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Doença Hepática Gordurosa não Alcoólica

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O fígado é o maior órgão do corpo, pesa cerca de 1,5kg e é extremamente importante para o funcionamento do corpo, pois realiza mais de 500 funções essenciais para o metabolismo e, portanto, vitais para a nossa sobrevivência. Os hepatócitos são o principal tipo celular do fígado e representam aproximadamente 80% de sua massa, sendo responsáveis pela maior parte das funções deste órgão. Dentre as principais funções do fígado estão: (1) secreção de bile, a qual participa da digestão de gorduras e na excreção de produtos tóxicos; (2) captação do processamento de diversas substâncias, como nutrientes, fármacos, toxinas; (3) síntese de proteínas (albumina, fatores de coagulação, transportadores hormonais, entre outros); (4) regulação do metabolismo energético e de nutrientes; (5) armazenamento de substâncias (vitaminas A, D, E, K, ferro, ácido fólico, glicogênio); (6) função endócrina (regulação hormonal de insulina e glucagon); (7) controle imunológico, funcionando como um “filtro” para o sangue. Com isso, percebe-se a importância desse órgão, o qual, quando acometido por processo de injúria, pode gerar sérios danos ao paciente.

Nesse contexto, a esteatose hepática é um tema cada vez mais presente nas rodas de conversa entre os brasileiros, também sendo chamada de doença hepática gordurosa. Isso se deve a prevalência cada vez maior dessa doença na população em geral, podendo atingir todas as idades. Estima-se que aproximadamente 25% da população mundial possua algum grau de esteatose, sem distinção de gênero ou etnia, estando a mesma relacionada aos hábitos de vida da população. No Brasil, esse número chega perto de 30%, percentual compatível com o de países ocidentais mais desenvolvidos. É um distúrbio caracterizado pelo acúmulo de moléculas de gordura nos hepatócitos e pode ser classificado em dois grupos distintos: alcoólica, causada pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas, e não alcoólica, causada por outros fatores de risco.

A esteatose não alcoólica, também denominada Doença Hepática Gordurosa não Alcoólica (DHGNA) geralmente evolui de forma crônica e silenciosa, muitas vezes sem que ocorram manifestações de sintomas. Isso a torna perigosa, na medida em que a doença pode progredir para as formas mais graves, como esteato-hepatite, cirrose e até carcinoma hepatocelular, conhecido popularmente como câncer de fígado. A progressão da doença está associada a um processo inflamatório crônico no órgão, o que gera morte celular e deposição de material fibroso, tornando-o rígido e prejudicando sua função.

Os fatores de risco para a DHGNA podem ser divididos em primários e secundários. Os fatores de risco primários são obesidade, sobrepeso, diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia (desregulação dos níveis de colesterol e triglicérides), os quais representam as principais causas para o desenvolvimento da esteatose. Os fatores de risco secundários incluem o uso de anabolizantes esteroides, de medicamentos (amiodarona, corticoesteroides, estrógenos, tamoxifeno), de toxinas (produtos químicos), entre outros. Outras doenças também podem predispor ao desenvolvimento da esteatose, tais como a síndrome dos ovários policísticos, hipotireoidismo e várias outras. Sendo assim, a esteatose nem sempre resulta de um dano direto ao fígado, sendo que na maioria das vezes desenvolve-se como efeito secundário de outras doenças metabólicas.

O diagnóstico da DHGNA normalmente é incidental durante a condução de exames de rotina, já que não necessariamente desencadeia sintomas. O exame clínico pode direcionar o médico a pensar em possíveis alterações fisiológicas, principalmente obesidade central (alto índice de gordura acumulada na região do abdome) e diabetes. Exames laboratoriais e de imagem (ultrassonografia de abdome) fornecem fortes indícios da doença, mas o diagnóstico só é fechado com a realização de biópsia hepática (nem todos os casos têm indicação para biópsia, a qual só é feita em casos específicos). O tratamento varia de acordo com o grau de acometimento hepático e os fatores de risco presentes em cada caso. Ele envolve o controle das causas primárias, com incentivo à perda de peso e à prática de atividades físicas, revisão e adequação de medicamentos utilizados, tratamento de doenças associadas, redução do consumo de álcool. Todas essas medidas devem ser orientadas e acompanhadas por profissional de saúde especializado. O prognóstico também varia de acordo com cada caso e com a adesão ao tratamento.

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