UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Telenovela e Ficção Científica: máquinas e ETs nas novelas das sete

Data: 7 de junho de 2011

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Igor Silva Oliveira[i]

Íris de Araújo Jatene[ii]

 

RESUMO: Este trabalho pretende analisar a presença da Ficção Científica (FC) na teledramaturgia brasileira recente, focando em Kubanacan, Tempos Modernos e Morde e Assopra (exibidas pela TV Globo no horário das 19h). O que se busca aqui é perceber de que maneira os elementos de FC são inseridos nas tramas e como são recebidos pelo público a partir da noção de verossimilhança. Mesmo sendo um horário de produções mais ágeis, com toques de humor e, portanto, mais abertas a inovações, o que se percebe é a tendência do público a rejeitar as tentativas do uso da FC nas telenovelas das sete.

PALAVRAS-CHAVE: telenovela; ficção científica; verossimilhança.

 

ABSTRACT: This paper aims to analyze the presence of Science Fiction (SF) in the recent Brazilian soap operas, focusing on Kubanacan, Modern Times and Bite and Blow, broadcasted by Globo at 7 pm. Thus, we intend to analyze how the SF elements incorporated by these soap operas are consumed by the audience, based on the notion of verisimilitude. Despite the experimentalism and informality that characterize Globo’s 7 pm TV soap operas, audiences tend to reject SF iconography in these fictional narratives.

KEYWORDS: soap opera, science fiction verisimilitude; imaginary.

 

Teledramaturgia brasileira e o horário das 19h

Em seus pouco mais de 60 anos de história, a televisão é ainda o meio de comunicação de massa mais importante do país: está em 95,7% dos lares brasileiros – contra 87,9% dos domicílios com rádio e 27,4% com internet – segundo a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD-IBGE)[1]. Inaugurada por Assis Chateaubriand em 18 de setembro de 1950, a fase inicial da TV no Brasil foi marcada pelo improviso (Mattos) e pela busca de uma linguagem própria, buscando inspirações no teatro, no circo e no rádio (Brandão). Contudo, a partir da intervenção estatal e sua política de integração nacional – sobretudo durante o Regime Militar – a televisão tomou para si a função do enlaçamento social, intermediando o espaço público e a vida privada (Wolton).

 

Desde os primeiros anos também, a teledramaturgia ocupou papel de destaque na história da televisão brasileira. Primeiramente com os teleteatros e, em seguida, com as telenovelas. A primeira telenovela brasileira foi Sua vida me pertence, de Walter Foster, exibida apenas duas vezes por semana pela TV Tupi. Em 1963, com o recurso do videotape, as telenovelas puderam se tornar diárias. Assim, 2-5499 ocupado, da TV Excelsior, foi uma das primeiras telenovelas a se beneficiar do VT. Cinco anos mais tarde, Beto Rockfeller, da TV Tupi, trouxe à telenovela brasileira mais uma inovação: com uma linguagem coloquial e protagonizada por um anti-herói da classe média, a obra de Bráulio Pedroso deu fim à era das histórias exacerbadamente melodramáticas, maniqueístas e distantes da realidade nacional (adaptadas, sobretudo, de tele e radionovelas latino-americanas) que imperavam nas telinhas até então (Fernandes).

Tal processo de “abrasileiramento” da telenovela contribuiu para o êxito que o gênero alcançou em nosso país. O grande segredo desse sucesso estaria nessa “ficção sem fantasia”, guiada por uma “moral doméstica” (Sodré apud Marques de Melo 51). Há, portanto, no processo de aceitação das telenovelas, uma curiosa relação de ambivalência envolvendo realidade e ficção. “

 

[…] esta realidade refletida nas telenovelas é, obviamente, uma construção imaginária. Buscam-se os elementos mais ‘pertinentes’ e mais ‘expressivos’ do real para se construir uma realidade que se mostra de maneira ‘natural’, ‘familiar’ e ‘reconhecível’ para seu público. (Andrade 23)

 

