solução, segundo a perspectiva capitalista, seria alienar-se. O homem quando cai na rotina se aliena do fato essencial que é pensar em sua vida. A filosofia entra com uma reflexão e ajuda o ser humano a se tornar mais autentico e ser mais autônomo em suas escolhas.

– Nós somos responsáveis por nossa trajetória, então nos angustiamos por ter que tomar decisões que podem nos prejudicar.

– Quando me permito ser humano na plenitude passo a buscar uma perfeição que não existe.

– Ser perfeito… Não existe esta questão da perfeição.

– A igreja (religiões em geral) define o que é o bem e o que é o mal. Padrões idealizados, e muitas vezes fora da nossa realidade.

– Segundo o existencialismo sartriano, o ser humano tem que fazer a própria vida. Cada um escolhe o que é bom para si.

– O ser humano é um ser moral. A moral transcende a questão da particularidade. Posso escolher não ser moral. O conhecimento permite você fazer uma reflexão.

– Qual é a diferença entre inquietude e angústia?

– Inquietude é ter que construir a existência, condição natural da pessoa humana que é o próprio fazer. A maneira como eu encaro isso é que pode gerar a angústia. A angústia viria após a inquietude. A inquietude é uma busca, e essa não realizada leva a angustia. A inquietude pode ser comparada a um motor de busca.

– A angústia surge da perda de plenitude. A angústia vai surgir da desmoralização.

– Tem coisas que plenificam o ser humano: durante o processo da busca não existe angústia. Ter um projeto a ser cumprido representa a busca pela realização de um ideal, e nessa hora somos plenos. Esse processo não é linear, é como uma onda, e isso é natural do ser humano.

– A angústia tem a ver com consciência e conhecimento. Uma pessoa completamente satisfeita é alienada, e uma pessoa alienada passa toda sua vida sem saber o que acontece a sua volta, perdida no mundo em que vive.

– A angústia não vivida é destrutiva.

– Uma coisa é o que você é, e a outra é o que você mostra para os outros.

– É uma coisa muito relativa, cada um tem sua forma de resolver a questão da angústia. Cada um possui a sua experiência, mas é inegável que tudo se resolve em um processo reflexivo, quando pensamos no que fazemos e porque fazemos.

– Temos que fazer nossa existência ser boa e significativa.

 

28/01/2006

Solidão

Texto I:

Felicidade Solitária

 

A solidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar só consigo mesmo; segundo, a de não estar com os outros. Esta última será altamente apreciada se pensarmos em quanta coerção, quantos estragos e até mesmo quanto perigo toda a convivência social traz consigo. «Todo o nosso mal provém de não podermos estar a sós», diz La Bruyère. A sociabilidade é uma das inclinações mais perigosas e perversas, pois põe-nos em contacto com seres cuja maioria é moralmente ruim e intelectualmente obtusa ou invertida. O insociável é alguém que não precisa deles.

Desse modo, ter em si mesmo o bastante para não precisar da sociedade já é uma grande felicidade, porque quase todo o sofrimento provém justamente da sociedade, e a tranqüilidade espiritual, que, depois da saúde, constitui o elemento mais essencial da nossa felicidade, é ameaçada por ela e, portanto, não pode subsistir sem uma dose significativa de solidão. Os filósofos cínicos renunciavam a toda a posse para usufruir a felicidade conferida pela tranqüilidade intelectual. Quem renunciar à sociedade com a mesma intenção terá escolhido o mais sábio dos caminhos.

Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade .

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.

Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.

A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança freqüente de seres heterogêneos causa um efeito incomodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com freqüência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.

Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como conseqüência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

Arthur Schopenhauer

 

Texto II:

Solidão amiga

 

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, freqüentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, freqüentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia. Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita”. É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta. E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:“…Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília…”Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha”.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira. Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

Rubem Alves

 

– A angústia surge da sensação de infinitude em contraste com a finitude. Conciliar finitude e infinitude seria então a sensação ontológica da angústia. Para Heiddger a angústia vai ser conseqüência da morte – que teria o sentido da existência, para Sartre o ser humano se descobre existindo, cada um se faz pela própria existência, o ser humano primeiro existe depois pensa para que serve. Para os filósofos existencialistas: angústia é comum ao homem.

– Solidão é estar sozinho, sem companhia – a solidão parte de dentro para fora, a solidão não é motivo de infelicidade. A solidão vem de dentro do homem.

– A solidão é como a angústia, própria do homem?

– O homem se sente sozinho porque não encontra ninguém igual a ele – existencialismo – isso porque o ser humano é único.

– Mas tem o aspecto da socialização, o homem sempre busca contatos. O sentir-se só no meio de tanta gente pode representar uma falta de identificação.

– “Se a solidão é tão grande é porque o amor foi tão grande”, Vinícius de Moraes.

– Princípios filosóficos existencialistas: eu estou só, eu tenho que resolver. Somos cavaleiros solitários.

– A solidão é faz parte do ser humano, temos necessidade de estar com o outro para superar a solidão. A companhia conforta.

– O caminho para sair da solidão é o conhecimento e a aceitação – “eu sou eu” como diz Sartre. – A responsabilidade é de cada um. E a atitude também é de cada um.

– A pessoa está só e pode estar bem. Depende de como você trabalha sua solidão. Nossa cultura é muito baseada em estar com o outro, e isso está ligado a fatores como a religião. Só que esse comportamento está mudando porque muitas pessoas escolhem viver só. A sociedade começa a ver a solidão de forma diferente.

– De repente a pessoa começa a superar esses preconceitos – de que estar só é ruim.

– Não tem solidão quem tem um livro na mão.

– É importante aprendermos a valorizar a solidão, ela é um bom meio de nos conhecermos um pouco melhor.

– No mundo hoje nós estamos correndo da solidão. O sujeito chega em casa e liga a televisão na maior altura.

– O problema é que quando estamos com o outro, não somos nós mesmos. A questão de estarmos em grupo, é termos consciência de nós mesmos. Outra coisa também é estar em grupos bem intencionados, assim enriquecemos.

– Quando a solidão é escolha consciente é bom, mas do contrário é ruim. As vezes nós temos necessidade de solidão. Hoje o materialismo é muito grande, é importante estar só, mas se em grupo, estar com qualidade. Se há algo em comum com o outro não estamos sozinhos. O fato de sentir-se sozinho é muito pesado.

– A sociedade contemporânea é geradora de solidão. Há problemas sérios de solidão nas sociedades mais ricas.

– A idéia da sociedade da comunicação que teoricamente serviria para unir, de repente afasta. A internete nos amarra.

– A mídia colabora muito com o fato de nos “obrigarmos” a estar com alguém – “você tem que estar com alguém”, isso é que é bonito. As pessoas sentem-se culpadas por optarem pela solidão, às vezes por pensarem que isso é errado.

– Estar só é uma coisa mal vista na sociedade contemporânea. Numa ânsia de não querer estar só, você se ilude com companhias que não combinam e acaba criando conflitos sociais, nas famílias, etc.

– A comparação é fonte de solidão

– Temos que aprender a cuidar de nós mesmos. A sociedade não permite esse tipo de coisa. A sociedade joga você para estar sempre nessa busca do outro. Muitas vezes fazemos coisas para agradar.

– Estar só nos possibilita o nosso (re)encontro.

– O filósofo é provocativo. Qualquer decisão que você tomar só vai afetar você. Apenas estando só é que nós sabemos o que realmente somos. O caminho da felicidade é saber lidar com este tipo de coisa. Quando colocamos toda a culpa na sociedade temos o problema. A sociedade funciona como “agente causador de problemas” – nosso bode expiratório.

– O grupo nivela a todos, sozinhos nos diferenciamos. No grupo nossa identidade é perdida, pois assumimos a máscara do grupo.

– Precisamos estar sozinhos para nos encontrarmos.

– Se estamos bem conosco, estaremos bem com os outros.

– Nós reclamamos da solidão como se esta fosse um mal. A solidão é um meio de auto-conhecimento.

 

04/02/2006

Medo

 

Segundo a psicóloga Rosangela Rossi, a partir de uma leitura de Yung, devemos entender como funciona nossa psique:

A estrutura do nosso pensamento é dividida em duas partes: 20% consciente e 80% inconsciente.      O consciente e o inconsciente se dividem em pessoal e coletivo. O pessoal diz respeito, por exemplo, nossa história pessoal (parte mais consciente); o coletivo à história da humanidade (parte mais inconsciente).

Tudo o que não vivemos no campo pessoal é transferido para o inconsciente e posteriormente gera complexos como a angústia, o medo, a ansiedade, a culpa, entre outros.

O medo não expresso e não vivido é somatizado assim como nos outros complexos, e esses complexos precisam ser refletidos ou aliviados, ou seja, uma válvula de escape. Assim essas somatizações são depois refletidas em nós mesmos – como problemas físicos: mau funcionamento do estômago, dores de cabeça, travamento dos ombros – ou nos outros: reações agressivas, por exemplo. Outro meio de trabalhar esses complexos é trazê-los do campo inconsciente para o consciente através de conversas, e reflexões sobre o problema.

O inconsciente é sempre comportamental. Yung trabalha com arquétipos do inconsciente coletivo – precisamos da arte e do símbolo em nossa vida cotidiana:

• Arquétipos – Deuses do Olimpo: correspondem aos sentimentos, comportamentos.

Existem comportamentos que são comuns a todos, por exemplo, amor, ódio, medo, culpa, etc. Os deuses gregos são correspondentes de nossos comportamentos. Não são crenças e não fazem parte de alguma religião. Yung os coloca como um jogo de linguagem mítico:

 

• Os deuses são uma expressão lingüística, um quanto de energia que corresponde a um comportamento.

As festas aos deuses eram meios de purificação das pessoas, formas de extravasar o medo. Os rituais eram semelhantes aos das religiões atuais as quais nos aproximamos “controlarmos” nossos medos.

Assim, feita a introdução inicia-se a discussão:

 

– Quando mais medo o homem tem mais ele se aproxima do sobrenatural, mas esse medo é diferente do medo natural, inato a todo ser vivo, responsável pelo instinto de sobrevivência que serve para preservar a espécie.

– Para os orientais o símbolo do medo é um dragão. Todos têm um dragão e o que muda é como você alimenta esse dragão. A repressão sexual causa – alimenta – o medo para Freud, para Reich é a repressão política e para Yung é a repressão religiosa.

– Quando a pessoa é escrava do seu medo, ela sublima esse medo como uma compensação. Mas se ela elaborar esses medos através da reflexão, passa a ser dono de suas escolhas, e passa a controlá-los ou medi-los. Seria uma situação equilibrada, reflexiva.

– Quanto mais você tem uma consciência reflexiva mais terá condições de elaborar seus medos.

– O medo não é fraqueza, faz parte do comportamento humano. Faz parte do humano. Mas, um medo não controlado – compreendido – é fonte de outros medos.

– Qual é o medo mais potente?

– É relativo de pessoa para pessoa – morte, perda, liberdade, existência, solidão, mudanças, assumir decisões, castrações, repressões, etc.

– Para Sartre Deus não existe, então tudo é permitido. O ser humano é condenado a ser livre. E uma vez que é livre, é responsável pelo que faz: “Estou sozinho para construir a minha existência”.

– Mas apenas quando temos consciência.

– Existencialistas: a grande massa populacional é manipulada, são inconscientes.

– O medo sempre vai existir, temos que aprender a lidar com o medo pois eles nunca vão nos abandonar.

– O medo pode ser positivo quando instiga a mudar. A compreensão do medo nos leva então a mudar para algo melhor.

– Nossos medos podem ser imaginários, mas sem reflexão a pessoa amedrontada fica cega, vira escrava de seu medo.

– A mídia é um dos alimentos do dragão assim como a religião.

– Por que as pessoas gostam mais do trágico do que do bom?

– Para elaborar e alimentar seu próprio medo.

– A mídia nos sobrecarrega de informações e atrativos, compensamos o medo com o consumo desenfreado.

– A forma de diminuir o medo é tomar decisões mais acertadas. Temos que desenvolver nossa consciência, tudo parte da consciência.

– O maior medo é o da existência, mas existem muitos outros: medo da loucura (medo da dissolução do ego); medo do sexo, medo de enfermidades, etc.

– A tradição cristã castrava a liberdade das pessoas pensarem outras coisas fora do cristianismo.

– O medo é limitador de todas as ações humanas, o medo limita a vida.

– Os Filósofos epicuristas não acreditam em destino, a morte não é realidade individual, Deus está preocupado com coisas maiores, é importante para eles a busca do prazer.

– Platão busca a essência do humano. Busca a razão na metafísica, no mundo das idéias.

– Numa leitura existencial, um dos grandes medos da condição humana é ser finito.

– Somos lançados no mundo sem pedir, e somos tirados sem querer… não temos muita escolha, apesar de sermos livres.

 

11/02/2006

Culpa

 

Culpa e culpabilidade são conceitos que podem ser, em geral, referidos à infração de uma norma jurídica ou de uma pauta moral de conduta. No sentido jurídico, a culpa se baseia na imputabilidade e tem como conseqüência a responsabilidade da ação realizada. No sentido moral, supõe uma atitude conscientemente contrária ao dever. A culpa como estado imputado a uma pessoa que cometeu algo mau do ponto de vista legal ou moral se distingue do sentimento de culpabilidade. De fato, o culpado pode não ter sentimento de culpa, enquanto o inocente pode estar curvado pela carga de uma culpabilidade suposta. Por fim, no sentido filosófico, a culpa e a culpabilidade propõem a questão de sua própria possibilidade: o porquê da culpa.

Uma primeira consideração fenomenológica da culpa permite diferenciar três conceitos de culpa:

a) A culpa como infração de um tabu. Esta concepção mecanicista, característica dos povos chamados primitivos, estabelece uma relação direta entre culpa e mal físico, e leva consigo o medo diante da cólera vingadora  de um deus. Resíduos de tal concepção se aninham no fundo de outras compreensões consideradas mais evoluídas. Paul Ricoeur estudou a simbologia da mácula que contamina de fora e o medo impuro;

b) A culpa como desordem e transgressão de uma norma ou pauta social;

c) A culpa como acusação, “auto-acusação e autocondenação pela consciência que se volta sobre si mesma” (Ricoeur).

As fontes para a análise do conceito de culpa e de culpabilidade podem ser encontradas na tradição das religiões e da tragédia clássica e na tradição do pensamento racional e ilustrado.

 

1. A culpa na religião e na tragédia. A concepção mais primitiva da culpa fazia dela a conseqüência imediata da violação ou da transgressão mecânica de um tabu. As lamentações sumérias começaram a expressar a idéia de que uma ação reprovável poderia acarretar o castigo dos deuses. Os poetas que falam desse gênero de lamentações proclamam sua inocência e repetem incessantemente que ignoram se cometeram algum mal ou como e contra qual deus o cometeram. O autor da obra ‘Quero louvar ao Senhor da sabedoria’ (Ludlul bêl nêmequi) se pergunta como pode ser castigado se não é culpado ou não está consciente de sê-lo. No mundo babilônico, o primário era a percepção de que o sofrimento e a morte são a conseqüência das faltas cometidas; o sentido de culpa, derivado de tal percepção, era comparativamente menor. Por outra parte, o Poema da Criação, que faz do homem um ser formado com barro e com o sangue de um deus rebelde, projeta a culpa no mundo dos deuses. A culpa aparece como algo alheio ao homem e anterior á sua própria existência. Pouco a pouco se deu lugar à idéia de que a origem das desgraças humanas deve ser buscada no mais profundo do homem e não tanto em uma fatalidade arbitrária do mundo do divino. No pensamento do antigo Egito, as concepções acerca do julgamento dos mortos parecem supor uma consciência mais aguda de que a culpa está enraizada no coração do homem e na sua liberdade.

No mundo clássico, diversos termos indicam que a culpa pode se referir a uma dívida ou ao devido (ta opheilómena), inclusive no sentido pecuniário; à responsabilidade ou causa (aitiá), ou á transgressão de uma norma de conduta estabelecida (hamartiá). Até Hesíodo, o conceito de culpa não continha, entretanto, uma referência moral. Equivalia ao erro ou à quebra de um preceito de culto ou de uma norma ou costume, sem referência à intencionalidade ou à inadvertência do sujeito. A tradição grega se move mais numa cultura da vergonha, que cuida de salvaguardar a reputação pública (timé), particularmente a do herói homérico, e não tanto no mundo da culpa propriamente dita (A.R. Dodds). A tragédia ática recolheu o significado primeiro de erro culpado devido à falibilidade humana, mas abriu caminho para uma concepção voluntarista da culpa. Eurípedes assinalava a possibilidade de uma ação culpável em troca de um saber melhor. A sofística acentuou o conceito de culpa como procedimento culpável. Platão impulsionou uma concepção intelectualista que supõe que ninguém é mau por vontade livre. O antigo conceito de erro no cumprimento de um rito sagrado aparece agora convertido em erro intelectual. Para Aristóteles, a culpa nasce de uma decisão voluntária e livre do homem, e não da suposta maldade natural ou inclusive do caráter do sujeito. O grau de culpabilidade depende dos pressupostos verdadeiros ou falsos daquela decisão livre e voluntária.

A tradição bíblica e mais tarde o cristianismo, acentuaram a capacidade de autodeterminação e da responsabilidade pessoal do homem. A origem do mal moral se acha no que há de mais profundo no homem. A intervenção do coração, da consciência pessoal, é o que torna culpado o homem perante sua própria consciência, perante os outros e perante Deus, pela ruptura de uma relação pessoal que exigia fidelidade e confiança. A concepção bíblica cuidava de superar todo dualismo, fosse zoroástrico, gnóstico ou maniqueu. Entretanto, o conceito de culpa, ligado aos do pecado original, concupiscência e castigo, não deixa de manifestar conotações dualistas, sobretudo na concepção de uma transmissão sexual do pecado e da culpa.

 

2. A culpa na filosofia. A questão da culpa começa a se tornar independente das proposições teológicas através da moral filosófica e da filosofia do direito. Kant trata o conceito de culpa em relação com o de dever moral. Para Hegel, toda ação moral comporta a possibilidade de ter que se reconhecer, como Édipo, culpado e responsável por conseqüências desconhecidas. Kierkegaard retorna ao conceito religioso de culpa. Pelo medo de pecar, o homem peca e pela angústia de ser culpado, torna-se culpado. Nietzsche se inspira de novo da tragédia grega. Rebela-se contra toda equiparação entre culpa e castigo postos numa mesma balança, como faz a moral dos filisteus ressentidos. A culpa é antes a trilha para sair deste mundo de culpado e acender ao mundo para além do bem e do mal. O pensamento ilustrado põe o conceito de culpa em relação com a origem do mal. O mal se relaciona à liberdade humana e com o mundo criado pelos homens dotados de liberdade. Mas a pergunta se radicaliza ao indagar na origem sobre a possibilidade mesma do mal moral. Ricoeur busca esta origem nos conceitos de labilidade, de limitação, de não-adequação do homem consigo mesmo, e de desproporção entre finitude e infinitude.

Com S. Freud, a psicologia analisa o chamado sentimento de culpabilidade, em particular em sua vivência mórbida, nos mecanismos de inculpação e exculpação. A culpa é um estado afetivo em que a pessoa se condena ou  se sente insatisfeita consigo mesma por ter cometido algo mal ou não ter cumprido o que considerava ser seu dever. O sentimento de culpa provém de experiências infantis nas quais estão em jogo o desejo de se assegurar o amor e a proteção dos pais e de evitar um possível castigo. O sentimento de culpa se forma em relação com o código moral e os ideais de vida da família e do grupo ao qual se pertence. A religião influi na experiência da culpa e nas formas de exculpação. O judaísmo e o cristianismo incrementam e interiorizam a consciência de culpa. À vontade de Deus, considerada como fonte do imperativo, manifesta-se através da própria consciência da qual, assim como do próprio Deus, não cabe se esconder. A consciência de pertença ao povo eleito ou de tomar parte da igreja dos redimidos desenvolve, além disso, o sentimento coletivo de culpa. A aceitação de culpa supõe remorso e o desejo de expiar o mal cometido. A culpa excessiva pode ser moralmente mutilante, mas também pode sê-lo a tentativa de dissolver a culpa real, como se fosse algo patológico ou algo meramente condicionado pelas circunstâncias. A culpa não é simplesmente auto-repreensão. È inseparável da consciência do dano causado a outros. Dostoievski indagou sobre a idéia e os sentimentos de culpa, ressaltando o fato de que todo homem é partícipe da culpa do outro. Já as religiões antigas, como o próprio Antigo Testamento, manifestavam uma forte consciência de culpa coletiva.

 

Moreno Villa, Marianno,

Dicionário de Pensamento Contemporâneo, Culpa,

Editora Paulus, 1997, págs 170, 171, 172.

 

– A culpa implica primeiramente em uma ação, mesmo que esta seja uma omissão.

– Mesmo sem definição, a culpa causa desconforto.

– Ela é originária normalmente por agir contra algo (parâmetro) previamente estabelecido. É um sentimento gerado por uma transgressão. Só existe culpa se existem normas.

– A culpa não é doença, mas leva a elas quando há a compulsão do pensamento culposo ou a negação.

– O câncer pode ser ligado ao sentimento de culpa. Vem do psicológico mal resolvido que leva a uma disfunção física.

– A ousadia geralmente leva à culpa por esta representar normalmente uma quebra de limites. Culpa e Liberdade são opostos.

– A reflexão é um exercício de liberdade. A liberdade liberta da culpa. Considerando a culpa transgressão a algo, se você é livre conseqüentemente não transgride normas.

– O tabu é sustentado pelo medo. O tabu é uma restrição ou proibição imposta por tradição, costume ou religião (atos, modos de vestir, temas, palavras, etc.) e que não pode ser violada sob pena de reprovação ou perseguição social.

– Sociedades primitivas atribuíam aos deuses fenômenos da natureza que lhes assustavam. Prestavam oferendas a esses deuses para que tais fenômenos fossem “controlados”. Ainda hoje apesar das diferenças tecnológicas, científicas e culturais que esclareceram inúmeras questões, os tabus permanecem, e o homem ainda busca ajuda no sobrenatural.

– Existe sempre algo que gera medo e impõe limites.

– Devamos ter coragem de sermos livres, e assim nos livrarmos da culpa.

– A consciência dissolve a culpa. A culpa é a falta de utilização da consciência.

– A culpa está ligada à crença, transgressões de valor, omissões.

– A liberdade de fazer o que se quer implica em igual tamanho na responsabilidade de assumir as conseqüências desse feito. Por isto é difícil ser livre, pois não sabemos arcar com as conseqüências de nossos atos.

– Millor Fernandes: “o livre pensar é só pensar”.

– “Eu sou eu e minha circunstância”.

– Religiões atuais: possuídos pelo demônio as pessoas se sentem confortáveis ao passar sua culpa a diante. Não somos mais responsáveis pelo que fazemos.

– Tradição “culpista” judaica-cristã.

– Culpa – acumulação de medos – o mal que eu nego me faz mal – se eu aprisiono algo dentro de mim eu passo a agir daquela forma.

–Teoria da fofoca:

1°        admiração        ->

Eu ->   2°        raiva                ->         outro

3°        difamação        ->

– Olhamos para o outro e por comparação consideramos esse melhor que nós mesmos. Em seguida sentimos inveja, e por fim o difamamos, não para nos aproximarmos deles, mas sim para aproximarmos eles de nós.

– É preciso exercitar nossa prática reflexiva. Só ela leva à consciência cotidiana, à consciência de nossos atos. A reflexão nos torna livres, e livres nos libertamos da culpa.

 

18/02/06

Amor

 

Eros, Agape, Philia. Em grego, phileo é o termo mais utilizado para designar o afeto entre as pessoas. Erao e eros expressam o amor como um bem cobiçado e desejado. O eros tem algo de demoníaco, enquanto, na busca do êxtase, a razão é acuada. Por sua vez, o verbo agapao e o substantivo agape são usados com significados bem mais vagos, entre os quais o mais característico é o de predileção. Este verbo já é utilizado desde Homero, mas não o substantivo, que corresponde ao grego tardio e que fora da Bíblia é difícil de ser encontrado. Na linguagem do Novo Testamento, adquiriu riquíssimo significado, expressando a plenitude de relação entre Deus e o homem, e a nova relação que o cristianismo estabelece entre um homem e o outro.

Não basta afirmar que para Platão o eros é a força central que move a alma dos homens para buscar o bom, o belo, o verdadeiro. O próprio Platão admite que o eros é como uma loucura ou mania, coincidindo com Hesíodo, que vê nele uma paixão cega.

Devemos admitir que no eros há inegável ambigüidade. Naturalmente, não é ambigüidade no pensado, mas antes, no pensante, ou melhor no amante. Dito de outra forma, essas facetas distintas revelam tendência fática para identificar e confundir o impulso de amor com o instinto, o sexuado com o sexual, o universal com a promiscuidade.

O eros, como bem observa Zubiri, não exclui agape, mas a põe em perigo de traição. O que caracteriza eros, que caminha pelos cumes, beirando os abismos, é a falta de equilíbrio; sendo um impulso sublime, acha-se em constante risco de despencar. O eros descobre, em termos bíblicos, a condição daquele que nasceu fora do Paraíso, e que necessita de todo o poder criador de Deus para recuperar o equilíbrio original. Eis aqui o local em que se produz a grande revelação do amor em perfeito equilíbrio, que define a própria essência de Deus, o qual, na expressão do apóstolo João, “é agape”  (1Jo 4,8). E esta não é uma afirmação gratuita; brota, antes, de uma impressionante experiência humana. Com efeito, segundo o próprio João, “ninguém jamais viu Deus, mas o Filho unigênito nos foi dado a conhecer” (Jo 1,18). Portanto, olhando para Jesus, e vê-lo é ver o Pai (Jo 14,9), observando seu amor jamais desmentido, chegou à conclusão de que Deus é agape: o impulso mais genial, contínuo e desinteressado, na direção da união, seja dentro, seja fora da Trindade.

Jesus encarna e confirma como ninguém como ninguém o fato de que “não há maior amor do que o de quem dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Por isso, na cruz se revela o amor total, que não desiste ou cede nem diante da morte, e da morte na cruz (Fl 2,8).

De tudo isto se deduz que eros não pode ser pista de decolagem para a philia, para a amizade, a não ser que, equilibrado pela agape, transformando-se naquilo que Orígenes chamava de eros ouranios, amor celeste. Mas um celeste que implica, não uma realidade diluída ou aparente, – doceta, afinal – mas antes uma realidade recriada, capaz de alcançar as mais altas cotas humanas, precisamente por beber no mais alto manancial: Deus.

Digamos para terminar que a agape  divina, pela qual e para a qual somos, também tem caráter de resposta à fascinação do ser, por parte daquele que com razão é chamado amante da vida (Sb 11,26). Esta é a ® razão metafísica que postula da agape atitude decidida de amizade universal, capaz de mudar o rosto do mundo mediante nosso abraço.

Dicionário de pensamento contemporâneo – Paulus

 

– Segundo Maturana o ser humano é fundamentalmente emocional. Mas não só o ser humano como também todo ser vivo e seres animados (segundo ele até mesmo o carro). A emoção para ele são disposições corporais que modificam o domínio de ações – muda-se o “ambiente” muda a expressão corporal. O ambiente é o espaço sobre o qual uma ação se desenvolve, ou seja, o domínio da ação. Para Maturana todo ser vivo interpreta o ambiente para sobreviver.

– O diferencial entre seres humanos e outros seres está na capacidade de expressar reflexões. Nós como outros seres somos seres sencientes, que sentem, mas apenas nós seres humanos temos consciência reflexiva de nossos atos.

– Maturana defende que a emoção que está na base do ser humano é o amor. Foi o amor que permitiu a vida surgir. Amor é a aceitação do outro.

– A tese de Maturana é puramente biológica, sem qualquer base religiosa. Para ele, as sociedades que não se fundamentam no amor estão fadadas à extinção: “nós seres humanos somos originados do amor e dependemos dele”, “relações sociais são baseadas no amor. Se não fossem, não seriam sociais”

– Maturana é tão biólogo, tão biólogo, que faz filosofia; assim como Kapra que é tão físico, tão físico, que também faz filosofia – visão holística.

– Para os gregos inexistia a dicotomia “bem e mal”. Os próprios deuses eram bons e maus. Mas já para Platão a dicotomia existe, e é ela passada adiante.

– A razão influencia o conhecimento. O conhecimento faz a diferença na escolha do bem pessoal, na hora de saber o que é bom para nós.

– Desejos são imateriais, mas são comumente ligados a realizações materiais. Qual a relação entre sexo e amor?

– O sexo tem como finalidade apenas a reprodução? Não se pode buscar prazer nele?

– O Eros é um prazer que nos contamina, é instinto, irracional, material.

– Porque o Eros foi tão “proibido”?

– Porque não se fundamenta nada no efêmero, fundamenta-se no mundo das idéias, que é imortal.

– O desequilíbrio é o movimento do equilíbrio. O amor cristão – platônico – busca um equilíbrio estático, inexistente.

– Ser pleno é saber balancear o que acontece conosco.

– A perfeição é a negação.

– Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou egoísta.

– No nosso coração cabem muitos amores.

– O que eu nego eu quero.

– Santo agostinho: ame e faça o que quiser.

– Amar é aceitar as diversidades. Reconhecer (aceitar) o outro como outro.

– A falta é o amor – busca de algo no outro.

– Se ficamos muito tempo sozinhos, falta o outro; se ficamos muito com o outro faltamos a nós mesmos.

– Amar é fundamental!

 

11/03/2006

Amor II

As emoções

 

Quando falamos em emoções, fazemos referencia ao domínio de ações em que um animal se move. Notamos que isto é assim pelo fato de que nossos comentários e reflexões, quando falamos de emoções, se referem às ações possíveis do outro, que pode ser um animal ou uma pessoa. Por isso, digo que o que conotamos quando falamos de emoções soa os diferentes domínios de ações possíveis para cada pessoa e animais, e as distintas disposições corporais que os constituem e realizam.

Por isso mesmo, sustento que não há ação humana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como ato. Por isso penso também que, para que se desse um modo de vida baseado no estar juntos em interações recorrentes no plano da sensualidade em que surge a linguagem, seria necessária uma emoção fundadora particular, sem a qual esse modo de vida na convivência não seria possível. Esta emoção é o amor. O amor é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência. As interações recorrentes no amor ampliam a estabilizam a convivência; as interações recorrentes na agressão interferem e rompem a convivência. Por isso a linguagem como domínio de coordenações consensuais de conduta, não pode ter surgido na agressão, pois esta restringe a convivência ainda que, uma vez na linguagem, ela possa ser usada na agressão.

Finalmente, não é a razão o que nos leva à ação, mas a emoção. Cada vez que escutamos alguém dizer que ele ou ela é racional e não emocional, podemos escutar o eco da emoção que está sob essa afirmação, em termos de um desejo de ser ou de obter. Cada vez que afirmamos que temos uma dificuldade no fazer, existe de fato uma dificuldade no querer, que fica oculta pela argumentação sobre o fazer. Falamos como se fosse óbvio que certas coisas devessem ocorrer em nossa convivência com outros, mas não as queremos, por isso não ocorrem. Ou dizemos que queremos uma coisas, mas não a queremos ou queremos outra, e fazemos, é claro, o que queremos, dizendo que a outra coisa não pode ser feita. Há uma certa sabedoria consuetudinária tradicional quando se diz “Pelo seus atos os conhecereis”. Mas o que é que conheceremos observando as ações do outro? Conheceremos suas emoções como fundamentos que constituem suas ações. Não conheceremos o que poderíamos chamar de seus sentimentos, senão o espaço de existência efetiva em que esse ser humano se move.

 

O fundamento emocional do social

 

A emoção fundamental que torna possível a história da hominização é o amor. Sei que o que digo pode chocar, mas insisto, é o amor. Não estou dizendo com base no cristianismo. Se vocês me perdoam direi que, infelizmente, a palavra amor foi desvirtuada, e que a emoção que ela conota perdeu sua vitalidade, de tanto se dizer que o amor é algo especial e difícil. O amor é constitutivo da vida humana, mas não é nada em especial. O amor é o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social. Por isso, digo que o amor é a emoção que funda o social. Sem a aceitação do outro na convivência, não há fenômeno social.

Em outras palavras, digo que só são sociais as relações que se fundam na aceitação do outro como um legítimo outro na convivência, e que tal aceitação é o que constitui uma conduta de respeita. Sem uma história de interações suficientemente recorrentes, envolventes e amplas, em que haja aceitação mútua num espaço aberto às coordenações de ações, não podemos esperar que surja a linguagem. Se não há interações na aceitação mutua, produz-se a separação ou a destruição. Em outras palavras, se há na história dos seres vivos algo que não pode surgir na competição, isso é a linguagem.

Repito o que já disse antes: a linguagem, como domínio de coordenações consensuais de conduta de coordenações consensuais de conduta, pode surgir somente numa história de coordenações consensuais de conduta, e isso exige uma convivência constituída na operacionalidade da aceitação mútua, em um espaço de ações que envolve constantemente coordenações consensuais de conduta nessa operacionalidade. Como também já disse, isso tem que ter ocorrido na história evolutiva de nossos antepassados, e o que sabemos sobre seu modo de vida mais provável há 3,5 milhões de anos revela que tal modo de vida já existia naquela época.

Além disso, esse modo de vida até hoje se conserva em nós. Com efeito, ainda somos animais colheitadores, e isso é evidente tanto no bem-estar que sentimos nos supermercados quanto em nossa dependência vital da agricultura; ainda somos animais compartilhadores, e isso é evidente na criança que tira comida de sua boca para dar à mãe, e no que acontece conosco quando alguém nos pede uma esmola; ainda somos animais que vivemos na facilidade com que estamos dispostos a participar de atividades cooperativas, quando não temos um argumento racional para recusá-las; ainda somos animais cujos machos participam do cuidado com os bebês, o que vemos na disposição dos homens para cuidar das crianças quando não têm argumentos racionais para desvalorizar tal atividade; ainda somos animais que vivemos em grupos pequenos, o que transparece em nosso sentir parte de uma família; ainda somos animais sensuais que vivemos espontaneamente no tocar e acariciar mútuo, quando não pertencemos a uma cultura que nega a legitimidade do contato corporal; e, por último, ainda somos animais que vivemos a sensualidade no encontro personalizado com o outro, o que se evidencia em nossa queixa quando isso não ocorre.

Mas, sobretudo no presente momento da história evolutiva a que pertencemos – que começou com a origem da linguagem, quando o estar na linguagem se fez parte do modo de vida que, ao conservar-se, constituiu a linguagem Homo a que pertencemos –, somos animais dependentes do amor. O amor é a emoção central na história evolutiva humana desde o início, e toda ela se dá como uma história em que a conservação de um modo de vida no qual o amor, a aceitação do outro como legítimo outro na convivência, é uma condição necessária para o desenvolvimento físico, comportamental, psíquico, social e espiritual normal da criança, assim como para a conservação da saúde física, comportamental, psíquica, social e espiritual do adulto.

