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Choque hipovolêmico

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A agressão a candidato à Presidência da República e suas repercussões hemodinâmicas: choque hipovolêmico

Um candidato à Presidência da República foi esfaqueado no dia 6 de Setembro de 2018, durante um ato de campanha no centro da cidade de Juiz de Fora – MG.  Após a agressão, o candidato foi levado à Santa Casa de Misericórdia local e lá recebeu os primeiros atendimentos. A arma branca perfurou seu abdômen de tal forma, que ao fim dos 2 km percorridos até o hospital seu estado de saúde era grave. As lesões incluíram: três perfurações no intestino delgado e uma no intestino grosso, além de uma perfuração da veia mesentérica superior que culminou em hemorragia grave, isto é, perda de volume considerável de sangue, levando o paciente a um quadro de choque hipovolêmico, que poderia ter levado à sua morte.

A palavra choque vem de um erro de tradução ocorrido no século XVIII. O cirurgião francês LeDran fez uso do termo choc para designar “forte impacto” em seu tratado sobre feridas decorrentes de armas de fogo. Ao ser traduzido para o inglês, a palavra passou a designar “uma súbita deterioração clínica das condições do paciente após um grande trauma”, definição até hoje bastante empregada na área médica. Segundo os conceitos atuais, o choque é um estado de hipoperfusão orgânica efetiva generalizada, no qual as células do organismo não conseguem receber uma quantidade de oxigênio e nutrientes suficiente através da circulação, nem remover produtos metabólicos de excreção celular (como o gás carbônico), para que seja mantido o equilíbrio interno ou a homeostasia.

Secundário à perda de sangue, observa-se queda da pressão arterial (PA). A pressão arterial reflete a pressão exercida pelo sangue nos vasos sanguíneos, de tal forma que sua redução culmina em diminuição do fluxo sanguíneo para os tecidos do corpo. Nos primeiros momentos, tal queda da PA decorrente do choque hipovolêmico pode ser compensada por mecanismos de ajuste do organismo. O coração aumenta os batimentos por minuto e contrai mais vigorosamente durante a sístole para direcionar mais sangue aos tecidos. Além disso, simultaneamente ocorre diminuição do calibre dos vasos do corpo, a qual resulta em direcionamento de sangue para os órgãos nobres do organismo, como o cérebro e o próprio coração. Esse efeito é perceptível através da palidez e baixa temperatura cutânea causada pela menor distribuição de sangue para a pele.

Esses mecanismos de autorregulação mostram a capacidade que o corpo humano tem de perceber estímulos e formar respostas e comandos de ajuste para manter a homeostase. Em relação aos vasos sanguíneos, por exemplo, existem receptores específicos que detectam continuamente as variações da PA e enviam essa informação ao sistema nervoso central. Este, imediatamente, coordena a liberação de substâncias que alteram a função cardiovascular de modo a compensar a PA, conforme sua variação para mais ou para menos. Esse reflexo é perceptível durante mudanças bruscas de posicionamento, como o movimento do corpo para uma posição mais vertical (da posição sentada ou deitada para a posição em pé). Nesse caso, instala-se uma hipotensão postural (ou ortostática), pois ao se levantar, o sangue, por ação da gravidade, tende a se redistribuir para as regiões mais baixas do corpo, reduzindo por alguns segundos o seu suprimento no sistema nervoso central, e provocando a sensação de desmaio iminente. Na maioria das vezes, esse desmaio não ocorre, por conta de tais ações reflexas que rapidamente estabilizam a PA e direcionam o fluxo sanguíneo para o cérebro.

Em uma hemorragia de intensidade grande como a do candidato, que passou por transfusão de 2 litros de sangue, a resposta de equilíbrio deveria ser muito potente. Sendo assim, enquanto as compensações do organismo forem suficientes para manter a estabilidade, o paciente se encontra no chamado pré-choque ou choque compensado. Em progressão, a compensação não supre os danos da hemorragiaintensa e se instaura o choque hipovolêmico.

E como isso ocasionaria, de fato, a morte? Com a acentuação do quadro, o coração não teria oferta de sangue para nutrir, além de si próprio, os mais variados órgãos, o que prejudicaria ainda mais seu funcionamento. Esse fenômeno em uma visão generalizada afetaria o funcionamento dos órgãos, que resultaria em depressão funcional e em morte iminente, a partir da falência orgânica generalizada.

Referências Bibliográficas:

FELICE, C.T.; SUSIN, C.F.; COSTABEBER, A.M.; RODRIGUES, A.T.; BECK, M.O.; HERTZ, E. Choque: diagnóstico e tratamento na emergência. Revista da AMRIGS, Porto Alegre, v. 55, n. 2, p. 179-196, abr./jun., 2011.

HALL, John. Guyton & Hall – Tratado de fisiologia médica. 13.ed. Jackson, Missisipi: Elsevier, 2017.

MOURÃO JUNIOR, C.A.; DE SOUZA, L.S. Fisiopatologia do Choque. HU Revista, Juiz de Fora, v. 40, n. 1 e 2, p. 73-78, jan./jun., 2014.