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Casarão

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Forum da Cultura da UFJF

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          Em 1919, o fazendeiro Pedro Procópio Rodrigues Valle Filho e sua esposa, Etelvina de Carvalho Schlobach, moradores de um palacete na Rua Santo Antônio, 1130, esquina com Rua Fernando Lobo (atual E. E. Delfim Moreira), presentearam a filha, Maria Cecília Schlobach Rodrigues Valle, por ocasião do casamento com Clóvis Guimarães Mascarenhas, filho do empresário Bernardo Mascarenhas, com a construção de outro casarão, ao lado do seu, no número 1112, para que esta constituísse família. E foi o que aconteceu. O casal teve nove filhos. Mas, em 1927, em função de negócios da família Mascarenhas, Clóvis renuncia à direção da Associação Comercial de Juiz de Fora e se transfere definitivamente para o Rio de Janeiro. Com ele, seguiram esposa e filhos pequenos. Anos mais tarde, em 1972, morre Cecília, e, em 1973, Clóvis.

         A casa, concebida por construtores italianos para homenagear Maria Cecília, em um período em que estes muratori foram responsáveis pelas mais belas construções da cidade, recebeu o nome de Villa Cecy, tal qual acontecia com as tradicionais villas italianas. Nosso levantamento e entrevistas feitas com filhas e netos indicam que a casa foi feita para o casamento, em 29 de janeiro de 1919. Todavia, não há registros sobre a data exata da conclusão e ocupação da obra, por tratar-se de prédio residencial, apenas que foi erguida para celebrar a união de Cecy e Clóvis. Diferente da casa do pai, Pedro Procópio Rodrigues Valle Filho, construída pelo italiano Luiz Perry em estilo eclético, em 1912, a Villa Cecy teve forte influência neoclássica e inspiração nas villas italianas.

          Mas quem era Cecy? Como convinha às jovens abastadas de sua época, recebeu educação refinada, alinhada à cultura francesa, tão em voga naquele momento. Indo além, desde muito jovem aluna da professora Haydée França Americano, Cecy passou a se apresentar como pianista em concertos públicos. Especialmente, os beneficentes. No dia 28 de outubro de 1911, durante banquete na Fazenda Liberdade, em Coronel Pacheco, localizamos o primeiro registro de apresentação da menina, na qual tocou “diversos trechos musicais ao piano e recebeu muitos aplausos” (O PHAROL, 01/11/1911). Em seguida, existem também notícias de outras apresentações familiares da menina, no casarão dos pais, na esquina da Fernando Lobo. Em 27 de dezembro de 1912, no palco do Teatro Polytheama, em Juiz de Fora, tocou a cançoneta “A Doceira”. A renda do concerto era para a construção de um elevador para o Morro do Cristo. No dia 30 de março de 1915, apresentou a Serenata, de Bendel, mais uma vez a fim de arrecadar fundos para construção de um elevador que levasse até o alto do Morro do Cristo. No dia 20 de agosto de 1915, Cecília interpretou ao piano Pas des écharpes, de Cécile Chaminade, em benefício das vítimas da seca. Em outro concerto beneficente, no dia 16 de março de 1917, Cecília toca o Impromptu, de Chopin. Como convinha às moças da época, não localizamos notícias de concertos públicos realizados por Cecy após o casamento com Clóvis, em 1919, e é possível que não tenham existido, ainda que saibamos que a paixão pelo piano tenha permanecido depois de casada. Mesmo idosa, segundo a filha Evangelina Mascarenhas, sempre se sentava ao piano para tocar sua canção preferida, Romance, do compositor português Arthur Napoleão.

          A casa, construída para a menina concertista, foi elaborada com linhas elegantes e recebeu vitrais que reproduzem rosas vermelhas, seus caules, folhas e espinhos. Em 1928, já com Cecy e Clóvis morando no Rio de Janeiro, Pedro Procópio Rodrigues Valle Filho vende a casa para o comerciante de Barbacena, Roque Domingues de Araújo, que se instala com sua família no local. Durante os anos 1950, a viúva de Roque, Hercília, faz uma permuta com a Faculdade de Direito e a casa, ampliada e reformada, passa a ser a sede do curso e do gabinete do reitor da UFJF. Em 1971, com a mudança da Faculdade de Direito para o Campus, o lugar é convertido em espaço cultural, inaugurado em 1972, passando a abrigar um teatro, um museu e uma galeria de arte, além do Centro de Estudos Teatrais – Grupo Divulgação e do Coral Universitário. Todos ainda em atividade.