Num sentido estrito, nós seres humanos nos originamos no amor e somos dependentes dele. Na vida humana, a maior parte do sofrimento vem da negação do amor: somos filhos do amor.

Na verdade, eu diria que 99% das enfermidades humanas têm a ver com a negação do amor. Não estou falando como cristão – não me importa o que tenha dito o Papa, não estou repetindo o que ele disse. Estou falando com base na biologia. Estou falando com base na compreensão das condições que tornam possível uma historia de interações recorrentes suficientemente íntima para que possa dar-se a recursividade nas coordenações consensuais de conduta que constituem a linguagem.

No emocional, somos mamíferos. Os mamíferos são animais em que o emocionar é, em boa parte, consensual, e nos quais o amor em particular desempenha um papel importante. Mas o amor, como a emoção que constitui o operar em aceitação mútua e funda o social como o sistema de convivência, ocorre também com os chamados insetos sociais. Se vocês observarem um formigueiro, por exemplo, notaram que as formigas que o constituem não se atacam mutuamente. Ainda que ataquem e destruam um intruso, cooperam na construção e na manutenção do formigueiro, e compartilham alimentos. Alm disso é possível reconstruir a história evolutiva dos insetos e mostrar o que os constitui como tais. Com efeito, a partir do estudo da diferentes classes de insetos que existem a partir do estudo das diferentes classes de insetos que existem atualmente e de seus restos fósseis, pode-se mostrar que a origem da socialização dos insetos se dá no momento em que as fêmeas põem os ovos e ficam tocando-os e chupando certas secreções deliciosas que eles têm, sem comê-los ou danificá-los. Em outras palavras, a história dos insetos sociais se inicia quando as fêmeas tratam seus ovos como companhia legítima numa relação de aceitação mútua, e se constitui com a formação de uma linhagem na qual essa relação de interações de aceitação mútua se conserva como modo de viver, e se amplia às larvas e adultos. Todas as comunidades atuais de insetos sociais, colméia, formigueiro, ou cupinzeiro, qualquer que seja sua complexidade, são o presente de uma história de conservação de relações de aceitação mútua entre seus membros, que começa na relação fêmea-ovo. Se as fêmeas tivessem se separado de seus ovos ou os tivessem destruído ao tocá-los ou chupá-los, essa história não teria ocorrido.

A emoção que funda o social como a emoção que constitui o domínio de ações no qual o outro é aceito como um legítimo outro na convivência é o amor. Relações humanas que não estão fundadas no amor – eu digo – não são relações sócias. Portanto, nem todas as relações humanas são sociais, tampouco o são todas as comunidades humanas, porque nem todas se fundam na operacionalidade da aceitação mútua.

Diferentes emoções especificam diferentes domínios de ações. Portanto, comunidades humanas, fundadas em outras emoções diferentes do amor, estarão constituídas em outros domínios de ações que não são o da colaboração e do compartilhamento, em que não são o da colaboração e do compartilhamento, em coordenações de ações que não implicam a aceitação do outro como um legítimo outro na convivência, e não serão comunidades sociais.

Emoções e linguagens na educação e na política, de Humberto Maturana

 

– O título – O ser e o nada – cria dois pontos: o ser-em-si e o ser-para-si.

– O ser humano é um ser absolutamente livre; a única possibilidade do humano é ser livre – ele está condenado a ser livre.

 

O que são:

•          Em-si – tudo o que existe sem o humano – característica fundamental, identidade,       ser absoluto, acabado, pronto, hermético. O animal faz-se por instinto, sem    questionamento. As “coisas” são e ponto, não há outras possibilidades.

•          Para-si – Surgimento do humano – princípio da contradição – é o que não é – o ser humano é nada.

•          Em-si – essência antecede a existência – é.

•          Para-si – existência antecede a essência – eu sou o que minha razão determina.

 

Para Sartre:

– O que o ser humano é: má fé: desculpas (“a, mas isso…”), “eu ouvi o chamado de deus, serei monge” – ele escolheu ser monge, a princípio deus nem existe.

– Má fé é tirar a responsabilidade de nossas costas, abrir concessões, arrumar desculpas, justificativas.

– O tamanho de nossa liberdade é proporcional ao tamanho de nossa responsabilidade.

– A consciência não é em-si, pois ela se constitui em relação a alguma coisa. A consciência é a relação sobre algo. Portanto é mutável, não é algo pronto e acabado.

– A relação humana é conflitiva.

– Eu com minha consciência olho para o outro e o vejo como objeto mesmo sabendo que este é consciente. Da mesma forma o outro nos vê como objetos e isso causa um mal estar: estamos sendo julgados.

 

Para Maturana:

– Segundo Maturana a emoção é a base do ser humano e dos seres vivos em geral. Todo ato se baseia na emoção. Amor como emoção fundamental – aproximação e aceitação do outro como legitimo outro.

 

•          Sartre – o ser humano é único, não aceita o outro e o transforma em coisa – conflito.

•          Maturana – o ser humano aceita o outro como legítimo outro. Diz que pelo conflito não haveria hoje a humanidade.

 

– Existimos pelo outro. Para Maturana a aproximação é inevitável. Para Sartre a existência do homem é questionável. E o homem transforma o outro em coisa.

– Mas o fato é que nos aproximamos sempre uns dos outros. Temos necessidades de contado, e, sobretudo de amor.

 

17/03/2006

Amor III

 

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e um pouco de riso – para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! É de colher…  – não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa e indizível liberdade que traz só um amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e judô – para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor.

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas pra depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – pra viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mal bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-me-diz-que – que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva obscura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.

Vinícius de Moraes, Para viver um grande amor

 

– O amor é o porque, é o ato.

– Há várias formas de sentir e pensar o amor. O amor é muitas vezes uma palavra perdida. Essência… Ele existe ou é?

– Se o amor é, ficamos na estratosfera. Ele existe, é uma questão de vida, é saber reconhecer, compreender, respeitar. O amor é realidade, por isso ele existe. Não é preciso declamar o amor, este se percebe, sente-se… Mas ouvi-lo é ótimo assim como dizer. Tema novo hoje é a palavra sentimento. Já havíamos falado de emoções – disposições corporais – paixão, mas não sentimento.

– Fora da realidade do corpo há sentimento?

– Para Yung o sentimento tem lugar na razão, é um nível de pensamento.

– A alma é erótica – o que dizer? Amar ou agir amantemente?

– Se há algo que incomoda, diga, o amor resolve-se no diálogo. Não há 35 anos de casamento intocáveis. Não há como concordar com tudo, mas havendo o diálogo pode-se chegar a um consenso.

– O amor é bem ou mal?

– Pode ser os dois. Já moveram guerras por amor. O amor é movimento que pode contaminar, expandir ou sufocar. O amor cotidiano pode ser entendido como cuidado, mas podem existir outros meios de amor. O amor não é uma coisa só. Fazem muito por um amor só, mas existem meios que não são discutidos.

– Todos falam de amor, mas não se assume a responsabilidade do amor dito. Perdeu-se o sentido pelo uso banalizado e exagerado.

– Os poetas trazem a realidade do amor para nossa dimensão como se o amor fosse uma coisa muito distante.

– Existem quantos amores? Algum de mentira? O amor de amante, de filho, dos pais… Existe o principal? Nós não falamos do amor sobre nós mesmos. Nós transmitimos aos outros o que somos, se não nos amamos, como amar aos outros?

– Amar ao próximo como a ti mesmo.

– O que é amar-se?

– É estar bem com você.

– É o egocentrismo.

– Não. O egocentrismo é colocar-se acima dos outros. O amor é outra coisa. Auto-estima, cuidar-se… Amar-se… Aceitação do eu, respeito, individualização.

– Amar-se é um aprendizado?

– As dificuldades nos ajudam a nos construirmos, mas só se assumimos as responsabilidades. O amor se faz na relação, é aprendido na relação.

– Mas também é uma necessidade, a maior necessidades do ser humano.

– A relação não se da de uma só maneira, por isso o amor se da de várias maneiras.

– Como é o amor instintivo?

– Por exemplo, de mãe pra filho. O único amor verdadeiro é o amor de mãe para filho. Amor de criação, o resto é substituível e amor substituível não é amor.

– O amor e o desamor caminham juntos.

– Amor essência busca-se, amor existência constrói-se.

– Nossa vida é um esforço para esclarecermos a obscuridade da nossa linguagem. A função primeira da filosofia é a filosofia da linguagem.

– O que significa colocar uma experiência para os outros? Nós avaliamos nossas experiências? Quem somos nós?

– Não posso dizer como sou, posso dizer apenas o que acontece comigo. Não existe o amor em estado puro. Nós acontecemos sempre de forma diferente.

– Certa vez, Monet pintou um mesmo monte de feno inúmeras vezes durante um dia. Disseram que ele era louco. Ele disse que não pintava o mesmo monte de feno, pois a luz mudava e o tornava um monte de feno diferente.

– O amor é ‘acontecência’. A felicidade acontece no momento da distração. O amor não acontece, ele existe.

– A paixão acontece – é um impulso.

– No cotidiano, cometemos atos de amor.

– A abstração é uma necessidade da plenitude. O amor é colocado como arquétipo, essências absolutas não existem.

– A ação do amor é a própria ‘acontecência’ – olhares, gestos…

– O sentimento pode não ser expresso por palavras, mas ele existe em nós por isso pode ser sentido.

– Por que eu não preciso de ti eu te amo.

– É melhor amar ou ser amado?

– “Eu te amo” não é um fato definitivo e acabado.

– Sempre elegemos um modelo.

– O amor é necessário para conviver e coexistir. Se fossemos só no mundo, não seria necessário amor. Mas podemos melhorar ou piorar a nossa convivência. Como acontecem nossas convivências?

– Viva o momento presente.

– Amor não é condescendência, sentimentalismos, passar a mão na cabeça. Uma forma amorosa é dar atenção a quem fala e a quem escuta. Amor é presença.

– Deu nossa hora…

 

25/03/2006

O Outro

 

Outro (O): Em vários verbetes (por exemplo, Alteração; Categoria; Ser), abordamos a noção do “Ser outro”, com algumas referências ao que se pode denominar “o ser do Outro”. Referimo-nos com mais detalhe a esse ser do Outro – ou simplesmente, “ao Outro” – no verbete Intersubjetivo. Neste verbete, completaremos a informação ali proporcionada e, alem disso, referir-nos-emos principalmente ao “conceito do Outro” num sentido mais geral.

O “problema do Outro” – como “problema do próximo”, da “existência do próximo”, da “realidade dos outros”, do “encontro com o Outro” etc. – é um problema antigo na medida em que desde muito cedo preocupou os filósofos – para nos limitarmos a eles – a questão de como se reconhece o Outro – ou o próximo – como Outro; que tipo de relação se estabelece, ou se deve estabelecer, com ele; em que medida o Outro é, a rigor, “os outros” etc. Essa preocupação revelou-se de maneiras muito diversas: como a questão da natureza da amizade, na qual o amigo é “o outro si mesmo” e não simplesmente “qualquer outro”; como a questão de saber se é possível admitir que cada um seja livre na medida em que “se basta a si mesmo” ou possui autarquia, sem por isso eliminar “os outros” etc. André-Jean Voelke examinou as múltiplas doutrinas da “relação com o próximo” em boa parte da filosofia grega. Pode se dizer que em toda historia da filosofia, dos gregos até o presente, houve, explicita ou implicitamente, uma preocupação com “o problema do Outro”. Pedro Laín Entralgo examinou essa história, dando particular atenção à etapa moderna, na qual encontrou várias formas básicas de formulação do problema do outro. Laín Entralgo cita (e examina) as seis formas seguintes: “o problema do outro no interior da razão solitária: Descartes”; “o outro como objeto de um eu instintivo e sentimental: a psicologia inglesa”; “o outro como termo da atividade moral do eu: Kant, Fichte e Münsterberg”; “o outro na dialética do espírito subjetivo e na dialética da natureza: de Hegel e Marx”; “o outro como invenção do eu: Dilthey, Lipps e Unamuno”; “o outro na reflexão fenomenológica”. Essa simples enumeração sugere a riqueza e a complexidade que adquiriu o problema do outro entre os filósofos. O modo como Laín enumerou as várias formas básicas do “tratamento do Outro” indica, alem disso, que no problema do outro se entretece toda espécie de questões filosóficas: metafísicas, gnosiológicas, éticas, etc. Não podemos deter-nos aqui em cada uma dessas formas básicas, ou de quaisquer outras. Limitar-nos-emos a enfatizar algumas doutrinas mais recentes acerca do problema (que também Laín Entralgo examinou minuciosamente como prolegômeno à sua própria abordagem da questão). Indicaremos apenas que tomando em toda a sua generalidade, o problema do outro é mais amplo do que o do “próximo”; que não podem desvincular-se de tal problema os vários aspectos metafísicos, gnosiológicos, éticos, etc., mas que no decorrer da época moderna houve uma tendência a acentuar antes um aspecto do que o outro. Assim, por exemplo, o problema do reconhecimento do outro a partir do cogito; em Kant aparece com o problema do outro como ser moral etc.

Na filosofia contemporânea, o problema do outro não excluiu diversos aspectos, mas sublinhou, sobretudo dois deles: a constituição do outro na trama do intersubjetivo, e a realidade do outro no chamado “encontro”. Apresentaremos aqui brevemente algumas idéias sobre o “Outro” sob esses aspectos.

Max Scheler ocupou-se, sobretudo do problema de saber se o sujeito pressupõe outros sujeitos num mundo social comum e se é possível demonstrar a existência de outros sujeitos, isto é, se pode dizer que a consciência dos outros é acessível à própria. Scheler refere-se a esse respeito a várias teorias, entre as quais a da “projeção” ou endopatia, e conclui que o reconhecimento dos outros não é primariamente intelectual, mas emocional. Portanto, o outro Não é “dado” nem por inferência nem por simpatia.

Seguindo em parte Scheler, e modificando-o em alguns pontos capitais, Alfred Schuetz falou de uma “tese geral da existência do outro (alter ego)”, a qual consiste em afirmar que a experiência da “corrente da consciência do outro” é vivida simultaneamente co a própria corrente de consciência. Assim, podemos viver, argumenta Schuetz, “apreender o pensamento do outro em sua presença e no modo pretérito”, já que o falar do outro e o nosso escutá-lo são experimentados como algo vivido “ao mesmo tempo”.

Heidegger ocupa-se do problema do outro em sua doutrina do Mitsein e do Mitdasein. Nessa doutrina, pressupõe-se que o Dasein é ao mesmo tempo Mitdasein, isto é, que o Mitdasein caracteriza de algum modo o Dasein na medida que o Dasein é “em si mesmo essencialmente Mitsein”. Isso significa, entre outras coisas, que não se pode formular a questão do outro partindo de “si mesmo”, para depois passar ao “outro”; a análise do “si mesmo” num sentido semelhante a como a análise do si mesmo inclui seu estar-no-mundo.

Para Sartre, o “ser-para-outro” está incluído no Pour soi. Esta tese parece similar à de Heidegger, e em alguns aspectos fundamentais ela o é. Não obstante, ao contrário de Heidegger, Sartre examinou em pormenor os diversos modos de o outro se dar; com efeito, o outro não se dá somente como “incluído”, mas se dá também como “objetivado” e “objetivante”. A relação entre o si mesmo e o outro (que inclui a relação entre o outro como si mesmo e o si mesmo como outro) é uma relação essencialmente “conflituosa” (tal como enfatizou Laín Entralgo). Por isso, em vez do “ser com”, Sartre sublinha o “ser para”; neste, ocorre todo tipo de “conflitos”, pois “para” não significa aqui “entregue a” ou “a favor de”, mas “ser um para (o outro)” e “ser (o outro) para um” de modos muito diversos. Entre esse modos, achar-se o transformar-se em objeto, o alienar-se, o apropriar-se, o colaborar, etc.

Ortega y Gasset tratou com freqüência do problema do outro pelo menos em dois sentidos. Por um lado, o outro se dá na sociedade. A relação entre o si mesmo e o outro neste caso é uma relação entre o autêntico e o inautêntico, já que “o social” é em larga medida uma falsificação do “individual” ou, melhor dizendo, do pessoal. Por outro lado, o outro se dá na “convivência”, que não é propriamente social, mas interpessoal. Na convivência não há, ou não há necessariamente, falsificação da personalidade, pois esta se constitui justamente  em convivência com os outros. Assim, o outro, podem ser “as pessoas” ou pode ser “o próximo”, e esse dois modos de “ser outro”, embora na realidade estejam ligados, podem separar-se, pois são duas formas distintas de “ser com”, ou melhor,  de “estar com”.

Gabriel Marcel expressou a idéia de que não é legítimo afirmar a prioridade do ato por meio do qual o eu se constitui como um si mesmo sobre o ato por meio do qual se afirma a realidade dos outros: “Uma força poderosa e secreta me assegura que se os outros não existissem, tampouco eu existiria”. Marcel considerou o outro primeiramente em forma “dialogante”, um pouco amaneira de Martin Buber; embora o próprio Marcel indique que sua idéia acerca do outro como próximo se assemelhe à manifestada por W. E. Hocking.

O problema do Outro foi abordado por outros autores de múltiplas maneiras; os exemplos anteriores são simplesmente ilustrativos e, para ser um pouco completos, seria necessário mencionar junto a eles as pesquisas de Jaspers, Buber, Merleau-Ponty, Remy C. Kwant, Alphonse de Waelhens, etc. Restringir-nos-emos agora assinalar que o tratamento do problema do outro está estreitamente relacionado com a questão da comunicação enquanto “comunicação existencial” e com a questão do chamado “encontro”. Com a finalidade de esclarecer o problema do outro, propuserem-se, além dos termos já introduzidos (o “ser com”, o “estar com”, a “convivência”, o “ser para outro” etc.), vários outros, como “alteridade”, “alteração”, etc. J.L.L.Aranguren, por exemplo, propõe o termo ‘alteridade’ para significar”minha relação com o outro”, e o tremo ‘aliedade’ para significar “a relação entre vários ou muitos outros”. A alteridade é pessoal e impessoal; a aliedade tem caráter impessoal, objetivado. Entretanto, não se pode dizer no que diz respeito à relação ética, que a alteridade se refira ao individual e a aliedade ao social; pode haver, segundo Aranguren, uma ética individual e uma ética individual e uma ética social da alteridade. O plano da aliedade, em contrapartida, “não é puramente ético, mas político”. E como o político não se apóia – ou deve apoiar-se – no moral, conceitos como os de “liberdade”, que às vezes se consideram puramente políticos, devem fundar-se numa atitude ética: a que pode desenvolver uma “ética social da alteridade”. Tiveram importância capital no tratamento do problema do Outros termos como ‘diálogo’, ‘compreensão’, ‘encontro’ e outros similares. O vocábulo ‘encontro’, sobretudo, aparece como deveras fundamental, nele tendo-se baseado, em grande parte, Laín Entralgo em sua detalhada “teoria do Outro”. Laín Entralgo examinou o que denominou “os pressupostos do encontro” sob vários aspectos: o metafísico, o psicológico, o histórico social, considerando todos eles como básicos para a compreensão do problema do outro. O exame dos “pressupostos do encontro” constituiu a base para uma “descrição do encontro” e para uma análise das “formas do encontro”. Entre as formas do encontro, destacam-se “o encontro na existência solitária”, as “formas deficientes do encontro” (como, por exemplo, o encontro visual ou “encontro meramente visual”), as “formas especiais do encontro” (amor, comunicação, relação interpessoal, etc.) e o que Laín Entralgo chama de “forma suprema do encontro” ou “o encontro do homem com Deus”.

Dicionário de filosofia Paulus

 

– Primeiramente, sobre o tema de hoje que seria ‘relacionamento’, preferimos o intitular ‘alteridade’, pois além de serem próximos, o segundo é mais propício ao caso, por assim dizer.

– A questão do outro é um problema, e sempre foi uma temática fundamental na história do pensamento.

– Nós não teríamos que primeiro especificar de qual outro estamos falando?

– Segundo Sartre, todos são ‘o outro’, pois de alguma forma todos estão em relação a nós. Sempre que falamos do outro consideramos algum nível de interação entre as partes.

– É impressionante como as pessoas andam na rua achando que estão sozinhas, parecendo que não vêem uns aos outros.

– É também interessante quando ‘parece’ que as pessoas fingem que não vêem os outros, elas devem achar que estão num desfile de moda no meio da rua.

– Mas é fato que ninguém vive sem se preocupar com o outro, independente de quem seja esse. O problema mais do que se importar com os outros de maneira construtiva, nos preocupamos em nos mostrar aos outros, aquela coisa de ser e ter, sobretudo, na ‘Era do marketing’.

– Nós nos projetamos no outro, e podemos ou não nos identificar, pois, eu vejo em você o que gosto e o que não gosto, e só vejo isso a partir da minha representação. Portanto, vemos a partir de nosso ponto de vista.

– A realidade do relacionamento com o outro não é fácil, é difícil amar ao próximo.

– O outro pode me incomodar porque posso ver nele coisas que não gosto em mim, e por outros me apaixonar por que podem existir nele coisas que admiro e gostaria de ter.

– O início da felicidade ou infelicidade humana se encontra na comparação. A partir do momento que você se sente melhor ou pior, acaba caindo em algum complexo.

– É a questão do olhar, a medida que você olha o outro e se compara surge o conflito. O homem se depara com imperfeição, mas atualmente apenas busca e aceita a perfeição. No pensamento antropocêntrico o ser humano é colocado no topo da pirâmide, mas não é propriamente o ser humano, é o homem europeu. Esse é nosso padrão de perfeição.

– Fato é que o homem ‘coisifica’ qualquer coisa a seu redor se isso o for trazer algum benefício, custe o que custar.

– É nesse ponto que entra uma briga atual contra uma ‘devastação natural’ da vida em nosso planeta. O que vem sendo chamado de ‘bioética’, é uma corrente que defende um trato com dignidade com animais e plantas. É um movimento contrário à tendência de se pensar que se não é racional, não tem sentimento, e, portanto, não merece respeito. As pessoas pensam que tudo que não se mexe, não tem vida, porém tudo no universo é vida.

– Tem pessoas que conseguem ver os outros, há lugares que freqüentamos em que conseguimos nos sentir ‘alguém’, pois ‘o outro’ nos vê como pessoa. Você sabe até o nome do garçom que está te servindo. Ser tratado com respeito é muito bom, assim como fazer alguém perceber que é respeitado; e afinal de contas não custa nada. Às vezes dar um sorriso para a pessoa vale a pena, do mesmo modo como é bom recebê-lo.

– Até mesmo nas relações pessoais sofremos influência do capitalismo, a competição não permite uma completa interação.

– As pessoas têm tanto medo que preferem se resguardar.

– As pessoas se fecham por causa do medo.

– Nós somos como ratos de laboratórios, adestrados pelo medo, que levamos choque ao tentar pegar comida.

– É difícil tentar compreender a consciência – interpretação – que os outros têm do mundo. Sartre coloca essa tarefa como impossível.

– Para começar, mal sabemos escutar. Talvez seja uma questão cultural, mas essa é uma ‘habilidade’ que não é fácil de se desenvolver.

– O fator que talvez mais dificulte essa ‘tarefa’, seja o fato de que ao ouvir o que o outro tem a dizer. Interpretamos o dito com nossa consciência e assim não compreendemos totalmente o que foi exposto e muitas vezes sem esperar o outro acabar de expor seu raciocínio o atropelamos com questionamentos para convencê-lo do contrário do que não chegou a ser dito.

– Por isso é interessante a investigação dialógica, pela qual o dialogo configura dois lados opostos, os quais irão apresentar suas idéias e tentar se desenvolver pela comparação das idéias expostas.

– Mas até que ponto nos interessa ouvir? Muitas vezes as interrupções podem ser uma certeza do nosso conhecimento, da nossa opinião, e não nos interessa ouvir outra.

– O que seria um absurdo! Não somos tão completos a ponto de dispensar ouvir novas idéias, sempre há algo novo para aprender.

– Temos, antes de escutar, que nos prepararmos para tal e desfazermos nossas defesas para podermos receber novas idéias sem preconceito.

– É verdade, o novo parece ofender as pessoas as vezes, e essa seria uma boa explicação para nos fecharmos.

– Mas há também a possibilidade de gostarmos do novo, mas com o complicador de termos medo de mudar, às vezes pelo simples fato de ser difícil abandonar determinada posição. A construção surge da desconstrução, e esta não é nada simples.

– Quanto menos eu me conheço menos vou me relacionar com o outro no sentido de aprofundamento da relação, por isso o autoconhecimento é importante para podermos ter cada vez mais, melhores e mais proveitosos relacionamentos.

– Quais são as fontes que a educação mundial deve trabalhar?

– Na verdade os métodos de estudo não devem ir contra o relacionamento do outro quanto à capacidade de abertura de cada um para a alteridade. A alteridade é algo que pode ser construída. É interessante o aspecto pedagógico disso.

– Temos que entender o ponto de vista dos outros, entender seus ‘porquês’, participar de grupos que fazem reflexão, debates, que têm dialogo.

– Seria bom se víssemos a diferença com outros olhos além de uma visão taxativa.

– Podemos discordar de alguém e mesmo assim encontrar semelhanças nos raciocínios, principalmente quando se trata de casos em que a formação cultural é diferente.

– A questão é de saber respeitar e entender a diferença; o outro, sendo esse o outro ou nós mesmos, tem direito a ela.

 

01/04/2006

Filosofia Clínica

 

A filosofia clínica é uma técnica de ajuda pessoal e foi criada por Lúcio Packter, psiquiatra e filósofo. Na realização de nossos projetos muitas vezes seguimos caminhos que nos levam onde não desejamos ir. Ao procurar um estilo próprio para ajudar as pessoas a vencer suas dificuldades existenciais, Packter criou a filosofia clínica.

A filosofia clínica esta longe da prática psiquiátrica que sugere leituras de filósofos para os pacientes em tratamento. O que caracteriza a técnica é que ela busca nos vinte e sete séculos de tradição filosófica elementos para entender a singularidade de cada pessoa. O que ela procura na história da filosofia? Uma rica tradição de pensar a vida por diferentes gerações de homens. As diferentes teorias filosóficas são justapostas sem qualquer ordem? De modo algum. A filosofia clinica reúne essa tradição valendo-se das sugestões da fenomenologia para interpretar todo o legado cultural do Ocidente. Ela desenvolveu uma visão ampla da vida que não se fecha em aspectos específicos da existência como ocorre, por exemplo, na psicanálise, estruturada em torno das pulsões (sexualidade).

No Caderno S, Lúcio define a filosofia clínica como “a filosofia acadêmica adaptada e direcionada à atividade clínica realizada por filósofos formados em faculdades de filosofia reconhecidas pelo MEC (p.1). Esta não é uma definição clara. Hoje diversos profissionais estudam a filosofia clinica, mas o problema central não está nessa parte da definição. O conhecimento da tradição filosófica é um diferencial da técnica, mas, se formos rigorosos, ele vale também para psicólogos, psiquiatras, pedagogos, isto é, para todos os profissionais que lidam com a alma das pessoas, todos para quem o significado das divergências é fundamental para o êxito do trabalho.

O que importa é que a filosofia clinica é um procedimento de ajuda pessoal que busca no passado filosófico os elementos teóricos para fundamentar a relação clínico-partilhante. Sempre que estudamos o passado filosófico, constatamos que não podemos prescindir dele, mas também percebemos que não mais vivemos nele, não podemos repeti-lo. Vamos vivendo, temos novas necessidades a cada dia, isto é, os problemas que precisamos enfrentar são diversos dos que deixamos para trás. Quem acha possível assumir uma doutrina antiga tal como ela foi concebida não percebe que está perdendo o essencial da reflexão filosófica. Não é razoável absolutizar teorias, porque elas deixam de responder aos novos desafios da vida e as teorias filosóficas foram elaboradas para resolver questões fundamentais do mundo da cultura. O que fazer então? A atitude consagrada pelos grandes filósofos de nosso tempo como Martin Heidegger, Karl Jaspers, Ortega y Gasset, Julian Marías, Delfim Santos e Miguel Reale é rever a tradição filosófica a partir de uma leitura atual.

O que faz a filosofia clínica quando se defronta com os vinte e sete séculos de pensamento? Parece-nos ser o seguinte: ela faz uma retrospectiva de todo o passado filosófico, mas o traz até nosso tempo à luz de uma filosofia contemporânea, a fenomenologia existencial. Essa é uma marca da filosofia clinica. Ao empregar a fenomenologia, ela o faz sob a ótica da atividade clínica. A preocupação é ajudar as pessoas, mas a clínica do inicio ao fim do processo, busca entender o sentido ou significado das experiências que a pessoa atribui às situações que ela vive no dia-a-dia, situá-la no se mundo. Sua analise fenomenológica das formas concretas da existência permite-lhe identificar conflitos e problemas, proporcionando uma compreensão global da historia de vida e da significação que o partilhe dá à própria existência. Quando esta exame está completo, é possível descobrir os conflitos existenciais da pessoa. Em seguida, através do uso dos sub-modos, o clínico ajuda o partilhante a lidar melhor com suas aflições e choques interiores. Quanto melhor resolvidos os choques na malha intelectiva da pessoa, quanto mais eficiente for o planejamento clínico, mais autonomia ou amadurecimento pessoal o partilhante adquire. Mesmo quando as vivencias pessoais aparecem sob forma de angústia e restrição, a pessoa consegue viver melhor se os tópicos de sua EP não tiverem choques profundos, se a relação com a que se passa à sua volta não for de grande confusão. Enfrentar a dor e os conflitos, e saber resolvê-los constituem uma experiência humana maravilhosa, pois representa um caminho de superação de si mesmo, abertura para os diversos aspectos da existência. Aos olhos de quem sabe como lidar com suas experiências, a vida é oportunidade de realização e alegria, mesmo com seus dramas.

Os procedimentos e objetivos da filosofia clínica não se afastam, portanto, do emprego do método fenomenológico na análise da experiência das pessoas e do propósito de oferecer a cada uma delas a possibilidade de realizar uma jornada singular, de habitar o seu próprio mundo. É uma forma de ajudar a construir um rumo na existência, num mundo que nos parece confuso. No final da pratica clinica, a pessoa não deixará de ser o que ela é, vai perceber as coisas do seu jeito, aprenderá a usar os tópicos e categorias marcantes de sua EP, superará os sofrimentos que a trouxeram até o filosofo clinico.

O método e a filosofia fenomenológica inspiraram formas de atendimento psicológico e renovaram antigos procedimentos psicoterápicos como a psicanálise. No âmbito da filosofia clinica.

Como desenvolvemos o assunto no livro que estamos lançando? No capitulo primeiro resumimos o método. O segundo capitulo expõe nossa hipótese, isto é, nossa compreensão de que é a fenomenologia que oferece o nexo à filosofia clinica. O terceiro capítulo é dedicado ao estudo de como a fenomenologia transformou o exame dos fatos psicológicos. Vamos mostrar como um dos mais notáveis fenomenólogos do ultimo século, Karl Jaspers, que era psiquiatra, mudou sua maneira de entender e atuar. A fenomenologia está na base da escola gestáltica. O capítulo seguinte aprofunda o entendimento de situação existencial do homem de hoje. Concebido a partir da análise categorial, incorporada às contribuições de Ortega y Gasset. A noção orteguiana de circunstancia ajuda a entender a existência como um modo de ser em situação, tema essencial da fenomenologia. Este aspecto do raciovitalismo aprofunda o significado do que é a vida em contexto, sem afetar os pressupostos básicos da fenomenologia. O quinto capitulo procura mostrar que o fato de ser uma terapia verbal não significa que a filosofia clinica tenha por fundamento alguma dentre as várias manifestações da filosofia analítica. Quando ela se vale das indicações desses pensadores não deixa de ser nos limites postos pela hermenêutica fenomenológica.

A filosofia clinica é uma pratica isolada? De modo algum, no trabalho clinico, o filosofo não prescinde da ajuda de outros profissionais, pois há casos em que ele deve contar com o auxílio do médico, do psicólogo, do enfermeiro, do pedagogo, etc. A pratica clinica ensina e estimula tal diálogo.

José Mauricio de Carvalho – Professor do departamento de filosofia da UFSJ

 

Lançamento do livro José Maurício de Carvalho:

 

Na Europa a filosofia prática é a linha filosófica de discussão de temas específicos com um público específico. Por exemplo, casos de psiquiatras desenvolvendo discussões filosóficas como no livro “Quando Nietzsche chorou”.

A filosofia clinica não é uma pratica de filosofia ‘de carteirinha’, e sim uma técnica de ajuda pessoal, diferentemente de outras áreas da psicologia ela tem diálogos mais próximos com a filosofia.

Os filósofos iam se dando conta de fatos cotidianos e passavam isso para a sociedade. O pós–guerra ‘criou’uma nova forma de estruturação do mundo, não desestruturando todas as suas bases, mas sim rearranjando-as, forçando assim que um novo mecanismo de ajuda surgisse para nos orientar.

Os jovens do pós–guerra viveram e ainda vivem uma ‘desordem social’, perderam certas referências que gerações passadas enxergavam muito claramente. Os ‘construtores’ de sentido da vida não percebem o novo sentido da vida dos novos jovens.

Hoje o estar perdido na vida é diferente de antes da guerra. Hoje as famílias não são mais as mesmas o mundo não é mais o mesmo…

As profissões por exemplo, psicanalistas ‘perdem’ ao ter que pedir ajuda em problemas novos com os quais se deparam pela primeira vez.

A principal diferença entre as gerações é a rapidez com que as mudanças se processam. Diferenças culturais evidenciadas, pressões econômicas, avanços tecnológicos; há a consciência da separação de identidade juntamente com a união de um mundo globalizado. O mundo é muito diferente hoje.

A compreensão filosófica do mundo é diferente, por exemplo, antes questionava-se um policial corrupto, hoje questiona-se toda uma instituição. Hoje não há guerras formais, mas há centenas de pequenos conflitos espalhados mundo afora.

A juventude hoje tem o mesmo ímpeto de ruptura como sempre, mas hoje nesse mundo ‘desorganizado’, não sabem contra o que lutar…

A filosofia clinica não é uma escola filosófica, ela é uma técnica de desenvolvimento

A tarefa da filosofia é sempre de fato pensar e refletir novidades. O problema de hoje é a velocidade cavalar com que as novidades surgem. É como se faltasse tempo para digerir o que acontece. Manipulações genéticas, revoluções bioquímicas, avanços tecnológicos, comunicações, relações políticas e familiares. Perdemos ate mesmo nossas bases comparativas. As crenças que sustentam o mundo hoje, tudo em que acreditamos, é questionável.