Em suma, a trama, os personagens e as situações têm de ser reconhecíveis pelo público como reais. Ou melhor, verossímeis, pois o telespectador sabe que se trata de uma ficção, porém cobra uma coerência em relação aos costumes da sociedade em que está inserido – verossimilhança. Devem, então, fazer parte de seu imaginário social. Segundo Barthes, o imaginário seria uma maneira de o sujeito iludir-se sobre si mesmo, ou seja, de perceber-se integrado a uma sociedade através de gostos adquiridos pelo convívio social. É um processo de identificação social, pois é resultado de um acordo comum – arbitrário, porém “unânime” – em que se criam parâmetros a serem seguidos e respeitados por todos. Fundamental para a o processo de formação do que Hall chama de “comunidade imaginada”.

 

Outro fator que contribuiu para a fidelização do telespectador em relação às telenovelas é o palimpsesto rígido criado pela TV Globo, especialmente para seu “horário nobre”. Dessa forma, a emissora impõe uma grade de programação fixa, horizontal, em que o público sabe exatamente o que vai assistir em cada momento em que liga o televisor. Como consequência, convencionou-se, a partir disso, uma caracterização das chamadas novelas das 6 (leves ao estilo “água com açúcar”, para senhoras e crianças, com uma volta ao passado ou rural), das 7 (com temas mais atuais, investe no humor e na sensualidade dos atores, para o público que busca um pouco de descontração) e das 9 (para toda a família, foca nos temas do cotidiano, trazendo à tona, de maneira “simplificada”, assuntos de interesse social).

 

Justamente por ser mais “descontraído” e aberto ao humor, o horário das 19h é o cenário ideal para experimentações e pequenas “fugas” das bases estruturais já consolidadas das telenovelas. Segundo Anna Maria Balogh (161), “a série do horário enfatiza uma das características básicas da TV, a enorme facilidade para a incorporação das mais diversas linguagens”. A autora continua:

 

O número mais significativo de obras caracterizadas por um processo de criação ‘deliberadamente’ intertextual, no entanto, começou, de fato, no horário da novela das sete que sempre constituiu um espaço para a inventividade, para a experimentação, para uma liberdade maior de expressão (Balogh 143).

 

A utilização de imagens oníricas, edição “trepidante” e a ruptura da trama do triângulo amoroso em Bebê a bordo (1988), o diálogo da TV com os quadrinhos de Uga Uga (2000), ambas de Carlos Lombardi, ou o universo faroeste com o uso de animação japonesa em Bang Bang (2005), criada por Mário Prata e posteriormente assumida por Carlos Lombardi, são exemplos de experimentalismo nas telenovelas das 19h. “Bang Bang era uma novela altamente experimental. […] Bang Bang era uma paródia”, explica Lombardi (Memória Globo, 2008). Outra inovação correspondente a esse horário é a inserção de elementos da ficção científica (FC), a exemplo dos robôs de Transas e Caretas (Lauro César Muniz, 1984) e da atual Morde e Assopra (Walcyr Carrasco).

 

Reconhecendo a ficção científica

A FC é um campo especialmente produtivo para a manifestação das previsões, dúvidas, desejos e temores do ser humano diante da sua realidade e de sua própria natureza (o que possibilita inúmeras abordagens possíveis para estas situações). Portanto, devido ao seu caráter simbiótico, não é de se estranhar que a FC ultrapasse as fronteiras de outros gêneros. Steve Neale diz que às vezes não é apenas difícil distinguir a FC do horror, por exemplo, como também pode ser difícil diferenciar “horror do filme criminal, assim como também a ficção científica da aventura e fantasia” (Neale 92).  A pesquisadora Christine Cornea, porém, considerando o argumento de que a FC pode ser incluída numa categoria mais generalista do fantástico, observa que o horror e o musical – também inclusos em tal categoria – são geralmente considerados à parte do padrão de filmes que propõem imitar ou reproduzir a realidade, enquanto “a ficção científica forjou um relacionamento com o realismo que a torna um gênero muito mais indeterminado” (Cornea 7).

