UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

Você está em: Edições Anteriores > Volume 9 - Número 2 - Fevereiro/2017 > Editorial

O pensamento e os costumes do ser humano, com certeza, evoluíram muito através dos anos. A literatura e as diversas práticas culturais já abordam livremente diversos temas que no passado não eram bem aceitos. Entretanto, ainda hoje, em toda sociedade e em suas práticas culturais, determinados assuntos, escolhas de vida, discursos e até mesmo certas condições pessoais de foro íntimo ainda enfrentam a barreira do interdito. Vivemos em uma época tão evoluída e que, ao mesmo tempo, enfrenta um enorme retrocesso. Problemas que a sociedade precisa discutir publicamente são calados. Assuntos que precisam vir à luz são forçados a se manterem na escuridão. Grupos sociais são forçados a se manterem restritos ao seu armário, à sua cozinha ou a uma senzala que não existe mais.  O discurso de algumas pessoas, como nos séculos passados, continua sendo calado, ignorado, vetado. O interdito permanece presente e muito atual, sendo necessário ao espírito humano para que, sob as suas regras e amarras, possamos nos incomodar com seus limites e transgredi-los, pois “sem o primado do interdito, o homem não teria podido chegar à consciência clara e distinta” (BATAILLE, 2014, p. 61) para dizer aquilo que precisa ser dito, fazer aquilo que temos direito de fazer, da forma como sabemos e temos direito de fazer/falar/escrever.

 

          Partindo dessa premissa, a 18ª edição da Darandina Revisteletrônica reúne trabalhos que abordam processos de escrita transgressores, ou cujo tema seja a própria transgressão e que afirmam, dessa forma, a existência do interdito na escrita e da escrita do interdito, em suas mais variadas facetas.

 

          Na seção dedicada aos artigos, esta edição conta com o estudo de Roberta Cristina de Oliveira Saçço, no qual analisa a obra de Bernardo Kucinski, K. (2014), bem como outros depoimentos de sobreviventes da ditadura militar brasileira, focando-se na relação entre ficção e testemunhos orais e na importância histórica do resgate dessas memórias. Esses relatos são fruto da volta a uma violência física e psicológica para narrá-la, o que representa uma forma de escrever o interdito, no sentido de “o que não pode ser dito”, da experiência traumática, considerando-se que o trauma pode ser definido como aquilo que não é esquecido, mas que a própria lembrança é também intolerável para o sujeito.

 

          Temos também a contribuição de Ivy Monteiro que propõe uma leitura complementar da obra O cortiço, de Aluísio Azevedo, e do livro Cidade febril, cortiços e epidemias na corte imperial (1996), de Sidney Chalhoub. A partir da leitura de dois gêneros distintos, o literário e o científico, a autora aborda a cidade do Rio de Janeiro, através da sociologia política, considerando alguns temas que tangem o interdito da sociedade brasileira da época: a miscigenação, a escravidão, a sexualidade e a moral.

 

          Na presente edição, também figura o estudo de Fernando Reis de Sena, em que analisa os poemas “Antítese” e “Ventre livre”, da antologia Terra Fértil (2014) de Jenyffer Nascimento, poetisa pernambucana, negra e periférica. O artigo tem por objetivo apontar como a autora opera um deslocamento da lógica centrada no masculino, ao expressar na literatura a fala do sujeito subalternizado, por sua própria condição de marginalizada. Através de uma análise do potencial de ressignificação dentro de um discurso dominado pelo masculino, que passa pelo levantamento de questões sobre a desconstrução e a história do movimento feminista, chegando ao conceito de performance de Judith Butler, o artigo nos oferece uma análise focada no interdito do próprio discurso, que é subvertido pela autora ao buscar sua própria voz.

 

          Pilar Lago aborda a questão da identidade abjeta ao analisar a obra Rato (2007), de Luís Capucho, de modo a evidenciar como os elementos literários do texto são capazes de, a partir da dimensão interior do protagonista gay,  expressar a experiência urbana e as relações homoeróticas neste meio, articulando questões de identidade, injúria e errância. Uma outra abordagem do interdito presente nesta edição está no artigo de Edna Caroline Alexandria da Cunha Oliveira e Ramon Diego Câmara Rocha, que tem como objeto de análise o poema O vinho do assassino, de Charles Baudelaire. Para os pesquisadores, o poeta opera uma subversão do ideal de amor romântico, desconstruindo os maniqueísmos que associam, por exemplo, o bom ao belo e o mau ao hediondo, e chamando a atenção para a crise nos afetos, o que é também uma forma de transgressão.

 

          O artigo de Guido Vieira Arosa nos oferece uma análise do testemunho Antes que anoiteça, do escritor cubano Reinaldo Arenas, cujo tema é o modo como a Aids atinge o homossexual. A análise se foca tanto no testemunho enquanto uma forma narrativa específica, quanto na dimensão traumática presente no tema da obra, levando em conta a posição do autor dentro das relações de poder e o potencial político dos discursos sobre a Aids produzidos pelas vítimas, bem como as subversões realizadas pelo autor, que ultrapassa diferentes interditos.

 

          Nesta edição, também trazemos um estudo sobre o underground da vida literária, a partir do método utilizado por Robert Darnton, em “Boemia literária e revolução”, de Daniel Castello Brando Ciarlini. O artigo ressalta a dificuldade de se mapear a vida literária de um contexto, devido àquilo que permanece e, às vezes, é forçado a permanecer, na clandestinidade. Tal estudo se apresenta como uma forma de defesa da metodologia de pesquisa proposta por Darnton, centrando-se em seu potencial dialético, e oferecendo uma nova possibilidade de olhar para os estudos da literatura de um período, levando em conta aquilo que resta em seus “detritos”.

 

          Na seção dedicada às resenhas e às criações literárias, as quais não necessariamente têm de seguir o tema da chamada da edição, temos a resenha de Juliano Paines Martins sobre a obra Dublinesca, na qual o autor analisa os emaranhados da trama e as novas táticas de leitura e conhecimentos prévios que o leitor contemporâneo deve ter para que consiga, de fato, decifrar todo o conteúdo dos textos que emergem nos tempos da World Wide web. Contamos também com a contribuição de Maiane Tigre e Bárbara Lago, com a resenha do livro A vida suspensa, de Fábio Camargo. Em seu texto, as autoras descrevem as escolhas estilíticas, formais e de conteúdo narrativo do escritor, e por este motivo consideram seus contos como pós-modernos, chamando a atenção para a validade de uma leitura que transborda hiperrealismo que rompe com a lógica das ações humanas.

 

O leitor também poderá apreciar os poemas de Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura do PPGLitCult pela UFBA, e de Tanya Marques Cardoso, doutoranda em Psicologia e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, e o conto “Carta-colisão”, de Fernanda Xavier, mestranda em estudos literários pela Universidade Estadual de Montes Claros.

 

          A comissão editorial agradece a todos os autores e autoras que confiaram a publicação de seus trabalhos à nossa revista e deseja uma produtiva leitura e reflexão a todos os nossos visitantes, além de um  feliz ano novo a toda comunidade acadêmica!

 

Isadora Pontes e Rafael Ramos

Comissão Editorial da Darandina Revisteletrônica.

 

 

BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo horizonte: Autêntica editora, 2014.

 

    Darandina Revisteletrônica