No séc XIX acreditávamos no progresso, hoje esse progresso é questionável, ele existe?

Ao contrario das outras gerações que tinham casas no chão feitas de tijolos hoje não temos nem casas nem tijolos.

A moral ética é o meio de controle subjetivo da sociedade, o concreto são as leis. O mundo é dúbio. Há o discurso para a sociedade puritana ouvir, mas grande parte do que acontece não chega a nossos ouvidos e não passa na televisão.

A prática já antiga de congelamento de embriões causa polêmica em qualquer lugar, pois, contrastam com conceitos religiosos, e implicações jurídicas que não raramente se fundem. Desde quando somos seres humanos?

Se a coisa continuar do jeito que vai, teremos tecnologia porém não saberemos o que fazer com ela. O desenvolvimento que alcançamos está aquém da nossa compreensão.

O futuro do mundo não está perdido. Mas como sempre algo acaba e o novo surge das cinzas do que foi.

A filosofia clinica não é escola, não é discussão, é sim um instrumento que ajuda as pessoas a trabalhar, a construir um sentido para suas vidas.

A Filosofia contemporânea considera que é preciso entender o homem em seu meio.

O filosofo clinico primeiramente entende o paciente em todas as amplitudes desse ser, depois ajuda esse ser a se organizar e a se entender. As pessoas são muito diferentes, por isso inicialmente situa-se a pessoa no mundo e depois se trabalha a pessoa com ela mesma dentro de seus tópicos da estrutura do pensamento.

O filosofo clinico é filosofo para dominar e entender os conceitos filosóficos.

De acordo com psicólogos existencialistas – fenomenólogos – se eu for capaz de refletir para alguém os sentimentos dela, expondo-os para ela, essa pessoa teria força para se ‘restabelecer’, se resolver.

A Filosofia clinica aponta mais especificamente os problemas, mas não cobre todas as extensões da filosofia fenomenológica. A técnica foi desenvolvida por psiquiatras, mas dentro da fenomenologia alteraram seu rumo.

A medicina subdividiu patologias e ‘criou’ os transtornos que poderiam ser tratados com remédios. Diante de um remédio que acreditamos que resolvera nossos problemas, temos um ato de fé maior que diante de Deus.

O filosofo clinico é responsável por entender o outro.

O filosofo é aquele que aprende que pensando a vida esta fica mais gostosa.

No séc XVIII os filósofos ensinaram que o real era o palpável e isso estava errado.

O filosofo clinico é um ‘terapeuta’ para o qual a pessoa conta sua vida e o filosofo traça e monta a malha (mapa) da pessoa.

 

08/04/2006

Alteridade

 

O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença.

Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem. A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: “Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas”.

Numa sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel… e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade. Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe. Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis… Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos doze e perguntou: “O que o povo pensa de mim?” E depois acrescentou: “E o que vocês pensam de mim?” Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: “Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção”.

Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade. Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou -a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.

Frei Betto, escritor e autor de “Alfabetto – autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros.

 

– A alteridade vai ser suscitada muito recentemente como uma categoria a ser desenvolvida e trabalhada principalmente por filósofos latino-americanos.

– As filosofias grega e européia são fundamentadas na categoria racionalista e não conhecem a alteridade, ou seja, não reconhecem o outro como outro. O outro apenas passou a ser ‘importante’ no pensamento cristão.

– A idéia de que outro é absolutamente o outro é respeitar a alteridade.

– No fundo as filosofias latinas fazem uma crítica ao antropocentrismo moderno que coloca os europeus no centro do mundo. Para ser humano tem que ser igual aos europeus. Os filósofos latinos querem um antropocentrismo mais humano que considere todos os homens, sem qualquer determinação.

– Nietzsche critica Sócrates que coloca os gregos como homens especiais. O grego não desenvolveu esta categoria de desenvolvimento do outro, a alteridade. Os gregos negam os outros – crianças, mulheres, estrangeiros e escravos – apenas os homens eram cidadãos.

– A questão é o não reconhecimento da diferença. Para uma ética da alteridade é preciso fundamentar a alteridade como categoria. Em todas as relações humanas há por trás a questão da antologia.

– O homem mal se vê, e assim ele não consegue ver o outro. Então o homem vê o outro como projeção de si mesmo. O homem em relação ao outro, aos animais e à natureza, trata todos esses como objetos, subjugando-os e colocando-se acima de tudo, dando-se assim certa ‘liberdade’ de usá-los como quiser.

– O homem às vezes parece se esquecer que ele é isso que o cerca: “tu és isso”.

– Existe um limite para a alteridade?

– Tem que haver um limite com quem não é tolerante!

– Você pode ter o pensamento de alteridade, mas não dá para respeitar aquele que não tem respeito.

– As novelas de hoje que retratam a época da escravidão mostram parte da dura realidade a que eram submetidos os escravos, tortura era normal.

– A bioética surgiu em função das pesquisas que utilizam negros americanos pobres para fazer as pesquisas, e agora se expande aos mais diversos campos de ‘preservação’.

– Na verdade a alteridade pode ser pensada em vários ângulos. Pode ser pensada em relações humanas. O que a escola faz com a criança é uma violência, um desrespeito a diferença, é fazer o outro se adequar.

– Se eu deixo o outro fazer aquilo que ele quer comigo, eu é que permito. Mas é a questão do ponto de partida é que, se há limite, não há alteridade. Hoje o que impera é o argumento de autoridade. A alteridade não pode ser limitada, se é limitada é outra coisa que não alteridade.

– Se o ponto de partida é a negação ai fica complicado. A delegação da alteridade está tão arraigada na cultura que a negação é normal.

– A alteridade foi de certa forma inaugurada pelo cristianismo: “amai uns aos outros” – Deus é pai de todos, então todos somos irmãos, somos todos semelhantes.

– A psicanálise trabalha exatamente isso, pois quando interpreto o outro entro tenho que pensar a alteridade. Alteridade na relação psicanalítica existe o tempo todo: eu saio de mim para reconhecer o outro. O outro merece respeito e ele é infinito.

– O brasileiro é acostumado a questão da dominação e ele acha isso normal. O ser acaba se concebendo assim. O ser acaba tendo medo da liberdade.

– Sempre dependemos do outro, querendo ou não, precisamos do outro. Tenho respeitado o conhecimento do outro, mas a sociedade não reconhece assim.

– Questão da simplicidade. São as questões básicas da vida, questão do ócio.

– Como reviver a alteridade dentro das instituições?

– Frei Beto: se as igrejas vivessem mais a alteridade, essa seria muito melhor. O que na verdade acontece é a relação de autoridade. Frei Beto foi meu professor e eram todos revolucionários. O exercício era o diálogo. Princípio da religiosidade sem castração. Herdaram a filosofia pronta do mundo cristão. Ate hoje eles impõem as regras.

– O fato de alguém ser sacerdote não significa que ele vai ser perfeito.

– A palavra dialogo significa separação. Diálogo vem do grego: dia – separação; logos – razão.

– Reforça a idéia de alteridade – reconhecer o outro com suas diferenças quanto mais diálogo, mais vou conhecer o outro. A união nasce do diálogo. As pessoas têm um meio de chegar a um consenso. A postura dialógica é a postura da alteridade.

 

22/04/2006

Poder

 

A galinha talvez seja a primeira ave a ser domesticada há cerca de 12 mil anos quando o ser humano começou a ficar sedentário. Desde então as galinhas têm um destino sinistro: raramente morrem de morte natural. São mortas para o consumo humano. Na perspectiva delas, a vida é simplesmente uma tragédia. Normalmente as galinhas eram e são criadas ao ar livre, perambulando ao redor das casas. Ainda hoje as “galinhas caipiras” são preferidas por serem muito mais saudáveis. Modernamente, com a sociedade da produção industrial, elas foram transformadas em máquinas para produzir carne e ovos. Fechadas, milhares delas, em aviários nos quais em cada metro quadrado são criadas de 10 a 12, enganadas pela iluminação que lhes tira a percepção da noite, alimentadas por promotores de crescimento e de antibióticos para crescerem até um ponto comercialmente ideal – 40 dias -, elas são submetidas a grande padecimento. Se Gandhi, o Dalai Lama ou qualquer pessoa sensível ao sofrimento visitassem um desses currais aviários, seguramente se indignariam e até chorariam de compaixão. Mas nossa espécie se especializou em submeter impiedosamente todas as demais para tirar proveito delas mesmo que implique grande sofrimento.

Sabemos hoje que todos os seres vivos, formamos uma única comunidade de vida, pois somos portadores do mesmo alfabeto genético – as quatro bases fosfatadas e os 20 aminoácidos. Por que então impor este padecimento na forma de crueldade para com nossos familiares e parentes naturais?

Depois de séculos de violência, as galinhas agora estão nos dando o troco. É a vingança das galinhas. Ela vem sob a forma da gripe aviaria que esta atingindo outros seres vivos e pode alcançar também os humanos. É o famoso vírus H5N1. vírus aviários sempre existiram em formas não-letais. Agora este H5N1 se revela uma cepa patogênica. Se sofrer mutações que o tornaria capaz de transmitir-se aos seres humanos, poderá se replicar loucamente e matar entre 150 milhões a um bilhão de pessoas, consoante previsões científicas. Surgido pela primeira vez em 1997, em Hong-Kong, agora atingiu quase metade do mundo. Não existe um antídoto que o elimine, apenas possui efeito limitante. É o tamifu que não age profilaticamente, apenas 18 horas após a infecção. Foi desenvolvido a partir de um ácido extraído de vagens de anis estrelado encontrado em algumas províncias da China. A companhia farmacêutica norte-americana Gilead Sciences – da qual o secretário da Defesa do governo Bush, Rumsfeld, foi presidente e sócio – desenvolveu o antivírus. Cedeu licença exclusiva de produção à Roche suíça, que esta lucrando milhões de dólares e reluta em subceder licenças de produção por causa da não anuência dos acionistas.

Hoje é sabido: a origem da gripe não provém das galinhas criadas ao ar livre mas das práticas avícolas industriais e pela utilização de “subprodutos” da criação avícola como a ração industrial. A Fundação BirdLife demonstrou que o padrão de focos da gripe segue as rotas das estradas e das vias férreas e não das rotas de vôo de aves migratórias. A gripe é conseqüência do manejo cruel que nós seres humanos temos feito  com as galinhas confinadas. Aí está o nicho de reprodução do vírus. É uma doença sistêmica. Ela demanda uma forma de relação com os seres vivos que não implique crueldade mas racionalidade e compaixão.

Leonardo Boff – A fuga das galinhas

 

– As mutações genéticas geradas pelo uso de remédios ou mesmo experiências não poderiam ser nada mais que uma antecipação das mutações que viriam a acontecer em algum determinado momento?

– Não é assim tão simples. As mutações ocorridas na natureza acontecem de forma espontânea e natural, de certa forma inteligente.

– Se alterações genéticas podem trazer benefícios, qualquer malefício faz parte das descobertas humanas.

– Mas não há dúvidas de que hoje vivemos muito melhor, mais tempo e sem dor.

– Não é bem assim que funciona, hoje muitas mulheres mais jovens têm apresentado câncer de mama e surgem muitas doenças, vivemos muito mais ‘remediados’.

– Há um cientista americano que faz uma denúncia contra os laboratórios que diminuíram os gastos necessários para a avaliação de segurança para lançarem um remédio no mercado e ganharem mais com os lucros.

– É verdade que os transgênicos, experimentos e os remédios provocam alguma alteração no ciclo natural das coisas (da vida humana). O que acontece é só que estamos nos destruindo e destruindo o planeta.

– O detalhe é que estamos envolvidos em um processo degradativo acelerado, por causa do capitalismo. Temos que nos preocuparmos mais com nossa vida.

 

E mudando de assunto…

 

– Bom, podemos voltar a esse tema depois, mas vamos agora ao tema de hoje. A ética é uma ‘invenção’ política, e é marca de identidade entre o poder e o governante.

– Antigamente o governante encarnava o poder, ou seja, o poder era ‘submetido’ às suas vontades. Ele era a lei e a religião e ambos eram indistinguíveis.

– Antes dos Gregos e dos Romanos o governante era o poder e foram os primeiros a submeter o poder dos governantes a um conjunto de normas.

– A partir disso o poder não se identificava mais com ninguém.

– A Lei, exprime uma idéia coletiva e representa uma maneira de compreensão da estruturação daquela sociedade. A mudança no sistema de governo representa uma alteração na estruturação da sociedade. Passou a existir um limite na abrangência do poder e do governante. Surgiu a distinção de público e privado, sendo o público referente à área do estado, onde o governante era submetido a um conselho; e o privado referente às posses dos cidadãos.

– Da mesma forma como existe o espaço, há o poder que os rege, que eram a política no espaço público e a religião no espaço privado. Política e religião – sobretudo poder cristão – que antes se confundiam sob as vontades do governante, agora eram apesar de aliadas, distintas.

– O que levou o homem a querer o poder?

– É natural do homem querer o poder.

– Mas antes do poder há a diferenciação entre os membros de qualquer sociedade, depois a identificação de lideranças ou se preferir, quem irá ter a responsabilidade sobre todos.

– O poder pode ser uma necessidade do homem ‘comum’ de tirar de si a responsabilidade. Numa sociedade primitiva na qual todos eram iguais, o poder era atribuído a um deus que fazia imperar suas vontades (cheias, chuvas, secas, raios, sol…)

– Acreditava-se que a ciência do homem moderno resolveria todos os problemas do mundo, mas não só não resolveu todos, como criou outros.

– O homem busca uma evolução solo, independente, ele prega um avanço desarmônico na sociedade, por isso ele se põe contra a sociedade.

– Vivemos num mundo de covardes, o poder é aceito como uma coisa natural, ele cala os homens e retira deles a vontade de lutar.

– Só há o poder porque existem os fracos?

– Fracos ou inconscientes. Há de se ter quem decida por quem não tem capacidade.

– O poder dentro de um campo privado funciona de maneira similar, a ética cristã foi construída sobre padrões privados. O poder absoluto é atribuído a um pai (sociedade patriarcal), um pastor, e dessa forma é considerado absoluto chegando a ser arbitrário. O pai detinha o poder sobre a casa e a família com o respaldo da religião.

 

06/05/2006

Igualdade e liberdade

 

IV. O caminho da igualdade. No mundo antigo, as desigualdades eram enormes. A cada um o que é seu poderia resumir a situação: “parece que a igualdade é o justo, e o é, mas para os iguais; e o desigual parece que o é justo, e o é, mas somente para os desiguais”. Na antiguidade, nem os homens mais lúcidos tinham algum problema em considerar os outros homens, mulheres ou crianças, como escravos. Para Aristóteles, o justo não era a escravidão, e sim tratar as pessoas de maneira que não lhes cabe: aos iguais como desiguais e aos desiguais como iguais. Embora seja certo que também se abriam novos horizontes num ambiente no qual se aceitava, sem criticas, a escravidão. Sócrates se afanava em demonstrar a um escravo de Menon que também ele era possuidor de uma verdade universal que habitava em cada espírito. Sócrates é o signo dessa igualdade que reconhece a todos os homens a mesma alma. Não obstante, a igualdade se situava, sobretudo, no campo da política. Tanto a liberdade como a igualdade pertenciam à esfera da Polis à busca desinteressada do bem público. Reconhecia-se a igualdade entre os cidadãos, mas ela não era reconhecida aos estrangeiros, nem aos escravos, mulheres ou crianças.

Neste contexto, é a tradição judaico-cristã que dá um impulso definitivo à idéia de igualdade essencial entre os homens. No Antigo Testamento, os homens em comum ser imagem de Deus; ter o mesmo sobrenome: Adão: que significa homem feito da terra; neste homem se incluem todos os homens; a mulher é reconhecida como semelhante ao homem: carne da minha carne e osso dos meus ossos, o que supõe um grande avanço em relação á mentalidade da época que fazia da mulher propriedade do homem (Ex 20,17; Dt 5,21). Mas a universalização se dá no Novo Testamento, que declara definitivamente a igualdade de todos os homens: “Em Cristo não há escravo nem livre, não há homem nem mulher” (Gl 3, 28).

Passado o período medieval, a igualdade se impõe como idéia-força introduzida pelas classes emergentes no período da história no qual vai desaparecendo a aristocracia feudal. Na Inglaterra da revolução parlamentar (1700), a exigência do direito dos deserdados à existência, e a igualdade que a burguesia promovia se unem. Este movimento vai se formando desde o Renascimento e culmina no Iluminismo. Desde o século XVIII, o ideal de igualdade já faz parte da nossa estrutura cultural; não é possível pensarmos sem ela. A igualdade já é patrimônio de todos os homens. Ainda que por caminhos tortuosos, não há dúvida de que a historia dos homens, no seu curto percurso como natureza e liberdade dentro da longa linha de evolução, avançou depressa. Fomos capazes de descobrir o que constitui o mais fundo do homem, na sua origem, na sua história e na sua finalidade é uma profunda comunhão. A vida de cada homem é também a história, mais ou menos bem sucedida, desta descoberta. Talvez os acontecimentos deste século nos tenham tornado mais sensatos e recuperamos, humildemente, a necessidade de crer no homem. Sobre esta fé, de irrenunciável base ética, foi feita a Declaração dos Direitos humanos. Uma declaração que chegou, por ora, a consciência moral do homem. O reconhecimento da dignidade do homem o reconhecimento da dignidade do homem e dos direitos que derivam dessa dignidade. Eludindo, isso sim, as razoes que avalizavam a evidência da sua justiça. Esta Declaração de 1948 deu ligar a 3 gerações de direitos.

a) A primeira geração é a das liberdades civis, pedra angular de um estado de direito, ou liberdades de pensamento, associação, imprensa, mobilidade geográfica… e de liberdade política: direito de participar da legislação da sua própria comunidade política. Estes direitos são valores de liberdade e sobretudo, o liberalismo os trouxe à luz.

b) Os direitos humanos de segunda geração são aqueles de libertação: da fome, da ignorância, da doença, que somente podem ser alcançados com o direito ao saneamento básico, à educação, a uma vida digna… estes direitos são valores de igualdade, e no esforço pelo seu cumprimento, originaram o Estado do bem-estar, no qual o Estado foi assumindo cada vez mais competências, fazendo com que, por outro lado, os cidadãos sejam mais clientes. Nesta situação, o desânimo dos cidadãos é a principal responsável pela fraqueza das sociedades e pelo gigantismo estatal. Com estes direitos, se tratava de dar um apoio real às liberdades e foi o socialismo que lhes deu um grande impulso. Sem libertação, as liberdades não são possíveis; sem liberdades, o totalitarismo é uma realidade.

c) Os direitos humanos de terceira geração exigem, cada vez mais, a solidariedade internacional. Direito de nascer e de viver em paz em um ambiente sadio. São direitos de solidariedade. Se fossem vividos, nos transformariam em cidadãos do próprio país e do mundo. Por outro lado, não se vê como são possíveis os outros direitos, sem o respeito à paz, à natureza.

As coisas não são dadas prontas ao homem. Dado o primeiro impulso, a realidade está em suas mãos. O fato diferencial do dinamismo humano, que é a antecipação própria do animal no seu trato com o mundo, no ser humano é a antecipação consciente e pessoal, projeto. Queira ou não, o homem vive voltado para o futuro que existe somente quando se propõe uma meta pessoal e se move ativamente em sua direção. Os conhecimentos em biologia, psicologia ou sociologia não impediram que quem os possuía de fazer opção por um darwinismo evolutivo ou social. É preciso algo mais do que conhecimento, portanto, para crer no homem como igual. É preciso ouvir e acolher a autentica condição humana e pronunciar um apaixonado fiat, faça-se. Posto que a igualdade não é um fato e cremos nela, é mister fazê-la.

Dicionário de Filosofia Paulus

 

– Mesmo nas sociedades indígenas já existia hierarquia, havia uma diferenciação na sociedade.

– Porque sempre a mulher sofre com a discriminação?

– É porque o poder da mulher é diferente. O homem assumiu o papel de chefe do grupo devido à importância da força física na caça, nas guerras, ou seja, nas principais funções de sobrevivência do grupo. O poder atribuído à mulher era por esta ser fonte da vida, ser a geradora, não que tivesse deixado de ser, mas a importância do homem passou por cima desse fato.

– Os xamãs têm pela história a fama de sábios, ele levava à comunidade seus conselhos, sua sabedoria; ele era o curandeiro, o místico, ele conhecia a natureza.

– Os homens temem a natureza. Aquele que de alguma forma a compreende, leva aos outros um conhecimento que o diferencia dos demais, a hierarquia nesse caso é estabelecida pela sabedoria.

– Os gregos mudaram a concepção de poder. Ao introduzirem a democracia, submeteram o poder ao crivo público. Antes o poder se aliava à vontade arbitraria do governante, o poder era arbitrário e despótico. Mas de acordo com o texto, dentro da democracia, entre eles, continuou havendo desigualdade. Só eram considerados cidadãos os homens gregos. Não havia qualquer problema em considerar mulheres e estrangeiros como inferiores.

– A idéia de igualdade não foi desenvolvida a não ser entre os iguais.

– Para Aristóteles a igualdade e a desigualdade eram coisas naturais. Tratava-se cada um na vida em sociedade como se merecia pelo que se era, o tratamento era ‘justo’, levando em conta que as diferenças eram respeitadas: os iguais eram tratados como iguais; e os diferentes, com a diferença que lhe cabia. Pode não fazer sentido hoje ter um escravo, mas é relativo a qualquer empregado domestico, salvo exceções, não se trata um empregado da mesma forma como se tratam irmãos e familiares, por exemplo.

– De onde surge o desejo de terem todos os mesmos direitos? De que igualdade estamos falando?

– A igualdade não é um valor em si, assim como a liberdade, ela precisa de outros parâmetros para se estabelecer.

– Muitos autores colocam que a idéia de igualdade foi mais bem estabelecida em um conceito bíblico. O principio ontológico é diferente. A ontologia grega não parte do pressuposto que as pessoas são iguais porque ela não é uma ontologia da alteridade.

– No antigo testamento havia a diferenciação do homem para a mulher, já no novo “todos são iguais” “em cristo não há escravo nem livre, nem homem nem mulher”.

– O mito da igualdade atrapalha a consciência do homem.

– A igualdade é da natureza humana ou é uma conquista ética?

– Cria-se uma igualdade ética na relação social. Mas a diferença natural aos homens apesar de ser dita quase inexistente se sobressai e a igualdade ética é corrompida.

– Não é só o conhecimento que faz o homem igual, é necessária uma consciência de uma sociedade coletiva, só há a igualdade se o grupo a considerar.

– Com certeza o homem é capaz de conquistas, de evoluir, de amadurecer e transmitir seus feitos à humanidade. Se o homem tem uma meta ele consegue atingir, mas a questão é o seu caráter muito individual que pode prejudicar um desenvolvimento harmônico, causando desigualdade.

– Pela constituição, todo homem é igual, e esse direito é, ou seria, garantido pela lei. Mas antes de se considerar qualquer lei para tornar os homens merecedores dos mesmos direitos, precisamos lembrar que é preciso respeito. O homem inserido no meio em que vive, vive imerso na natureza com seus semelhantes, ele faz parte desse sistema e respeitá-lo – respeitar a natureza e seus semelhantes – nada mais é que ter respeito a si próprio, ele não é superior a nada.

– Existem liberdades negativas?

– Sim, são aquelas nas quais se configuram de certa forma uma falta de respeito com os demais devido a um excesso de liberdade, são aquelas que permitem um agir sem que se possa impedir tal ação; diferente das liberdades positivas em que permitem definir-se sem intromissão alheia.

– A liberdade não existe sem igualdade, não adianta ser livre se as condições de vivência são diferentes. Mais ou menos assim: “há muitas coisas melhores que o dinheiro, mas como são caras…”.

– Eu sou livre para comprar um livro, desde que eu tenha como comprá-lo.

– Exatamente, só há liberdade com dignidade.

– Se precisamos estabelecer condições para sermos livres é porque não somos livres, mas sim dominados pelo nosso contexto, nossa riqueza, nosso emprego. Mas sem qualquer duvida é necessária uma mínima condição para o amadurecimento de um ser humano, como alimentação, educação, moradia, ou seja, condições mínimas de infra-estrutura social que será responsável pela formação do cidadão.

 

13/05/2006

Igualdade e liberdade II

 

V. A igualdade não é uniformidade. A uniformidade é própria das produções em série; do barateamento de custos; do repúdio do conflito; da discrepância e da crítica; dos exércitos. A pessoa, em contra partida, é um ser para a liberdade e o amor; criativa, dialogante, única, singular. Com consciência da impossibilidade de ser e existir sem os outros; histórica. A igualdade é a ausência de dominação, dialogo é assumir o conflito e promoção da diferença como uma riqueza. Somos iguais ontologicamente. É preciso fazer uma realidade da história. Por isso, somente um ser livre pode ser igual, por que somente um ser livre pode se comprometer por aquilo em que acredita.

A igualdade é uma crença, somente existe, na prática, quando se põem as condições históricas para reduzir as desigualdades de natureza e proporcionar a todos as mesmas possibilidades de realização pessoal. A igualdade se constrói e se mantém porque há pessoas que livremente dedicam a sua vida a possibilitar que os homens sejam iguais. Não se trata de um mundo feliz, mas de um mundo de pessoas, uma verdadeira comunidade. Uma comunidade, na qual a liberdade de cada um, que tende ao individualismo, e a liberdade, que tende ao coletivismo, vão se transformando em fraternidade, síntese perfeita da relação intersubjetiva. A fraternidade é a única que pode ajudar o mais fraco a se elevar para além da justiça, porque rompe os critérios de reciprocidade. A igualdade é o espaço da justiça. Um espaço que, por haver reconhecido uma fundamentação metafísica – igualdade de essência, reúne tudo aquilo que pelo fato de ser homem corresponde ao ser humano, pelo menos aquilo que hoje entendemos por direitos humanos. Mas para que a dignidade seja respeitada absolutamente, em todos os homens, é necessário organizar os meios de tal maneira que garantam as possibilidades de desenvolvimento pessoal de cada um. Esta organização que respeita a liberdade e a igualdade e que aspira à fraternidade é a democracia.

 

VI. Igualdade e política. A democracia, historicamente, supõe a passagem da vassalagem aos cidadãos de pleno direito. Assumir, encarregar e tomar sobre si aquilo que cada um pode fazer, pessoal e comunitariamente. Mas a democracia é uma crença, uma espécie de ato de fé: é admitir que todos somos iguais e, em conseqüência, organizar os meios para que cada um possa desenvolver a sua forma peculiar de ser pessoa, a sua vocação: a forma insubstituível de se descobrir como indivíduo-comunitário de aderir livremente ao desenvolvimento da sua dimensão política, sua forma de colaborar na história humana. O democrata é aquele que repudia o desprezo e a indiferença, não se apropria dos saberes nem da técnica, para dominar ou se situar em uma posição privilegiada, e acima de todas as razoes contrárias, mantém inquebrantável a sua fé no homem e sua possibilidade de comunhão. O reconhecimento vivido da absoluta dignidade humana é a conversão de todo homem em um próximo, uma pessoa diferente e igual a mim, da qual me aproximo e com a qual decido não empregar os meios de poder. Não está longe da atitude da amizade, cujos traços são: beneficência, benevolência e confiança.

Talvez a – justiça – a cada qual é seu – pareça um caminho mais curto. Mas se começamos pela fé no homem como pessoa, o caminho da justiça dificilmente pode se deter numa relação de frieza. A fraternidade, de per si, vai fecundando e promovendo uma relação entre iguais. É um fato que quando a relação não é de amizade, transforma-se freqüentemente em alguma de suas muitas maneiras: manipulação, acobertamento, imposição. O respeito à igualdade reclama a disposição a uma profunda amizade.

Dicionário de Filosofia Paulus

 

– Na semana passada discutimos a questão da igualdade, vimos que cada ser é único e que não há liberdade sem igualdade. Para um grupo é necessário o mínimo de dignidade para que se tenha igualdade e o outro grupo acredita que é possível ter liberdade mesmo sem o mínimo de dignidade. Ficou o impasse. De que me adianta ter uma liberdade teórica se não tenho o mínimo de bens materiais para dar dignidade ao cidadão?

– Acredito que exista mais de um tipo de liberdade. A liberdade seria mais uma questão interior.

– Em uma cena de “O jardineiro fiel”, o protagonista quer tirar uma menina pobre de sua comunidade, mas a menina fugiu, ela queria permanecer ali por algum motivo.

– Qual a possibilidade de alguém ser livre na miséria? Apenas exceções como Buda e São Francisco.

– Muitas pessoas têm condições e são escravas. Mas isso seria uma opção. Essas pessoas têm a opção de mudar de uma hora para outra, já os miseráveis não podem mudar. A fome mata, a fome não tem moral, 50% da população é miserável.

– A liberdade vem do interior, cada um tem seu tipo de liberdade, mas é necessário o mínimo de dignidade para sobreviver.

– Ao fim da escravidão, os escravos tornaram-se livres, mas livres de que? Mesmo livres eles não tinham o mínimo de condições de levar uma vida por conta própria. Eles tinham um mínimo que era a ‘liberdade’ mas só com isso não seriam capazes de sobreviver, então, o que será a liberdade?

– Será que você é livre? Vivemos em uma sociedade e não podemos fazer tudo o que queremos. Você não se expressa livremente, você nasce livre e igual, mas a sociedade nos escraviza, castra a nossa liberdade.

– Só o conhecimento não liberta, muitas pessoas têm conhecimento, mas vivem um processo de castração. Eu posso ser escravo do meu dinheiro, mas também é uma opção. Nós somos livres a partir do momento que queremos algo?

– Tem pessoas que dedicam a vida a pesquisas de determinados temas. Às vezes o conceito de liberdade tem que levar isso em conta. Mas não existe uma liberdade completa.

– O filosofo busca algo em comum em cada um de nós. Sócrates buscava o conhecimento. Você se liberta com o conhecimento.

– Quando não identifico minhas idéias, onde estaria a minha liberdade?  Porque não me conheço, não percebo se sou livre ou não, então, não faz diferença.

– Cada cidadão tem um ideal de liberdade.

– As religiões aprisionam as pessoas. A liberdade é uma coisa tão complexa. Nós somos parte de tudo, mas não sabemos como funciona esse tudo.

– Na época da escravidão era um capataz para 10mil escravos e ele os dominava. Os escravos não fugiam do capataz.

– A gente discute a liberdade, mas cada um tem o seu conceito. Você tem que pensar e sentir a liberdade, mas isso parece quase impossível.

– Eu sou livre para criar aquilo que eu quero.

– A liberdade não pode existir desde que passamos a viver em sociedade.

– O chimpanzé foi expulso do zoológico porque estava ensinando os outros a nadarem.

– Toda liberdade requer responsabilidade, mas a responsabilidade não está limitando, está libertando.

– Toda liberdade implica em perdas, se não, não há dinamismo.

– Se somos capazes de tomar uma decisão, então temos que arcar com as conseqüências.

– O ideal é liberdade com responsabilidade, mas essa nem sempre é a realidade.

– A democracia também está ligada a uma crença?

– A democracia não é sinônimo de boa coisa, talvez seja apenas o melhor sistema que conhecemos. Mas sim, ela está ligada a crenças, para que haja democracia tem que existir em um primeiro momento o conhecimento. A pessoa que possui conhecimento tem mais condições de fazer escolhas.

– Há a palavra democracia, mas não temos democracia alguma, o que temos é um autoritarismo travestido de democracia. Vivemos um autoritarismo velado que nós mesmos nos permitimos.

– É muito comum as pessoas acreditarem que o meu direito começa quando termina o do outro, mas isso pode causar uma extrapolação. O perigo do conhecimento é este inflar a pessoa e esta usar isso como uma forma de poder. A pessoa usa o conhecimento para dominar. É uma questão de índole. Todos podemos matar outra pessoa e, no entanto não matamos, escolhemos por não o fazer.

– A igualdade plena não existe.

– Todos nós temos dentro de nós um Hitler, um Buda, um Jesus; e não um ou outro apenas.

– O ambiente faz alterar ou não as características, as circunstâncias funcionam como influências, mas o ser humano vai evoluindo porque a genética vai evoluindo, porque a genética sofre alterações.

– Há uma necessidade de definir as coisas, mas as coisas não têm sempre uma definição. Se você for tentar definir a liberdade você não vai conseguir, você não tem substância para isso.

– Poderíamos partir de algumas linhas como, por exemplo, o que seria a liberdade, o que poderia ser a liberdade? Isso é um exercício da filosofia.

– Poderíamos pegar o conceito de liberdade de cada filosofo.

– A orientação organiza nossa liberdade, nossa possibilidade de escolha.

– A liberdade é um dos assuntos mais polêmicos que já discutimos aqui. Falamos de tudo, igualdade, liberdade, direitos humanos, etc. Como vou promover a liberdade se não sou livre? A liberdade seria uma base para a felicidade? Será que a liberdade seria mesmo inata?

– Ela é imanente do ser humano.

– No passado não havia cidadãos, existiam súditos, e sem direitos, apenas deveres. Com a revolução francesa surgiu uma declaração dos direitos dos homens e uma para as mulheres que não foi aceita.

– A liberdade e a igualdade são diferentes para mim e para um favelado. Depende do contexto.

– Por que não podemos ser livres no casamento? Depende muito do casamento. Muitos pensam o casamento como escravidão. Não é escravidão, e sim uma escolha por estar sempre ao lado de alguém que se gosta.

– Relação afetiva entre dois pode ser libertação ou escravização. Mas é uma escolha gostosa.

É a gente que permite a escravização, que também pode ser pela falta de vontade de assumir responsabilidades.

– O vício é uma escravidão. Questões das compreensões. O vício não é apenas psicológico. A pessoa tem o conhecimento, mas não consegue se libertar disso.

– Toda pessoa que se sente escravizada, também escraviza.

– Ser livre em uma sociedade como a brasileira, não é a mesma coisa que ser livre numa sociedade asiática, ou em quaisquer outras.

– O homem tem que exercitar sua capacidade de autonomia.

– Quando penso minha liberdade, passo a ser um agente muito político e libertador. Antes a sociedade era dividida em classes muito rígidas, hoje isso já não existe mais dessa forma, mas ainda sim existem homens livres e escravos como sempre existiu.

 

20/05/2006

Liberdade em John Locke

Apresentação do Prof. Paulo Cinger

Texto I:

 

A palavra liberdade invadiu e monopolizou o mundo moderno. Converteu-se em espécie de santuário freqüentado por todas as pessoas e classes. Tê-la torno-se condição de cidadania e está só ganhou o excepcional valor que ostenta graças ao fato de possuir, em sua essência, a liberdade como princípio, meio e fim. Nesse quadro em que a liberdade aparece como centro feericamente iluminado, em torno do qual gravitam os valores que dignificam o homem e enriquecem a sociedade, já se desenha com razoável nitidez o perigo do esvaziamento da substancia pela forma.