 

Alfredo Suppia considera que há dois tipos de abordagens sobre a FC, “uma ampla, abrangente (lato sensu) e outra estrita, restritiva e especializada (stricto sensu)” (Suppia 9). Contudo, o critério amplo, levando em conta o alcance do significado das palavras ficção e científica, expande os limites da FC ao ponto de se atingir “uma hipertrofia, um exagero e até mesmo uma caricatura do gênero” (Suppia 9). Analisando diversos estudiosos e suas definições para a FC, o autor aponta para o fato de que – embora não possa ser encaixado em explicações fixas – o gênero oferece um reconhecimento imediato, que o difere da fantasia[2]. Para isso, é necessário dar atenção à relação da ciência com a sociedade, de modo que as hipóteses e situações tratadas não sejam fatos na realidade do espectador, mas que possam ser especuladas com base num dado ou inovação científica. Isso remete ao conceito de verossimilhança, ou seja, um conjunto específico de expectativas que o público carrega consigo e o utiliza, ao longo da exibição da obra, para reconhecimento e compreensão, tornando aquilo que se vê na tela inteligível e explicável. Desta forma, segundo Suppia, uma das melhores definições de FC seria a do crítico e escritor Sam Moskowitz:

 

A Ficção Científica é um ramo da fantasia identificável pelo fato de que facilita a ‘deliberada suspensão da incredulidade’ por parte dos leitores, pela utilização de uma atmosfera de credulidade científica para especulações imaginativas sobre física, espaço, tempo, sociologia e filosofia. (Moskowitz apud Suppia 412)

 

No Brasil, um dos primeiros filmes com elementos de FC seria a comédia Uma Aventura aos 40, de 1947, dirigido por Silveira Sampaio, no qual o protagonista, no de ano de 1975, na ocasião do seu septuagésimo aniversário, se comunica diretamente com um aparelho de TV interativo durante a exibição de um programa que narra a biografia do personagem. Na televisão, pela TV Tupi de São Paulo foram exibidos os programas Lever no Espaço, de 1957, com Beatriz Segall interpretando uma alienígena, e FP-4 Chamando, de 1958, que narrava as viagens interplanetárias do cientista vivido por Jece Valadão. Em 1988, foi a vez de Glória Menezes interpretar uma extraterrestre que vem ao planeta para aprender costumes humanos com Tarcísio Meira, na série Tarcísio e Glória, da TV Globo (Braune e Rixa 144-145). O tom predominante desses programas era de comédia, mas já era evidente a recorrência a temas típicos da ficção científica.

 

A FC é um gênero que se faz presente de maneiras tão variadas ao longo dos anos (e sendo influenciado por cada época), que escapa de definições mais rígidas – sem no entanto deixar de ser reconhecida pelo público. Sua adaptabilidade permite que seja praticada tanto pela indústria audiovisual como por cineastas independentes. E, claro, também é aproveitada pela televisão, inclusive pelas telenovelas.

 

Breve histórico da FC nas telenovelas brasileiras

Diante do exposto, é possível perceber que a FC esteve presente na teledramaturgia nacional desde os seus primeiros anos, contudo isso se deu de maneira pontual. Entre as telenovelas mais especificamente, a referência mais antiga a elementos de FC foi em Redenção (TV Excelsior, 1966), na qual se apresenta um transplante de coração no Brasil, feito que só seria de fato realizado pela medicina nacional em maio de 1968, após o término da novela.

Outro transplante, dessa vez de cérebro, foi o motivo condutor de Os Diabólicos, exibida pela TV Tupi em 1969 (Fernandes 114). No mesmo ano, foi exibida pela TV Excelsior Os Estranhos, novela escrita por Ivani Ribeiro. Na época, assuntos espaciais estavam em voga e, a partir disso, criou-se a história de um escritor (interpretado pelo jogador de futebol Pelé) que entrava em contato com alienígenas dourados do planeta Gama Y-12 (Fernandes 119).

