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A Doença Renal Crônica pelo mundo e sua associação com a Diabetes Mellitus

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Algumas doenças sempre estão sendo comentadas na televisão, na internet e nas conversas do dia a dia. Porém, ao passo que a população sabe da existência de tais patologias, pouco sabe sobre como elas ocorrem, como elas afetam a saúde dos indivíduos e como se fazer para preveni-las. Pensando nisso, esse texto irá enfocar a Doença Renal Crônica (DRC) e sua ligação com a Diabetes Mellitus, duas das doenças mais prevalentes no Brasil e no mundo.

Fazendo uma breve abordagem sobre o funcionamento dos rins, esse órgão serve para filtrar e excretar as mais variadas substâncias que estão em nosso sangue, sejam elas substâncias tóxicas, proteínas, sais minerais, fármacos ou outras quaisquer. A estrutura de um rim é basicamente um emaranhado de capilares sanguíneos que se organizam junto com os néfrons, que são as unidades funcionais do rim. Estes néfrons são compostos por um glomérulo, onde as substâncias do sangue são filtradas (filtração glomerular), e por um sistema de túbulos renais, onde esse filtrado é manipulado através de mecanismos fisiológicos, como reabsorção e/ou secreção, a fim de formar a urina final. Sendo assim, os rins tem papel fundamental na manutenção do equilíbrio do organismo, para que nada falte ou exceda, de maneira a comprometer a homeostase do indivíduo.

Vale dizer que os rins não conseguem regenerar novos néfrons e, portanto, a perda destes é de vital prejuízo para o funcionamento do organismo. Conforme o critério criado pela fundação americana National Kidney Foundation e referendado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia, a chamada DRC consiste em uma lesão presente por um período igual ou superior a três meses, definida por anormalidades estruturais ou funcionais do rim, com ou sem diminuição da filtração glomerular. O parâmetro de filtração glomerular normal é maior que 90 mL/min/1,73m², sendo que para se estabelecer a DRC esse patamar deve ser menor do que 60 mL/min/1,73 m² por um período igual ou superior a três meses, com ou sem lesão renal. Também pode ser levada em conta a taxa de excreção de proteínas, as quais usualmente não são filtradas e, portanto, não devem ser eliminadas na urina.

A DRC é classificada em fases, as quais são de grande importância para se determinar o tratamento mais adequado. Na primeira fase, tem-se uma taxa de filtração glomerular acima de 90 ml/min/1,73 m², mas com outras afecções como a presença de proteína na urina. Na segunda fase, há leve queda da taxa de filtração glomerular para valores entre 60 e 89 ml/min/1,73 m². As terceira e quarta fases caracterizam-se pela redução da taxa de filtração glomerular para patamares entre 30 a 59 ml/min/1,73 m² e entre 15 a 29 ml/min/1,73 m² (redução grave), respectivamente. Já uma taxa de filtração glomerular menor que 15 ml/min/1,73 m² estabelece a quinta fase, a qual implica em falência renal.

 O exame de ultrassom ou a tomografia computadorizada produzem imagens dos rins e do trato urinário. Estes mostram se os rins têm alteração de tamanho, se existe algum bloqueio, como pedras ou tumores, e se existem problemas na estrutura dos rins e do trato urinário, também sendo de importância para a precisão do diagnóstico.

Alguns grupos de indivíduos estão fortemente ligados à incidência de DRC, entre eles: hipertensos, sendo que no Brasil a hipertensão é a principal causa de DRC; idosos, pois a perda de néfrons com a idade torna o indivíduo mais susceptível a desenvolver a doença; pacientes que fazem uso de remédios nefrotóxicos; pacientes com histórico de doença renal na família; e, por fim, os diabéticos, que são o tema de enfoque neste presente texto.

O Diabetes Mellitus consiste em um distúrbio metabólico caracterizado por muito açúcar no sangue (hiperglicemia), decorrente de deficiência na produção de insulina ou na sua ação, ou em ambos os mecanismos, ocasionando complicações em longo prazo. A insulina é o hormônio secretado pelo pâncreas após as refeições, principalmente quando ingerimos muito açúcar. Este hormônio é responsável por mobilizar algumas proteínas que são as “portas de entrada” da glicose (açúcar) nas células do corpo para que, assim, ela sirva de energia. Sem a insulina, ou mesmo com a presença dela, porém, com alguma resistência ao seu funcionamento (resistência à insulina), não conseguimos fazer com que a glicose direcione-se do sangue para as células do corpo, gerando complicações, inclusive nos rins. A diabetes é ainda dividida em tipo 1, que tem caráter auto-imune e se desenvolve geralmente quando o paciente é jovem, e a do tipo 2, que é muito dependente dos hábitos de vida e tem associação com a obesidade, sendo caracterizada por uma resistência progressiva à insulina.

O Diabetes Mellitus é a causa mais frequente de DRC no mundo e já é a segunda etiologia mais comum no Brasil, acometendo entre 30% e 40% dos indivíduos com Diabetes Mellitus tipo 1 e entre 10% e 40% daqueles com Diabetes Mellitus tipo 2. A hiperglicemia característica da Diabetes Mellitus é um fator de risco independente, pois tem caráter lesivo ao rim, deteriorando seu tecido e culminando em queda das taxas de filtração do órgão. O controle glicêmico nesses pacientes é importante, haja vista que alguns estudos concluíram que em 25% dos casos haverá melhor prognóstico da doença, se este controle for feito. Ao mesmo tempo em que é importante, o controle glicêmico é difícil e complexo, pois requer orientação dietética e aderência à terapia medicamentosa.  

Com a sociedade moderna preconizando hábitos cada vez menos saudáveis, faz-se necessária a conscientização da interrupção do tabagismo, da redução dos riscos cardiovasculares e da adequação do peso corporal, de maneira a manter o índice de massa corporal entre 18,5 e 24,9 kg/m² e a circunferência abdominal até 102 cm nos homens e 88 cm nas mulheres. A prática de exercícios físicos durante 30-60 minutos por dia para paciente com DRC sem restrição médica é de extremo benefício para a progressão da doença, bem como o cessamento do uso de álcool e o controle de ingestão de sal. Muito provavelmente, o tratamento adequado, mediado por uma equipe de médicos e profissionais da saúde, pode a prevenir o agravamento da DRC, evitando as complicações severas da doença, principalmente em seus estágios mais avançados.

Referências bibliográficas:

HALL, John. Guyton & Hall – Tratado de fisiologia médica. 13.ed. Jackson, Missisipi: Elsevier, 2017.

NATIONAL KIDNEY FOUNDATION. Sobre Insuficiência Renal Crônica. Guia para pacientes e familiares. New York: National Kidney Foundation, 2007.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes. Avaliação, prevenção e tratamento da doença renal do diabetes mellitus. São Paulo: Clannad, 2018.