O vocábulo liberdade, apenas vocábulo, em todas as bocas vai dispensando a liberdade como um BEM de que é preciso ter a propriedade e especialmente a posse como condição de exercício, ou seja, de uso e gozo.

A trajetória da liberdade começou substantivo abstrato até atingir o máximo de concretude nos tempos modernos, patrocinados pelo liberalismo e bom será que não perca as pernas, involuindo de volta ao mundo da abstração.

O avanço da liberdade e a sacramentação do direito que representa o dever do trabalho também, e principalmente, no plano do exercício da atividade empresarial, provocam importantes modificações na sociedade.

Antônio Oliveira Santos – Presidente da CNC – Diáio Regional – 18/08/1999

 

Texto II:

 

A dialética da liberdade em John Locke

A discussão sobre o problema constitui, ao longo do tempo, uma das principais preocupações da filosofia. Durante a Idade Média, para não voltarmos ainda mais, a idéia da liberdade estava diretamente vinculada a um relacionamento íntimo com Deus. Nos tempos modernos, a liberdade passou a ser discutida como característica do homem. Concebida como possibilidade ou escolha, portanto, sujeita a condicionamentos e limites, o que a desvincula do objeto anterior, alcançar a felicidade noutro mundo. E o limite que a concepção moderna da liberdade preconiza é a do consenso. Para entender a novidade moderna precisamos examinar o pensamento do filósofo John Locke (1632-1704) que ajudou a edificar. A partir desta referência, surge uma maneira diferente de pensar a liberdade, cuja idéia, Locke vinculou às ações praticadas pelo homem em sociedade. Assim, a idéia de liberdade em nosso tempo não fica restrita ao plano interior e espiritual do homem, mas contempla a necessidade dele relacionar-se com o mundo exterior e com outros homens em uma sociedade politicamente organizada. O projeto de Locke parte da idéia de liberdade pessoal e edifica a passagem para a organização social com ênfase no dialogo e na tolerância. Diante de nossas dificuldades e de tantas experiências totalitárias em nosso século, este continua um tema atual e palpitante.

Paulo Cinger

 

Apresentação do Prof. Paulo Cinger:

 

O que me levou a ter contato com Locke foi que comecei a estudá-lo no curso de especialização em teorias econômicas da fundação Getúlio Vargas. Não compreendia como a filosofia tinha ligação com a economia.

Locke é o ‘meio’ deixado de lado, não a mesma coisa de Kant e Heidegger. Locke era protestante e teorizou as leis (legislativo) para construir a democracia.

Quem poderia diminuir as controvérsias entre legislativo e executivo seria o magistrado. Então Locke lança a idéia do poder judiciário.

Não é novidade para ninguém que o homem é um fenômeno. Só o homem tem a idéia de tempo. O homem está na natureza. O homem em liberdade busca sobrevivência na natureza.

Esse trabalho mostra a idéia de Locke:

Locke foi criado vivenciando um contexto político, no qual pretendia amenizar as discrepâncias entre as classes. Expulso da universidade de Oxford, ficou exilado na Holanda e assim impedido de publicar qualquer coisa em seu nome, então só mais tarde suas obras começaram a ser editadas.

Foram dois os tratados sobre o governo civil considerados obras primas, nas quais ele fazia a formatação dos poderes executivo e legislativo.

Locke toca no cerne da construção do homem e suas obras não têm nada contra o cristianismo.        Sua obra influi na Declaração de Independência dos Estados Unidos e também a revolução francesa.

A questão de tolerância na época de Locke era um grande tema e tinha o sentido de respeito: São Paulo: “se não der para amar, pelo menos tolerar”. Locke queria conseguir uma tolerância.

Só quem tem noção do que é liberdade, que sabe o que esta é, é quem dela pode usufruir. Vários autores vêm trabalhando a idéia de liberdade, mas não com a mesma abordagem de Locke.

O Cristianismo vinculava a moralidade à pessoa humana ou da pessoa ideal, ou seja, o homem virtuoso. A prudência era vida eterna: liberdade quanto mais o homem se aproximava de deus.

Locke dizia que o homem pode ter liberdade sem se anular por qualquer motivo, baseando-se na tradição da liberdade interior. A reforma propugnava a questão da liberdade.

Para o filosofo, o cidadão tem que ir à luta e não ficar esperando que deus resolva sua vida, religião e moralidade são independentes, ou seja, uma proposição contrária à do pensamento religioso da época que pregava que o homem teria que se vincular a vontade de deus.

Para Tomás de Aquino a pessoa pode praticar todas as coisas possíveis na natureza, pois o ser humano é o que há de mais perfeito na natureza.

A vontade interior seria uma forma de entender a liberdade, o estado em que o homem não está subordinado a nada.

O divórcio entre liberdade interior (tradição cristã) e liberdade exterior (tradição política) é a idéia de Locke que vai trabalhar a liberdade exterior.

Liberdade interior é mais individual enquanto a liberdade exterior é coletiva. A liberdade política é uma conseqüência da liberdade interior.

Sabendo incutir no ser humano alguma noção de conhecimento, a pessoa pode voar. A todo o momento eu tento buscar no autor que busca no tempo de Locke aquela idéia de relacionar a imortalidade da alma com a liberdade interior.

Idéia de liberdade é contextualizada.

A partir da revolução gloriosa Locke começa a teorizar, o homem é tido como razão pura.     Mantendo ligação com idéias tradicionais, Locke descreve medidas que devem regulamentarizar o Poder legislativo. De acordo com o princípio da tolerância ele cria uma ponte entre a liberdade interior e a convivência.

Outros pensadores tiveram a idéia dos poderes mas não sistematizaram no papel. Comparação com Robbes – contrário a Locke.

Robbes defendia um Estado mentor de todos os homens, um modelo absolutista e tirano.

Locke considera a política e a religião, respectivamente liberdades exterior e interior, como duas concepções do humano, impossíveis de serem completamente anuladas. Não se pode simplesmente destruir o que o ser humano representa para si nem para a sociedade, assim como os meios pelos quais se dão essas ligações.

O Estado como representante de um povo se vale das leis e de seu poder para que os cidadãos usufruam com liberdade das leis que lhes são oferecidas para poderem preservar sua vida e seus bens. A liberdade depende da razão.

 

27/05/2006

Justiça

 

O conceito de justiça constitui uma das peças mais básicas e ao mesmo tempo mais complexas da linguagem moral. Isto é assim porque com ele nos referimos sempre à nossa relação com os outros, quer sejam pessoas individuais, quer grupos e inclusive a ordem social em geral. Ora, a justiça não se ocupa de quais são essas relações, mas de quais deveriam ser. Na linguagem comum, o termo justiça traz consigo a intuição de que “as pessoas devem receber o trato que merecem”, e, neste sentido a definição de Ulpiano ainda conserva todo seu vigor: “dar a cada um o que é seu”. Do ponto de vista individual, segundo Arangurem, a virtude da justiça é o habito que consiste na vontade de dar a cada um o que é seu. Mas essa vontade tanto pode ser privada quanto pública, isto é, tanto pode se referir aos indivíduos com à ordem social geral. Dependendo do que se entenda por o que é seu, teremos uma outra concepção de justiça.

 

I. Esboço histórico. No seu começo, o termo justiça esteve relacionado com a juntura, justeza, ou ajustamento de cada um dos seres naturais ou sociais dentro de uma ordem ou cosmos já definido. Para os gregos, era a ordem da pyisis, que inclui em si a da polis, e de maneira geral, todos os fatos individuais ou sociais. A ordem do universo é o resultado do equilíbrio de cada uma das partes que o compõem. A história do conceito de justiça é a história de sua lenta moralização, isto é, da sua separação da sua necessidade natural e progressiva dependência da vontade humana. A justiça não é algo que se deva esperar, é algo que devemos buscar e procurar.

Platão dá os primeiros passos neste processo pelo qual a justiça vai adquirindo uma progressiva dimensão ética. Na republica, trata da justiça como uma virtude especial, que regula e equilibra as outras virtudes. A sua concepção parte do fato básico de que as pessoas são seres essencialmente sociais, e, em conseqüência existe uma analogia entre o indivíduo e a sociedade: do mesmo modo que a justiça individual é um equilíbrio entre as três faculdades ou almas vitais (apetitiva e nutritiva, valorosa e racional), também a polis justa deverá ser o resultado da união harmônica entre as diferentes partes da sociedade: produtores, guardiões soldados e guardiões governantes. Cada parte, assim como cada estamento social, deve cumprir uma função específica. A justiça é uma virtude tanto publica como privada, porque graças a esta harmonia se alcança o máximo bem, tanto da cidade quanto dos seus membros.

Encontramos já em Aristóteles uma analise detalhada da justiça. Na ética a Nicômaco, ele distingue entre a justiça como virtude genérica, correspondente à sociedade como um todo, e as variedades da justiça, suas aplicações às diversas relações de todos os membros da polis. Essas aplicações seriam três:

a) Justiça distributiva, que se refere à relação entre os governantes e os súditos e se aplica à distribuição de honrarias, riquezas e outros serviços e bens sociais; como virtude se refere à busca de um equilíbrio entre diferentes indivíduos de igual posição, isto é, a uma distribuição proporcional ao mérito.

b) Justiça comutativa, que se refere ao intercâmbio de bens entre os membros e se rege pela igualdade de valor.

c) Justiça corretiva, referente ao equilíbrio ou proporção entre o delito e o castigo correspondente.

Para Aristóteles, o critério último de justiça se encontra na igualdade. Mas para tratar com igualdade cada um desses casos, é necessário um sentimento próprio de justiça que como seres humanos possuímos, embora este sentido objetivo não possa estar desligado da ordem subjetiva, natural, que constitui a polis. Posteriormente Tomás de Aquino se encarregará de unir a tradição aristotélica e a teologia cristã. Mas durante toda a Idade Média a justiça continuará a ter um quadro normativo, teológico agora, encarregado de definir a priori seu sentido e aplicação.

Dicionário de filosofia Paulus

 

– A justiça é um tema muito trabalhado e por isso evitamos textos especificamente filosóficos e foi escolhido um tema do dicionário de filosofia. Segundo Aristóteles, das quatro virtudes básicas, apenas uma, a justiça, é voltada para o outro. Essa virtude então seria o elo de comunicação do eu com o mundo, um meio para a alteridade. A justiça também engloba a questão da moral, num aspecto mais restrito que o das virtudes básicas.

– Qual é a diferença entre legal e legítimo?

– Legal seria de acordo com a lei, enquanto o legítimo alcança uma dimensão moral.

– A justiça é a busca do equilíbrio entre pontos: pessoas diferentes, casos diferentes, entre legal e legítimo, etc., mas colocam a justiça à parte da questão ética. Quanto à ciência, é quase impossível medi-la, pois cai no campo abstrato pertencente à filosofia, e quanto a esta, possui várias facetas nas quais não é difícil nos perdermos.

– Perante a parte ‘legal’ da justiça, esta também é bastante questionável, pois sendo lei, é mister cumpri-la, mas é esta lei justa considerando-se todos os pontos envolvidos?

– A justiça é a ética natural?

– Uns dizem que esta se faz pela vontade de deus, outros pela razão humana, além de muitas outras explicações.

– Como um juiz se baseia para decidir um caso?

– O juiz tem de ser imparcial, mas não há como ser neutro.

– Hoje a meu ver os juizes optam mais pelo caminho legal para evitar ‘outros’ questionamentos, enquanto deixam de lado posições filosóficas, religiosas ou outras mais questionáveis, o fato, é que as leis e normas se expandem ao passar do tempo devido a novos casos e detalhes que surgem ao decorrer desse. Um ponto do texto: “a justiça não é algo que devemos esperar, mas sim algo que devemos buscar”. Será que todos são capazes de entender e compreender o mundo a ponto de ser justo na avaliação de uma questão?

– Bom, é natural que os valores mudem de acordo com os tempos, e por isso dependemos então de uma compreensão de mundo ‘atual’ além do entendimento e consciência dos quadros históricos nos quais os valores passados e hoje vigentes foram criados. Assim seremos justos. O Direito, como qualquer outra instituição, crenças e partidarismos de todas as amplitudes são suscetíveis a avaliações diversas que podem gerar inúmeras interpretações, por isso temos as leis, às quais nos amparamos.

– O desequilíbrio dos homens pode representar uma falta de justiça natural, o que poderíamos entender como o que fosse uma justiça ideal.

– Há uma diferença fundamental. O direito hoje e a justiça não se fundem no que faz com que cumpríssemos a lei. O fato é que se preocupam apenas com que a cumpramos.

– Os nossos limites hoje dependem da capacidade argumentativa de cada um, pois temos o direito de reivindicar pelo que acreditamos que seja nosso. Assim, limites ou parâmetros são sacrificados a serem submetidos a critérios, às vezes, subjetivos, legais, porém nem sempre justos.

– Com o passar do tempo, da educação, da tecnologia, do conhecimento, do ‘progresso’ da sociedade, o que representa para nós hoje, o bem comum? Nós por acaso repensamos nossos conceitos a cada dia, a cada nova situação ou a cada fato ‘repetido’ de nosso cotidiano? Nosso senso de justiça é condizente com nosso tempo e nossos atos? É sempre um caso a se pensar.

 

03/06/2006

Justiça II

 

(cont.)

Entretanto, a modernidade trouxe consigo uma noção decisiva na concepção de justiça: em sociedades abertas, com pluralidade de formas de vida e por conseguinte, de diferentes tradições e culturas, a reflexão sobre justiça não pode se centrar na aplicação aos casos concretos dentro de uma ordem social estabelecida. Deve centrar os seus esforços antes na pretensão de justiça dessa mesma ordem social, política e econômica. Se esta ordem não é algo natural e dado, é evidente que a sua primeira missão básica terá de ser legitimada, isto é, demonstrar a justiça das suas normas e instituições.

Anteriormente, a justiça como virtude se encontrava no âmbito geral da busca da felicidade, individual ou coletiva: mas agora a justiça adquire status moral por ela mesma, e se converte em reflexão prioritária para a filosofia prática. “dar a cada um o que é seu”, continua a ser o critério básico, mas o que é seu, o que se merece, agora já não é ajustado à natureza, mas o decidido pelas pessoas. Se nesta nova ordem social o indivíduo passa a ser peça chave, não é de se estranhar que a justiça busque estas características definidoras naquilo que primeiro caracteriza o indivíduo moderno: a liberdade. Os primeiros enfoques que tratam da justiça, desse ponto de vista, são as teorias contractualistas. Tanto Th. Hobbes quanto Locke, para dar dois exemplos, definem o seu como fruto de um pacto, de um acordo voluntário e livre. O esquema contractualista tem sempre três passos: a) um estado de natureza, onde não existe lei alguma, e, em conseqüência, não está definido o justo e o injusto; b) um pacto pelo qual se estabelecem as condições da convivência comum e, com elas, os critérios de justiça; c) por último, um poder soberano encarregado deste pacto, e encarregado de cuidar do seu cumprimento. O contrato tem a função básica de garantir certos direitos dos membros ( vida, liberdade, propriedade) e, dentro dele, a justiça nada mais é do que uma “lei estabelecida, aceita, conhecida e firme, que sirva, de consenso comum, de norma do justo e do injusto” (Locke).

Outra abordagem diferente do tema da justiça é constituído pelo utilitarismo. Seguindo o princípio utilitarista de fomentar a maior felicidade ou satisfação para o maior numero de pessoas, autores como Bentham viram na utilidade pública a própria origem da justiça. O seu significa o mais útil, o que produz maior felicidade. É J. Stuart Mill quem melhor nos define esta visão da justiça na sua obra Utilitarismo. No livro, ela é concebida com um conjunto de regras morais básicas “que referem claramente aos aspectos essenciais do bem-estar humano para elevar ao máximo a utilidade social.

Dicionário de filosofia Paulus

 

– É difícil entender e compreender como os antigos aceitavam e achavam normal a escravidão. Tratar o outro como coisa, como objeto, hoje em dia é difícil conceber este tipo de relação.

– Hoje em dia não são raras as pessoas que se sentem mal à simples menção a um rodízio de carnes e a comercialização generalizada de carne de animais.

– Há muitas pessoas que defendem a dignidade dos animais, a bioética.

– Mas a lei considera isso legal, ou seja, teoricamente não há crime nessa atividade, não há lei que proíba isso. Isso é justo? É possível pensar o direito sem a ética?

– A noção da modernidade sobre a justiça hoje não existe completamente. Há vários meios de se avaliar a justiça, mas não há tempo para reflexões. Parar e pensar o que é justo ou não atualmente é a última coisa que se passa na cabeça das pessoas.

– Um dos padrões para avaliarmos se uma situação é justa ou não, é avaliar as conseqüências de nossos atos como se fossemos nós que os recebêssemos – “não faça ao outro o que você não quer que seja feito com você”.

– A carga horária dos trabalhadores hoje limita a capacidade reflexiva de cada um, já que sempre há coisas a se fazer, problemas a se resolver e não existe tempo em nossos dias para alguns minutos de reflexão e filosofia.

– O movimento da vida hoje, do mundo, é tão rápido que nossos conceitos de justiça e outros se perdem. Valores e princípios mudam e muitas vezes não os acompanhamos.

– Não há hoje um aumento na busca da filosofia?

– Na verdade parece estar havendo uma procura pelas resoluções de nossos problemas sejam eles quais forem, e isso leva à filosofia.

– A questão da filosofia pratica, de pensar o cotidiano, nada mais é que a pratica dos grandes filósofos gregos. Eles pensavam realidades, suas vidas eram verdadeiras questões filosóficas. Hoje parece que a filosofia se perdeu da vida dos homens, como se estas fossem coisas distintas.

– É interessante analisar a questão da justiça no mundo natural. Como não há regras – leis – não há justo ou injusto de acordo com nossa concepção.

– No nosso mundo não é assim que funciona, na maioria das vezes a religião entra como a primeira norma, classificando o certo e o errado, o justo e o injusto de acordo com a vontade de algum deus.

– É impressionante como hoje as pessoas ouvem muito pouco o que os outros falam. Todos escutam, mas não ouvem.

– Há sempre alguém com algo a dizer, mas não sabem escutar e aprender com que os outros dizem.

– Temos que treinar nosso ouvido no sentido que devemos treinar nossa capacidade de aprender a escutar o que o outro diz.

– Para se ter um diálogo é fundamental que antes de tudo as partes saibam ouvir o que o outro tem a dizer, para entendermos o que o outro pensa, o que ele sente, o que ele vive, e não nos fecharmos no mundo como seres prontos e acabados.

– A maneira como se fala é muito importante hoje. Primeiro que é importante dizer, já que é difícil adivinhar o que o outro pensa. Em uma vida em conjunto dizer o que se pensa é de certa forma estabelecer nossa posição no ambiente da comunidade.

– Em uma comunidade, partindo que o critério de decisão sai de um centro definido – governante – e passa pelo crivo de todos, elimina-se teoricamente a injustiça, já que o bem pessoal e o coletivo seriam determinados pelo grupo.

– Nós não temos que ser úteis, não somos coisas, mas infelizmente somos, pois nos tratamos assim.

 

10/06/2006

Justiça III

 

(cont.)

II. Reflexão sistemática. As desastrosas conseqüências do processo de industrialização, juntamente com os movimentos socialistas, trouxeram à luz algo que Rousseau já previra na sua concepção do contrato social: a justiça não pode ser definida apenas em termos de igualdade formal, mas também determinadas situações de igualdade material, isto é, social e econômica. Hoje em dia, toda e qualquer abordagem do tema justiça é concebida como uma proposta de combinação de liberdade e igualdade. Dependendo de como entendemos este par de conceitos, teremos uma concepção diferente de justiça. Neste sentido, podemos diferenciar na atualidade duas grandes frentes, posicionadas também em relação ao estado social de direito.

Temos, por um lado, as posições neo liberais, para as quais a liberdade se entende como independência, a qual se mede em termos de propriedades. Para autores como F. A. Mayeck ou F. Friedman, o ideal de justiça implica somente em igualdade perante a lei, posto que as desigualdades sociais não são empecilho, são antes um motor, para o maior bem da sociedade. R. Nozick, na sua obra Anarquia, Estado e Utopia (1974), a partir destas posições, defende que o Estado justo é o Estado com menos competências que se possa pensar. Qualquer outro tipo de Estado que não fosse mínimo, por exemplo, um Estado dedicado à redistribuição de renda, violaria os direitos das pessoas. O Estado somente pode ter funções de proteção, de justiça (igualdade perante a lei), e de defesa nacional. Existe uma justiça de aquisição e transferência de propriedades, que devemos contribuir com os nossos próprios bens para o bem-estar dos outros é uma violação dos direitos de propriedade. Em todo caso, seriam questões de caridade e não de justiça.

Frente a essas posições se movem outros enfoques que apresentam a justiça como uma mescla de liberdade e igualdade, mas não limitam a liberdade à independência, e incluem também no seu sentido a idéia kantiana de autonomia: a capacidade de nos dar leis para guiar a nossa própria vida, de ser donos do nosso destino, tanto individual como coletivo. Para este conceito de liberdade, é necessário um conceito mais forte de igualdade e justiça como justiça social. J. Rawls e J. Habermas são dois bons exemplos deste liberalismo social ou socialismo liberal, como queiramos chamá-los.

No seu influente livro Teoria da justiça, Rawls se pergunta pelos princípios que regeriam uma sociedade que poderia ser chamada de justa. Para oferecer uma resposta, retorna às teorias contractuais, garantindo, porém, a imparcialidade das suas decisões. Serve-se para isso de um recurso expositivo que se denomina posição original, no qual os possíveis membros dessa sociedade discutem sobre esse princípio com um véu de ignorância, isto é, sem saber que lugar ocuparão nela, nem suas potencialidades ou faculdades. A sua proposta de justiça como imparcialidade se definem pelos dois princípios que se supõe seriam escolhidos pelas pessoas livres e racionais, em uma posição original de igualdade: 1. “Toda pessoa tem direito a um esquema plenamente adequado de liberdades básicas iguais, que seja compatível com um esquema similar de liberdades para todos; e neste esquema as liberdades políticas e somente elas, hão de ter garantido o seu valor eqüitativo”. 2. “As desigualdades econômica e sociais deverão satisfazer duas condições: primeira: devem estar associadas a cargos e posições abertas a todos, em condições de uma igualdade de oportunidades, e segunda, devem proporcionar o máximo benefício dos membros menos favorecidos da sociedade” (J. Rawls).

A ética discursiva de K. O. Apel e J. Habermas constitui um dos intentos atuais mais ambiciosos para conceituar a justiça como critério de validade das questões práticas. Esses autores distinguem dois momentos na teoria ética. Em primeiro lugar, a fundamentação do ponto de vista moral, na linha neokantiana de estabelecer um quadro normativo procedimental de atuação. Em segundo lugar, a aplicação deste critério de justiça nos diferentes âmbitos da práxis. No terreno da fundamentação, esta proposta ética oferece como critério de justiça o princípio discursivo, segundo o qual “somente podem pretender validade aquelas normas que obtenham (ou possam obter) o acordo de todos os atingidos em um discurso prático” (J. Habermas). Entende-se o discurso prático como um contexto livre de qualquer pressão externa, isto é, em condições perfeitas e simétricas de participação. Em última análise, somente o consenso de todos os implicados pode qualificar como justa ou injusta uma ação, norma ou instituição. Este conceito de justiça requer a solidariedade como seu reverso, isto é, requer a igualdade de direitos e liberdade seja acompanhada pela preocupação com os nossos próximos e com a comunidade à qual pertencem.

Mas este critério de justiça constitui um horizonte de atuação, um princípio ideal que atua como uma bússola, sem jamais nos dizer o caminho concreto a seguir: Ora, uma reflexão sobre a justiça nos obriga a responder também ao desafio da aplicação deste critério. Na sua obra Facticidade e validade (1993), Habermas estuda a relação entre ética, direito e política, que podem ser considerados com mecanismos institucionalizações. Entende-se então o direito como um processo de positivação de aplicação de idéias morais. Daí que existe no direito um núcleo moral sem o qual é impossível diferenciar entre o vigente (legal) e o valido (legítimo).

Esta diferença entre o critério de justiça e suas possíveis aplicações, nos permite introduzir neste enfoque discursivo propostas que reivindicam o valor da comunidade frente a esse universalismo abstrato. É o caso de M. Waltzer, que em seu livro Esferas da justiça (1983), entende a justiça como uma igualdade completa entre as pessoas. Esta igualdade pode ser compatível com a liberdade, se a centramos no controle dos bens sociais, de forma que nenhum bem seja predominante, e tiranize os demais. O aporte decisivo para uma concepção da justiça consiste em se dar uma conta de que cada um destes bens tem significado social, e, com ele, seus critérios próprios de distribuição. Desta forma, estamos obrigados a respeitar cada uma das suas peculiaridades lógicas, próprias dos diferentes âmbitos de aplicação (dinheiro, educação, pertencimento, família, poder…).

Dicionário de filosofia Paulus

 

– O texto coloca o conceito mais primitivo de justiça. Justiça seria adequar uma ordem natural já estabelecida a um outro determinado meio esperando que dessa forma ele evolua e progrida assim como a natureza.

– Parece uma tendência forte de imaginar a justiça como uma ordem, uma lei.

– Platão vai introduzir a idéia de que a justiça seria uma decisão nossa. Daí entramos na questão da ética porque o humano não tem uma ordem estabelecida pela natureza, então, fazemos uma opção pela ordem, pela ética.

– Não existe uma justiça natural imanente?

– Essa justiça não seria de cada um; nossa justiça é individual e tem que se adequar ao coletivo, um ajustamento a uma ordem natural. Inclusive ser ético, ser feliz e obedecer a uma ordem estabelecida naturalmente. Mas é interessante lembrar que fazer o bem depende de seus próprios valores, sejam lá quais forem.

– Platão faz uma ligação entre justiça e ética, mas nós não sabemos como exercer isso. Acredito que primeiro tenha que pensar na minha felicidade pessoal para então poder fazer alguma coisa. Até quando a ética é justiça?

– Você não pode fazer ninguém feliz, se você está infeliz. Se você está infeliz, você não tem como distribuir uma coisa com a qual você não possui.

– Fator complicador é a idéia de liberdade que aparece na modernidade, pois nesta aparece uma pluralidade. A problemática da modernidade é conceituar a liberdade e a igualdade.

– Através de um pacto vamos estabelecer o que é correto e o que é incorreto. Justiça seria então o combinado, combinado e aceito. Isso é muito bonito para as pessoas que têm posses, para as que não tem, não há como se traçar um paralelo.

– Todos têm direito a estudar em universidade publica porque o estado tem que salvaguardar a igualdade. Mas como?

– Na modernidade impera o utilitarismo, temos que ser úteis e produtivos com alta capacidade de renovação, fora isso, somos descartáveis.

– Nesse casso o melhor que podemos fazer é fazer e mostrar como pode ser feito o que deve ser feito de uma maneira pela qual também possamos extrair algo novo, ou seja, quando a gente tem que ensinar é que começamos a aprender.

 

17/06/2006

Justiça IV

 

A ordem social justa

O maior desafio contemporâneo é a construção de uma ordem social justa no plano das nações e do mundo. Isto significa que é imperioso criar novas estruturas e abrangentes, de tal modo que as necessidades básicas dos seres humanos sejam satisfatoriamente preenchidas. Numa palavra, é preciso que as estruturas sirvam ao bem humano.

Que é, pois, uma ordem social justa? Desde os gregos até hoje foram elaboradas muitas teorias para responder esta pergunta crucial. Filósofos, sociólogos, políticos e religiosos sempre tentaram equacionar a convivência humana de modo digno e ético. Nos parágrafos que seguem vamos alinhar dois princípios fundamentais de qualquer ordenamento social justo. A justiça se refere tanto às disposições subjetivas do homem como ao ordenamento objetivo da sociedade. Além de virtude moral, a justiça é o princípio da ordem publica. Sendo assim, podemos desdobrá-las em duas vertentes: a vida segundo a justiça e a vida social justa.

 

1- Princípio da vida segundo a justiça

Não defendemos aqui o jusnaturalismo que se cristalizou em dogmas irrecorríveis. Trata-se apenas de eleger uma instância de decisões éticas imediatamente aceita, e sem margem de dúvida, por todos os atores sociais. Esta instância é o princípio da vida justa que pode ser assim enunciado: devemos respeitar os direitos básicos da vida.

Este princípio exige uma atitude fundamental: reconhecer que todos os seres humanos nascem metafisicamente iguais. A natureza nos deu direito igual à vida, à educação da vida, à vida saudável, à participação política, à distribuição dos bens materiais e culturais que alimentam a vida.

Estes direitos não se conquistam; são dados pelo nascimento.

Esta é a idéia central de todos os códigos que proclamam os direitos humanos. Por exemplo, o código de direitos humanos da ONU é, de certo modo, um tratado de ética e de justiça, assinado por quase todas as nações. Resultado de tentativas políticas e debates culturais, refere-se sempre a uma instancia irrecorrível criada pela natureza: a vida igual em todos os seres humanos independentemente de filosofias, de religiões, de regimes políticos ou de localizações geográficas.

A atitude ética consiste em reconhecer , proteger, garantir e respeitar os direitos decorrentes do nascimento humano. Ora, o reconhecimento e o respeito são atitudes subjetivas e morais de cada pessoa. Exercer o respeito à vida e aos direitos decorrentes é praticar a virtude moral da justiça. É a atitude justa perante a vida de outros seres humanos. Respeitar a vida dos outros e as coisas que lhes pertencem é o conceito básico da justiça, como virtude moral que orna a interioridade da pessoa.

O respeito aos outros é a exigência incondicional da ética e a pedra angular do novo edifício social, onde tudo – mercado, tecnologia e progresso – esteja em função do ser humano.

Esta exigência absoluta foi solenemente aceita pelo mundo inteiro. O que falta é alinhar as estruturas das sociedades políticas em função desta ética universal. Aqui a educação das pessoas, dos grupos e dos partidos políticos exerce um papel insubstituível, visto que o ser humano e as sociedades podem assumir ou rejeitar estes pilares.

 

2- Princípio da vida social justa

O segundo princípio pode ser formulado assim: devemos criar uma ordem social justa onde a cidadania seja plena e universal.

De início, este princípio exige que as estruturas sociais justas se estendam a todos os cidadãos, não admitindo excluídos e segregados da ordem social.

Ademais, a cidadania não é dada pelo nascimento e por registros formais. A cidadania, como conquista dos atores sociais, é o resultado da consciência política e da participação efetiva na luta para a construção de estruturas sociais justas. Este esforço coletivo concretiza-se na constituição que é, de certo modo, um tratado de ética e justiça que os cidadãos escrevem, assinam e cumprem no seio de uma política.

Se estes conceitos são aceitáveis, então a maior parte de nosso povo não é cidadão. Em nosso país (como em todo mundo) há milhões de pessoas que ainda não ascenderam à cidadania ou pior ainda, dela são excluídas pelas estruturas sócio-políticas discriminatórias. De fato, enquanto existirem miséria, fome, endemias generalizadas, analfabetos, sem-teto e sem-terra, nossa sociedade, em sua estruturação, será injusta, porque excluirá dos benefícios humanos básicos a maioria da população. A carta constitucional pode ser excelente, mas permanece letra morta até que sua regulamentação não crie estruturas que atendam às demandas básicas da comunidade.

Portanto, o princípio da justiça social dá corpo, concretiza e completa o primeiro. Ele rege a criação de estruturas tais que garantam a todos os cidadãos as condições de realizar sua vida como prescreve o primeiro princípio.

Ademais, o primeiro princípio da justiça social administra as desigualdades. Estas são absurdas na ordem natural regida pelo primeiro princípio. Mas na ordem histórica elas sempre existiram. De fato nascemos em tradições históricas desiguais, em famílias desiguais, em cultura, condições sociais e materiais desiguais. Nascemos em países com trajetória histórica diferente. Portanto, as desigualdades são uma realidade irrecusável.

Cabe ao principio da justiça social administrar as desigualdades históricas. Mas, in limine, a justiça não admite que as desigualdades sejam injustas.

Podem as desigualdades deixar de ser injustas? Não, respondem categoricamente as teorias igualitaristas.

Por sua vez, o princípio da justiça social não exige a igualitação das condições históricas das pessoas, grupos e nações. É claro, porem, que o segundo principio denuncia as estruturas históricas injustas que geram milhões de excluídos da cidadania.

O que exige, então, o segundo princípio? A justiça social prescreve que a organização da sociedade crie estruturas que garantam a todos os cidadãos a oportunidade de desenvolver suas capacidades e de evoluir em suas condições históricas. Dito negativamente, a injustiça social consiste: a) em negar a alguém a oportunidade de progredir em sua vida; b) em criar estruturas de exclusão; c) em evitar a criação de estruturas de promoção das pessoas. Numa palavra, é suma injustiça reprimir os talentos das pessoas.

O princípio da justiça social proclama que a primeira riqueza de uma nação é a saúde de seu povo, o alimento, a educação, a moradia digna, participação na vida pública e na repartição dos bens materiais e culturais. Em função desta meta gira a organização econômica e tecnológica.

Portanto, para ser realizado e socialmente feliz o cidadão precisa de estruturas que garantam as condições sociais de crescer conforme seus talentos e elevar ao mais alto grau possível sua realidade histórica. Esta realização é diferente em cada um: não é preciso nivelar todos os cidadãos no mesmo patamar; é preciso sim, que as condições de realização se estendam a todos incondicionalmente. Para cumprir esta função positiva, o segundo principio impõe que a sociedade se liberte e rompa com séculos de injustiças que criaram estruturas de sobrevivência marginal e excluída. As estruturas injustas são responsáveis pelas milhões de pessoas ditas ‘menos favorecidas’ ou de ‘baixa renda’. Estas expressões dizem implicitamente que do outro lado estão poucos ‘mais favorecidos’ e de ‘alta renda’.

Esta relação perversa só será rompida pela educação à cidadania que leva as pessoas e comunidades à participação política. Esta conscientização garante também o acesso a uma repartição dos bens materiais.

Enfim, conquista-se a cidadania na ordem social justa, segundo os dois princípios aqui expostos.

PEGORARO, Olinto. Ética é justiça. Petrópolis: Vozes. 1995

 

– A justiça é a própria ética. A justiça sempre envolve o outro e o relacionamento humano. A justiça é a própria ética, e a ética se reduz à justiça, mas é indiscutível como a prática difere do discurso, e mais ainda como esses conceitos evoluem através dos tempos.

– Esse é o problema da evolução de conceitos e da diferença do entendimento de cada um sobre o assunto.