 

Em 1970, foi ao ar pela TV Tupi Super Plá, novela de Bráulio Pedroso que narrava a história de um garoto que perde sua genialidade ao levar um tombo e, ao se tornar adulto, recupera sua excepcional inteligência sempre que toma o refrigerante que dá título à obra. A iconografia da ficção científica voltou às telenovelas em 1984 com Transas e Caretas, escrita por Lauro César Muniz e exibida no já consolidado horário das 19h da TV Globo. Transas e Caretas apresentava o futuro por meio do personagem Tiago (José Wilker), que vivia em um apartamento moderno, cheio de máquinas e até mesmo um robô-mordomo. A novela, contudo, não fez muito sucesso.

 

Nos anos 1990, a própria TV Globo arriscou mais inserções de FC nas telenovelas com: Fera Ferida (1993), livre adaptação do conto A Nova Califórnia (1910) e de outras obras de Lima Barreto, trazendo os motivos da Alquimia e da ganância despertada pela possibilidade de transformar ossos humanos em ouro; Olho no Olho (1993), com o confronto entre os paranormais Alef (Felipe Folgosi) e Fred (Nico Puig), representando, respectivamente, o bem e o mal; e O amor está no ar (1997), em que a jovem Luísa (Natália Lage) acredita entrar em contato com seres extraterrestres e se apaixona por um pretenso ET, interpretado por Eriberto Leão. Com exceção da primeira, em que o elemento de FC servia mais como pano de fundo, essas novelas também não conseguiram agradar o público.

 

Por essa rejeição do telespectador, há casos em que a ideia de abordar FC em novelas pode gerar algum receio. A dramaturga Glória Perez, por exemplo, costuma agregar a suas tramas algumas polêmicas que envolvem o discurso científico. Em sua obra Barriga de Aluguel, exibida pela Globo em 1990, o tema trazido à tona foi a inseminação artificial e suas conseqüências legais, quando um casal resolve “alugar” o útero de uma jovem para que esta lhes gerasse um filho. A novela foi proposta em 1984, contudo a emissora vetou sua produção naquela época. “‘Que história louca, isso não existe’, diziam. Tiveram medo. Barriga de Aluguel ficou seis anos engavetada, sob acusação de ser ficção científica”, conta a escritora no livro Autores – histórias da teledramaturgia (Memória Globo 439).

 

Anos depois, já como uma das autoras mais reconhecidas da teledramaturgia nacional, Glória Perez escreveu O Clone, que foi ao ar em 2001, também pela Globo. Desta vez a clonagem humana foi o fio condutor do romance do casal protagonista, interpretado por Murilo Benício e Giovanna Antonelli. Interessante perceber que a dramaturga, ao mesclar os elementos da FC com as restrições da cultura mulçumana como fatores-obstáculos ao happy end do casal principal, conseguiu grande aceitação do público.

 

Em sua nova safra de telenovelas, a TV Record também recorreu à ficção científica. Em 2004, a emissora reiniciou suas produções em telenovelas (paradas desde 2001) apresentando Metamorphoses, em que a protagonista passa por um transplante de face e assume a identidade da irmã morta em um acidente. Mas Os Mutantes (2007) e Caminhos do Coração (2008) foram novelas mais rentáveis para a emissora. Escritas por Tiago Santiago, uma novela era a continuação da outra, totalizando 483 capítulos. Inicialmente, a ideia era criar um romance folhetinesco com toques de FC, mas logo os mutantes ganharam mais espaço por se destacarem diante do público infanto-juvenil. O sucesso dos humanos com poderes especiais oriundos de mutação genética chegou a ameaçar a hegemonia da TV Globo – em 06 de fevereiro de 2008, passou um capítulo inteiro liderando a audiência. O êxito das tramas fez com que houvesse uma terceira fase, chamada Promessas de amor, exibida em 2009, mas esta revelou que a fórmula já estava desgastada.

 

Pode-se perceber que, ainda que a FC seja um elemento presente nas telenovelas brasileiras desde os anos 1960, sua utilização tem sido esporádica e, na maioria das vezes, utilizada como complemento para o romance da trama principal. Contudo, é possível perceber que a TV Globo, nos últimos anos, tem dado mais atenção a esse gênero, recorrendo a ele principalmente no horário das 19h, já que, como foi visto anteriormente, é um espaço mais propício para experimentações e ousadias narrativas. Curioso que a FC, um gênero tão popular e com longo histórico nos campos da arte e do entretenimento, configure uma “novidade” ou “ousadia narrativa” na telenovela brasileira. Até porque, na maioria das vezes, a iconografia incorporada pelas telenovelas brasileiras é mera citação ou simulacro de narrativas de FC estrangeiras (clonagem, alienígenas, personagens dos quadrinhos como X-Men), algumas delas de caráter reacionário ou conservador, por sinal.

