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Doenças Inflamatórias Intestinais: Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa

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As Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) são doenças crônicas do intestino, de etiologia ainda não totalmente esclarecida. Impactam de maneira considerável a qualidade de vida dos pacientes, sendo um problema de saúde relevante em todo o mundo. As formas mais comuns de DII são a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa Idiopática (RCUI).

Países como EUA, Inglaterra e Itália estão entre os países de maior incidência dessa doença, mas isso não significa que outras regiões do mundo estejam livres da mesma. Ainda que o Brasil não seja um local de alta incidência, acredita-se que o número de casos de DII esteja aumentando, uma vez que as mudanças dos hábitos alimentares surgidas desde a Revolução Industrial vêm mudando o perfil de doenças relacionadas à alimentação. Esses fatores contribuem para o surgimento de novas pesquisas na área e também para o estímulo à notificação e diagnóstico correto. Em países desenvolvidos, tem-se uma proporção de prevalência de 50:100.000, já na cidade de São Paulo a proporção é de cerca de 15:100.000.

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal de origem desconhecida, que se caracteriza por acometimento assimétrico, transmural e com lesões salteadas em qualquer parte do trato gastrointestinal, desde a boca até o ânus. Os segmentos comumente mais acometidos são o íleo, o cólon e a região perianal, podendo ocorrer fístulas. Os sintomas mais comuns são diarreia crônica, sangramento nas fezes, perda de peso e dor abdominal. Ao exame clínico verifica-se febre, palidez, massas abdominais e fissuras anais. Acredita-se que a genética esteja envolvida na doença, sendo comum a incidência dentro de uma mesma família. Outro fator importante é o contato com determinados antígenos (vírus e bactérias) e fatores ambientais, como o estilo de vida (hábitos alimentares e tabagismo). Além disso, nota-se forte relação entre a doença de Crohn e distúrbios do humor, como ansiedade e depressão, o que corrobora ainda mais o caráter multifatorial da doença e a relação intrínseca do intestino com o sistema nervoso central. A colonoscopia com biópsia de pelo menos 5 sítios é hoje a principal propedêutica diagnóstica.

Já a RCUI é uma doença do reto, obrigatoriamente, e por vezes do cólon, sendo caracterizada por inflamação da camada mucosa de causa desconhecida. Assim como a DC, a RCUI é marcada por componente hereditário e também imunológico, podendo coexistir com outras doenças de caráter autoimune. Os sintomas são bastante semelhantes com os de Crohn, como a diarreia crônica, dor abdominal, sangue nas fezes, por vezes muco, e febre. Um paralelo curioso entre ambas as doenças é a relação com o tabagismo, que é mais frequente no paciente com Crohn. Enquanto cessar o hábito de fumar pode causar recidiva do quadro em remissão de retocolite, as crises na DC podem ser reduzidas.

Para diagnóstico diferencial e confirmação da RCUI, é necessário realizar colonoscopia em que se veja acometimento apenas de mucosa, lesões contínuas, ascendendo do reto até as porções colônicas, sem fístulas e sem acometimento do intestino delgado.

O tratamento de ambas as doenças é complexo, tanto clínico quanto cirúrgico em algumas situações. O tratamento clínico é baseado em corticosteroides, antibióticos e imunossupressores, e tem por objetivo remissão clínica, melhora da qualidade de vida e manutenção da remissão. O tratamento cirúrgico é necessário para tratar obstruções, complicações supurativas e em casos nos quais a doença seja refratária ao tratamento medicamentoso. O uso de ácidos graxos do tipo Ômega 3 e de probióticos ainda não é referendado pela literatura, mas há suposições que os primeiros tragam benefícios por inibir a produção de eicosanoides e outros derivados do ácido araquidônico, vitais para a síntese de prostaglandinas que ocorre principalmente na inflamação; enquanto os probióticos evitariam diarreias e eventuais crises da doença, repondo a microbiota intestinal. A cessação do tabagismo é aconselhada para ambos, devendo alertar o paciente com retocolite que o quadro pode ser agravado.

Faz-se necessário entender essas doenças por conta de sua crescente incidência, de maneira que se possa conduzir o maior número de pessoas para seu diagnóstico e aumentar sua notificação. Os centros de referência devem abordar a doença em sua totalidade, tratando também as comorbidades concomitantes e o aspecto psicológico com o intuito de articular e abordar as melhores estratégias terapêuticas, bem como estimular as pesquisas sobre o assunto.

Referências bibliográficas:

HALL, J. Guyton & Hall – Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Jackson, Missisipi: Elsevier, 2017. 1176 p.

LIMA, F.D.V. et al. Oscilação do humor em pacientes com doença de Crohn: incidência e fatores associados”. Rev Assoc Med Bras. v. 58, n. 4, p. 481-488, 2012.

MARANHÃO, D.D.A. et al. Características e diagnóstico diferencial das doenças inflamatórias intestinais. J Bras Med. v. 103, n. 1, p. 9-15, 2015.

 

Questões:

1) Em relação às manifestações clínicas das doenças inflamatórias intestinais, assinale a opção incorreta:

a) Sangramento retal mais comum na colite ulcerativa.

b) Inflamação transmural mais comum na retocolite.

c) Doença perianal mais comum na doença de Crohn.

d) Obstrução intestinal mais comum na doença de Crohn.

 

2) Em relação às doenças inflamatórias intestinais, marque a alternativa correta:

a) A histopatologia fornece diagnóstico de certeza e diferencia RCUI de doença de Crohn na grande maioria dos casos.

b) Os corticosteroides sistêmicos não estão indicados como tratamento de manutenção.

c) Acometimento transmural da parede intestinal é uma das características da retocolite ulcerativa.

d) Perda de peso e anemia são mais comuns na retocolite ulcerativa do que na doença de Crohn