– Existe uma ética universal. Isto é o que é proposto por vários textos, e isso é proposto por várias correntes, mas é também claro que não é em todos os lugares que isto é pensado da mesma forma.

– Essa é a diferença (talvez) do desenvolvimento para o subdesenvolvimento. Na Dinamarca todo cidadão paga por mês 200 euros e tem direito a qualquer assistência médica; é uma questão cultural.

– Um paternalismo pobre, um populismo besta que ilude a população mais carente para alguns poucos se matarem no poder. Parece um discurso clichê, mas sempre voltamos a isso. Uma previsão sociológica no Brasil propôs que daqui a 15 anos, um quarto (1/4) da população brasileira viverá em favelas. É uma pena, mas a referência de vida bem sucedida para muitos jovens de baixa renda no Brasil são os traficantes.

– Segundo Paulo freire, o violento é quem inaugura a violência, então, o criminoso ‘violento’ simplesmente reage com violência, a violência que a ele primeiro foi feita com a privação de direitos básicos e primários.

– É ridículo o ato de elogiar o correto, o justo. Melhor seria reprovar o ‘errado’, o injusto. O ‘correto’, é nada mais que o que se espera, portanto não há nada a ser parabenizado em uma ação que deveria ser costumeira.

– Falamos sempre de uma forma estrutural justa da sociedade, e percebemos que há bastante influência de grupos sociais e empresários em sociedades carentes, mas percebemos que há grupos estrangeiros. Porque há pouca divulgação dos nacionais?

– A questão de uma sociedade justa não é o mesmo que uma sociedade ‘igual’. Mas também há que se fazer merecer.

– Por exemplo, as cotas das universidades são um absurdo. Lógico que há discursos convincentes dos dois lados – a favor e contra – mas é fato que essa medida não passará de paliativa e provisória se a base do ensino não mudar.

– A mobilidade social ainda pode ser questionável por questões morais, mas a renda pode ser aumentada e de fome não há de se morrer.

 

24/06/2006

Casamento

 

O casamento

Segundo reportagem da revista Veja (ed. 11/08/99 – O casamento morreu. Viva o casamento!), nos Estados Unidos, 60% dos casamentos acabam em divórcio, na Inglaterra, são 40%. No Brasil também não para de subir, pois, segundo dados do IBGE, em 1985 um casal se divorcia para cada nove casamentos e em 1995, essa proporção era de um divórcio para cada quatro uniões.

Mas esses números não interferem na incidência do casamento. O problema é psico-fisiológico, ou seja, tem um componente psíquico e um fisiológico (que todos têm) mantendo a vocação para casar. É mais ou menos como o jovem que, psico-fisiologicamente, acha que sua juventude vai durar para sempre. Em relação ao casamento, todos acreditam que não dão certo os casamentos dos outros. Dessa forma, quem se casa continua achando que seu casamento, só o seu, será para sempre.

 

Porque casar

Infelizmente e, curiosamente, perguntando para as pessoas porque elas estão se casando a resposta nem sempre (ou quase nunca) será porque nós nos amamos. Na maioria das vezes os motivos são outros: para não ficar sozinho(a), porque todos de minha idade se casam, porque faz tempo que namoramos e agora é complicado não casarmos… e assim por diante.

Sem dúvida, a motivação para o casamento pode ser diferente entre os sexos. Pámela Paul estudou essa questão através de entrevistas (The Starter Marriage and the Future of Matrimony – O Primeiro Casamento e o Futuro do Matrimônio). Excluindo a resposta padrão unânime, não interessando aqui o grau de veracidade, de que todos estão amando, um dos principais motivos femininos é o modo de ficar só. Funcionaria como uma espécie de cura para a solidão e a sensação de vazio. O segundo maior motivo é o desejo de construir um lar que represente conforto e segurança. Finalmente, em terceiro lugar, boa parte das pessoas se casou porque viu os outros a sua volta também se casarem.

Com razoes tão frívolas e fugazes, muito possivelmente esses casamentos estarão desfeitos em alguns anos. Segundo Ailton Amélio da Silva, 30% dos casamentos não resistem mais de 10 anos de união.

Cerca de 90% dos jovens consideram um casamento feliz mais importante que uma carreira ou ter filhos. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, usando números de 1996 coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 69% dos jovens brasileiros com idade entre 25 a 35 anos têm um cônjuge.

Entre esses jovens, 31% vivem as chamadas uniões informais, ou seja, não são formalmente casados. Nunca foi tão grande o número de casais vivendo juntos sem passar pelo cartório ou pela igreja, caracterizando uma nova maneira das pessoas se relacionarem. Oito de cada dez homens separados se juntam a mulheres solteiras em média nove anos mais jovens que eles.

Sete em cada dez matrimônios registrados no Brasil terminam em até dez anos. Uma mulher com menos de 30 anos e sem filhos volta a se casar três anos depois da separação. Se tiver filhos, esse tempo pode ser maior cerca de quatro anos e meio.

Sinal dos tempos ou não, a motivação e os requisitos para que o casamento dê certo mudou muito. Houve época onde as juras de amor eterno era a motivação quase exclusiva para nutrir as expectativas de sucesso matrimonial, hoje fala-se em afinidades de personalidade.

As expectativas de sucesso no casamento não mudaram. Como dissemos, é psico-fisiológico e normal que a pessoa acredite que em seu caso tudo será diferente. Mas há, hoje em dia, uma consciência mais realista do “até que a morte nos separe”. Casa-se por amor, evidentemente, como é de praxe, mas outras coisas passam a ter um peso mais decisivo.

Um antigo quesito mulher obediente, caricaturizado na figura da mulher Amélia, passou para sexo satisfatório para ambos. Até os provimentos do lar sofreram profunda modificação e outrora marido provedor, orgulhoso e cumpridor de sua missão, dá lugar à divisão de despesas. Os filhos também deixaram de ser cuidados exclusivamente pela mulher no casamento atual.

Uma das mudanças profundas que sofreu a união conjugal foi a maneira dos casais lidarem com o prazer sexual. Não faz tempo em que o homem, estatisticamente mais comum, zelasse de uma mulher para casar e outra para realizar suas fantasias sexuais. Era a dicotomia casamento-prazer. Hoje, tanto o homem quanto a mulher sabem que essas duas coisas têm, obrigatoriamente, de andar juntas e a satisfação sexual bilateral é fundamental para a continuidade do casamento.

 

A união ou, talvez, a despersonalização

Casar é conjugar e reside aí o fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, duas individualidades. Na prática, isso equivale a anular (se a palavra é pessada podemos usar revelar, conceder, transformar, etc) dois sujeitos, dois desejos, duas visões de mundo, duas histórias, dois projetos de vida e duas identidades individuais numa única identidade conjugal, em um mesmo desejo conjunto, em uma história de vida conjugada, um projeto de vida de casal, um só objetivo. No Brasil, até a certidão de nascimento, prova cabal de que minha pessoa existe, é substituída pela certidão de casamento.

Conforme cita Terezinha Féres-Carneiro, Berger e Kellner descrevem o casamento como um ato dramático, no qual dois estranhos, portadores de um passado individual diferente, se encontram e se redefinem. Na troca de idéias, no diálogo e na conversação conjugal, a realidade subjetiva do mundo é sustentada pelos dois parceiros, que vivem confirmando e reafirmando a realidade objetiva internalizada por eles. O casal constrói assim, não somente a realidade presente, mas reconstrói a realidade passada, fabricando uma memória comum que integra os dois passados individuais.

Evidentemente a individualidade é boa e desejável mas, “ter seu próprio espaço, preservar seu próprio eu, ter autonomia, tudo isso ganhou tanta força que acabou corroendo o casamento” explica Terezinha Féres-Carneiro. No casamento tradicional e durável, é fundamental que um saiba sim da vida do outro. Não só da vida, mas dos sentimentos, carências, conflitos… há necessidade de conhecer-se e sentir prazer com esse conhecimento recíproco e mútuo.

O psicanalista Flávio Gikovate, diretor do Instituto de Psicoterapia de São Paulo, atendeu 7000 casais em 32 anos de clínica e pode afirmar que “ninguém consegue passar muito tempo convivendo trinta dias por mês, doze meses por ano, com quem não compartilha dos mesmos interesses, hábitos e valores” (revista Veja, idem).

De modo geral parece que, salvo raras exceções, o casamento para ser durável deve ser, sobretudo, tradicional. Com isso estamos querendo dizer que os casamentos “modernos”, os novos modelos ditados pelo sempre exaltado “espaço individual” de cada um tendem a deterioração, muito embora possam ser “politicamente corretor e fascinantes”. No casamento, a conjugação tem seus custos e benefícios, tem suas exigências mais ou menos independentes dos manuais de filosofia.

Mas não defendemos aqui, como pode parecer, que as pessoas devam conduzir-se obrigatoriamente num matrimonio tradicional. O país é democrático e opções criativas são livres. Como fazemos em um supermercado, pegamos tudo aquilo que queremos nas prateleiras… não esquecendo nunca que passaremos inexoravelmente pelo caixa para “acertar as contas”. Na pratica clinica são comuns as rupturas conjugais apesar do casal respeitar o “espaço individual” de cada um; happy hours permitidos, futebol semanal só com os amigos, não querer saber da correspondência nem mensagens do celular, enfim, preservando espaços individuais…

Ao longo da história humana, inúmeros modelos de convivência conjugal foram tentados. Há registros de poligamia, concubinato e outras variações da sexualidade conjugal em várias eras de nossa história, como Salomão, por exemplo, que tinha mais de 400 concubinas e 700 esposas. Mas, uma coisa são as regras culturais e outra é a natureza biológica, humana em particular. As regras culturais parecem variar de tempos em tempo, enquanto as mudanças da natureza humana (se existem?) são imensamente mais lentas.

O modelo “casamento aberto”, por exemplo, é uma tentativa de mudar as regras sociais, e nem sempre é acompanhado pela capacidade de aceitar as mudanças pelas pessoas. No consultório de psiquiatria vêem-se pessoas que não se adaptam à troca de casais e, depois de alguma experiência nesse sentido, entraram em falência emocional.

Parece que o ser humano aceita com muito mais facilidade emocional a troca de parceiros e, menos facilmente, a troca de casais. Entre o casal existe um sentimento que favorece mais a sensualidade sublime, notadamente por parte das mulheres. Entre parceiros sexuais existe mais a sexualidade erótica. São coisas diferentes.

A troca de casais não existe no reino animal por uma questão de definição. Entende-se por casal uma união duradoura e exclusiva, como o caso das araras ou das emas, por exemplo. E esses animais não trocam de casais definitivamente, chegando a morrer o outro, tão logo um deles morra primeiro. Mas não podemos falar em troca de casais entre bovinos, suínos, eqüinos, caprinos, etc, porque esses animais não formam casais. No máximo eles se juntam em parceiros sexuais por tempo limitado, geralmente fugaz.

Portanto, por questão de definição, arriscamos a dizer que os seres humanos também não trocam de casais com propósitos luxuriantes; trocam de parceiros. Isso que dizer que, por questão de definição, enfatizo, quando se diz troca de casais entre humanos, deixou de existir o casal, dando lugar aos parceiros.

Deve ficar claro, entretanto, que a convivência entre parceiros não têm, obrigatoriamente, nada de pejorativo. É uma opção conjugal para a qual a pessoa deve estar preparada. O que pode causar desconforto emocional é quando não se definem claramente o que significam um para o outro: se casal ou parceiros…

Ballone GJO casamento, in. PsiqWeb, Internet, disponível em

http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005

 

– O texto que trouxemos é apenas para iniciarmos nossa conversa porque dentro da filosofia não conseguimos nada sobre o casamento. O que, aliás, não foge da idéia do nosso café filosófico, já que nosso foco não é estudar filosofia, e sim fazer filosofia, é pensar sobre.

– Partindo do pressuposto ontológico eu sou eu, temos a complicação e o surgimento de nossos problemas quando nos unimos aos outros. O ser humano é individualista.

– O Homem tem aquela coisa com sua individualidade: isso pertence a mim e a mais ninguém. Cada um tem sua parte e ao viver junto um casamento temos que somar ou dividir?

– Se você pensar em somar, você também pode subtrair. Não é somar nem dividir, é compartilhar. Eu sou eu, você é você.

– Questão do diálogo, base de qualquer relacionamento humano e que faz reconhecer que você é você e eu sou eu.

– Equivoco são as pessoas acreditarem que o amor são duas subjetividades que se encontram quando na verdade são duas diferenças.

– O amor tem a ver com a decisão ética e política: eu quero viver com você. Paixão, tesão, não fazem a união durar. Isso ocorre em qualquer relacionamento, não só no casamento. Existe diferença entre amar e gostar?

– Amar é doar, é você deixar ser usado por outra pessoa.

– O ser humano coloca o gostar como um sentimento menor que amar.

– Eu estou sempre na expectativa de ser atendida, aquela pessoa que tem um monte de coisas que eu não tenho, então quero o que você tem. Muitas paixões surgem da necessidade.

– Existem vários tipos de amor: amor de filho, amor conjugal, etc. Isto é uma questão cultural.

Têm sociedades em que os pais entregam os filhos para a comunidade cuidar.

– Na nossa cultura é melhor ser divorciado(a) do que ser solteiro(a). Hoje a maioria das pessoas não se casa oficialmente. Existe uma necessidade de experimentação do outro. Começam a morar junto e ai ficam com receio de gastar dinheiro.

– Querer casar é muitas vezes por controle e não por amor. Não quero dividir você com outras pessoas. Você quer monopolizar o outro. É uma segurança do amor do outro para você.

– Muitos casamentos permanecem porque muitas pessoas têm medo de se separarem por causa de dinheiro. Mas a emancipação da mulher melhorou bastante esse quadro.

– É muito difícil separar por causa da questão da econômica. Não é amor que une. No casamento, a última coisa que dá certo é o amor. São escolhas de compartilhamento. A construção vai se fazendo na convivência. O amor é o grande problema do casamento.

– O casamento não tem que ser sempre maravilhoso. Temos que sair dessa coisa do amor romântico.

– Não casei porque não acreditava nessa coisa de ser feliz sempre. Mas acho que existem casais que mantém o relacionamento amoroso.

– Os casamentos jamais ganharam. Antigamente os pais não brigavam na frente dos filhos. O amor romântico é o grande mal dos casamentos, chegando até a matá-lo.

– Existe uma relação milenar do casamento por interesse. Não existe certo e errado, o que existe são escolhas.

– O casamento aberto em nossa sociedade é uma coisa muito complicada. Existe de tudo.

– A primeira coisa para um casamento é a questão de vivência.

– Para a filosofia o que pesa são os conceitos. Se o jovem começa desde cedo a pensar os conceitos, ele leva uma vida mais controlada.

– As pessoas não sabem viver os sonhos delas. Elas têm medo.

– O casamento não dá certo por causa das pessoas. Existem pessoas que preferem trabalhar o que não está dando certo e outras que preferem terminar. Amor romântico é bonito, mas não é a realidade. Uma mulher de 70 anos que nunca conheceu o amor romântico que era o grande objetivo da vida dela, é uma mulher frustrada. É o sistema que inventa isso.

– Você tem que trabalhar o ideal e o real. Se você for pela razão você não se casa. Você começa com o amor.

– Nós temos que pensar que cada pessoa tem um sistema. Cada um vai optar por algo que é importante. Não existe um padrão ideal de casamento. Tem que haver cumplicidade que é uma coisa básica.

– Cumplicidade seria amizade?

– Seria uma amizade verdadeira.

– Isso é tão pessoal. Precisa haver um diálogo. A comunicação não verbal é muito maior que a verbal.

– Definir é cercar com palavras.

– Casamento é relacionamento. Risco a palavra casamento do meu relacionamento. Se não estou pronto para relacionar, como então casar?

– A pessoa tem que estar pronta para o relacionamento, mas deve lembrar que a vida é construção, portanto nós nunca estaremos definitivamente prontos e por conseguinte as relações que viermos a estabelecer. Tem pessoas com as quais é mais difícil de lidar que com outras, é uma questão de encontrar-se e adequar a situação a você ou vice versa.

– Casamento é comprometimento. Tem pessoas que precisam se casar com a própria sombra para serem felizes, ou por não conseguirem manter um relacionamento com outra pessoa ou por tentarem transformar seus pares em sua imagem e reflexo.

– A base de uma relação é a empatia. É preciso trabalhar complexos.

– A mulher não precisava ter prazer. A mulher tinha que ficar quietinha porque se ela manifestasse alguma coisa seria considerada uma prostituta.

– No livro “Prostitutas sagradas”, primeiro a virgem tinha uma relação sexual com um desconhecido, só ai ela estava apta a se casar.

– O mito do boto cor de rosa é bem semelhante nas culturas indígenas em que a menina quando tem sua primeira menstruação ficam na cabana, retidas até se casarem.

– Um dos problemas do humano é a questão da finitude. Então há um projeto humano de negar tudo que é finito porque o ser humano deseja ser infinito.

– Nós queremos sempre o sonho.

 

04/08/06

Paz

 

I – Introdução

O que nos diz a palavra na sua origem latina (pax, pacem): tranquilidade, calma, paz de espírito, concórdia, estado de harmonia civil de uma nação que não mantém guerras com ninguém, não nos é suficiente, por ser um conceito demasiado estático, pois o maior interesse da palavra reside naquilo que supõe de relação dinâmica entre pessoas que podem entrar potencialmente em conflito. Todos os termos expressam algo que tem que ver com uma situação, um estado privilegiado da existência humana, talvez, porque se carece dele ou porque se evoca um tempo imaginado, vivido ou desejado. Mas todos eles carecem de uma conotação básica: suscitam em nós o → sentimento de não deixar entrever um anseio. Da sua raiz hebraica, a palavra shalom descreve uma série de conotações como bem-estar, felicidade, saúde, bem e → justiça. Em todo caso, constitui uma tarefa aberta ao futuro e sempre inacabada, pois Israel se vê constrangido por um presente sempre ameaçado, pela experiência do passado e pela incerteza do futuro; e de um futuro, ademais, aberto para a salvação. Assim, Deus se apresenta como um Deus que quer a paz e a justiça, que abençoa com a paz, que a paz é ideal profético que está sujeito à corrupção (Jr 6,14); por isso, será apresentada como combate que promete “desígnios de paz” (Jr 29,11), que aponta para a escatologia, pois os oráculos proféticos terminam ordinariamente com anúncio de restauração copiosa; Isaías sonha com um “príncipe da paz” (Is 9,6) que dará “paz sem fim” (Is 9,6). Este “evangelho da paz” (Ne 2,1) será realizado pelo “servo sofredor” (53,5). Isto se vive na esperança de poder contemplar a Jerusalém celestial (Ap 21,2), esperança comprometida a realizar a bem-aventurança: “bem-aventurado os pacificadores”(Mt 5,9), pois isto é viver como Deus, ser filho de Deus.

A dificuldade desta semeadura, deste combate pacífico estriba em que “é tentação permanente relegar as questões sobre a violência”, talvez por medo de descobrirmos a nossa implicação nela, ou porque deparamos de cheio na verdade da espúria gênese de todos os nossos conflitos e ameaças contra a paz. Mas de onde surge a agressividade que afasta a Paz? Sem dúvida, a injustiça e as suas diversas formas são a causa principal das tensões que lançam os homens em conflito uns contra outros; sem esquecer, na perspectiva econômica e política internacional, o desnível econômico → Sul-Norte. Mas a paz também está intimamente relacionada com a busca e o encontro com a verdade.

 

II – Reflexão sistemática

A hostilidade é patologia cuja análise nos excede; mas é importante ressaltar a necessidade de tratamento interior e exterior dessa patologia. O sermão da montanha é indicador para qualquer pessoa desperta de todos os tempos, ao afirmar a personalização de todos os filhos de Adão. Eis aqui um prognóstico sem rodeios para a falta de paz futura: “A violência está presente quando os seres humanos se vêem influenciados de tal maneira que as suas realizações efetivas, somáticas e mentais, estão abaixo das suas realizações potenciais”. Sem dúvida, a paz apresenta uma série de dificuldades que não podem ser passadas por alto, e na primeira instância requer uma saúde espiritual pessoal, para ser desejada, para ser desenvolvida e vivida. E também requer certas condições externas para ser sustentada, um projeto moral e social para manter a esperança de consegui-la. No primeiro nível, o pessoal, o anseio de paz se identifica com o descanso da alma, estado não de indiferença, nem de impassibilidade, mas de alerta ante todo ataque contra o amor; é um saber esperar, que remete a sua eficácia à consciência de ser dom precário, porém maravilhoso: a comunhão. Ester termo, que transcendendo o de compartilhar, é o preâmbulo da paz. A pessoa que está em comunhão consigo mesma e com o outro, experimenta a paz que provém dessa → relação. Este nível se projeta inevitavelmente sobre o segundo, o social. De fato, tanto positiva como negativamente, a interdependência é notória. Os homens que vivem na defensiva, que suspeitam continuamente dos outros, que não se esforçam em favor da comunhão, pensam em categorias de inimizade. Esta inimizade se traduz diretamente em afastamento da paz; pensar em termos de inimizade supõe perigo maior que o dos mísseis nucleares. Isso obriga a se reperguntar como seria possível uma → educação para a paz. Fazer uma crítica dos meios de comunicação, da situação acadêmica, das instituições públicas etc. não basta; falta uma atitude firme e comprometida com a educação, expressa, para a paz e a → tolerância. Eis aqui, então, as condições mínimas para a dissolução prática da violência pessoal e estrutural, nas quais se pode dar uma abertura para a dignificação das pessoas, o respeito, e a reconciliação: alimentação, vestuário e habitação, saúde, comunidade, educação. Mas suspeitamos que, embora estas sejam condições indiscutíveis, a paz pode se não dar com elas, ou se dar sem que elas sejam cumpridas. Nenhuma paz é possível sem o respeito dos → direitos humanos e esquecendo a → dignidade das pessoas.

 

1) Tipos de Paz

Há várias concepções da paz. A que hoje poderíamos definir como “a do espírito do homem burguês”, com o auto-engano (que graças à dor e ao sofrimento imprevisíveis se desmorona): “Enquanto não aconteça nada ameaçador, haja segurança e bem-estar, se dá a paz”; é uma pseudopaz. A espúria paz baseada no sangue que congrega, une e reconstrói a comunidade, até a próxima ocasião em que se necessite de novo sangue para refazer os vínculos rompidos; é fruto temporal do fedor de morte que fica após a batalha, e dura até que se esquece o cheiro dos mortos. Mas existe outra paz, aquela que se há de buscar sempre, sempre precária, que sempre se dá em esperança, e que aponta para a escatologia, que emana de reconciliação unilateral que não se deixa seduzir pelos períodos de falsa tranquilidade, que vá além dos pactos, das garantias, que é a renúncia a resistir ao mal: “O que dizem os mártires não tem muita importância, porque eles são testemunhas, não de uma crença determinada, como se costuma imaginar, mas da terrível propensão da comunidade humana a derramar sangue inocente, para refazer a sua unidade”. Qualquer violência revela a imbecil gênese dos ídolos ensanguentados, das políticas e das ideologias. Portanto, faz falta um novo tipo de paz. Chegou a hora de perdoarmos uns aos outros. “O perdão… é a solução por excelência a todos os conflitos e a todas as violências”. E se continuarmos a esperar, já será tarde.

 

2) A proposta neotestamentária.

Cristo não somente proclamou uma doutrina sobre o perdão, mas levou até o cumprimento definitivo uma praxis do perdão. Não se trata de belas palavras que fogem do compromisso na hora da verdade: “O sofrimento vicário ou substitutivo não é uma espécie de eliminação mágica da culpa, mas um saltar-a-palestra”, pois “a lógica da não violência é a lógica da crucificação e conduz aos não violentos até o coração de Cristo paciente”. Espera-se que quem escolhe o caminho da paz seja o bode expiatório de culpas que não são suas, tomando sobre si acusações mentirosas que servirão para justificar os executores, que crerão que, com a sua morte, contribuem para os planos de justiça e paz do próprio Deus. Num primeiro momento, quando lemos no evangelho, surge o desconcerto: “Não vim trazer a Paz, mas a guerra, vim separar o filho do seu pai, a filha de sua mãe etc.”. Porém Jesus não quer dizer: “Vim trazer a violência”, mas: “Vim trazer uma paz tamanha, uma paz de tal maneira privada de vítimas, que supera as vossas possibilidades e tereis de vos resignar com uma explicação de vossos fenômenos vitimários”. Acabou por deslegitimar as relações miméticas que justificavam a violência, a se desprender de todos os recursos sacrificais que arrastavam periodicamente os homens uns contra os outros, a alguma agitação violenta. Já não poderão lançar a culpa das suas desgraças uns nos outros, porque todos terão descoberto que aquilo que os divide e os impele à rivalidade e ao enfrentamento é fruto de engano, no qual todos caímos. A parábola do bom Samaritano, o servo Sofredor de Isaías, e as Bem-aventuranças, são bons expoentes da proposta do evangelho da paz. Os seus grandes defensores universais não fizeram mais que pôr em prática estes ensinamentos: Martin Luther King, M. Gandhi, Lanza Del Vasto, dom Romero.

 

III – Considerações práticas

“A humanidade inteira se encontra diante de um dilema ineludível: é preciso que os homens se reconciliem para sempre sem intermediários sacrificais, ou que se resignem à extinção próxima da humanidade (…); a renuncia à violência, definitiva, sem cautelas, se nos imporá como condição sine qua non da sobrevivência, para a humanidade mesma e para cada um de nós”. Muitos pensam, no auge do desespero e da sensação de derrota moral, que a única possibilidade de combater a guerra é usar as mesmas armas que ela, mas a história nos mostra reiteradamente que não é assim. Nunca se acaba de inaugurar novas formas de violência onde outros povos são oprimidos e maltratados. Os filhos dos vencidos vingarão a seus pais. “Toda vitória imposta, tanto nos grandes como nos pequenos conflitos, obstaculiza uma transformação de atitude, e não deixa de ser uma vitória artificial (…); com uma solução imposta, os antigos privilegiados não terão mudado a sua atitude: tratarão de imediato de preparar a contra-revolução… A antiga violência renasce sob um regime novo”.

Os homens imaginam que a → violência não é mais que uma espécie de parasita da qual é fácil se desembaraçar por meio de medidas profiláticas adequadas, ou que é um traço indelével da natureza humana, um instinto ou uma fatalidade que seria estéril combater. Mas desembaraçar-se da violência é empresa à qual todos os homens devem se dedicar. A violência é escravidão: impõe aos homens uma visão falsa não somente da divindade, mas também de todas as coisas. Para sair da violência é preciso, evidentemente, renunciar à idéia de retribuição; por conseguinte, há que renunciar à conduta que desde sempre se considerou natural e legítima. Parece-nos justo, por exemplo, responder aos bons procedimentos com bons procedimentos, e aos maus com maus; é o que sempre fizeram. Os homens imaginam que para escapar à violência basta renunciar a toda iniciativa violenta; mas como ninguém crê nunca que é ele mesmo que a toma, como toda violência tem um caráter mimético, e resulta ou crê resultar de uma primeira violência que se situa no ponto de partida, essa renúncia não é mais que uma aparência que deixa sempre as coisas como estão. A violência sempre é percebida como uma legítima represália. Por conseguinte, há que renunciar ao direito de represálias, e inclusive ao que muitas vezes se atribui a legítima defesa. Posto que a violência é mimética, e que ninguém jamais se sente responsável pelo seu primeiro rebento, somente uma renúncia incondicional pode trazer o resultado que se deseja.

O problema é que até aqueles que se chamam a si mesmos não-violentos sorriem sendo então cúmplices, ante tamanha ingenuidade, ou se autojustifiquem no recorrente termo da → utopia ou desideratum. Para John Topel, trata-se de uma eutopia, isto é, não um lugar que não existe, e sim de “um lugar ao qual devem se aclimatar em todas as suas aspirações, e apesar de todas as dificuldades, os seguidores do evangelho da paz”. À vista dos testemunhos que a história nos oferece, fica evidente que a consecução da paz requer um primeiro gesto para ser imitado, posto que a luta pela paz é tão mimética quanto a ação violenta. Assim como esta última requer alguém que atire a primeira pedra para desencadear uma espiral exponencial de reciprocidades violentas, a paz requer um primeiro gesto que suscite um desencadeamento de uma imitação positiva, que leve aos homens a realizar gestos, atos definitivos de reconciliação, que possam ser vistos e seguidos por outros, inaugurando um caminho graças às pegadas deixadas pelos primeiros que deram os heróicos passos iniciais. “Se não se tivesse encontrado ninguém para atirar a primeira pedra, todos aqueles que tivessem atirado teriam sido mimeticamente induzidos a não atirar nenhuma. Para a maior parte deles, a verdadeira razão da não violência não é a dura reflexão sobre si mesmo, a renúncia à violência: é o mimetismo”. Porque como poderá convencer os violentos de que a paz é boa, se não se vêem os seus frutos personalizados, historizados, se não se avaliam as suas maravilhosas conseqüências para a convivência e a comunhão? O combate é sério, porque nosso mundo assimilou o veneno da oferta dionísica, na qual o sacrifício continua sendo ritual necessário, e a violência um bem que renova a face do eterno retorno das coisas, que purifica catarticamente o tédio e os costumes, as rotinas da vida. Mas frente a Dionísios, o Crucificado tem uma palavra universal a dizer: “Bendizei aos que vos perseguem, fazei o bem aos que vos odeiam, não resistais ao mal”.

Dicionário de filosofia Paulus

 

– Paz é um conceito muito relativo que pode ser abordado por vários aspectos. E sempre que tocam nesse assunto me lembro da música do John Lennon, ‘Imagine’.

– Sem dúvida que há muitas definições sobre esse conceito, mas precisamos definir uma para nós, pois acredito que isso é muito importante.

– E por falar nisso, qual o nosso conceito de paz?

– Eu penso como justiça, uma relação natural de harmonia entre as pessoas, não apenas de um círculo comum de convivência, mas entre quaisquer pessoas. Não acredito que haja paz sem justiça.

– Mas a justiça talvez seja mais discutível que a paz, a união dos dois não é sinônimo nem de um nem tão pouco de outro, por isso todo cuidado é pouco. Para podermos fazer tal comparação seria bom que tivéssemos os dois conceitos bem discutidos e estruturados.

– A paz pode representar a compreensão, pois quando compreendemos uma questão, as coisas se tornam mais claras a nossos olhos e assim há de se ter serenidade para resolvermos algum conflito em que por quaisquer motivos tenhamos nos envolvido. A paz é um meio e não um fim. É eu ter serenidade para resolver um conflito, e é também um processo dialético.

– Eu diria que a paz pode ser pensada sob uma dualidade simples: interior e exterior; e que esses opostos podem representar talvez, apenas a maneira como nós compreendemos o mundo ao qual pertencemos e como compreendemos nossa participação nele; ou de uma outra perspectiva, como vamos nós e como vai o mundo. Definidos esses aspectos, impossível não assumir que são influenciáveis. Portanto falar de paz é refletir sobre as coisas, e saber que podemos torná-las melhores se por acaso for preciso.

– Gandhi, por exemplo, era um exemplo de paz interior que contaminou o exterior. Ele, consciente de sues princípios sobre o que era a paz, se dispôs a tornar sua idéia realidade, e conseguiu.

– A paz também é o gozo, o prazer. Em paz nos sentimos livres, em êxtase, e sentimos prazer sem culpa.

– O que então tira o homem desse estado? Será por que não conseguimos por em prática nossa teoria?

– Talvez seja porque nem sempre estejamos dispostos a superar todos os desafios necessários para que possamos alcançar o que chamamos paz, por nos rendermos a vaidades mais cômodas que confundem os sentidos com quantidade pela qualidade.

– Para a UNESCO a filosofia contribui para a paz por remeter à reflexão, por isso publicou uma carta assinada por filósofos de todo o mundo incentivando seu estudo e prática.

– E hoje também é moda estudar filosofia.

– Mas mesmo a pessoa que inicia a prática filosófica por modismo acaba sendo influenciada por suas características, o que no fim é bom.

– E também isso não é regra geral. Pois existem muitas pessoas que passam pela filosofia, porém a filosofia não passa por elas. O que acontece, é que com essas pessoas, quando são provocadas, não respondem de maneira filosófica, mas sim reproduzem atos, não questionam e não refletem.

– Chega a ser engraçada a luta do homem para construir e depois por algum outro motivo, destruir tudo.

– Assim é a guerra, ela instiga toda uma população sob um ideal muitas vezes de progresso, desde que alguns sacrifícios sejam feitos para que a meta seja alcançada. Esse processo envolve a sobreposição de um algo sobre outro, o que implica destruição para alcançar a construção desejada. Tal processo é relativo ao ódio, o alimento da guerra.

– Caminhando assim voltaremos a ser bárbaros e às cavernas.

– Paz é um arquétipo a ser alcançado, uma idealização.

– A paz faz parte do ser humano? A humanidade desde seus primórdios vive de sucessivas guerras.

– O processo do viver é a dialética paz e guerra.

– Se tudo por fim as coisas se resumirem a uma questão de escolha chegaremos ao ponto de poder escolher em paz, a guerra.

– Nós ocidentais somos muito preconceituosos e acreditamos sermos racionalistas, só não percebemos o quão taxativa é nossa visão racionalista das coisas.

– Tudo é uma questão de emoção e não há como avaliar nem qualificar as emoções.

– O que é mais importante a conseqüência ou a ação?

– Talvez possa ser a intenção, pois depende da interação dos dois, sendo que somente essa união irá gerar o resultado esperado, a conseqüência da ação cometida.

– Segundo Buda devemos controlar o desejo, o problema é a confusão entre necessidade e desejo.

– E o que é a realidade virtual?

– É você comprar não um produto, mas um estilo de vida, uma representação de algum produto que se mostra pela matéria. É a manifestação da necessidade pelo desejo.

– Não há como negar a dialética do homem, assim é a sua paz.

 

12/08/06

Morte

 

1) Toda vida está posta entre dois parênteses: nascimento e morte. E só o homem tem consciência disso.

O nascimento é fato de que não se tem lembrança. Quem se reconhece existindo tem a impressão de que sempre existiu, de que desperta de um sono sem memória. Ouvir falar do próprio nascimento não estimula qualquer recordação. Pessoa alguma guarda experiência do início de seu existir.

Estamos todos destinados à morte. Ignorando o momento em que ela virá, procedemos como se nunca devesse chegar. Em verdade, vivendo, não acreditamos realmente na morte, embora ela constitua a maior de todas as certezas.

A consciência puramente vital desconhece a morte. É preciso que nos demos conta da morte, para que ela se torne uma realidade para nós. A partir daí, transforma-se a morte em uma situação-limite: aqueles que me são mais caros e eu próprio cessarão de existir. A resposta a essa situação-limite há de ser encontrada na consciência existencial de mim mesmo.