 

Máquinas e ETs nas novelas das sete

Nos últimos dez anos, das 17 novelas exibidas pela Globo no horário das sete, cinco trouxeram algum elemento de FC. Esses números mostram que, apesar de continuar pontual, a ficção científica se fez proporcionalmente mais presente nas telenovelas da emissora. Em duas delas, contudo, a FC envolveu apenas núcleos secundários e, logo que se constatou a rejeição do público (queda de audiência), perderam seu espaço.

 

Em Começar de novo (2004), por exemplo, a família Estrela, interpretada por Guilherme Piva (pai), Betty Gofman (mãe) e Luma Costa (filha), apresentava um comportamento estranho, causando a desconfiança do menino Pepê (Pedro Malta), que acreditava que os Estrela eram extraterrestres. A nave da família chegou a ser criada por computação gráfica. Piva e Gofman, contudo, foram afastados e apenas a filha, Márcia Estrela, continuou na novela. Interessante também outra referência à FC: o cachorrinho de Pepê se chamava Spock, famoso personagem de Star Trek.

 

Bang Bang (2005) teve seu toque de ficção científica por meio do personagem Aquárius Lane (Ney Latorraca), um inventor cheio de ideias mirabolantes, muito avançadas para o contexto da narrativa da novela como, por exemplo, uma “máquina de voar”. Coadjuvante, Aquárius fazia parte do núcleo cômico da trama.

 

No caso de Kubanacan (2003), Tempos Modernos (2010) e Morde e Assopra (2011), a FC tem relação direta com personagens centrais. Em cada caso, a resposta do público apresentou-se de forma diferente, porém sempre com certo “estranhamento”.

 

Kubanacan

A pequena ilha caribenha de Kubanacan sofre com a política local: corrupção, desemprego e a ditadura militar. As coisas parecem melhorar depois que o General Carlos Camacho (Humberto Martins), após deflagrar uma rebelião, assume o governo. Mas ele apenas prossegue a ditadura. Alguns anos depois, um homem misterioso e sem memória que literalmente cai do céu vai parar em uma vila de pescadores da ilha e é reconhecido pelos nativos como Esteban Maroto (Marcos Pasquim). Envolvido com várias mulheres, principalmente Marisol (Danielle Winits) e Lola (Adriana Esteves), Esteban (que se revela um esquizofrênico ao longo da trama) logo percebe que seu passado pode estar relacionado com os acontecimentos estranhos da ilha.

 

A novela de Carlos Lombardi, exibida entre maio de 2003 e janeiro de 2004, foi a trama com maior número de participações especiais, superando mesmo o número de atores fixos no elenco. Isso, somado ao estilo ágil do texto do autor, confundiu o público, que tinha dificuldades em acompanhar a telenovela. Mesmo assim conseguiu manter a média de 35 pontos de audiência[4], um bom resultado para o horário, principalmente porque Lombardi acredita que a tendência é que a novela se fragmente aos diversos públicos. O autor declarou que pretendia fazer de Kubanacan uma novela experimental, voltada para os jovens e com um fundo de ficção científica (Memória Globo 290). Ocorre que, apesar de suas pretensões e audiência, a emissora se queixava dizendo que “a novela era ficção científica demais” (Memória Globo 298).

De fato, a amnésia e a esquizofrenia de Esteban foram justificadas por Lombardi como conseqüências de uma viagem no tempo realizada pelo protagonista – que na verdade se chamava León e era descendente de Esteban. Enquanto isso, o verdadeiro Esteban era um agente policial que, aproveitando o surgimento de León, trabalhava secretamente para impedir a detonação de uma bomba nuclear na ilha. Essa confusão de identidades também confundiu o público até o último capítulo, quando tudo foi desvendado. Lombardi acredita que o público da novela, mesmo estranhando os elementos de FC presentes na obra, permaneceu fiel aos temas clássicas do melodrama: “Kubanacan, apesar da temática que beirava a ficção científica, tinha como base uma história de amor impossível e uma luta pelo poder, ou seja, tinha ambientes e personagens não-convencionais com algumas questões convencionais” (Memória Globo 294).

