UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Em A construção, Kafka desenha a desconstrução. O castelo está em desconstrução, o texto é uma construção inacabada e aberta. Tanto dentro do texto quanto dentro do castelo habitam os fantasmas calados, que entretanto SE fazem presentes, ainda que somente através da fala do narrador e proprietário ou de seu ruído ininteligível.  Trazem consigo a “selva” plantada dentro deles pelo próprio dono da casa e dono das definições.

 

Entretanto, sua maior ameaça é justamente sua ausência, sua permanência nas trevas da noite, onde o habitante não pode e não se atreve a enxergá-los. Sua maior ameaça são os medos que o próprio dono do castelo plantou em si mesmo por causa deles.

 

Em seu silêncio, em sua não-fala, os estranhos, os fantasmas, os “outros” são a subversão. Trazem ameaça. Não dizem nada, mas os sinais de que estão dentro da construção são um som insuportável para o morador.  E isso é tudo o que produzem: uma não-fala, um som sem palavras, um ruído que o morador não entende – e nem suporta. Ausência de Logos, presença de ruído e silêncio. Mas seria o silêncio uma presença?

 

  Eni Orlandi, em As formas do silêncio, afirma que o silêncio pode ser fundante. Em outras palavras, a linguagem tem exterior. No exterior à linguagem, moram e dormem os possíveis sentidos. Estes não estão em lugar algum, mas se produzem nas relações. O silêncio é então a garantia da escolha dos sentidos, é a possibilidade de movimento e deslocamento, múltiplo porque múltiplos são os sentidos possíveis.

 

Sem falar, o silêncio é: A possibilidade de escolha, de um mover-se entre palavras que disciplinam a selvageria dos sentidos possíveis. Desta forma, dizer é domesticar o significar, é silenciar outros sentidos, uma vez que “o silêncio é a condição de possibilidade de o dizer vir a ser outro.”(ORLANDI, 2007, p.154)

 

Se entendermos o silêncio como devir, torna-se possível a produção da diferença, uma vez que o sujeito, atravessado por múltiplos discursos, estaria condenado à total dispersão. Sendo o sentido errático, o sujeito pode tornar-se movente, o que o mantém em sua identidade. A questão aqui é entender que capaz de manter a identidade do sujeito é justamente seu estar- em- silêncio.

 

Assim, embora nosso imaginário social tenha destinado um lugar menor para o silêncio, ele pode significar de muitas e outras maneiras, sendo infinita a possibilidade em si mesmo, e sendo a escrita a “forma específica de fazer silêncio, de fazer ressoar o silêncio de outros sentidos.” (ORLANDI, 2007, p.84)

 

Horizonte –e não vazio – o silêncio é o tecido intersticial, infinito de possibilidades, proposta possível de resistência na arte, segundo L. Jenny, quando exercido com tal intencionalidade.

 

Ora, se a relação com o outro se dá pelo silêncio – e não pelo implícito, mas pelo silêncio enquanto  infinito de possibilidades, e se por outro lado ele – o silêncio – pode significar por si mesmo, estando fora da linguagem (Logos) mas não fora dos significados, sua presença (ausente) pode perturbar. Em primeiro lugar, a perturbação pode vir ao controle exercido pela urgência da linguagem, mas também, e principalmente, ao discurso, onde um outro (outro sentido, possível, escondido, negado, preterido) está sempre presente, e muito necessariamente, uma vez que sem sua negação o sujeito se perderia , disperso na multiplicidade de escolhas e falas.

 

Sendo assim, volto à construção de Kafka, onde o silêncio – ou a alteridade de sentidos preteridos – dorme com o narrador-sujeito amedrontado por eles. Indesejados, os ruídos e o silêncio estão presentes; conviver com eles é inevitável.  Da mesma forma, estes textos que se apresentam neste volume  refletem sobre o interdito. São textos portanto habitados por silêncios múltiplos, que, como um mar profundo, escuro  e incalculável,  escorrem por entre as palavras, em um movimento  monótono e perturbador.  Adentrar essas construções também é inevitável, e é este aqui o convite que está posto ao leitor. Entremos, com o  cuidado e a coragem necessários.

 

Bárbara Simões Daibert

 

Darandina Revisteletrônica