 

2) Costumamos dizer: o que nasceu deve morrer. A ciência biológica não se contenta com isso. Gostaria de conhecer o porquê. Sobre que processos vitais repousa tal necessidade? Pensa-se em retardar o processo de envelhecimento e chega-se a cogitar de, controlando os processos vitais que levam à morte (processos que um dia conheceremos), atingir o ponto de poder manter vivo, pelo tempo que se deseje, tudo quanto haja nascido. Ninguém, entretanto, duvida de que, mesmo prolongando artificialmente a vida por tempo cada vez maior, a morte será, ao fim, inevitável. Como o sexo, a morte faz parte da vida. Um e outra permanecem mistérios ligados à fonte de nossa existência.

 

3) Tememos a morte. Observe-se, porém, que a morte – o cessar de ser – e o ato de morrer – cujo termo é a morte – provocam angústias muito diversas.

O temor da agonia é temor de sofrimento físico. A agonia não se confunde com a morte. A angústia a que ela dá lugar pelo manifestar-se em muitas crises, vindo o paciente a recuperar-se. E poderá ele dizer: “morri várias vezes”. Não obstante, a experiência colhida nessas ocasiões não é a experiência da morte. Todo sofrimento é experimentado por alguém que está vivo. A morte escapa à experiência.

O processo natural de agonia pode desenrolar-se sem sofrimento: há mortes instantâneas. Em tais casos, não há tempo de o fenômeno atingir a consciência. Pode passar despercebido por coincidir com astenia ou com o sono. A medicina tem meios de reduzir os tormentos gerados por doenças fatias. Embora a agonia seja uma realidade psico-física, é possível que a biologia e a farmacologia venham, de futuro, a permitir que, em todos os casos, a morte se desacompanhe de sofrimento.

Inteiramente diversa é a agonia diante da morte quando esta é concebida como estado que sucede à desaparição da vida. Nenhum médico nos pode livrar dessa angústia; só o pode a filosofia.

Dicionário de filosofia Paulus

 

– Semana passada conversamos sobre paz, e o tema sugerido para esta semana foi a morte. A morte como tema de reflexão foi relegado a planos inferiores pelos gregos, Platão, Aristóteles e mais recentemente Heidegger e Sartre são bons exemplos de filósofos que ressuscitaram o tema. Heidegger procura explicá-la como parte fundamental do ciclo da vida, enquanto Sartre possui uma visão mais niilista a seu respeito.

– Pelo enfoque da psicologia cada momento é um momento de morte, inerente ao processo de repetição da vida que vivemos.

– A morte física é uma ruptura e um desprendimento que todos percebem independente de crença, o falecimento quanto fato material é para nós impossível de não ser sentido. Para Schopenhouer, todo por do sol corresponde a um nascer do sol e ele traça esse paralelo com a vida e a morte.

– Para Epicuro a morte não existe, pois quando estamos aqui ela não está, e quando ela está nós não estamos.

– A idéia da proposta do tema foi para discutirmos o sentido para nós de nossa existência.

– No livro ‘A arte de morrer’ escrito pelo padre Antonia Vieira, o autor diz que o ocidente não se preparou para a maior certeza da vida.

– O grande problema do ser humano é encarar sua finitude. O aspecto físico que se compromete com o passar dos tempos, e a idéia de que iremos morrer em contraste com a idéia de que viveremos para sempre é sempre conflitante.

– Sempre a finitude se revela em nós, sobretudo nos medos, pois todos sentem medo da morte, todos sentimos medo de perecer.

– Nós somos os únicos animais que sabemos que vamos morrer, e isso não é pouca coisa.

– O homem pensa na imortalidade para fugir da morte, assim como fazem as filosofias, religiões e tantas outras crenças.

– Mário Quintana: “Morrer, que me importa/ o diabo é deixar de viver”; morrer é fácil, difícil é viver.

– Todo processo de racionalização da imortalidade só faz sentido à vida, pois não faria sentido imortalizarmos a morte.

– A vida só faz sentido porque eu posso morrer e não o contrário.

– A questão não é o que as coisas são, e sim o que pensamos que sejam.

– Ninguém gosta de morrer, não há filósofo que supere o que sentimos na hora que vemos alguém morrer. Claro que há diferenças culturais que encaram o fato de diversas maneiras, mas não há como dizer que esta é algo bom, ou que não sentimos com o que aconteceu.

– Mas temos meios diferentes de pensar e refletir sobre ela.

– Tudo bem, mas não me irão convencer de que haja um que não se apavore com a morte.

– O problema é quando não sabemos que vamos morrer, por exemplo, alguém que tenha um câncer e uma previsão de três meses de vida, essa pessoa sabe que pode morrer e isso não depende mais apenas dela, mas ela não tem certeza de quando o fato lhe virá ocorrer. Deve ser uma péssima expectativa a expectativa da morte.

– Não há verdade absoluta, por isso não há generalizações, principalmente sobre a morte.

– O medo que a morte trás, e o sofrimento que ela carrega consigo, vêm a nós, pois pensamos e refletimos sobre o que ela pode significar, e o que poderemos sentir em sua ‘presença’. Sentimos medo por fim, de sentir a perda, de sentirmo-nos perto de nos perder, ou seja, a morte trás o medo simplesmente de perdermos.

 

19/08/06

Morte II

 

4) Todas as concepções acerca do estar morto são desprovidas de base. Do mais-além não há qualquer experiência, nem se recebeu qualquer sinal. Jamais alguém retornou de entre os mortos. Daí decorre a idéia de que estar morto é não ser, de que a morte é o nada.

O temor da morte é o temor do nada. Não obstante, parece impossível afastar a idéia de que à morte sucede uma outra existência. O nada posterior ao fim não é efetivamente um nada. Vida futura me aguarda. O temor da morte é o temor do que após ela ocorre.

Tanto um como outro desses temores – o temor diante da morte e o temor do que depois suceda – é sem base. O nada só o é face à realidade que existe no tempo e no espaço. E, além disso, não há uma outra existência concreta frente à qual o temor se justificasse. Mas, quer essa afirmação deixar assentado que carece de base a consciência de imortalidade?

 

5) A morte do ser que me é mais caro, a privação de sua presença física, o sofrimento infindável que brota do “nunca mais” pode, tanto quanto os momentos sublimes, transformar-se em consciência de presença.

É vão o consolo que se apóia na afirmativa de que sobrevivermos na lembrança de outros, na descendência, em obras imperecíveis, na glória que atravessará os tempos. Tudo chega a um fim: não apenas o que eu sou e o que ou outros são, mas também a humanidade e tudo quanto ela produz e realiza. Tudo mergulhará no esquecimento, como se jamais tivesse existido.

Para quem não crê, nada significa a promessa de ressurreição. A crença na ressurreição sustenta que a morte é real. O fim do homem é seu cadáver e a decomposição. Dele nada resta. Se a imortalidade existe, será preciso que o homem renasça fisicamente. E isso ocorrerá. Os mortos ressuscitarão por ato de Deus que lhes devolverá vida e corpo. No último dia, Deus fará com que os mortos abandonem suas tumbas, para serem submetidos ao Juízo Final. Para a consciência existencial de quem nela não crê, a ressurreição da carne carece de significação.

Mas não deixa de ter sentido a sede de eternidade. Existe algo em nós que não se pode crer suscetível de destruição. Tarefa da filosofia é lançar alguma luz sobre a natureza desse algo.

Na origem de tal idéia, pode-se reconhecer a seguinte distinção: a sede de sobreviver no tempo está ligada a nossa existência empírica; inteiramente diverso é o desejo (…).

Dicionário de filosofia Paulus

 

– A morte é o fim de tudo, a ausência completa e o ponto de partida para uma nova existência.

– Acredito que sim, a morte é um começo, sabe-se lá para o que, mas se marca um fim, porque não um outro início?

– A morte é a consciência da presença. Se tudo acaba eu lembro que vivo, lembrando que penso e que sinto. A morte reflete a incerteza, pois se as coisas deixassem de ser o que existe, passa a existir a dúvida do que existe, ou seja, no fundo passamos questionar a nossa própria realidade.

– É importante também que falem da morte, para haver vida é preciso haver morte, o que pode acabar esta sendo uma visão bem empírica da vida. Qualquer ser vivo vive da morte, portanto morte e vida estão profundamente unidas, mas como os homens se colocaram no centro de tudo, depende de nós entendermos nossa vida e nossa morte, e isso é um processo traumático.

– A morte é uma coisa que vem de dentro, ela faz parte de nosso organismo. Não seriamos humanos se não fossemos mortais.

– O homem tendo consciência da morte procura dar um significado a sua existência para poder ser imortalizado na lembrança dos outros.

– Quando o homem primata começou a ter consciência da morte, o grupo passou a escolher um de seus membros para se arriscar, para que assim os outros através de um, entendessem a morte.

– A vida é apenas um grau da morte, mas não temos que esperar esse acontecimento como o grande acontecimento da vida do homem, ela é inerente à vida e acontece todo o tempo.

– Acredito que nosso sofrimento diante da morte é falso. Não que não exista, mas que este seja algo mais como uma tradição impressa e imposta sobre nós pela sociedade.

– Fato é que o homem joga muito sua vida em cima de ter, e não em ser, por isso ter vida provoca apego e é difícil se desvencilhar desse conceito e admitir outro: o não ter vida.

– É difícil dizer que estamos preparados para morrer. Se por exemplo o teto desabasse sobre nossa cabeça e morrêssemos imediatamente, seria mais tranqüilo do que saber que estamos com uma doença que pode nos matar a qualquer segundo e que não temos o menor controle sobre isso, nesse caso a morte se impõe sobre nós de maneira nítida e praticamente inadiável, e assim estar preparado para morrer acredito ser muito mais complicado.

– Se houvesse de fato a ressurreição e vida após a morte, porque então o sofrimento?

– É que temos a idéia de que é o sofrimento que salva.

– Mas essa não é a única visão do evangelho. Não podemos encarar a instituição Igreja Católica como algo simples assim, o que não passa de uma visão preconceituosa; esse é um conceito muito complexo e infelizmente essa idéia do sofrimento é a que foi mais difundida. O sofrimento é fruto do pecado.

– Da mesma forma que dizemos que tudo morre, podemos dizer tudo nasce. Eu vejo cientistas dizerem que daqui a não sei quanto tempo o universo irá acabar. Com que direito eles dizem isso? Isso para mim nada mais é que pretensão do homem que se coloca como ápice da vida no universo, por mais que acreditem que possam encontrar sociedades mais evoluídas que a nossa.

– Não será o nosso egoísmo o responsável pelo nosso medo da morte?

– Pode ser, já que o apego que teríamos a nós mesmo seria o responsável pelo medo.

– É admirável a dedicação dos homens bombas que dão suas vidas por seu povo, e são tratados como heróis por defenderem até o último suspiro sua causa e sua cultura.

– Nós não os entendemos, pois não fazemos parte do que eles representam, e também porque não temos como eles algo a que possamos dar nossas vidas, não há em nossa cultura nada que desperte tão forte sentimento assim.

– A nossa vida hoje é levada a um ritmo frenético na busca por bens materiais; isso é vida? A questão é que nossas escolhas, o fato de querermos uma vida melhor, nos impõe hábitos nem sempre saudáveis.

– Vivemos em um contexto que exige demais do que somos para sermos o que querem que sejamos, nos entregamos a esse ciclo vicioso e acabamos possuídos por nosso meio e ambições. A felicidade querendo ou não é hoje estabelecida sobre a dualidade ter ou não ter dinheiro. É uma questão de limites.

 

02/09/06

Vida

 

Os Flamboytants

A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.

Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol.     Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir… Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acariciando a pele – os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, “pensar é estar doente dos olhos”. Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: “Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela… Você não quer vir até a nossa casa para tomar uma cafezinho?”

Fui. Mas ele me advertiu: “Não diga nada para ela. É surpresa…” Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.

As crianças da 3ª. Série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O gambá que não sabia sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menina, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica Se eu tiver apenas um ano a mais de vida…

Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: “Recortei a crônica e trouxe para a professora…” Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.

As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma idéia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: “Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?” Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: “Não chore porque eu vou abraçar você…”.

As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades – porque a vida é tão boa! Por isso, o que me resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.

Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres… E, como disse Walt Whitmann, “quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha”.

O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.

Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.

Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. “Você sabe rodar piões?”, eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os “outros” definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.

Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.

Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)… Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: “Não gostaria de brincar com corrupio?” E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. “Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?” E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: “Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar…” São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar…

Pois a Julieta – aquela do Romeu – me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu, fotografias de flamboyants vermelhos – que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.

Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: “Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver… Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E conclui que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz…”.

Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria…

Rubem Alves

 

– Para hoje não chegamos a definir o tema de nossa reunião, mas como no último encontro tratamos da morte, para hoje escolhemos a vida, com o texto “Os flamboyants” de Rubem Alves.

– Realmente, ser ridículo, como disse o texto, é renovador, experimentar aventuras de criança renovam nossa alma.

– A consciência da morte é premissa para uma vida intensa, pois a expectativa da morte, ou aniquila os espíritos indispostos ou dá aos esperançosos uma nova vida no restante da vida que lhes resta.

– É curioso como a sociedade exige de nós uma postura melancólica diante da morte. Uma questão interessante do filme que assistimos – A s invasões bárbaras – é que o personagem que está a beira da morte não se mostra fraco nem lamentoso, e em momento algum ele se mostra arrependido de qualquer coisa que possa ter feito durante sua vida.

– O arrependimento é consciência de culpa, um remorso que temos de algo feito no passado. Não há do que se arrepender diante da morte, pois diante da morte é como se tudo fosse permitido.

– Outro ponto muito importante do filme é a imersão da morte no cenário capitalista. Podemos dizer que o filho do personagem que está para morrer, compra a morte de seu pai desde o momento em que o retira do meio socialista desesperado e confuso do hospital, no qual o pai estava internado e condição que defendia, até quando financiou o uso de heroína do pai para uma morte tranqüila.

– A ilusão da liberdade constrói um conceito que nos impõe ser algo que poderíamos ter feito, ou seja, nos faz sentir culpado, pois havia a possibilidade ter feito algo diferente do que fizemos, o que conseqüentemente nos liga a uma projeção do que poderíamos ter sido, mas não somos.

– Acredito que o mais importante é fazer uma reflexão sobre valores, pois prioridades definem, de certa forma, um meio mais agradável de vida, e no fim o que vale é uma vida prazerosa.

– Vivemos na ditadura do ser feliz, vivemos buscando um tema que é representado por uma palavra com significado vazio pela pluralidade de interpretações.

– Deus representa a liberdade que queremos alcançar, mas não podemos por uma simples questão de autonomia. A condição social e finita do ser humano significa de alguma forma nossos limites – internos e externos – e assim as divindades por nós criadas representa algo a nos limitar, ou seja, são  projeções das nossas limitações sendo os reguladores delas.

– Isso quer dizer que somos inteiramente controlados por normas sócias e leis pelo simples fato de que a funcionalidade do coletivo se baseia no medo de punições que nós impomos a nós mesmos.

– O fato de o homem ser um ser social significa que ele não foi “criado” para viver sozinho, por isso o homem é um ser inacabado, ele aprende ao longo de sua vida como se portar no mundo em que vivemos graças às normas e leis que seus antecessores desenvolveram.

– Há realmente a possibilidade de liberdade?

– A liberdade, assim como a felicidade é um condicionamento, não há regras que definem isso por mais que tentemos traçá-las.

– As pessoas se conformam com suas realidades, elas não podem ser felizes em suas condições que para nós soam inaceitáveis? Isso a torna feliz por mais que consideremos isso inadmissível.

– A felicidade das pequenas coisas é grandiosa o suficiente para rechear nossa vida, e isso o que vale.

 

16/09/06

Religião

 

A palavra religião vem do latim: religio, formada pelo prefixo re (outra vez, de novo) e o verbo ligare (ligar, unir, vincular). A religião é um vínculo. Quais as partes vinculadas? O mundo profano e o mundo sagrado, isto é, a Natureza (água, fogo, ar, animais, plantas, astros, metais, terra, humanos) e as divindades que habitam a Natureza ou um lugar separado da Natureza.

Nas várias culturas, essa ligação é simbolizada no momento de fundação de uma aldeia, vila ou cidade: o guia religioso traça figuras no chão (círculo, quadrado, triângulo) e repete o mesmo gesto no ar (na direção do céu, ou do mar, ou da floresta, ou do deserto). Esses dois gestos delimitam um espaço novo, sagrado (no ar) e consagrado (no solo). Nesse novo espaço ergue-se o santuário (em latim, templum, templo) e à sua volta os edifícios da nova comunidade.

Essa mesma cerimônia da ligação fundadora aparece na religião judaica, quando Jeová indica ao povo o lugar onde deve habitar – a Terra Prometida – e o espaço onde o templo deverá ser edificado, para nele ser colocada a Arca da Aliança, símbolo do vínculo que une o povo e seu Deus, recordando a primeira ligação: o arco-íris, anunciado por Deus a Noé como prova de seu laço com ele e sua descendência.

Também no cristianismo a religio é explicada por um gesto de união. No Novo Testamento, Jesus disse a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as Chaves do Reino: o que ligares na Terra será ligado no Céu; o que desligares na Terra será desligado no Céu”.

Através da sacralização e consagração, a religião cria a idéia de espaço sagrado. Os céus, o monte Olimpo (na Grécia), as montanhas do deserto (em Israel), templos e igrejas são santuários ou moradas dos deuses. O espaço da vida comum separa-se do espaço sagrado: neste, vivem os deuses, são feitas as cerimônias de culto, são trazidas oferendas e feitas preces com pedidos às divindades (colheita, paz, vitória na guerra, bom parto, fim de uma peste); no primeiro transcorre a vida profana dos humanos. A religião organiza o espaço e lhe dá qualidades culturais, diversas das simples qualidades naturais. A religião como narrativa da origem

A religião não transmuta apenas o espaço. Também qualifica o tempo, dando-lhe a marca do sagrado.

O tempo sagrado é uma narrativa. Narra a origem dos deuses e, pela ação das divindades, a origem das coisas, das plantas, dos animais e dos seres humanos. Por isso, a narrativa religiosa sempre começa com alguma expressão do tipo: “no princípio”, “no começo”, “quando o deus X estava na Terra”, “quando a deusa Y viu pela primeira vez”, etc.

A narrativa sagrada é a história sagrada, que os gregos chamavam de mito. Este não é uma fabulação ilusória, uma fantasia sem consciência, mas a maneira pela qual uma sociedade narra para si mesma seu começo e o de toda a realidade, inclusive o começo ou nascimento dos próprios deuses. Só tardiamente, quando surgiu a Filosofia e, depois dela, a teologia, a razão exigirá que os deuses não sejam apenas imortais, mas também eternos, sem começo e sem fim. Antes, porém, da Filosofia e da teologia, a religião narrava teogonias (do grego: theos, deus; gonia, geração) isto é, a geração ou o nascimento dos deuses, semideuses e heróis.

O contraste entre dia e noite – luz e treva –, entre as estações do ano – frio, quente, ameno, com flores, com frutos, com chuvas, com secas –, entre o nascimento e a desaparição – vida e morte –, entre tipos de animais – terrestres, aquáticos, voadores, ferozes e dóceis –, entre tipos de humanos – brancos, negros, amarelos, vermelhos, altos, baixos, peludos, glabros –, as técnicas obtidas pelo controle sobre alguma força natural – fogo, água, ventos, pedras, areia, ervas – evidenciam um mundo ordenado e regular, no qual os humanos nascem, vivem e morrem. A história sagrada ou mito narra como e por que a ordem do mundo existe e como e por que foi doada aos humanos pelos deuses. Assim, além de ser uma teogonia, a história sagrada é uma cosmogonia (do grego: cosmos, mundo; gonia, geração): narra o nascimento, a finalidade e o perecimento de todos os seres sob a ação dos deuses.

Assim como há dois espaços, há dois tempos: o anterior à criação ou gênese dos deuses e das coisas – tempo do vazio e do caos – e o tempo originário da gênese de tudo quanto existe – tempo do pleno e da ordem. Nesse tempo sagrado da ordem, novamente uma divisão: o tempo primitivo, inteiramente divino, quando tudo foi criado, e o tempo do agora, profano, em que vivem os seres naturais, incluindo os homens.

Embora a narrativa sagrada seja uma explicação para a ordem natural e humana, ela não se dirige ao intelecto dos crentes (não é Filosofia nem ciência), mas se endereça ao coração deles. Desperta emoções e sentimentos – admiração, espanto, medo, esperança, amor ódio.

Porque se dirige às paixões do crente, a religião lhe pede uma só coisa: fé, ou seja, a confiança, adesão plena ao que lhe é manifestado como ação da divindade. A atitude fundamental da fé é a piedade: respeito pelos deuses e pelos antepassados. A religião é crença, não é saber. A tentativa para transformar a religião em saber racional chama-se teologia.

 

Ritos

Porque a religião liga humanos e divindade, porque organiza o espaço e o tempo, os seres humanos precisam garantir que a ligação e a organização se mantenham e sejam sempre propícias. Para isso são criados os ritos.

O rito é uma cerimônia em que gestos determinados, palavras determinadas, objetos determinados, pessoas determinadas e emoções determinadas adquirem o poder misterioso de presentificar o laço entre os humanos e a divindade. Para agradecer dons e benefícios, para suplicar novos dons e benefícios, para lembrar a bondade dos deuses ou para exorcizar sua cólera, caso os humanos tenham transgredido as leis sagradas, as cerimônias ritualísticas são de grande variedade.

No entanto, uma vez fixada a simbologia de uma ritual, sua eficácia dependerá da repetição minuciosa e perfeita do rito, tal como foi praticado na primeira vez, porque nela os próprios deuses orientaram gestos e palavras dos humanos. Um rito religioso é repetitivo em dois sentidos principais: a cerimônia deve repetir um acontecimento essencial da história sagrada (por exemplo, no cristianismo, a eucaristia ou a comunhão, que repete a Santa Ceia); e, em segundo lugar, atos, gestos, palavras, objetos devem ser sempre os mesmos, porque foram, na primeira vez, consagrados pelo próprio deus. O rito é a rememoração perene do que aconteceu numa primeira vez e que volta a acontecer, graças ao ritual que abole a distância entre o passado e o presente.

 

– Como foi sugerido, hoje trabalharemos a religião, e para isso o texto escolhido foi um texto introdutório ao assunto, pois o tema é diversamente tratado na filosofia e ficaria difícil saber como abordá-lo.

– O texto aborda de uma forma muito bonita o conceito e mostra um outro aspecto interessante do tema, pois reflete a memória emocional do ato religião que está presente em sociedades mais primitivas.

– É interessante como o mundo tecnológico vai se configurando e mesmo assim os ritos permanecem.

– Porque essa memória emocional não se perde no humano?

– Talvez porque por mais que o fato vire história e dele sobre apenas emoções, lembranças do que sentimos na época, os símbolos permanecem resgatando e restaurando a história; assim fazem sobreviver os ritos.

– Isso porque as religiões se baseiam em uma repetição de costumes e dessa forma sustentam uma tradição que vêm de tempos antigos.

– A manutenção da tradição religiosa influi nos costumes da sociedade moderna e nos permite avaliar o nível de coesão de um ponto. Os ocidentais até mesmo no campo religioso produziram uma revolução, uma mudança dos hábitos, enquanto os orientais conservaram mais suas tradições.

– É curioso como os ritos oferecem padrões, todos os pontos altos são considerados segredos, pois se considera estar perto de deus, das montanhas dos céus, e talvez por isso representem algum tipo de respeito.

– Também se encontra padrão na disputa territorial, pois antigamente os clãs e tribos lutavam por montanhas e outros pontos importantes porque eles representariam superioridade de grupo sobre outro, ou seja, poder.

– Existem correntes que defendem a origem do mundo por uma visão mitológica e metafísica. O ser humano é um ser mítico, é fundador de seu próprio mito.

– O mito é um mecanismo de organização do sentido e é um modo de compreensão da realidade.

– A religião é fruto de uma necessidade de compreensão do mundo a nossa volta, e mais que isso, ela representa o meio de transcendência do homem, um meio de alcançar o céu e perpetuar sentimento nos deuses, e talvez por isso os que a controlam, têm nela um ótimo órgão de domínio.

– Toda religião tem uma ligação com o poder, elas influenciam no modo de ser das pessoas, elas modificam as bases de uma comunidade.

– Hoje em dia a ciência vem “disputando” espaço com a religião, pois áreas como a física quântica tem discutido a nossa crença, questionando o que acreditamos com proposições científicas bem fundadas.

– Mas só haverá mudança do nosso jeito de ser se tivermos consciência do que isso significa.

– Se a religião tem o fundamento de re ligar, em que momento se perdeu o que, e quem ligou novamente?

– Segundo um provérbio zen, “só encontrará a sua vida aquele que a perdeu”, então, podemos dizer que a perda do paraíso, a perda da condição primária de surgimento do ser humano é o que perdemos e o que a religião vem ligar, ou, religar.

– O problema do humano foi se tornar humano, adquirir consciência, o que seria no fim das contas adquirir uma percepção diferente do todo.

– A idéia do paraíso e da árvore do bem e do mal, pode ser relacionada com o mito da caixa de pandora, o momento em que o descumprimento de uma ‘ordem’ alterou o futuro do mundo.

– O paraíso é o não humano.

– Historicamente o ser humano criou a dualidade, mas na Grécia antiga nos rituais dionisíacos não se recorria à dualidade, na música e na perda da consciência o homem encontrava a verdade dos deuses que se postam além de nossa compreensão natural do mundo em que vivemos.

– Para Nietzsche a piedade representa uma questão de poder, na qual a vítima usa de seu papel de inferior para obter benefícios.

– A religião é ao mesmo tempo o mistério e o meio de encontrar para ela mesma uma resposta, um meio de entendê-lo.

– Às vezes dependendo do grau de religiosidade das pessoas é difícil conversar, o fanatismo corrompe o bom senso.

– A própria religião enfraquece a formação filosófica pessoal, pois ao assumir determinado ponto de vista – doutrinas e práticas de determinada doutrina – negamos outros imediatamente e muitas vezes sem esse conhecimento.

 

23/09/06

Religião II

 

– Mais que qualquer diferença, de crenças, raças ou outras de qualquer natureza, o que vale no convívio com as outras pessoas é o respeito.

– Se por acaso resolvêssemos por exemplo fazer um julgamento de deus, o que isso representaria?

– Primeiramente teríamos que ter uma acusação, e depois teríamos que acreditar na veracidade do que iríamos julgar; fora isso não há como haver julgamento, pois seria como julgar o saci-pererê. E pensando bem, o julgamento de deus não faz muito sentido. O sentido de deus é ligado diretamente a uma crença, e uma opção a essa idéia pode ser o julgamento da liberdade.

– O julgamento de deus poderia ser também o julgamento do homem, pois essa é uma forma de considerar o significado de deus.

– Podemos também, não julgar, mas discutir o amor, sendo que esse, como deus, seria o laço entre os homens, a media de harmonia entre opostos.

– Esses pontos colocados revelam bem a nós o que representa a discussão sobre religião, uma multiplicidade de temas com a idéia de entender o homem e o seu ambiente de vida.

– Religião se discute sob vários aspectos, e cada abordagem representa uma nova ou diferente concepção de mundo, talvez uma simples questão de abordagem pedagógica.

– Um exemplo bem claro seria partir do ponto da fé, pois com esta envolvida a discussão e o estudo tomam ares mais subjetivos.

– O nosso estudo por exemplo até agora tem sido feito sobre o fenômeno religioso, sem centrar especificamente em definições das diferentes crenças.

– Um ponto que seria interessante abordar seria o papel dos lideres carismáticos que arrastam fies aos montes para seus sermões, pois as pessoas buscam na religião um meio de entender a vida, ou sob uma visão mais fatalista, esperam no mínimo que o padre, pastor, ou o que for, lhe dê mecanismos de suportar a realidade que vivem.

– A religião lida com as crenças mitológicas sobre a fundação do mundo e do homem, ou seja, explicações, meios de compreensão da vida sob a maior variedade de crenças, e pregam baseadas em suas normas o que seria viver e conviver, o que seria liberdade e respeito.

– O ambiente religioso de qualquer espécie faz uso de objetos simbólicos, modos de aproximação do sagrado com o profano, dos homens com os deuses; diferentes abordagens sobre a transcendência do ser humano a sua condição finita.

– A religião é também um meio de a sociedade traduzir seus sentimentos e necessidades, o que gera produtos de várias naturezas representam o que somos e o que buscamos.

– É verdade, e um simples exemplo é a busca de proteção que encontramos na imponência das igrejas. Ao mesmo tempo em que fazem uma reverência ao seu deus, servem de abrigo aos fiéis que ali ao deus oram.

– De alguma forma podemos fazer referência disso com o que significam para nós hoje os shopping centers: verdadeiras catedrais que homenageiam os ideais dos dias atuais.

– Hoje impera a cultura de massa, até mesmo o sagrado se sujeita a algo que não tem, representação própria. A massa necessita de algo que a simbolize e alguém que a governe, estabeleça para ela padrões, caminhos, saídas.

– Vamos à missa para lembrar do sacrifício de cristo, celebrar o ritual de personificação sagrada de simples objetos (signos), e lembrar que somos impuros e devemos nos penitenciar.

 

30/09/06

Política

 

A armadilha e o mito

O Brasil está enredado numa armadilha. Essa armadilha se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Um governo apanhado com a mão na massa como nesse episódio do dossiê contra seus adversários teria necessariamente seu chefe submetido a processo de impeachment em países onde vigore um mínimo de ordem constitucional e de respeito pela lei penal. foi o que ocorreu com Richard Nixon nos Estados Unidos. Foi o que ocorreu com Fernando Collor no Brasil. É o que não ocorrerá com Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula tem um incrível escudo a protegê-lo: a popularidade. Não se fazem processos contra presidentes no vazio político. Tanto Collor quanto Nixon só foram destituídos  depois que as escoras políticas que os sustentavam, a popularidade em primeiro lugar, desmoronaram. Lula continua contando com ambiente político favorável. Frequentemente se diz que a oposição errou ao não ter avançado um processo de impeachment lá atrás, no ponto alto do escândalo do mensalão. A oposição errou. Não se atira com arma de tal calibre contra um presidente que tem a escora do povo, sob pena de fazer um mártir que, fora do governo, teria o poder de infernizar o país mais do que dentro. Eis a armadilha em que o Brasil está enredado: Lula, por ação ou por omissão, pode continuar a cometer seus desmandos, que o país está impedido de puni-lo.

Tem-se atribuído a popularidade de Lula a razões que vão das benesses do Bolsa Família à desinformação da maioria da população. É mais que isso. Lula não é um político. Não é nem mesmo uma pessoa. É um mito. É o retirante nordestino e operário metalúrgico sem um dedo que virou presidente, discursa na ONU e passeia de carruagem com a rainha da Inglaterra. Vá se derrotar um mito! Vá se querer destituir Hércules depois de ele ter cumprido os doze trabalhos! Vá se desafiar Teseu depois de ele ter derrotado o Minotauro!

Os que implicam com ele dizem que Lula deveria ter aproveitado o longo tempo ocioso que teve entre o abandono do torno mecânico e a posse na Presidência para estudar. Santa ingenuidade. Lula sabia que, se assim fizesse, estaria assacando contra o mito. Um Lula com diploma de advogado, falando inglês ou mesmo, mais singelamente, sabendo concordar o sujeito com o verbo, em português, não valeria metade do Lula que fala errado e tem como maior requinte intelectual as metáforas com o futebol. Seria mais um, como Juscelino ou Brizola, que começou de baixo e virou doutor. A construção do mito exigia a distância dos livros e o sacrifício da concordância verbal.

Lula foi igualmente sábio ao desprezar, depois de uma malsucedida candidatura ao governo de São Paulo e uma obscura passagem pela Câmara dos Deputados, qualquer cargo que não fosse a Presidência. A construção do mito também exigia um salto. Tinha de sugerir o movimento, vertiginoso como o de um foguete, irreal como o do sapo que vira príncipe, da condição de retirante à glória da Presidência. Degraus no meio do caminho amorteceriam a surpresa, para não falar no desgaste que os inevitáveis aborrecimentos em cargos menores poderiam trazer.

Mitos também morrem, é verdade. Mas, no caso do mito Lula, não há sinal do mínimo desgaste. Pelo contrário, sua posição nas pesquisas, num quadro de quase permanente estado de crise no governo, indica que está forte como nunca. Há quem especule com a hipótese de vir a querer um terceiro mandato, por meio de uma reforma constitucional que, à Chávez, revogue o limite de dois mandatos consecutivos. Talvez seja exagero. Mas, se tiver paciência para esperar quatro anos fora do poder, quem diz que não ressurgirá, vigoroso, aos 69 anos, na eleição de 2014? E que, vitorioso, parta para a reeleição em 2018, aos 73 anos? O Brasil é culpado pela criação do mito. Não fossem suas mazelas, a começar pela pobreza e pela desigualdade, ele não encontraria terreno propício para prosperar. Agora, vê-se embrulhado na armadilha que o mito continha.

***

Suponhamos, contra todas as evidências, que Lula não seja eleitoralmente tão forte. Suponhamos, contra o que indicam as passadas experiências, que desta vez o escândalo o engolfe, e que venha a perder a eleição. Ainda assim, o mito será forte o suficiente para nascer um líder da oposição capaz de empalidecer o desempenho de Carlos Lacerda nesse papel. Imagine-se o que pode aprontar Lula, à frente de sua formidável equipe de sabotadores e caçadores de dossiês, contra o ocupante do Planalto que tiver a audácia de derrotá-lo. Imagine-se seu poder de incendiar o país, uma vez restituído ao posto de maestro da CUT e do MST. Vale a pena ver Lula derrotado? Quando se chega a cogitar que, pior do que com ele, pode ser sem ele no poder, aí se tem a idéia do tamanho da arapuca em que o país está enredado.

Roberto Pompeu de Toledo – Ensaio (Revista Veja – de setembro de 2006)

 

– Nós vínhamos conversando sobre o que envolve o fenômeno religioso, mas conforme uma sugestão, decidimos nesse encontro tratar sobre a política, aproveitando que estamos às vésperas das eleições presidenciais.

– O que elege alguém?

– A eleição de alguém é feita pelo inconsciente coletivo de uma sociedade, a política é sustentada por uma condição psicológica.

– Na América Latina – e no Brasil, claro – a política é muito ligada à religião e seus mitos.

– E um exemplo disso é a feição que seus líderes possuem, eles são retratos da população massacrada por uma colonização irracional que pregou sua cultura como ordem e não deu condições para que pudéssemos avaliar o que acontecia sob nossos olhos, ou seja, por mais que tenhamos atualmente, condição de analisar o que é feito, como o que precisa ser feito, dependemos de algo externo, de um salvador, de alguém que resolva para nós os nossos problemas.

