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A melancia, a jaca e a mulher que não afunda

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Por Paulo Menezes

Fique tranquilo! Não se trata de uma nova letra de funk e nem do advento de mais uma mulher fruta. A comparação acima, por mais bizarra que possa parecer, trata de ciência. Ou, pelo menos, de como a ciência é tratada nos veículos de comunicação de massa. Há pouco mais de uma semana (no dia 13/05) o programa global Domingão do Faustão exibiu, como grande atração, o fenômeno da “mulher que não afunda”. Durante quase vinte minutos o programa mostrou cenas de uma mulher flutuando numa piscina. Enquanto isso o apresentador seguia o ritual de empolgar a plateia. Pedia que as câmeras focassem por todos os ângulos para mostrar que a mulher estava realmente flutuando, como se isso fosse algo extraordinário. É fato que a mulher flutuava na vertical. Certamente, isso demandou muito treino, como a própria protagonista declarou. Para enaltecer ainda mais a apresentação, ao lado da piscina foram colocadas duas mesas com frutas e outras coisas que a plateia deveria adivinhar se iria ou não afundar. Entre as frutas destacavam-se uma jaca e uma melancia. Tamanha foi a surpresa de todos, inclusive do apresentador, ao ver que essas frutas “tão pesadas” flutuaram quando jogadas dentro da piscina. Será que a melancia e a jaca eram tão extraordinárias quanto aquela mulher que flutuava? Afinal, nosso senso comum diz que corpos pesados afundam. Depois de muitas peripécias e embromação finalmente foi convidado um professor de física para explicar o fenômeno. Para falar de ciência não foram dedicados mais do que dois minutos do programa, mal deu tempo de o professor falar do “empuxo”. A educação não dá a mesma audiência que o espetáculo.

Não faz muito tempo, o mesmo programa exibiu por mais de meia hora o “homem elétrico”. Usando um cinturão preso na cintura – que era de vez em quando conectado a uma bateria – o artista fazia peripécias tais como: acender lâmpadas, esquentar água e dar choque nas pessoas. Nada que um bom gerador eletrostático não possa fazer. Assistindo apresentações como essas, fico a refletir a quantas anda a alfabetização científica da nossa população. Apesar do aumento no nível de escolarização das pessoas, como diria o saudoso Carl Sagan, “o mundo continua assombrado pelos demônios”. Onde está a ciência que deveria libertar o homem? Com certeza não está na escola. Em pleno século XXI ainda somos iludidos e enganados com truques da idade média. Nada contra a magia do ilusionismo que encanta e desafia a inteligência. Porém, a falta de conhecimento nos coloca em risco de alienação. Do pensar ingênuo que leva ao fanatismo; que nos faz consumir aquilo que não necessitamos; que nos faz agir sem pensar; que humaniza as coisas; que nos mata e nos faz matar no trânsito, simplesmente porque não compreendemos questões básicas de transformação de energia. É preciso cuidar para que a ciência não continue sendo um conhecimento de poucos. Chegamos ao terceiro milênio e ainda há pessoas que duvidam do poder transformador do conhecimento. Afinal, por que entender de ciência?

 

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