UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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Editoral: Entre jornalismo e literatura, os sentidos e as linguagens em múltiplos olhares

Diversos escritores e escritoras brasileiros reconhecidos em nosso cânone iniciaram suas carreiras literárias ou as desenvolveram paralelamente com a atividade jornalística. São as mais diferentes matizes literárias, estilos e formas de ver o mundo entrelaçadas entre a literatura e o fazer jornalismo. Dessa imbricação, às vezes calma, às vezes combativa, surge um terreno comum de sentidos, de interfaces e um campo de estudos que interessa a muitos saberes. Nesta edição, decidimos explorar essa relação por diversos pontos de vista. Trata-se de uma grande variedade de olhares.

Em “Visões invisíveis: o ordinário e o extraordinário em Eliane Brum”, Antero da Silva Bragança Gomes aborda as crônicas-reportagens de Eliane, publicadas no jornal Zero Hora. Seu foco está na tese de que a escritora, ao utilizar elementos retóricos da ficcionalidade, traz à tona o extraordinário a partir do real, borrando suas fronteiras de sentido e explorando o não-visto da notícia. “Haroldo Maranhão: Um paraense cronista no/do Rio”, de autoria de Larissa Leal, propõe estudar as crônicas do jornalista paraense radicado no Rio de Janeiro. Como muitos escritores-jornalistas, ele também se desloca para um grande centro urbano em busca de alavancar sua carreira literária. O artigo analisa as crônicas, cujas narrativas se focam na cidade do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que advoga um lugar relevante desse gênero no sistema literário brasileiro.

“O lugar da subjetividade no jornalismo: aproximações entre o gênero Jornalismo Literário e o livro-reportagem O nascimento de Joicy” é uma análise dupla. Além do tema da transexualidade, o livro permite analisar o tema da subjetividade na escrita jornalística e as demandas que envolvem um autor ou autora quando se trata de abordar uma pessoa na escrita, tornando-a personagem. As autoras Francine Natasha Alves de Oliveira e Mariana Mendes Flores abarcam ainda algumas discussões sobre o jornalismo literário enquanto gênero. Já em “O Jornalismo Literário em Crônicas de Cecília Meireles”, Fabio Alcides de Souza nos leva ao encontro da faceta cronista da reconhecida poeta, cujos textos foram publicados em jornais como forma de subsistência da escritora. Num tempo em que ainda não se tem uma definição de jornalismo literário, Cecília traz à tona, brilhantemente, as marcas textuais que irão desenhar o gênero. Leitura deliciosa, com muitas citações que apresentam uma Cecília muito conectada às questões de seu tempo.

Cláudia Tavares Alves busca, nos escritos de Pasolini, as relações entre a intelectualidade, o fazer literário e o jornalismo. O título do trabalho, “Diálogos com o caos: a produção jornalística de Pasolini nos anos 1960” brinca com os nomes das colunas do escritor italiano Pier Paolo que, em suas crônicas, procura um retrato da sociedade italiana em seus aspectos sociais e culturais. Um olhar diferenciado sobre a relação entre jornalismo e literatura aparece no artigo “Dalcídio Jurandir, o jornalista: uma análise dos textos críticos”. Aqui, a análise recai sobre o crítico de literatura que escreve no jornal. Juliana Gomes dos Santos e Marli Tereza Furtado trazem à tona, ainda, a relação entre o jornalista Jurandir e a visão política de esquerda.

“Independente, literário e noticioso: as outras letras de Graciliano Ramos”, de Francieli Borges, analisa os textos de 1915 a 1921, reunidos postumamente no livro Linhas tortas. A pesquisadora demonstra que Graciliano Ramos se utiliza de pseudônimos para publicar, mas, ainda assim, é marcante sua postura opositora da ordem e agudo espírito crítico de seu tempo, marcas também de sua escrita nos romances.

Antonia Cristina de Alencar Pires e Gustavo Tanus retomam um clássico da literatura brasileira que abarca a relação entre literatura e jornalismo. Em “Literatura, jornalismo e a gênese da mídia contemporânea nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto”, o título já expõe bem a intenção dos pesquisadores em analisar a trajetória de Lima Barreto em seu trânsito entre a escrita literária e jornalística e seu papel fundamental na história da mídia brasileira, mormente ao apontar de modo crucial a promíscua relação entre mídia e Estado.

“Hilda Furacão e o jornalismo frustrado que virou literatura”, de Rafael Senra e Terezinha Vânia Zimbrão da Silva aborda a escrita de Roberto Drumond, enfatizando que o estilo do autor procura a subversão de aspectos próprios da prática jornalística, gerando o “pop” como um gênero próprio.

Além dos artigos, a Darandina traz nesta edição a seção de criação, com Giovanna Soalheiro Pinheiro exercitando-se entre a prosa e o verso livre. É uma fruição imperdível que dá um belo tom final a uma edição variada de objetos, olhares e temáticas que transitam entre jornalismo e literatura mostrando a vastidão de um campo ainda bastante inexplorado e rico.

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