– O que aconteceu nos anos da ditadura, qual era realmente a impressão que se tinha na época?

– As atividades políticas que eram intensas na época, foram reprimidas violentamente, e deixaram o medo impresso nas pessoas. O silencio marcial foi instalado, qualquer coisa poderia ser usada contra nós.

– A juventude da época pré-ditadura era muito politizada, mas os militares conseguiram abafar e reprimir isso. Talvez houvesse quem vivesse sem que sua rotina fosse alterada, mas ou porque eram ainda novos para entender o que acontecia, ou porque a idéia do governo era de que realmente uma paz superficial fosse mantida, foi um governo de aparências. Mas não há como negar que invariavelmente havia o medo, mesmo que não tivéssemos certeza de que ou de quem.

– A ditadura calou o povo, e fez dos geradores de nossa época ‘covardes’ que não por sua culpa não puderam desenvolver para hoje uma sociedade de valores.

– A ditadura era mais que o medo de generais, era o medo do guarda da esquina.

– A ausência de fala foi uma coisa que muito marcou, pois dizer era fazer, era questionar e ir de certa forma contra o que se impunha sobre nós.

– Hoje, o reflexo de passados desestruturados que produziram e dividiram em porcentagens desequilibradas as posses econômicas do nosso pais, transformaram nosso atual presidente em um mártir, o que pode salvar o povo, pois ele é reflexo do que é os que esperam que ele os salve.

– Há quem tente fazer uma mediação entre as classes sociais, principalmente das camadas mais intelectualizadas diante do aspecto de ensino e cultura, mas é inquestionável o abismo entre o meio acadêmico e o geral de conhecimento da população que não tem acesso a um ensino de qualidade.

– O mito é construído pelo sentimento do coletivo, pois esse representa a necessidade do homem de superar sua condição.

– Mais que propostas políticas e econômicas e de quais sejam nossos candidatos, o mito é a imagem, é o anseio da massa, e esse sobrepõe-se a medidas racionais.

– A desconstrução de paradigmas políticos está nos levando à construção de mitos, independente de quais sejam, eles representam as ânsias do povo. As massas exigem seus modelos.

– A pobreza constrói o mito.

– Há que se ter preocupação com os discursos que são feitos hoje em prol de qualquer avanço. A repetição de discursos antigos com novas feições não tem eficácia com os problemas atuais.

 

28/10/06

Conciliação entre filosofia e religião

 

Vários filósofos procuraram conciliar Filosofia e religião. Das tentativas feitas, mencionaremos três, cronologicamente mais próximas de nós: a de Kant, a de Hegel e a de fenomenologia.

A crítica Kantiana à pretensão da metafísica de ser ciência dirige-se à Filosofia, quando esta assume o conteúdo de uma teologia racional (demonstração racional da essência e existência de Deus), uma psicologia racional (demonstração da imortalidade da alma) e uma cosmologia racional (demonstração da origem e essência do mundo ou Natureza). A distinção entre fenômeno e nôumeno permite ao filósofo limitar o campo do conhecimento teórico ao primeiro e impedir a pretensão de teorizar sobre o segundo.

A metafísica não é conhecimento da essência em si de Deus, alma e mundo; estes são nôumenos (realidade em si) inacessíveis ao nosso entendimento. A religião, por sua vez, não é teologia, não é teoria sobre Deus, alma e mundo, mas resposta a uma pergunta da razão que esta não pode responder teoricamente: “O que podemos esperar?”

Qual o papel da religião? Oferecer conceitos e princípios para a ação moral e fortalecer a esperança num destino superior da alma humana. Sem Deus e a alma livre não haveria a humanidade, mas apenas a animalidade natural; sem a imortalidade, o dever tornar-se-ia banal.

Hegel segue numa direção diversa da de Kant. Para ele, a realidade não é senão a história do Espírito em busca da identidade consigo mesmo. Deus não é uma substância, cuja essência foi fixada antes e fora do tempo, mas é sujeito espiritual, que se efetua como sujeito temporal, cuja ação é ele mesmo manifestando-se para si mesmo. A mais baixa manifestação do Espírito é a Natureza; a mais alta, a Cultura.

Na Cultura, o Espírito se realiza como Arte, Religião e Filosofia, numa seqüência que é o aperfeiçoamento rumo ao término do tempo. Isso significa que Deus se manifesta, primeiro, como Arte nas artes; depois, como Religião nas religiões; depois disso, como Estado nos estados; e, finalmente como Filosofia nas filosofias. Em lugar de opor religião e Filosofia, Hegel faz da primeira uma etapa preparatória da segunda.

A fenomenologia, como vimos, descreve essências constituídas pela intencionalidade da consciência, que é doadora de sentido à realidade. A consciência constitui as significações, assumindo atitudes diferentes, cada qual com seu campo específico, sua estrutura e finalidades próprias. Assim como há a atitude natural (a crença realista ingênua na existência das coisas) e a atitude filosófica (a reflexão), há também a atitude religiosa, como uma das possibilidades da vida da consciência. Quando esta se relaciona com o mundo através das categorias e das práticas ligadas ao sagrado, constitui a atitude religiosa.

Assim, a consciência pode relacionar-se com o mundo de maneiras cariadas – senso comum, ciência, filosofia, artes, religião –, de sorte que não há oposição nem exclusão entre elas, mas diferença. Isso significa que a oposição só surgirá quando a consciência, estando numa atitude, pretender relacionar-se com o mundo utilizando significações e práticas de uma outra atitude. Foi isso que engendrou a oposição e o conflito entre Filosofia e religião, pois, sendo atitudes diferentes da consciência, cada uma delas não pode usurpar os modos de conhecer e agir, nem as significações da outra.

 

– Como já viemos trabalhando a algum tempo com tema da religião, a idéia de hoje é terminá-lo. A religião é um tema amplamente discutido desde sempre, e podemos traçar alguns planos: Uma seria a visão oriental e mais primitiva de religião que é ligada ao mito o que a torna indistinguível da razão; em contraste com outra que seria a visão oriental, a qual propõe a divisão entra razão e religião.

– Ética e religião são necessariamente ligadas uma a outra?

– Para Kant não há ligação. Em seus argumentos ele diz que a religião é fundada em nossa razão, já que a argumentação abstrata e mitológica não oferece consistência científica.

– Kant tenta separar metafísica de abstração, ele questionava se seria possível a metafísica ser tratada como ciência, e assim ele definiu o como fazer ciência.

– Descartes propunha que a razão era a verdade. Mas há nesse enunciado a ausência de experiência de viver o que pensamos para aquilo ser de fato nossa verdade.

– Nós sabemos das coisas por nós mesmos. Tudo o que sentimos, o que pensamos, são interpretações que temos da realidade que está a nossa volta, ou seja, nossa verdade a partir dos nossos modos particulares de percepção do mundo.

– A percepção envolve diretamente os sentidos, nossa relação mais direta com o mundo.

– Os que não têm todos os sentidos normais têm a mesma percepção de mundo?

– Nossa percepção de realidade envolve nossas necessidades, nossos valores e nossas capacidades, assim, alguém que não tenha os mesmos sentidos que nós, entende o mesmo mundo a sua maneira, da mesma forma que duas pessoas ditas normais entendem de maneiras diferentes a mesma realidade compartilham.

– Para Kant a aparência é tudo. Nós não percebemos a essência, pois esta é variável, é dependente das particularidades de cada observador.

– A religião acaba sendo para Kant um modo de fundamentar o Homem.

– Os empiristas fazem uma crítica ao ser e a alma. O que é ser isso? A ausência de resposta representa a sua pluralidade.

– Só nos importamos com o que nos incomoda, somos seres automáticos. Por isso a reflexão tem que ter funcionalidade, tudo para nós tem que haver um porque.

– Para Hegel apenas o que existe são idéias. Assim a visão e a percepção de algo é a manifestação da razão, pois o que definimos daquilo é o que esse algo representa para nós.

– Temos que a consciência só existe intencionada para; e o conhecimento é nada mais que saber como descrever o sentido.

– A religião é um meio para algo, é um meio de relação entre nós e alguma coisa que nos justificaria, e assim ela é também a consciência que temos do mundo e a intenção que temos para com ele.

– Para os empiristas somos apenas fatos generalizados, máquinas sem porquês e sem religiões, apenas guiados pela razão de nossos sistemas regulamentados.

– As coisas são de acordo com nossa necessidade. Um mesmo fato representa sentidos diversos para pontos de vistas com formações diferentes.

– A interação que temos das coisas é baseada na importância que elas tem para nós.

– O prazer de fazer as coisas por fazer é resultado de questionamentos passados que nos levam a hoje não questionar a utilidade das coisas. O prazer é um fim em si, e a ausência deste é a presença de algo inconveniente no presente, o que leva ao processo reflexivo.

– A busca da compreensão é um processo religioso e a compreensão que temos das coisas é fruto de nossas experiências. A consciência é aquilo que é aprendido.

– Entre os animais não existem padrões certos e errados que o homem precisa criar para entender a sua natureza.

– Tentamos definir padrões estáveis em ambientes instáveis, assim criamos certo e errado, o bem e o mal, entre outras dicotomias. Só o que não aceitamos que pode ser absolutamente normal escolher o mal, afinal, faz parte da escolha.

 

04/11/06

Sexo

 

O dispositivo da Sexualidade

Dentre seus emblemas, nossa sociedade carrega o do sexo que fala. Do sexo que pode ser surpreendido e interrogado e que, contraído e volúvel ao mesmo tempo, responde ininterruptamente. Foi, um dia, capturado por um certo mecanismo, bastante feérico a ponto de se tornar invisível. E que o faz dizer a verdade de si e dos outros num jogo em que o prazer se mistura ao involuntário e, o consentimento à inquisição. Vivemos todos, há muitos anos, no reino do príncipe Mangoggul: presa de uma imensa curiosidade pelo sexo, obstinados em questioná-lo, insaciáveis a ouvi-lo e ouvir falar nele, prontos a inventar todos os anéis mágicos que possam forçar sua discrição. Como se fosse essencial podermos tirar desse pequeno fragmento de nós mesmos, não somente prazer, mas saber e todo um jogo sutil que passa de um para o outro: saber do prazer, prazer de saber o prazer, prazer-saber; e como se esse animal extravagante a que damos guarida, tivesse uma orelha bastante curiosa, olhos bastante atentos, uma língua e um espírito suficientemente bem feitos, para saber demais e ser perfeitamente capaz de dizê-lo, desde que solicitado com um pouco de jeito. Entre cada um de nós e nosso sexo, o Ocidente lançou uma incessante demanda de verdade: cabe-nos extrair-lhe a sua, já que lhe escapa; e a ele cabe dizer-nos a nossa, já que a detém nas sombras. Escondido, o sexo? Escamoteado por novos pudores, mantido sob o alqueire pelas mornas exigências da sociedade burguesa? Incandescente, ao contrário. Foi colocado, já há várias centenas de anos, no centro de uma formidável petição de saber. Dupla petição, pois somos forçados a saber a quantas anda o sexo, enquanto que ele é suspeito de saber a quantas andamos nós.

A questão sobre o que somos, em alguns séculos, uma certa corrente nos levou a colocá-la em relação ao sexo. Nem tanto ao sexo-natureza (elemento do sistema do ser vivo, objeto para uma abordagem biológica), mas ao sexo-história, ao sexo-significação, ao sexo-discurso. Colocamo-nos, a nós mesmos, sob o signo do sexo, porém, de uma Lógica do sexo, mais do que de uma Física. Não devemos enganar-nos: sob a grande série das oposições binárias (corpo-alma, carne-espírito, instinto-razão, pulsões-consciência) que pareciam refletir o sexo a uma pura mecânica sem razão, o Ocidente conseguiu, não somente e nem tanto anexar o sexo a um campo de racionalidade, o que sem dúvida nada teria de extraordinário, tanto nos habituamos, desde os gregos a esse tipo de “conquista”; mas sobretudo colocar-nos, inteiros – nós, nosso corpo, nossa alma, nossa individualidade, nossa história – sob o signo de uma lógica da concupiscência e do desejo. Uma vez que se trate de saber quem somos nós, é ela, doravante, que nos serve de chave universal. Há vários decênios, os geneticistas não concebem mais a vida como organização dotada, também, da estranha capacidade de se reproduzir; eles vêem, no mecanismo da reprodução, o que introduz propriamente à dimensão do biológico: matriz não somente dos seres vivos, mas também da vida. Ora, há séculos, de modo sem dúvida bem pouco “científico”, os inúmeros teóricos e práticos da carne já tinham transformado o homem no filho de um sexo imperioso e inteligível. O sexo, razão de tudo.

Não há por que colocar a questão: porque o sexo é assim tão secreto? Que força é essa que, durante tanto tempo (…) nos talvez questioná-lo, mas sempre a partir e através de sua repressão? De fato, essa questão tão repetida em nossa época nada mais é do que a forma recente de uma afirmação considerável e de uma prescrição secular: lá está a verdade toma-a. Acheronta movebo: velha decisão.

Vós que sois sábios e cheios de alta e profunda ciência

Que concebeis e sabeis

Como, quando e onde tudo se une

…Vós, grandes sábios, dizei-me de que se trata

Descobri, vós o que será de mim

Descobri como, quando e onde,

Por que semelhante coisa me ocorreu?

 

Convém, portanto, perguntar, antes de mais nada: que injunção é essa? Por que essa grande caça à verdade do sexo, à verdade no sexo?

Na narração de Diderot, o gênio bom Cucufa descobre no fundo do seu bolso, entre umas bagatelas – grãos bentos, imagenzinhas de chumbo e drágeas emboloradas – o minúsculo anel de prata, cujo engaste, revirado, faz falar os sexos que se encontram. Dá-o ao sultão curioso. Cabe-nos saber que anel maravilhoso nos confere tal poder, e no dedo de que mestre deve ser colocado; que manobras de poder permite ou supõe, e como cada um de nós pôde se tornar com respeito ao próprio sexo e aos dos outros, uma espécie de sultão atento e imprudente. Esse anel mágico, essa jóia tão indiscreta quando se trata de fazer os outros falarem, mas tão pouco eloqüente quanto a seu próprio mecanismo, convém torná-lo loquaz por uma vez: é dele que é preciso falar. É preciso fazer a história dessa vontade de verdade, dessa repetição de saber que há tantos séculos faz brilhar o sexo: história de uma obstinação e de uma tenacidade. O que é que pedimos ao sexo, além de seus prazeres possíveis para nos obstinarmos tanto? Que paciência, ou que avidez é essa em constituí-lo como o segredo, a causa onipotente, o sentido oculto, o medo sem trégua? E por que a tarefa de descobrir essa difícil verdade se tornou finalmente convite a suspender as interdições e a desatar os entraves. Seria o trabalho tão árduo a ponto de ser preciso encantá-lo com tal promessa, ou esse saber terá ganhado um preço tal – político, econômico, ético – que foi preciso, para sujeitar cada qual ao trabalho, assegurar-lhe – não sem paradoxo – de encontrar nele sua liberação?

Eis, para situar pesquisas vindouras, algumas proposições gerais a respeito do que está em jogo, do método, do domínio a percorrer e das periodizações que se podem a (…).

 

Scientia Sexualis

Neste capítulo, Foucault analisa o que ele denomina de scientia sexualis, ou uma ciência do sexo, uma ciência que pretendia iluminar esse aspecto do ser humano. A partir dos séculos XVI e XVII vemos na sociedade ocidental uma multiplicação de discursos sobre o sexo que, ao esquadrinhá-lo, defini-lo, acabaram por ocultá-lo, segundo o autor. Isso vai contra o senso comum que prega que, até o século XIX, o sexo era reprimido, ocultado, negado. Foucault diz claramente que existiu um projeto de iluminação de todos os aspectos do sexo, do seu esquadrinhamento. Cria-se neste momento um aparelho que, ao multiplicar os discursos sobre o sexo, visa produzir verdades sobre ele. No século XIX, momento crítico, esse projeto alia-se a um projeto científico, fatalmente comprometido com o evolucionismo e com os racismos oficiais. O discurso médico, sob uma aura de neutralidade científica, produz crescentemente verdades sobre o sexo, mas que estava ligado a uma moral da assepsia e da conexão entre o “patológico” e o “pecaminoso”. A medicina do sexo se associa fortemente à biologia (evolucionista) da reprodução. Essa associação do discurso sobre o sexo com o discurso científico deu a ele maior legitimidade.

Foucault opõe dois conceitos, o de ars erotica e o da scientia sexualis.

Ars erotica, própria de civilizações como Roma, Índia, China, etc., buscavam no saber sobre o prazer as formas de ampliá-lo, era um saber de dentro, onde a verdade sobre o prazer é extraída do próprio saber.

No ocidente configurou-se a scientia sexualis, onde confissão é central na produção de saberes sobre o sexo. Os ocidentais são levados a confessar tudo, expor seus prazeres, uma obrigação já internalizada. A confissão estabelece uma relação de poder onde aquele que confessa se expõe, produz um discurso sobre si, enquanto aquele que ouve interpreta o discurso, redime, condena, domina.

No século XIX o procedimento da confissão extrapola a penitência, extrapola o domínio religioso. Há uma sobrecarga de discursos, e a interferência de duas modalidades de produção da verdade: os procedimentos da confissão e a discursividade científica.

Foucault enumera as maneiras, as estratégias usadas para extorquir a verdade sexual de maneira científica:

1) Codificação clínica do fazer falar: a confissão é assim inscrita no campo de observações científicas;

2) Postulado da causalidade geral e difusa: qualquer desvio possui consequências mortais, o sexo representa perigos ilimitados;

3) Princípio da latência intrínseca da sexualidade: o sexo é clandestino, sua essência é obscura. A coerção da confissão é articulada à prática científica;

4) Interpretação: a verdade era produzida através dos discursos interpretativos da confissão;

5) Medicalização: confissão é transposta no campo do normal e patológico. Os médicos são por excelência os intérpretes da verdade sobre o sexo.

Em ruptura com as tradições de ars erotica, nossa sociedade constituiu uma scientia sexualis. Mais praticamente, atribuiu-se a tarefa de produzir discursos verdadeiros sobre o sexo, e isto tentando ajustar, não sem dificuldade, o antigo procedimento da confissão às regras do discurso científico (FOUCAULT, 1993:66).

Desde o século XVI, esse rito fora, pouco a pouco, desvinculado do sacramento da penitência e, por intermédio da condução das almas e da direção espiritual – ars artium – emigrou para a pedagogia, para as relações entre adultos e crianças, para as relações familiares, a medicina e a psiquiatria (FOUCAULT, 1993:67).

Em todo caso, a hipótese de um poder de repressão que nossa sociedade exerceria sobre o sexo e por motivos econômicos, revela-se insuficiente se for preciso considerar toda uma série de reforços e de intensificações que uma primeira abordagem manifesta: proliferação de discursos, e discursos cuidadosamente inscritos em exigências de poder, solidificação do despropósito sexual e constituição de dispositivos suscetíveis, não somente de isolá-lo, mas de suscitá-lo, constituí-lo em foco de atenção, de discursos e de prazeres; produção forçosa de confissão e, a partir dela, instauração de um sistema de saber legítimo e de uma economia de prazeres múltiplos. Muito mais do que um mecanismo negativo de exclusão ou de rejeição, trata-se da colocação em funcionamento de uma rede sutil de discursos, saberes, prazeres e poderes; não se trata de um movimento obstinado em afastar o sexo selvagem para alguma região obscura e inacessível mas, pelo contrário, de processos que o disseminam na superfície das coisas e dos corpos, que o excitam, manifestam-no, fazem-no falar, implantam-no no real e lhe ordenam dizer a verdade: todo um cintilar visível do sexual refletido na multiplicidade dos discursos, na obstinação dos poderes e na conjugação do saber com o prazer (FOUCAULT, 1993:70-71).

A história da sexualidade, para o autor, deve ser feita a partir de uma história dos discursos.

 

Foucault expõe, neste capítulo, a sua concepção de poder, difuso no social e presente em todos os pontos, e faz a relação disso com o discurso e a sexualidade.

O autor recusa imediatamente a imagem do poder como meramente opressor, negador do sexo, este uma força selvagem, a ser domesticada. Ele quer compreender como o poder e o desejo se articulam. Essa imagem do poder como repressor da liberdade permite-nos, segundo o autor, aceitar a sua vigência, pois o alcance do poder é muito maior. O discurso jurídico e as leis não mais simbolizam o poder de maneira mais ampla; este extrapolou seus limites a partir do século XVIII, criando novas tecnologias de dominação. Nós somos controlados por múltiplos processos de poder. Essa visão do poder também é vital para uma história da sexualidade.

Dizendo poder, não quero significar ‘o poder’, como um conjunto de instituições e aparelhos garantidores da sujeição dos cidadãos em um estado determinado. Também não entendo poder como um modo de sujeição que, por oposição, tenha a forma de regra. Enfim, não o entendo como um sistema geral de dominação exercida por um elemento ou grupo sobre o outro e cujos efeitos, por derivações sucessivas, atravessem o corpo social inteiro. A análise em termos de poder não deve postular, como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais. Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais (FOUCAULT, 1993:88-89).

O poder, para Foucault, provém de todas as partes, em cada relação entre um ponto e outro. Essas relações são dinâmicas, móveis, e mantêm ou destroem grandes esquemas de dominação. Essas correlações de poder são relacionais, segundo o autor, se relacionam sempre com inúmeros pontos de resistência que são ao mesmo tempo alvo e apoio, “saliência que permite a preensão” (FOUCAULT, 1993:91). As resistências, dessa forma, devem ser sempre no plural.

Para uma metodologia de análise, Foucault sugere quatro “prescrições de prudência”:

1) Regra de imanência: a produção de saberes se relaciona com relações de poder, focos de saber-poder;

2) Regra das variações contínuas: as relações de poder não são estáticas, não há dualidade opressor/oprimido;

3) Regra do duplo condicionamento: os focos locais de poder são condicionados por estratégias globais e vice-versa, ambos apoiando-se mutuamente um no outro;

4) Regra da polivalência tática dos discursos: o discurso não reflete a realidade, o poder e o saber se articulam no discurso. Não há discurso excluído e o dominante, mas uma multiplicidade de discursos, que se inserem em estratégias diversas. O discurso veicula e produz poder. Por exemplo: o discurso instituiu a homossexualidade como pecado, classificou-a como patologia, mas também possibilitou-a de falar por si, de reivindicar espaços e discursos próprios.

Foucault fala de quatro estratégias globais de dominação, constituintes do dispositivo da sexualidade: a histerização do corpo da mulher, a pedagogização do corpo da criança, a socialização das condutas de procriação e a psiquiatrização do prazer “perverso”. Essa nova tecnologia sexual surge no século XVIII, criando uma relação entre degenerescência e perversão.

O dispositivo da sexualidade, que instituiu o sexo como verdade maior sobre o indivíduo, transpôs o controle para a carne, os corpos, os prazeres. O autor contrapõe isso ao dispositivo da aliança, que definia o proibido/permitido através da relação. O dispositivo da sexualidade vê sua ascensão no seio da burguesia, é ligado à ascensão desta. As classes populares submetidas antes somente ao dispositivo da aliança, se viram submetidas também ao dispositivo da sexualidade com a hegemonia burguesa.

História da sexualidade – Michel Foucault

 

– Nos últimos encontros tratamos sobre religião e com a filosofia de Kant e Hegel chegamos até a uma crítica da ciência moderna. Hoje discutiremos sobre sexo.

– O sexo foi por Foucault e Freud encarado como um meio gerador de conflitos pessoais por um mal entendimento do que ele representa para nós e em decorrência disso, de como nós interagimos com ele dentro das mais amplas possibilidades, desde a maneira como o julgar, até no modo de como o fazer. No contato que temos com os pacientes em consultórios percebemos como ainda hoje no séc XXI é muito difícil falar sobre sexo.

– O problema com o sexo talvez tenha começado com a idéia platônica da divisão corporal e espiritual. O sexo é visto com um agente do mal que corrompe a pureza da alma pelo corpo mundano.

– Há uma história sobre as virgens de Alexandria em sua preparação sexual, chegada a hora de maturação do corpo das meninas, elas eram confinadas em um convento até que aparecesse um viajante, um ser externo à realidade das moças que era entendido como uma espécie de deus, para com ele iniciarem sua vida sexual. A partir disso elas estavam prontas para serem entregues a seus futuros maridos.

– A história da sexualidade é truncada e mal explicada e hoje ainda isso não é diferente, apesar de a grande maioria das pessoas pensarem que sim.

– O pensamento cristão depende que o homem, como disse Platão, seja virtuoso, ou seja, apresente-se e torne-se capaz de superar seus instintos e de sobrepor sua natureza animal.

– Para os orientais, o opostos é válido: devemos voltar o instinto, pois, o sexo é um libertador da alma e é um meio de se chagar a deus. A ausência do sexo e a repressão da sexualidade pode levar, sob essa perspectiva, à perda da lucidez e da capacidade de percepção do mundo como este realmente é.

– Porque é tão difícil falar sobre sexo?

– Porque desde sempre, na verdade desde o mito da maça, consideramos motivo culpa sentirmos prazer. O sexo é bonito, e não é crime algum a parceria homem e mulher, que precisa e deve ser desenvolvida. O amor é uma palavra muito difícil de explicar, mas mais do que explicações, o que ele significa para nós, pois isso é uma coisa que cada um entende a sua maneira. Permitam-me um pequeno verso:

Eu quero que todos saibam

Um grande segredo meu

Que eu sempre fui muito amada

Mas quem amou muito fui eu

 

– Quando pensamos em sexo pensamos apenas na parte corporal, mas temos que saber que o sexo é mais que isso é um meio de transcendência, a sexualidade é muito maior que apenas sexo.

– Não há busca sem falta, então o sexo hoje continua truncado e sendo um tabu, pois por mais que haja prazer ainda há uma culpa que supera tudo.

– O problema começa com a discussão existencial do humano sobre sua finitude. A idéia de que o homem deve se basear em princípios transcendentes gera conflito ate hoje, pois ao querermos sentir o prazer, imediato e corporal, nos fundamentamos na finitude do nosso ser e isso representa de alguma forma o nosso fim.

– O primeiro milagre de cristo foi em uma festa, ele proporcionou prazer e disse, dançai e cantai. A existência perpassa pelo prazer de viver e nos sentirmos vivos.

– O medo da entrega ao próprio prazer é a negação da finitude do homem.

– E apenas um comentário sobre a diferença prática sexual entre homens e mulheres, a mulher é o quanto quiser, o homem é o quanto puder.

– A questão de querer dar prazer é fato decorrente do pensar, do comparar as funções inerentes de cada um que são desde seus princípios, assim como suas distintas naturezas, diferentes.

– O poder acima de tudo influencia as relações humanas. A sexualidade e o sexo como forma de dominação é a sua principal fonte de discórdia entre homens e mulheres.

– Na falta de prazer na vida, o imediatismo do sexo é o primeiro a ser procurado ao invés do árduo trabalho de se fazer crescer um relacionamento substancial e consistente, mas as superficialidades dessas situações levam a promiscuidade e a um desprazer no prazer procurado. Nosso problema não é o sexo, mas apenas a forma deturpada com a qual nos entregamos a ele.

 

10/11/06

Sexo II

 

Sexo naturalmente

Olho para muitas pessoas quando o tema é sexo. Vejo o sorriso nervoso. O cruzar as pernas sem saber onde as colocar. As mãos a brincarem ansiosas. Um tentar explicar através de teorias e conceitos numa verborragia sem fim. O cigarro para disfarçar. O silêncio inibidor. A respiração contida. Confusão.

Alguém nasceu de chocadeira? Alguém nasceu de outro ato senão o sexual? Até parece que esquecemos que somos fruto de dois corpos em união sexual. Temos vergonha do nosso início vital?

Sexo é vida. Sexo é prazer. Sexo é natural. Sexo é gostoso. Sexo é corpo almado. Existe corpo sem alma? Existe alma sem corpo? Sei não!

Pré-socráticos e a origem das coisas no corpo é alma. Platão na negação do corpo. Os medievais reprimindo os desejos e prazeres. Agostinhos sem Florias. Inquisição, caça às mulheres sensuais, bruxas na fogueira. Diz que diz em nome da ciência e de Deus.

 

A questão é, como se vive o sexo hoje?

Vive-se muito mal. Ainda. Apesar de tantas coisas. Pois falta a simplicidade de tocar e sentir. Naturalmente. Falta se viver o sexo simplesmente. Só isto!

Sexo é terra, corpo, Sensação. Vamos deixar de lado o amor que é Sentimento. Para outra conversa.

Acontece a atração. Corpo esquenta, coração acelera. Desejos. Pulsações.

Há o consentimento mútuo de estarem juntos. Vem os abraços, o calor compartilhado.

E beijos, muitos beijos.

Aqui começa a diferença.

Os ansiosos, inibidos, reprimidos partem para o finalmente, como se o orgasmo fosse a grande meta a ser vencida. Esforço, competição. Final nem sempre feliz. O homem pensa que gozou, mas apenas ejaculou. A mulher finge orgasmo e fica na frustração.

Quando não há ejaculação precoce! Sorriso amarelo. Cada um vira para o lado. Déficit orgástico que vai se acumulando vida afora. Vão ambos fugindo que fizeram sexo. Haja doenças psicossomáticas e angústias! Engana que eu finjo que gosto! Loucura!

Os naturais, livres e desencouraçados. Respiram juntos. Sem pressa. Tocam as mãos e vão sentindo os mínimos prazeres. Quem não toca não transforma. Silenciosamente tocam e se encantam na descoberta de um novo corpo a se revelar. Entrega do corpo almado. Delicadeza. Ternura. Revelação. Encontro. Descoberta. Gostosura. Nem tempo nem espaço. Calor aumentando. Animal sem pudor. Brincadeira. Risos. Mãos que deslizam em festa. Apenas vai acontecendo. A penetração flui. O orgasmo acontece. Não existe ele ou ela, mas um só corpo. Morte. Vida. Fusão. Abraçados dormem. Suspiram gostoso. O riso ao acordar vem de dentro. Há carinho e respeito grato pelo prazer compartilhado de gente plena e corajosa de viver seus desejos naturais. Se haverá um depois, a vida dirá e os reencontros poderão ou não acontecer. Isto não importa. Importa que aconteceu! Plenamente, inteiramente. Foi sexo que aconteceu. Celebração da vida. Que pode um dia se transformar em amor ou não. Vida viva de gente livre.

Tá bom! Quem se permite viver sexo de verdade? Sem apego e dominação pela pura brincadeira de ser feliz por um instante?

Gente livre, não acha encontro assim tão facilmente, num mundo de gente que não sabe se entregar e compartilhar. A seleção é natural, quase que instintual. Mas quem é livre tem a sabedoria de saber esperar o momento do encontro pleno. E sabe separar sem expectativas, pois viveu o momento e isto bastou! Não tem pressa e desejos de muitos encontros, pois o encontro que encontrou foi pleno. Dá para compreender?

O como é assim. Fazer o sexo acontecer, sem censura e barreiras. Com o corpo que se tem e na idade que se tem. Com cabelos brancos ou rugas. Pouco importa.

É apenas gente que se encontra e festeja a vida sem medo da morte ou de dar vexame. Encontro de gente que é o que é sem precisar representar.

Onde está esta gente neste mundo de máscaras e disfarces?

Convido você, que aqui lê, a tirar a máscara, desvestir do medo e se permitir encontrar, tocar, gozar e viver. Só isto! É possível!

Rosângela Rossi

 

– A sexualidade é comportamental ou uma necessidade biológica?

– O filme ‘Relatório Kinsey” mostra bem o absurdo da ignorância das pessoas sobre o sexo, a falta de informação de ambos os lados sobre o conhecimento do próprio corpo. O filme se passa nos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60, e mostra a necessidade que Kinsey, um jovem americano teve de estudar o sexo, e mostrar às pessoas que sexo não era um bicho de sete cabeças.

– Mas, apesar de tudo, de estarmos em um período digamos, liberal, não acredito que haja uma diferença muito significativa dos jovens daquele tempo para hoje. A desinformação é ainda muito grande.

– Quem viveu a juventude da década de 60 vivia a repressão militar e a liberdade do sexo, a idéia de que há muita gente desinformada é verdade, mas não é uma idéia tão generalizada assim.

– Para haver sexo, sexo ‘de verdade’, o mínimo que se deve considerar entre os envolvidos, é a presença de certa intimidade, uma sensibilidade e sentimento mútuo.

– O homem só se preocupa com o sexo carnal.

– Não é bem assim que as coisas funcionam. Dizer isso hoje é atestar um preconceito o qual a tempo lutamos contra. As mulheres com sua emancipação – e uma certa ‘necessidade’ em alguns casos, de se igualar aos homens –, hoje agem da mesma forma, procuram muitas vezes em uma relação, apenas o sexo carnal.

– Hoje, por exemplo, quem pede o maior numero de divórcios são as mulheres.

– E esse fato pode ser causa ou conseqüência de a mulher ter mais prazer nas relações que a algum tempo atrás, mas o fato definitivo é que ela está se fazendo valer dos direitos de escolha que lhe são inerentes, apesar de que haja quem os considere privilégio.

– Nos podíamos delimitar um pouco mais nossa conversa.

– Podíamos, mas é que esses pensamentos nos levam a outras questões…

– Mas o problema é que surgem muitas idéias e não damos continuidade a elas.

– Sim, mas o fato é que por mais que queiramos discutir sobre sexo apenas biologicamente, não somos apenas isso, então caminhamos a outros temas.

– O sexo biologicamente falando talvez pudesse representar apenas a reprodução, mas se tratando sexo por sexo acabamos tratando da prostituição?

– E isso quer dizer que ele não é bom?

– Não é isso, o fato é que sexo por sexo sem um envolvimento maior acaba gerando um vazio, uma necessidade de convívio…

– É verdade, e hoje em dia vivemos uma contradição sob esse aspecto, pois, o sexo por sexo como hoje em dia é tratado, de uma forma generalizada, ao mesmo tempo que é apreciado, é mal visto por nossos conceitos e pré conceitos.

– O sexo nos lembra nossa condição de seres biológicos, ou seja, nossa finitude. Isso representa a necessidade existencial do sexo com a busca de um envolvimento emocional. A discussão perpassa pela exigência moral sobre o que fazemos em contradição com o que pensamos.

– Um exemplo: uma cadela quando fica no cio passa uma semana por conta de uma atividade biológica a qual ela não tem condições de ‘combater’, ou controlar; o ser humano superou isso, por mais que não tenha absoluto controle sobre suas vontades e instintos.

– Há uma química que supera o entendimento da atração, a presença do outro produz em nós reações que despertam uma necessidade de repetição, exigências nossas sobre o outro pelo que ele desperta em nós.

– Nós não temos que trabalhar o sexo, mas sim nossa moralidade, e de certa maneira definir, quem nos toca aonde e quando.

