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“Coração grande”: A insuficiência cardíaca no Brasil

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“O médico disse que ele tinha o coração muito grande”. Por vezes nos deparamos com essa situação, quando um conhecido, amigo ou familiar relata ter ido ao médico, ou, então, quando somos surpreendidos pelo falecimento de alguém e recebemos essa informação como causa da morte. Essa frase é de senso comum na sociedade brasileira, mas será que de fato as pessoas sabem o que é “coração grande”, o que ele implica e quais os danos disso à saúde? Partindo desse pressuposto, vamos abordar a Insuficiência Cardíaca (IC).

A IC diz respeito a uma síndrome complexa e de caráter sistêmico. É considerada a via final de diversas outras patologias que atingem o coração. Este órgão se torna insuficiente e sua função se deteriora de maneira progressiva, sendo de alto impacto na qualidade de vida e na mortalidade da população do Brasil e do mundo. Em 2007, as doenças cardiovasculares foram as principais causas de mortes no país e a IC tem por característica ser a principal doença cardiovascular geradora de hospitalizações, sendo responsável por 2,6% das internações e dos 6% dos óbitos. Uma vez que tem maior prevalência em idosos (por conta dos problemas cardiovasculares oriundos da idade), a situação atual é preocupante pois o crescimento da expectativa de vida no Brasil faz da IC um problema cada vez maior para a saúde pública, fazendo-se fundamental sua prevenção.

A fisiopatologia da doença inclui uma série de mudanças mecânicas, bioquímicas e elétricas no miocárdio – o tecido muscular do nosso coração. Como é progressiva, a insuficiência faz com que o coração não expulse todo o sangue contido nele, a cada batimento, e, por conta disso, o órgão desenvolve maior pressão em seu interior. Assim, este sofre adaptações em sua estrutura para manter a funcionalidade, que é o que chamamos de remodelamento cardíaco. A parede do miocárdio pode se espessar, configurando o quadro de hipertrofia concêntrica, ou a câmara em que o sangue se acumula pode se dilatar, a chamada hipertrofia excêntrica ou dilatada. No caso da insuficiência com espessamento da parede muscular, ao mesmo tempo em que temos um coração maior e, portanto, com mais células contráteis, a situação se descompensa, pois a rede vascular (responsável pelo suprimento sanguíneo do coração) e elétrica (responsável pela contração do coração) não acompanha o crescimento do tecido, o que faz com que surjam problemas de força de contração e até arritmias.

Como citado acima, o sinal clínico mais detectável da insuficiência cardíaca é a cardiomegalia ou o famoso “coração grande”. Esse crescimento do miocárdio é sustentado por um aumento da síntese protéica no tecido, bem como pela reativação de genes que são inativados na idade fetal e que estimulam uma hipertrofia do coração. Esse nível de remodelamento, visível aos exames de imagens, significa que a doença já progrediu de maneira acentuada.

Outra forma de estadiar a progressão da doença é com base na classificação funcional da IC organizada pela New York Heart Association (NYHA), que tem como base a presença do sintoma dispnéia, que é a falta de ar.

Estratificação NYHA

CLASSE I

Sem sintomas (dispnéia)

CLASSE II

Sintomas em atividades cotidianas

CLASSE III

Sintomas em pequenos esforços menores que atividades cotidianas

CLASSE IV

Sintomas em repouso

Como o coração tem redução brusca em seu funcionamento, o volume de sangue impulsionado por ele cai, e esse sangue se acumula nas câmaras cardíacas. Supondo que o fluxo de sangue dentro do coração esteja lentificado, fatalmente, os órgãos que mandam sangue de volta para ele também terão seu fluxo arrastado e, consequentemente, o sangue irá se estagnar aos poucos nesses locais. Esse fato pode ocasionar o aumento de determinados órgãos, a distensão e turgidez de determinadas veias, o acúmulo de sangue nos pulmões, o chamado edema pulmonar, além do mau funcionamento da bomba cardíaca e consequente falta de sangue nos variados tecidos.

A IC pode ainda acontecer de maneira aguda ou crônica, o que determina abordagens terapêuticas diferentes. No caso da aguda, por se tratar de falência em curto tempo e de caráter muitas vezes emergencial, utilizam-se principalmente diuréticos para diminuir o volume de sangue e fazer com que o coração consiga bombear todo o sangue que contém, além de outros fármacos que possam melhorar a contratilidade do órgão, como a dobutamina. Já na insuficiência crônica, a detecção do quadro nos estágios iniciais pode impedir a progressão da doença, desde que tratada corretamente. Hoje se sabe que a resposta neuro-hormonal em resposta à pressão mecânica no interior do coração é o principal motivo para a progressão da IC. Portanto, inibir essa resposta por meio de fármacos tais como os Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA) e Beta Bloqueadores (ex: captopril e propranolol) é a abordagem mais empregada. Ainda no quadro crônico, há significativa importância dos diuréticos, para diminuir o volume de sangue que prejudica a bomba cardíaca, e também dos digitálicos, que aumentam a concentração de cálcio no miocárdio e melhoram sua contratilidade, sendo estes usados nas fases sintomáticas da doença.

Para aqueles que aderiram ao tratamento da IC e mesmo assim tiveram seu estado de saúde deteriorado com a progressão da doença, tem-se hoje em dia a opção cirúrgica: o transplante cardíaco. O primeiro transplante cardíaco no mundo foi feito pelo cirurgião Hardy, da Universidade do Mississipi, onde um coração de chimpanzé foi colocado em um humano sem êxito. Três anos depois, em 1967, Christiaan Barnard, na Africa do Sul, realizou o primeiro transplante de humano para humano com grande sucesso, fato este que fez com que no ano seguinte, 1968, 101 transplantes cardíacos fossem realizados. A opção cirúrgica tem como grande empecilho a baixa oferta de doadores de órgãos. O transplante cardíaco é indicado para pacientes sintomáticos com insuficiência cardíaca em classe III ou IV (NYHA), em terapia medicamentosa adequadamente otimizada, com expectativa de vida inferior a um ano e sem possibilidade de outro tratamento alternativo. A despeito da possibilidade de frequentes complicações, com morbidade e mortalidade potenciais, o resultado do transplante cardíaco é excelente.

Portanto, à exceção de raros casos congênitos que possam configurar anomalias no tecido e, por consequência, cardiomegalia, o “coração grande” é na verdade uma disfunção progressiva que gera insuficiência cardíaca no indivíduo. Por reflexo, o órgão tende a ter alterações bioquímicas, mecânicas e estruturais que o fazem aumentar de tamanho, sem, no entanto, retardar a progressão da síndrome.

Por fim, para que as comorbidades cardíacas não venham a acontecer, recomenda-se a adoção de hábitos essenciais para sua prevenção, entre eles: praticar exercícios físicos com frequência, cessar ou não iniciar o tabagismo, evitar o consumo de bebidas alcoólicas, ter alimentação saudável com ingestão moderada de açúcares e gorduras saturadas e desfrutar de momentos de lazer para aliviar o estresse.

Cuide do seu coração!

Referências bibliográficas:

SERRANO JUNIOR, C.V.; TIMERMAN, A.; STEFANINI, E. Tratado de Cardiologia – Seção 9 “Insuficiência Cardíaca” SOCESP. 2.ed. Barueri, SP: Manole, 2009.

PRATES, R.P. Pequena história da cirurgia cardíaca: e tudo aconteceu diante de nossos olhos… Rev Bras Cir Cardiovasc, v.14, n. 3, p. 177-84, 1999.