 

Tempos Modernos

Leal Cordeiro (Antônio Fagundes) é um empresário que decide construir Titã, um edifício inteligente controlado pelo supercomputador Frank, com quem frequentemente conversa sobre seus projetos e dúvidas. Porém, Hélia Pimenta (Eliane Giardini), uma antiga paixão de Leal, é contra a construção do prédio. Tal disputa acaba envolvendo familiares e funcionários dos dois personagens, incluindo aqueles que desejam apenas a fortuna do protagonista.

 

Tempos Modernos (exibida entre janeiro e julho de 2010) já revelava no título sua escolha por temas típicos da modernidade, como computação e robótica. Curioso sobre como a interação entre humanos e tecnologia pode render situações cômicas[5], o autor Bosco Brasil escolheu como título provisório da sua trama Bom dia, Frankenstein, o que demonstrava algumas de suas referências ou inspirações. O supercomputador Frank, cujo visual foi inspirado em HAL-9000, do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço (dir. Stanley Kubrick, 1968), deveria ser o elo entre o telespectador e a temática tecnológica da obra, aproveitando a maior liberdade do horário das 19h. “É uma grande brincadeira da novela (…). É o ponto de vista do telespectador, quase um jogo metalinguístico (…). O Frank é um convite ao telespectador para interagir e interferir nas histórias”. Tanto que o robô ganhou um espaço na web, o “Blog do Frank”[6], com a primeira postagem dia 8 de janeiro, três dias antes da estreia da novela.

 

Deodora, interpretada por Grazielli Massafera, apesar de humana, também nasceu da FC: foi inspirada nos personagens da trilogia Matrix. Com um jeito “duro”, quase sem expressão, chegou-se a cogitar que a chefe de segurança do Titã fosse um andróide. Essa hipótese, contudo, não foi confirmada. Pelo contrário, aos poucos foi se tornando mais humana, na busca pela aceitação do público. Assim como para Deodora, a rejeição do público foi determinante para o destino do robô Frank: no meio da trama, ele perde a voz e praticamente some da novela. Tais tentativas não impediram que a audiência do horário despencasse. A média da novela foi de 25 pontos, muito aquém do desejado pela emissora.

 

Morde e Assopra

No Japão, a paleontóloga Júlia (Adriana Esteves) pesquisa fósseis para sua tese de doutorado, mas, após um terremoto, perde todo o material descoberto. Lá, encontra Ícaro (Mateus Solano), um cientista brasileiro que lhe revela que existem evidências de um grande sítio arqueológico em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Júlia vai ao local e descobre que os fósseis estão na fazenda de Abner (Marcos Pasquim), com quem desenvolve uma relação de amor e ódio. Ícaro, por sua vez, finaliza seu projeto de construir um robô à imagem de sua esposa (Flávia Alessandra) dada como morta.

 

A novela, escrita por Walcyr Carrasco, estreou em 21 de março de 2011, estando, portanto, ainda em exibição. Mesmo em tão pouco tempo, já é possível traçar um breve panorama do seu impacto sobre o público. A trama tem marcado a média de 24 a 27 pontos de audiência. Segundo sites especializados[7], os robôs são a principal causa da rejeição, além de Naomi, a andróide interpretada por Flávia Alessandra, Ícaro possui um cachorro-robô e Zariguim, um robozinho inteligente que é seu ajudante e confidente. Para alavancar a audiência, o autor trouxe de volta a Naomi “verdadeira” – tornando-a uma das vilãs – e deu um fim à sósia andróide (que “queimou” no mesmo dia em que a humana retornou). Outra solução percebida foi a transferência de Zariguim para o núcleo infantil da trama[8]. Carrasco, entretanto, negava o corte de tais personagens de sua trama e previa um confronto entre as “Naomis” de Flávia Alessandra[9].