– Pela carga histórica que há sobre nós nos dias de hoje, podemos dizer que o homem é livre para o sexo, mas a mulher ainda não o é completamente. O sexo em nossa sociedade é tratado com interdição.

– A Idade Média, entre outras características deixou-nos a ambigüidade da mulher, e por conseguinte do casamento. A mulher era julgada sob dois pontos de vista, um a considerava ideal quando obediente e submissa às vontades do marido, e da sociedade em geral; o outro a considerava a encarnação do mal, a personificação do inferno e das trevas – as bruxas – quando se portavam como mulheres que sentiam prazer e tinham suas próprias necessidades. Assim foi o casamento encarado durante muito tempo e ainda as vezes o é, como uma forma de manter sob a tutela do homem, a mulher submissa e insensível, enquanto fora do casamento o homem encontra prazer com a vida; porém, ambas as visões a tratam como meros objetos.

– Hoje a mulher exprime sua repressão, e é o que a liberta.

– Para os gregos, era natural o envolvimento com a mulher para o fim da reprodução, meio de manutenção da espécie, porém, eram em outros homens que alguns encontravam o amor.

– Por muito tempo, a dor do parto era encarada como prova, como comprovação do pecado.

– É preciso que mudemos a forma de encarar nosso olhar sobre nosso corpo. O corpo é objeto de desejo e sedução, e isso não é pecado, nosso corpo é o meio que temos de perceber e interagir com a realidade. Contudo, a idéia de que não podemos desejar, faz com que castremos as nossas vontades e as vontades alheias.

– Um interessante exemplo são os homens de cidades pequenas quem vem a cidades maiores para trabalhar e estudar, fartam-se da vida ‘boemia’, e por fim retornam a terra de origem para buscar suas ‘virgens’ prometidas.

– Os conceitos que a Igreja Católica prega, são um exagero das idéias de ideal e material, como eterno e finito, bom e ruim, instituídos dogmaticamente por Platão em seu livro Fedro.

– O imediatismo do gozo do homem o possibilitou-o tomar o controle do sexo, é explicito o prazer que corre em suas veias e o faz ‘maior’.

– A libertação da mulher passou primeiro pela permissão a seu prazer; não que esse devesse ter sido dado, o prazer é inerente a condição do ser humano independente de homem ou mulher, mas foi preciso que a sociedade de uma forma geral compreendesse que não há limites morais na trama do encontro para que enfim alguns direitos finalmente pudessem ser assim considerados.

 

18/11/06

Sentimento

 

Para abordarmos o termo sentimento, devemos primeiramente diferenciá-lo do termo sensação. Esta se situa na esfera tendencial-instintiva do homem e procede da operação dos sentidos; geralmente se entende como fenômeno cognitivo primário, pelo qual captamos a qualidade dos objetos materiais. O termo sentimento refere-se à esfera psíquico-afetiva, e é difícil definir o seu significado, pois ele tanto pode referir-se ao conjunto da vida afetiva ou psíquica como ter significado mais preciso. No primeiro sentido, sentimento é sinônimo de afetividade e refere-se, em geral, ao modo pelo qual o sujeito, a pessoa, é atingido pelo mundo que o rodeia. O segundo é mais particular: refere-se a um dos modos concretos que concernem ao sujeito; outros seriam: emoções e paixões. Paixões pode referir-se ao modo clássico pelo qual se denominavam os sentimentos e, em geral, a vida psíquica; e eram consideradas como não pertencentes à esfera racional, isto é, como não livres. Hoje, são assim chamadas as inclinações ou tendências de grande intensidade. Ou seja, as paixões são fenômenos passivos, não medidos pela vontade, que se experimentam como forças que arrastam. Distinguem-se das emoções pela duração, e dos sentimentos pela orientação para conseguir o objeto que desencadeia a paixão, enquanto os sentimentos têm caráter indiferenciado. O significado das emoções está relacionado com seu significado etimológico: emovere, que significa agitar: a emoção é um modo de sentir-se atingido, que vem acompanhado de certa comoção somática, ou seja, existe correlação clara entre a comoção psicológica e a comoção corporal. Sentimentos seriam todos os outros fenômenos afetivos. Ou seja, as afeiçoes que pertencem à esfera livre e espiritual do sujeito. Caracterizam-se por:

1. Determinar a situação da pessoa; ao contrário das emoções e paixões, que têm referência lógica e real a um objeto, os sentimentos apontam para o sujeito e indicam precisamente o mundo do sujeito e das suas relações pessoais.

2. São estados generalizados, ao contrário das emoções e paixões, que estão ligadas a estímulos e reações somáticas mais ou menos conscientes.

3. São estados que marcam o presente; mesmo quando são evocados, são vividos no presente, ou seja, indicam ao sujeito o aqui e agora de sua decisão, a partir de sua perspectiva enquanto esse sujeito.

 

I. Breve Esboço Histórico. Os sentimentos, ou também as paixões para a reflexão clássica, sempre formaram parte do pensamento: todos os grandes pensadores se interessaram por eles de um modo ou de outro. Há duas linhas gerais em sua consideração, que confluem no século XX. A primeira, mais antiga, tem como principais representantes Aristóteles e seu continuador medieval, Tomás de Aquino. Para estes, os sentimentos estão relacionados com as tendências do homem. Para Aristóteles, as tendências não são, como na modernidade, as inclinações do sujeito marcadas por sua instintividade, ou seja, pelas necessidades básicas do ser biológico; constituem, em geral, a resposta do vivente a um fenômeno do tipo cognitivo. O sentimento seria a tendência sentida pelo sujeito, a percepção interna da tendência; ou seja, não constituem novo objeto de sentir interno. Deste ponto de vista, não há distinção, por exemplo, entre estar e sentir-se alegre. Precisamente pela relação com as tendências, os sentimentos incluem uma avaliação da realidade em termos de atração e repulsão. Ou seja, os sentimentos se distinguem por sua intencionalidade. Aparece desta maneira a classificação dos sentimentos ou paixões em função de seu objeto; por exemplo, o medo se relaciona necessariamente com uma situação de perigo, presumido ou real, mas percebido como tal pelo sujeito, que nisto não pode enganar-se: ninguém sente medo por uma situação de perigo que sabe que é falsa; para sentir medo, o sujeito precisa perceber, de algum modo, o perigo como real.

Descartes inicia a outra grande linha de consideração dos sentimentos ou paixões. Para ele, são um algo que se sente, e de modo infalível, pois não é possível sentir uma paixão e equivocar-se. Este algo é um pensée e se refere somente à alma. Suas causas próximas nos são desconhecidas. Distinguem-se, desta maneira, das outras percepções referentes aos objetos externos ou ao corpo. Hume, seguindo basicamente Descartes, faz uma classificação das paixões em termos diretos (que se produzem pela associação do prazer e da dor): alegria, tristeza, medo, esperança, desespero, segurança etc.; e indiretos (que surgem da comparação do prazer e da dor associada a um objeto, com o prazer a a dor associado a outro): orgulho, humildade, amor, ódio, inveja, piedade, vaidade etc.

O enfoque do tema “sentimentos” configura-se na modernidade pelo tratamento iniciado por Descartes e Hume, e dá lugar ao emotivismo no campo moral e também ao enfoque positivista, no qual se enraíza a psicologia como ciência experimental. Nesta linha de pensamento, situa-se em nossos dias, por exemplo, James, autor da conhecida expressão: “Não choramos porque nos sentimos tristes, mas nos sentimos tristes porque choramos”; James compartilha da tese segundo a qual os sentimentos são estados mentais conectados casualmente com as mudanças corporais e com a conduta, embora tenha invertido os termos: aqui é a resposta que origina o sentimento. Para os behavioristas (Skinner), os fenômenos psíquicos são eventos mentais que identificam não com os padrões de resposta, e sim com as predisposições prévias do sujeito. Todas estas posturas foram criticadas por Wittgenstein, o qual ressalta que um puro evento mental subjetivo que não poderia dar lugar a uma linguagem compreensível para a generalidade, mas somente um linguagem privada, incomunicável, portanto: não poderíamos saber o que os outros indicam, por exemplo, quando dizem que estão tristes.

Além destas duas linhas gerais, devemos assinalar a influência de Pascal, muito importante nas correntes do século XX. Com suas raisons du coeur (“o coração tem razões que a razão não entende”), Pascal introduz a importância fundamental dos sentimentos no conhecimento da subjetividade e, portanto, da pessoa. Alerta contra racionalismos excessivamente abstratos na concepção do homem: a verdade, sem a participação decisiva do coração, corre o risco de extenuar-se.

Estas linhas de pensamento confluem naquelas que virão a ser as principais influencias diretas do personalismo: o existencialismo (Kierkegaard, Heideger, Sartre, Marcel), que ao concentrar-se no existencial, dão a preeminência ao sujeito singular e irrepetível; e a fenomenologia (Husserl), que oferece um sistema para o estudo da interioridade, de modo que a mais importante classificação dos sentimentos, ainda hoje é a de Marx Scheler, seguindo o método fenomenológico. Para Scheler, os sentimentos têm a capacidade de conhecer os valores que constituem a guia da conduta humana.

Dicionário de filosofia Paulus

 

– Para começar penso que há muita confusão entre emoção e sentimento. Para Maturana a emoção é um condicionamento que se aplica a todos os seres vivos sendo que ela é condizente da relação do ser com o ambiente a sua volta.

– Há também dois tipos de emoção, a do prazer e a do desprazer, e essa é uma questão biológica, pois é tratada por coada um de acordo com a estrutura psico-físico da pessoa. Existem organismos mais propensos a alguns tipos de hormônios e isso pode gerar distúrbios.

– Os condicionamentos a que as pessoas se dispõem (vícios) são gerados por um descontrole em ações gerativas de prazer que se tornam padrões para todos os nossos atos, assim é com o sexo, com as drogas…

– Houve na idade média a separação da união entre homem e mulher, do sagrado e do profano. O casamento representava o sagrado, e o prazer o profano. O sexo prazeroso era separado do casmento.

– Lilith foi de fato a primeira mulher, mas foi desconsiderada pois era livre e sua liberdade era ofensiva e contrastante com os interesses dos que estavam ao seu redor.

– Sentimento é uma racionalização advinda da emoção, é uma forma de se pensar as nossas sensações.

– Eu considero o sentimento como uma espécie de ética, de caráter – ethos – por ser a forma com a qual o ser interage com seus semelhantes.

– De onde vem esse caráter?

– O caráter vem do sentimento que sentimos com a pessoa que relacionamos.

– O caráter pode até ser proveniente do sentimento, mas esse é antes de tudo influenciado pela genética do nosso organismo, e depois pelo modo como esse foi instruído, ou seja, da educação que recebemos.

– A emoção é fruto do orgânico biológico. O ‘eu’ influenciado pela emoção e pelos sentimentos é talvez apenas um articulador desses elementos externos que adulteram a condição crua e rude da matéria. E, o que entendemos como educação que por fim ajuda o ‘eu’ nessa coordenação de nosso ser, pode ser entendido como cultura, ou seja, o resultado de como meus antecedentes encaravam determinados fatos.

– O dualismo razão e sentimento, orgânico e psicológico, são mais referencias simbólicas determinadas por tradição que realmente dualismos, são pontos de vista complementares que se encerram em nosso modo de agir e reagir aos estímulos que nos são expostos.

– Para os pré-socráticos, corpo e alma compreendiam uma única realidade, mas Platão, cânone dos dogmas atuais, fez a separação dos dois elementos em dois corpos distintos. Mas há uma pergunta, que lugar ocupa o sentimento?

– Como isso funciona nossa adaptação ao meio?

– A idéia é de que tudo começa com um modo de se fazer compreender, e onde primeiramente isso acontece são em reações químicas que ocorrem no ar, em nosso corpo e em infinitos meios. Em nosso corpo, uma conseqüência disso são por exemplo reações distintas que duas pessoas têm em uma mesma situação, assim como a forma que elas entendem essas situações e como se sentem nesses contextos. Talvez, um dos últimos estágios sejam as teorizações que fazemos sobre coisas as quais não podemos comprovar, por exemplo, os sentimentos.

– É isso, o sentimento é uma interpretação que fazemos de uma emoção que aflorou em nós de acordo com nossa disposição biológica e a educação que tivemos, ou seja, o sentimento é o traço de individualidade que sobressai à tradição imposta pela cultura de nossa sociedade.

– O homem é um bicho que superou sua condição primária irracional através do modo de encarar as situações que enfrenta tornando-as proveitosas a sua condição.

– A emoção é instinto?

– A emoção está ligada ao instinto, mas em nós ela é mais depurada que nos animais, pelo simples fato de eles não serem capazes de distinguir entre elas

– Nossa vida é traçada em semelhança com um ideal de vida divina, sentimos, refletimos e conceituamos, assim tornamos um momento em ‘lei’.

– É difícil seguir a linha de um pensador, pois ele determina coisa com as quais não concordamos. Chega a ser uma perda de tempo e um ato ilógico.

– Mas não é preciso que sigamos ninguém, apenas usamos determinado pensador para termos uma referencia sobre a qual possamos delimitar para nós o que é bom ou ruim. É bastante pessoal, e é o que se faz em várias instituições, mas nesses casos as idéias originais funcionam como normas. Se uma linha de raciocínio faz sentido para mim, me aproximo dela, isso não quer dizer necessariamente uma filiação.

– A filosofia é um modo de operação do desejo. Ela é um modo de tornarmos nossas vidas mais agradáveis através da reflexão possibilitada pelo conhecimento de antigas culturas. Sim, estamos condicionados a interferências do meio às quais não poderemos controlar, porém, se soubermos como encará-las, ou, enfrentá-las, podemos transformar fatalismos em condições temporárias. Afinal não somos apenas produtos do meio, somos produtores de novas realidades.

 

25/11/06

Sentimento II

 

Texto I:

Teoria Rosangeliana sobre o sentimento

Pensar sobre comportamento humano e suas implicações em nosso cotidiano faz parte de minha jornada epistemológica. Pesquisado vários teóricos e filósofos fui descobrindo minhas próprias teorias advinda de uma longa reflexão, estudo e pesquisa.

Quando tentamos compreender o que é Sentimento vamos nos deparar com uma gama infinita de interpretações, fruto de pesquisas e reflexões de muitos.

Considero o Sentimento não uma percepção ou emoção, nem menos uma paixão ou afetividade, mas uma expressão sutil, fina e delicada da razão humana, uma função da consciência.

Vamos compreender: diante de um acontecimento qualquer…

1-     Percepcionamos o que advém do mundo que nos cerca, isto é, há uma sensação física reativa que advém da utilização dos órgãos do sentido. Há uma sensação agradável ou desagradável, prazer ou dor. Sensação é um estado objetivo.

2-     Que faz mover algo dentro de nós, que nomeamos de emoção. Então diante a sensação agradável temos a emoção de alegria, etc. Diante as emoções negativas reagimos com raiva, ansiedade, tristeza, medo, culpa, etc. Essa emotização é comandada pela SN Simpático e S Hormonal.

3-     A elaboração dessa emoção percepcionada se inicia no nosso cérebro que vai ordenando os fenômenos orgânicos, ativando o córtex cerebral cognitivo que vai respondendo com o julgamento de gostar ou não gostar, nomeamos de Sentimento. O sentimento é estado subjetivo. Os sentimentos se tornam afetos quando liberam inervações físicas. O sentimento produz efeitos no mundo e na psique. O sentimento está sempre ligado a um valor definido de aceitação ou rejeição (gostar e desgostar). É um processo psicológico que avalia. Sendo assim uma função racional. Apreciamos uma situação, pessoa, objeto ou momento. Sentimento está vinculado a estrutura da memória. Julga por meio de valores. Temos sentimento estético (belo / feio), moral (bom / ruim), humano (amor / ódio – animado / deprimido) e biológico (atração / repulsa).

 

Falar de sentimento é mergulhar numa complexidade psicofilosófica que expressa nossa interpretação das nossas relações com a existência. Podemos reduzir a uma simples pergunta: Como você se sente nesta circunstância?

Rosangela Rossi

 

Texto II:

Em sua origem, o homem só tem instintos;

Quando mais avançado e corrompido, só tem sensações;

Quando instruído e depurado, tem SENTIMENTOS.

Fazer brilhar o cérebro não é difícil: basta uma boa memória e uma biblioteca à disposição;

Difícil é fazer brilhar o coração.

Eu diria, então, que o sentimento é o encantamento do coração. Um deslumbramento, um êxtase, se positivo e, uma tragédia, quando negativo.

Jésus Salvador Neves do Amaral

 

– Primeiramente digo que existe uma distinção na forma de ser das pessoas, e caracterizo essas formas em duas, as que sabem pensar e as que não sabem, e do mesmo modo, os que se distinguem dos demais e os que não; os que têm vontades próprias e os que seguem apenas as vontades alheias; os que são mais que um resultado do coletivo, e os que não.

– Isso quer dizer somos resultado de tudo o que está a nossa volta, reações físicas, interpretações do meio pelo nosso inconsciente, emoções advindas de reações físicas, elaboração de sentimento, julgamento de gostar e não gostar.

– Isso, e outra coisa, a definição de gostar e não gostar, de nossos sentimentos de uma maneira geral, estão vinculados a conceitos de memória, que seria, a permanência em nós de algo que se foi, ou aconteceu em um tempo que não existe mais.

– Qual é o processo de formação de sentimento?

– Primeiro percebemos o que nos rodeia, depois interagimos com o que seja esse contexto, e por fim definimos se achamos aquilo agradável ou não, e isso tudo em um tempo ínfimo.

– E o conjunto histórico, tudo o que pensamos até então, influencia nisso de maneira decisiva?

– Na verdade, essa é a idéia do conceito de memória que está ligado à formação dos sentimentos.

– Vale lembrar que a emoção se compreende entre sentimento e sensação, enquanto a percepção de qualquer fato se dá por esses pontos; portanto, uma emoção é fruto da percepção de algo de acordo com nossos sentimentos ou nossas sensações. Por exemplo, ao ouvir uma história triste, sentimos vontade de chorar, pois nos identificamos sentimentalmente com o que foi ouvido (percebido).

– O homem na sua origem tinha sentimento, senão não haveria chegado aonde chegou, e não teria feito o que fez. Muitos de nossos atos são apenas explicados pela avalanche de sentimentos a que freqüentemente somos submetidos.

– Porque é tão difícil pensar o sentimento?

– Por que este é uma coisa muito pessoal, e normalmente não acredito que todos tenham boa vontade em entender o ponto de vista dos outros.

– A diferença na forma de sentir e refletir é reflexo da forma de cada um pensar e encarar o que faz parte de nosso meio.

– O sentimento é a impressão do meio através do que pensamos deles.

– No ocidente, estamos culturalmente submetidos a uma visão que determina que o homem tem uma natureza da qual ele não pode fugir; chega a ser algo relativo à idéia de que não sabemos de onde viemos e nem para onde iremos, ou seja, algo que não controlamos nos trouxe aqui, e daqui nos levará.

– Acredito que não há distinção entre o organismo e a realidade, eles não existem separadamente, não existe um ou o outro, e sim os dois. Tudo o que existe seria uma expansão de uma realidade a qual entendemos a partir de uma caracterização do ‘eu’, um ser físico que armazena as impressões do meio e as digere em forma de pensamento e consciência. As condições do eu, o primordial diferencial do sentimento, encerrados em um receptáculo, são o que determinam a condição do ser.

– Mesmo nossas percepções são baseadas em construções de valor já determinadas e influenciadas por uma cultura da qual somos fruto e a qual construímos mesmo sem pensar sobre ela.

– E o que então seria a consciência?

– A consciência é um marco diferencial de um homem saudável par um homem fraco.

– Seria possível chegar ao inconsciente gerador da consciência?

– De certa forma é esse o mistério do homem, o que gerou a consciência é o que queremos saber, pois é o que nos determina.

– Qual é o sentimento dominante hoje? Quais são os mais intensos, os dominantes?

– Essa é uma pergunta que até pode ser respondida, mas seu resultado será no mínimo questionável, pois de cada lugar surge uma resposta equivalente a sua realidade que varia de acordo com o contexto do momento que se constrói.

– A necessidade de mudar, ou o querer mudar é independente do processo de mudança que é inerente a todas as coisas, mesmo nas que não mudaram, pois o nosso presente transforma em nascimento a morte que agora existe presente na memória de dias passados.

– O julgamento de melhor ou pior condena os tratos sociais a um subjugar-se a condicionamentos distintos, contudo semelhantes e em nada superiores ao que julgamos prioridades.

– O julgamento é uma forma do processo de tornar-se consciente de nossa realidade, mas, não significa necessariamente uma tomada de valor no sentido de atribuir a diferentes formas de interação com o meio, mais importantes critérios no objetivo do ser.

– A singularidade de cada um corresponde ao modo como a particularidade reflete o absoluto, e o sentimento é apenas a maneira como essa singularidade se expressa.

 

02/12/06

Sentimento

 

II. Reflexão sistemática. O papel dos sentimentos para o pensamento personalista nos é dado pelos quatro pontos seguintes:

 

1. Os sentimentos proporcionam à pessoa a sua instalação no mundo. Constituem, por isso, um a priori de todo op conhecimento, são o ponto de vista próprio, particular do sujeito. Revelam o nosso modo de estar no mundo, antes da divisão que a razão estabelece entre sujeito e objeto. Todo o nosso conhecimento é colorido pelos sentimentos, como as cores de um quadro; poder-se-ia dizer que constituem a cor ou a música de todas as nossas experiências. Os sentimentos nos dão o familiar, o mundo íntimo, pessoal, aquilo com o qual estou intimamente comprometido: meu mundo pessoal. E também o ambiente sóciopolítico que a pessoa pode chamar de seu: o lugar (cidade, povo etc.) onde nasceu , sua nação, em suma, a cultura à qual pertence e onde afunda as suas raízes.

 

2. Os sentimentos configuram a subjetividade. As tendências e sentimentos são muito numerosos e abarcam desde o plano biológico (saúde, bem-estar físico) e o econômico, passando pelo social, político e científico, até o estético, ético e religioso. Este conjunto das afeiçoes e tendências do indivíduo têm em cada momento um indicativo final, uma representante final: alegria ou tristeza; ou, se preferirem, alegria ou desespero, inclusive com uma indicação de intensidade: nem todas as alegrias são iguais. O sentimento de alegria ou tristeza indica-nos, portanto, que a auto-realização se desenvolve bem; ou seja, assinala o nível de consecução de tudo o que compõe a vida de uma pessoa: saúde, situação econômica, vida afetiva, relações, aspirações, ilusões, satisfações, metas já alcançadas etc., e também seu grau de realização e de possibilidade, tanto a partir da visão global da vida, como a partir de visão restrita: os acontecimentos do dia-a-dia (influi, por exemplo, um dia cinzento) etc.

 

3. Os sentimentos tornam inatos à pessoa os valores que guiam a conduta humana. Na tradição moral criticada pela modernidade, os pilares da ética são as virtudes, hábitos operacionais bons, e toda ação ética está voltada para sal obtenção. Os sentimentos, por não serem atos livres, eram considerados de modo geral como indiferentes. A moralidade se inicia onde começa a atuação voluntária do sujeito. Mas isto supõe uma concepção, de certo modo estratificada do sujeito e, sobretudo na maneira popular pela qual era (e ainda é) explicada a moral, introduz uma contraposição entre sentimentos e razão, entre cabeça e coração: uma compartimentação no interior da pessoa. Esta contraposição é exacerbada pela ética formalista kantiana, fortemente criticada pelos personalistas. Sobre a ética kantiana, porem, construiu-se a ética da modernidade, a ética do funcionário, que para cumprir o dever precisa deixar de lado os seus sentimentos. Trata-se da ética que transforma as relações em relações de justiça (eu-ele) e deixa entre parênteses as relações pessoais (eu-tu), que se baseiam no amor.

Do ponto de vista personalista, a pessoa é sempre uma tarefa para si mesma: a sua realização passa pela integração de todos os dinamismos (biológico, afetivo, intelectual). Nesta integração, os sentimentos desempenham papel primordial, pois antecipam e reforçam a atividade cognitiva e tendem a valorizar positivamente (ou negativamente) as ações. É preciso levar em conta que os sentimentos entram plenamente na esfera espiritual da pessoa. Sobre esta avaliação Scheler edificará sua doutrina dos valores, que são lugar fundamental para a posterior elaboração ética. Os valores são assinalados pelos sentimentos. Além disso, Scheler hierarquiza em valores (e, portanto, sentimentos) em valores de prazer, vitais, estritamente espirituais (estéticos), da justiça, da verdade, do santo ou do religioso. Para Scheler, esta hierarquia é objetiva. Ou seja, os sentimentos nos dão uma avaliação da realidade sobre a qual se fundamenta a ação humana livre (que é o tema de estudo da ética). Não basta, portanto, que a liberdade do homem abarque somente a vontade e a razão; também deve influir e modificar a configuração dos sentimentos. Esta é a tarefa da formação do homem bom. A reflexão clássica já havia ressaltado que as ações repercutem sempre sobre o sujeito que as realiza, mas agora se enfatiza que o homem, com a sua liberdade, se faz, se realiza a si mesmo; para isto, deve configurar também os seus sentimentos. Não se trata de moralidade do prazer, uma vez que (como destaca Ricoeur) prazer e felicidade no se identificam: o prazer se dirige à obtenção de emoções, e a felicidade à obtenção de emoções, e a felicidade à consecução da plenitude humana com sentido integral. Este é o objetivo da moral de cunho personalista: moral de plenitude humana.

 

4. A intersubjetividade é veiculada pelos sentimentos. Não se pode entrar na vida de outra pessoa à margem de seus sentimentos, uma vez que são precisamente eles que indicam a subjetividade. O encontro com o outro como pessoa, a dinâmica da relação eu-tu, em contraposição à relação eu-ele (Buber), realiza-se por meio dos sentimentos, que possibilitam o colocar-se no lugar do outro (dinâmica da empatia). A partir daí tornam-se possíveis e realizáveis as relações pessoais, o encontro de pessoa a pessoa: basicamente a relação de amizade e a relação de amor. O encontro se dá na relação, na intersubjetividade. A relação é a ponte entre as duas subjetividades. A pessoa é ser altérico; a primeira coisa, cronologicamente, não é a individualidade, mas a alteridade. É a dinâmica afetiva que permite a captação do tu. Quando este encontro com o tu for real, a pessoa se entrega. Todas as patologias psicológicas (e também morais) interferem precisamente nesta relação vital e se concebem como obstáculos à relação intersubjetiva, isolando a pessoa numa individualidade fechada, como a mônada de Lebnitz. Do ponto de vista dos sentimentos, as patologias são sentidas como medos. São sentimentos positivos aqueles que abrem a pessoa (alegria, esperança, etc); são negativos os que fecham (tristeza, desespero). Algumas vezes a patologia se inclina ao sentimentalismo que, segundo Fromm, é constituído por “sentimentos em estado de total desapego. Proporciona um simulacro de vida afetiva, sem ligação com a relação, pródigo em lágrimas e miserável em atos”. Com o sentimentalismo, se consegue fazer funcionar o mundo psíquico do sujeito, mas desconectado de um mundo pessoal próprio, desligado de todo compromisso possível. Ao invés de buscar o outro, a pessoa se concentra em sua própria subjetividade; o outro não interessa; interessa somente o efeito, o sinal que produz em mim. Inversamente, o encontro real com o outro gera o compromisso: a entrada real do outro em mina vida.

A relação pessoal por antonomásia é a relação de amor entre um homem e uma mulher, pois o corpo, com as suas diferenças, é a encruzilhada do encontro entre o eu e o tu. A pessoa também é seu corpo (Marcel). A relação de amizade é aspecto necessário, embora possa ter existência própria, da relação de amor. O amor é o princípio da dinâmica afetiva que leva a descobrir a própria plenitude no encontro com o tu. O amor, como sentimento, é a realização conjunta de duas pessoas que se tornam uma só, que verdadeiramente se encontram. O amor se inicia no apaixonar-se (como a amizade na simpatia). Apaixonar-se é processo dos sentimentos (basicamente admiração e encantamento, segundo Ortega), que conduz a esta abertura do ser ao outro. O sentimento que desencadeia o apaixonar-se e sempre impulsiona o processo do amor é a solidão. Desta prisma, pode-se descrever o amor como a superação da solidão. Quando não é desviado pelo sentimentalismo, o apaixonar-se abre realmente as portas da pessoa e leva à real absorção (encantamento) do amante no amado e vice-versa, pois o amor sempre é recíproco (ou deveria ser). Além disso, a admiração estabelece as bases do respeito mútuo, a partir do qual se edifica a conveniência. Como vemos, os sentimentos proporcionam a base para esse encontro real entre duas subjetividades. Produzem-se, desta maneira, as condições para real autodoação mútua, que sempre é processo no tempo, ou seja, com suas dificuldades, pois a pessoa está envolta em coisas (“para viver, não quero ilhas, palácios, torres; que alegria maior que viver nos pronomes!”, disse-nos Salinas). Esta dialética nos é dada porque a pessoa é um ser material que se dá no tempo e, portanto, sempre está aberta a processo de melhora; e ao mesmo tempo, a pessoa sempre segue a lei da totalidade: dá-se toda, inteira, em todos os seus atos, ou não se dá (Scheler). Todo este processo constitui esta plenitude imprescindível e ao mesmo tempo, inegável, para a pessoa, e se chama amor.

III. Considerações para a vida prática. Neste ponto, torna-se óbvio que a educação sentimental (Marías) é totalmente necessária numa sociedade que pretende respeitar a pessoa. Trata-se de uma das tarefas mais urgentes com que se depara a cultura atualmente, pois é cultura impregnada de desenraizamento e com tom materialista. Assinalamos esquematicamente os pontos principais dessa educação, seguindo a mesma ordem da parte sistemática.

1. Proporcionar critérios para avaliação adequada de tudo o que significa o mundo próprio da pessoa e das comunidades, desde a família até o ambiente sociocultural. A carência neste aspecto origina o desenraizamento, que leva a forte despersonalização.

2. Atenção adequada a todos os aspectos da formação sentimental mais propriamente pessoal; trata-se aqui de proporcionar na educação co-naturalidade com os valores pessoais em dialética com as coisas. Trata-se, em suma, daquilo que se chama maturidade afetiva da pessoa. Estamos diante da cultura consumista, baseada na prioridade das coisas, que produz também forte despersonalização das relações. Trata-se de formar na moral da felicidade e não do êxito.

3. Formação e promoção de adequada hierarquia de valores e sua afetiva racionalização, que faz que sejam voluntária e realmente assumidos pela pessoa.

4. Formação e promoção das relações pessoais: a amizade e o amor, concebido como entrega da pessoa à pessoa. Este é o ponto culminante de todo o pensamento personalista.

Dicionário de pensamento contemporâneo Paulus

 

– Sentir… Talvez um diferencial do homem para os demais seres seja a capacidade de sentir como sentimos. Não que mais ninguém sinta, mas a faculdade racional de que somos dotados, permite-nos transformar um estímulo primário em algo de grandes dimensões.

– Há sentimentos que encaramos de modos diferentes talvez por uma questão simples de contexto, por exemplo, o medo da morte é de várias formas interpretado, de acordo com a cultura sob a qual é visto.

– E essa questão cultural é de certa forma um molde a que somos submetidos, como se fosse uma programação que a educação que recebemos se encarrega de definir. Isso justifica como para extremistas de determinadas culturas é uma opção nobre morrer por uma causa e levar algumas pessoas consigo, enquanto para outras essa atitude representaria um completo absurdo.

– O que somos é definido pelo nosso sentimento, é ele o verdadeiro meio pelo qual fazemos nossas escolhas, pois à percepção de algum fato, o processo racional que definirá o que iremos fazer se dá sobre a impressão que tivemos num primeiro momento.

– Um exemplo, as vezes algum político pode não ser bom, mas seu carisma, o sentimento que ele desperta em seus eleitores, faz com que ele se sobressaia aos outros candidatos que talvez fossem mais bem preparados.

– Isso quer dizer que o sentimento elege alguém?

– Sem dúvida, e isso pode colocar alguém na história quando há um contexto histórico por trás de qualquer nova atitude, que faz com que anseios de muitas épocas sejam, quem sabe, finalmente atendidos.

– A crença muda o sentimento?

– Sim, e também o contrário. Independente de qual tenha sido a base para uma decisão que tomamos, seja ela racional ou sentimental, uma pode ser alterada por influencia da outra, ou seja, podemos mudar um sentimento pela razão assim como a razão pelo sentimento. Sem qualquer intenção de convencimento, o simples fato da presença de uma outra possibilidade além da primeira já existente, consiste em uma influência em nosso modo de entender integralmente as realidades distintas que fazem parte de nosso presente.

– O racional e o sentimental estão envolvidos em cada questão de nosso cotidiano mesmo que mínima e são altamente voláteis; pode ser que uma simples frase, a respeito de algo que pensamos, nos faça mudar de idéia sobre o que acabamos de dizer.

– Nossos sentimentos estão sempre sob influências que determinam muitas características do nosso ser, onde nascemos, o que somos, onde moramos, com quem trabalhamos, como dormimos, enfim, nosso cotidiano é alterado em simples detalhes que nem sempre dependem exclusivamente de nós.

– Existem diferentes tipos de sentimentos e é difícil querer estabelecer níveis, eles são apenas diferentes e condizentes a realidades distintas.

– Uma grande questão que exemplifica a interdependência entre sentimento e razão é avaliar nossos padrões que justificam o como somos hoje; as vezes reagimos a determinados fatos de maneira referente a contextos antigos e podemos não perceber que esses moldes não nos servem mais, nosso cotidiano deve ser cotidianamente repensado.

– Quais são hoje as ações mais verdadeiras ou mais satisfatórias, as pensadas ou as não pensadas?

– Primeiro acho que devemos entender o que poderiam ser as ações verdadeiras e as satisfatórias e como isso está ligado a nosso conceito pessoal de felicidade e prazer. Por exemplo, o que define a paixão é diferente do que define o amor? Qual dos dois prioriza o momento, qual dos dois a razão, e até que ponto temos condição de decidir sobre eles?

– A questão talvez seja simples se levarmos em consideração uma importância: a de que devemos saber avaliar nossas necessidades, pois é apenas isso que poderá definir como e quando razão e sentimento influenciarão sobre nossos atos, mesmo que não tenhamos consciência disso.

– Assim seria o amor, mais que uma relação com o outro, uma atitude própria; pois se for como imaginamos representante de uma interação, mesmo que seja uma atitude individual, ele será a interação entre nossa razão e nosso sentimento, e nos possibilitará no mínimo um bem estar pessoal, que facilitará em muito nossa relação com o ambiente a nossa volta.

Pensando Bem – Núcleo de Pesquisa em Filosofia e Educação