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Asma: crônica, porém, controlável

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Um garoto está correndo durante a educação física de seu colégio enquanto joga uma partida de futebol. A bola vem em sua direção e, ao realizar um esforço maior, o garoto de prontidão pede ao professor para sair e vai até sua mochila. Com falta de ar extrema e com um chiado em seu peito ao fazer força para encher os pulmões, o garoto pega uma “bombinha”, a balança e a põe na boca. Isso é rotineiro para crianças com asma, bem como para pessoas de qualquer idade nas mais diversas situações em que a doença se apresenta.

A asma é uma das condições crônicas mais comuns e que afeta tanto crianças quanto adultos, sendo um problema mundial de saúde e acometendo cerca de 300 milhões de indivíduos no mundo. Estima-se que no Brasil 20 milhões de pessoas sejam asmáticas. Em 2011, foram registradas pelo DATASUS 160 mil hospitalizações em todas as idades, dado que colocou a asma como a quarta maior causa de internações naquele ano. O custo do tratamento da asma é maior para aqueles que têm a doença controlada, uma vez que há correlação entre a importância que a família dá à doença e a gravidade do quadro.

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas baixas, podendo ter sua extensão da traqueia até os brônquios e bronquíolos, mais usualmente com predominância nos bronquíolos. Entre as células inflamatórias presentes, destacam-se os mastócitos, eosinófilos, linfócitos T, células dendríticas, macrófagos e neutrófilos, que comumente invadem o tecido, além da presença de colágeno. Algumas citocinas também têm relevância na patogenia da asma, além de mediadores bastante conhecidos, como o óxido nítrico e a histamina. Esse processo inflamatório do trato respiratório tem como resultado as manifestações clínico-funcionais características da doença: a contração do músculo liso brônquico, o edema da mucosa e a hipersecreção. Ou seja, o músculo que circunda os brônquios se contrai, diminuindo seu calibre e aumentando a resistência a passagem do ar. Além disso, durante esse processo inflamatório, há edema na parede brônquica e excesso de secreção local, os quais também contribuem para a redução da luz brônquica.

A asma está relacionada à genética e a processos alérgicos, sendo que a resposta determinante para o aparecimento de sintomas é a hiper-reatividade das vias aéreas. Em outras palavras, alguma substância presente no ar e que é inalada pelo indivíduo gera resposta exacerbada no mesmo, contraindo suas vias respiratórias inferiores de maneira contundente. Alguns dos fatores notórios que desencadeiam a asma são: alergênicos, exercício físico, névoa, poeira e frio, entre outros.

Alguns dos sintomas mais clássicos da asma são os sibilos (chiados) ao respirar, a dispneia (falta de ar) e a tosse de difícil expectoração. Esses sintomas costumam piorar à noite e no início da manhã, o que pode fazer com que muitos asmáticos acordem nesse momento. Além disso, o paciente com dificuldade de encher os pulmões pode apresentar hiperventilação (fazendo muitas incursões respiratórias por minuto) e hiperinsuflação (muito ar aprisionado no aparelho respiratório) em alguns casos.

Após confirmação do diagnóstico de asma, o principal objetivo da terapia é a manutenção e controle da doença para evitar possíveis exacerbações e crises. Vale dizer que o médico deve analisar e classificar o paciente quanto à gravidade da asma. São levados em consideração critérios como a tolerância ao exercício físico, possíveis hospitalizações, o uso de beta agonistas por semana e a necessidade de ventilação mecânica.

Dentre os fármacos prescritos no tratamento da asma leve estão os broncodilatadores, que nada mais são do que agonistas dos receptores beta 1 adrenérgicos (receptores autonômicos simpáticos) encontrados nos bronquíolos e que promovem alívio sintomático e momentâneo da doença. Esses são utilizados para a asma em estágio leve e inicial, apenas quando o paciente sentir necessidade. Caso não haja melhora do quadro com o uso de broncodilatadores, estratégias diferentes são adotadas. Estas estratégias incluem a administração crônica de corticóides inalatórios, que inibirão a inflamação de maneira duradoura e, portanto, serão de extrema importância para o controle em longo prazo da doença. Ademais, pode ser instituído o uso de beta agonistas de longa duração, que reduzem o tempo de remissão da doença quando associados aos corticóides inalatórios. Para asmáticos graves e moderados, o médico deve elaborar plano de ação para o paciente ao menos reconhecer os sintomas e adotar medidas para combater uma crise severa quando necessário.

Sendo assim, é importante salientar a necessidade de evitar o contato com fatores desencadeadores de crises, como a poeira, por exemplo, assim como a manifestação de doenças respiratórias, como resfriados, que podem ser prevenidos simplesmente pela limpeza adequada do ambiente, além da adoção de cuidados com a saúde em geral. Há correlação entre a congestão nasal e asma, uma vez que essa congestão, característica dos resfriados, é sinal de alerta, pois sugere presença de inflamação e edema nas vias aéreas superiores e, por consequência, possivelmente nas vias inferiores dos pacientes. Também há correlação com quadros de rinite alérgica.

Por fim, vale ressaltar que o tratamento da asma se dá de maneira congruente entre médico e paciente, pois este tem papel ativo na sua terapia. É dele a responsabilidade de seguir o tratamento farmacológico adequadamente, de evitar os fatores desencadeadores, de estar atento aos sinais que corpo demonstra e de saber sinalizar ao médico sua evolução para que o tratamento seja estabelecido de maneira correta, precisa e satisfatória.

A asma é controlável, cuide-se!

Referências bibliográficas:

IV Brazilian Guidelines for the management of asthma. J BrasPneumol, v. 32 Suppl7, p. S447-74, 2006.

KASPER, D.L; et al. Medicina Interna de Harrison. 19ª ed. Nova Iorque. McGraw Hill Education. 2017.

 

Questões:

1. UNIFESP – Adolescente de 12 anos, com diagnóstico de asma, faz uso de beclometasona spray 750mcg/dia há 3 meses. Procura serviço de atendimento ambulatorial referindo que há 3 semanas vem apresentando tosse noturna 2-3x/semana e necessidade de broncodilatador de resgate 3-4x/semana durante o dia. Qual é a conduta para esse paciente?

a) Aumentar a dose para 1250 mcg/dia.

b) Solicitar radiografia simples de tórax e seios da face, e realizar prova de função pulmonar.

c) Iniciar a associação de corticóide inalatório com broncodilatador de longa duração, diariamente, em substituição à beclometasona.

d) Iniciar broncodilatador de longa duração e anti-histamínico em substituição à beclometasona.

e) Encaminhar para fisioterapia respiratória e associar prednisolona 1 mg/kg/dia para manutenção do tratamento.

 

2. HOSPITAL DAS CLÍNICAS DO PARANÁ – Em relação à anamnese de criança com asma, identifique como V ou F as seguintes afirmativas:

( ) Os episódios de sibilância são contínuos e duradouros, sem fatores de melhora;

( ) A tosse predominante é produtiva;

( ) Falta de ar aos exercícios raramente está presente, sendo relatada somente nos casos de asma classificados como grave persistente;

( ) Sintomas nasais concomitantes são frequentes, tais como obstrução e prurido;

( ) As crises de tosse ocorrem principalmente à noite e ao amanhecer, sendo esse um dos principais sintomas do período intercrítico.