UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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O imediato e o legado: linhas borradas entre jornalismo e literatura

A história poderia até vir precedida de “era uma vez”: artistas-literatos encontraram no jornal uma forma de ganhar dinheiro e propagar ideias, mas se viam engolidos pela rotina de um trabalho exaustivo, que pagava as contas, mas também era capaz de consumir a capacidade criativa com prazos, formatos e desmandos editoriais. Se jogo, no início, com a ideia de uma parábola, é porque durante muito tempo a discussão sobre a relação entre jornalismo e literatura parecia se dar no dia a dia das profissões, mas, no fundo, esse tipo de questionamento desemboca num desgastado embate de contornos ideológicos conformado pela situação à qual cada profissão está submetida, de modo mais ou menos específico, na chamada Indústria Cultural e que vem sofrendo profundas transformações.

A tradição do escritor-jornalista consolida-se no século XX no Brasil com João do Rio – o primeiro a questionar, dizem, em 1904, se o jornalismo ajuda ou atrapalha a atividade literária no país – junto a uma lista extensa de autores que desempenharam a função de repórter, copidesque e editor, dentre outras. Para citar alguns dos mais conhecidos fiquemos com Antonio Callado, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Graciliano Ramos e Otto Lara Resende. No século anterior, todo escritor publicava nos jornais, pois era uma obstinação dos intelectuais da época definir nossa nacionalidade. Machado de Assis, Olavo Bilac, José de Alencar, Lima Barreto e Raul Pompéia foram alguns deles. Se tantos escritores se dedicaram aos jornais, por que há nos bancos de teses tão poucos trabalhos que relacionem sua produção jornalística àquela feita para os livros? O questionamento que se apresentou na chamada deste número da Darandina Revisteletrônica põe em tensão o movimento hierarquizante da Academia.

Demandas ontológicas volta e meia cobram a discussão de uma afinidade que, na prática, ocorre desde a existência primeva de um ou outro, independentemente do suporte utilizado. Uma relação que, devido aos gatekeepers acadêmicos, talvez tenha ganhado mais visibilidade nos meios de comunicação. Pelo mesmo motivo, muitos desses estudos aqui concentram-se em Lima Barreto, Eça de Queiróz e outros de quem a obra ainda merece diversas leituras. Mas, aos poucos, vemos emergir análises da produção contemporânea, cuja visibilidade ainda circunda alguns nomes conhecidos da grande imprensa, como Eliane Brum, porém num cenário prenhe de transformações possíveis.

Jornalismo e literatura estão unidos num imaginário comum desde que se instaurou o que convencionamos chamar de “esfera pública”, entre os séculos XVII e XVIII na Europa, quando grupos discutiam a cultura literária, política e econômica da época em clubes, salões, cafés e através das publicações periódicas. Progressivamente, a evolução tecnológica inclui no jornalismo a publicidade, o que faz aumentar a tiragem, o público e barateia seu produto final. O crescimento do mercado editorial enfrenta sucessivas transformações e se inicialmente ambos os campos compartilhavam o mesmo leitor, com o tempo há modificações na circulação do texto impresso em livro e em jornal, influenciando no seu modo de produção. Para atingir a massa, o jornal investiria no imediato, buscando a uniformização diante de um leitor hipotético, enquanto o escritor estaria em busca da transcendência através de sua obra. Apesar disso, literatura e jornalismo jamais deixaram de ter possibilidades referenciais e relações recíprocas e, na verdade, o que hoje classificamos em diferentes gêneros poderia ser visto como peça informativa para audiências de diferentes momentos históricos. Antonio Olinto nos lembra que Homero é o primeiro repórter de que temos notícia.

Dificuldades e recusas em diferentes épocas, entretanto, não são unilaterais. Quando surgiu, o New Journalism foi rechaçado tanto por literatos quanto por jornalistas. Se os doutos homens das letras preferiam se manter na “torre de marfim”, cheia de vícios e preconceitos, parte da imprensa também estranhou a falta de objetividade e imparcialidade já em curso nos anos 60, nos EUA, período no qual veículos conservadores e romancistas ignoravam a contracultura e algumas críticas de publicações ligadas à literatura. Um dos contos de não-ficção mais famosos envolve o “Sr. Má Notícia” (Fama & Anonimato), redator de obituários Alden Whitman perfilado por Gay Talese, um mestre em apresentar personagens anônimos.

Para manter a cerca viva entre os gêneros, muitos partiram da ideia “realidade X ficção” acreditando garantir que assim teríamos os contornos de cada escrita delimitados, mesmo que a palavra fosse dominada por alguém tão ardiloso como Talese, ou ainda que o repórter utilizasse técnicas da urdidura do conto ele não poderia criar sob a pena de perder a credibilidade. Não adiantou. Anos mais tarde, contra qualquer definição, pelo lado não-ficcional, foi criado o jornalismo gonzo. Seriam então dois campos escrevendo a história da sociedade sob a predominância de distintas camadas de sentido ou uma seara única? Se partirmos de duas picadas diferentes, o fato é que ambas compartilham muito mais que atalhos.

O momento das ditaduras latino-americanas povoou a literatura de personagens jornalistas e trouxe também para os livros a textura do que se gestava nas redações sob censura, seja em ficção, seja em reportagem. A festa, de Ivan Ângelo, Cabeça de papel, de Paulo Francis, Setembro não tem sentido, de João Ubaldo Ribeiro, Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Isso só para citar alguns brasileiros, mas no contexto hispanohablante poderíamos ao menos lembrar os nomes de Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez. Já no cenário contemporâneo, prateleiras e e-readers recebem livros de uma geração formada em faculdades de comunicação e que, além do treino escolar, atuou como repórter ou correspondente, é o caso de Luiz Ruffato, Marçal Aquino e Bernardo Carvalho, por exemplo.

Sabemos que aquele momento aparentemente cativante que pagava as contas no começo da história não existe mais. E se os escritores podem ser médicos (Guimarães Rosa), delegados (Rubem Fonseca) ou espiões (Graham Greene), mas em boa parte eram mesmo – ou também – jornalistas, deixarão de sê-lo no contexto em que o jornalismo tem sérios problemas de sustentabilidade? Duvido muito, mas tenho motivos para arriscar tal aposta. De todo modo, ouso aqui dizer que voltaremos a este tema algumas vezes na próxima década.

Juiz de Fora, 05 de setembro de 2016.

Fernanda Pires Alvarenga Fernandes

Doutora em Estudos Literários pela UFJF

Professora na Faculdade de Comunicação da UFJF

PS: Uma série de tratados sobre as linhas borradas entre jornalismo e literatura poderia ser escrita, bem como sobre o que acontece quando encontramos, para cada campo, uma definição, e aparece um texto capaz de subvertê-las a despeito de qualquer condição de trabalho. Para chegar num exemplo contemporâneo, sugiro que o leitor busque na internet a matéria publicada no jornal O Globo em 22/08/2015 sob o título “Filho de Pitanguy é preso após acidente na Gávea” e fique atento a outras produções de quem assina o texto. O lead traz todas as informações clássicas necessárias ao jornalismo factual. Mas, enfim, é do ano passado e não me canso de ler.

    Darandina Revisteletrônica