 

Considerações finais

A FC ainda tem dificuldades em se inserir na teledramaturgia nacional. O que ocorre é que este gênero vai de encontro ao processo de verossimilhança exigido pelos telespectadores de telenovela, que sempre buscam identificação com os personagens e tramas que assistem. Nesse caso, a história narrada pode ser reconhecida como “não-real”, mas deve ser condizente com a realidade e o imaginário da audiência. O público médio parece não aceitar, portanto, elementos estranhos a seu cotidiano (como robôs e extraterrestres), ainda que eles não sejam totalmente descartados pelo discurso científico, a menos que estejam completamente enredados nas tramas tipicamente folhetinescas, como no caso de Barriga de Aluguel, O Clone e Kubanacan. Contudo, visando alcançar principalmente o público jovem e utilizando-se da convergência e da interação proporcionadas pela internet, pode-se constatar que as características que tipificam as novelas das 19 horas fazem do horário, indubitavelmente, o espaço ideal às tentativas de inserção de FC nas telenovelas brasileiras. A questão ainda é dosar isso com a vontade da audiência.

 

Referências Bibliográficas

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BALOGH, Anna Maria. O discurso ficcional na TV: sedução e sonho em doses homeopáticas. São Paulo: EDUSP, 2002.

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[i] Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo, mestrando em Comunicação (PPGCOM-UFJF).

[ii] Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo, mestranda em Comunicação (PPGCOM-UFJF).

[1] Disponível em: <http://www.teleco.com.br/pnad.asp>. Acesso: 15/04/2011.

[2] Suppia toma por base o conceito de novum, proposto por Darko Suvin, para analisar o efeito de reconhecimento da FC. Nesse caso, novum significa quaisquer elementos narrativos, de aparelhos a localidade espaço-temporal,“que venha(m) a introduzir algo novo ou desconhecido no ambiente empírico tanto do autor quanto do leitor implícito” (Suppia 418). Deste modo, o leitor/espectador despertaria a noção de que aquela história se passa em um universo diferente do seu. Contudo, na FC tais elementos exigem uma explicação científica, ao contrário da fantasia (Suppia 420).

[3]Pulp magazines eram revistas publicadas principalmente nos Estados Unidos durante a primeira metade do século XX, trazendo histórias de variados gêneros. Receberam este nome devido à polpa de madeira (wood pulp) da qual se originava o papel de baixo custo deste tipo de revista.

[4] Ver em: <http://ciatudo.blogspot.com/2010/06/audiencia-detalhada-media-geral-de.html>. Acesso em: 20/04/2011.

[5] Ver em: <http://temposmodernos.globo.com/Novela/Temposmodernos/Bastidores/0,,AA1707356-17896,00.html>. Acesso em 20/04/2011.

[6] Ver em: <http://temposmodernos.globo.com/platb/blog-do-frank/>. Acesso em: 20/04/2011.

[7] A exemplo, ver em: <http://ocanal.org/2011/04/15/robos-vao-desaparecer-de-morde-assopra/>;  <http://diversao.terra.com.br/tv/noticias/0,,OI5086379-EI17635,00-Robos+nao+agradam+e+Morde+Assopra+patina+na+audiencia.html>. Acesso em: 23/04/2011.

[8]O robô fugiu da casa de seu criador Ícaro, escondendo-se na fazenda de Abner com a menina Tonica (Klara Castanho). Ver em: <http://diversao.terra.com.br/tv/noticias/0,,OI5092069-EI17635,00-Morde+Assopra+robo+Zariguim+foge+para+a+roca+e+fica+com+Tonica.html>. Acesso em: 23/04/2011.

[9] Ver em: <http://audienciamundotv.wordpress.com/2011/04/16/robos-nao-vao-sair-de-morde-e-assoprasegundo-o-autor/>. Acesso em: 23/04/2011.

 

Zanzalá – Estudos de Ficção Científica | n.1 | vol. 1 | 1o sem. 2011 | ISSN 2236-8191

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