UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

Lesão intestinal

Você está em: Projeto de Extensão > Sistema gastrointestinal > Lesão intestinal

Continuando a abordar o tema do texto anterior, no dia 6 de Setembro de 2018, um candidato à presidência da República sofreu um ataque realizado com arma branca na cidade de Juiz de Fora, durante um ato de campanha. O golpe atingiu o abdômen, perfurou a parede abdominal e o intestino grosso, atingiu três pontos do intestino delgado e lesou a veia mesentérica superior (importante vaso que drena o sangue de órgãos como intestino delgado, estômago e pâncreas).

O sistema gastrointestinal é responsável por conduzir o alimento dentro do corpo, digerindo-o e permitindo sua absorção de modo a fornecer nutrientes e água às células do organismo. Em geral, a dieta humana é composta por macromoléculas, as quais não atravessam as membranas celulares. Assim, além de captar o alimento ingerido, o sistema gastrintestinal reduz a refeição fisicamente e quimicamente em partícula pequenas, passíveis de absorção pelo epitélio intestinal, através de uma intrincada rede de interações entre enzimas, hormônios, neurotransmissores e parácrinos. Neste texto, direcionaremos o enfoque para as lesões do intestino e suas repercussões clínicas.

As lesões de abdômen podem ser subdivididas em diversas classificações, as quais são úteis para identificar e descrever cada caso. Como definição, o trauma abdominal resulta de uma agressão violenta e súbita à tal região do corpo, tendo causas de origem mecânica, química, entre outras. Em relação ao tipo de estrutura danificada, a lesão pode ser em órgão sólido (fígado, baço, pâncreas), na parede abdominal, em órgão oco (intestino, estômago) e vascular, sendo que as três últimas ocorreram no caso do candidato. No caso do trauma intestinal, a lesão também pode ser do tipo fechado, em que o impacto direto não chega a romper a pele ou a parede abdominal (muito comum em acidentes automobilísticos) ou do tipo penetrante (abertos), através do uso de arma branca ou armas de fogo, por exemplo. Classificar corretamente uma lesão é fundamental para que seja instituído o tratamento mais eficiente, o mais rápido possível.

A principal complicação imediata de uma lesão perfurante no intestino é a liberação de seu conteúdo na cavidade abdominal, isto é, de substâncias químicas digestivas, como o suco entérico e o suco pancreático, quando o trauma é no intestino delgado, e o vazamento de bolo fecal e de excreções na ocorrência de lesão de intestino grosso. Isso leva a um quadro de peritonite. O peritônio é uma membrana serosa que reveste a cavidade e os órgãos abdominais, sendo a peritonite, portanto, a irritação e a inflamação dessa membrana. Esse quadro pode disseminar infecções para vários órgãos, já que o conteúdo intestinal, juntamente com os micro-organismos próprios dessa região, é liberado, podendo levar à formação de abscessos (acúmulos de pus em tecidos, em decorrência de uma infecção ou inflamação) e à infecção multissistêmica, quando não tratado.

Entre as complicações em longo prazo está a deficiência digestiva que pode suceder um trauma deste tipo. O intestino lesado diminui sua motilidade e passa a não digerir adequadamente os nutrientes. Isso prejudica a absorção, podendo levar a desnutrição.  O déficit de motilidade também pode causar obstrução intestinal, já que sem a mobilidade, o bolo alimentar não se movimenta através do trato digestivo, e acaba por impactar e obstruir a passagem dos alimentos. As outras complicações incluem: estenose intestinal, fibrose e necrose tecidual.

O tratamento nesse caso é principalmente cirúrgico, com o objetivo de estancar o sangramento, limpar o ferimento e toda a área do peritônio em contato com o conteúdo intestinal que foi vazado, para prevenir infecções e a formação de abscessos. No caso em questão, foi realizada uma laparotomia exploratória, cirurgia na qual se realiza uma incisão extensa no abdômen, para identificar e pesquisar todas as áreas lesadas, restaurar os ferimentos e estabilizar hemorragias.

Por fim, vale ressaltar que o trauma abdominal ainda representa uma causa importante de morbimortalidade no Brasil. O reconhecimento deste tipo de trauma requer atenção, para que a vítima seja encaminhada para um serviço de saúde o mais rápido possível, pois o tratamento imediato pode evitar futuros danos.

Referências bibliográficas:

DAUTERIVE, A.H.; FLANCBAUM, L.; COX, E.F. Blunt intestinal trauma. A modern-day review. Annals of Surgery, Beverly, MA, v. 201, n. 2, p. 198-203, fev., 1985.  

HALL, John. Guyton & Hall – Tratado de fisiologia médica. 13.ed. Jackson, Missisipi: Elsevier, 2017.

REVELL, M.A.; PUGH, M.A.; MCGHEE, M. Gastrointestinal Traumatic Injuries: Gastrointestinal Perforation. Critical Care Nursing Clinics of North America, Maryland Heights, MO, v. 30, n. 1, p. 157-166, dez., 2017.

RIBAS-FILHO, J. M. Trauma abdominal: estudo das lesões mais frequentes do sistema digestório e suas causas. ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva, São Paulo v.21, n. 4, p. 170-174, out./dez., 2008.

SANTOS JUNIOR, J.C.M. Lesões Penetrantes traumáticas e Iatrogênicas do Intestino Grosso. Revista brasileira de coloproctologia, Rio de Janeiro, v. 22, n. 2, p. 121-132, abr./jun., 2002.