UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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Será que somos mesmo locos por ti, América? Por que falamos tanto de você? Ainda há o que dizer sobre a América Latina? Sim, ainda há muito que se discutir… E a razão disso nasce de um aparente paradoxo: quanto mais se fala de nuestra América, mais surgem temáticas e questões pertinentes e interessantes. E em relação à arte latino-americana, de forma geral, e à sua literatura, de forma específica, pensamos nessa mesma linha. Assim, a Darandina Revisteletrônica traz a seus colaboradores e leitores a oportunidade de participar de discussão, em nossa opinião, relevante, produtiva e sempre necessária.

            Estudos sobre a literatura e a arte latino-americana, em um primeiro momento, situaram-se, por demais, sob um ponto de vista historiográfico e/ou sob outro que denominaremos regional, focalizando, excessivamente, aspectos geográficos, folclóricos, mitológicos e, até, exóticos da região. É evidente a importância do Regionalismo e do Realismo Mágico na formação da nossa história cultural e das matrizes de nossas produções artísticas. Ninguém quer negar isso. O que se propõe é avançar, entendendo que precisamos ir muito além disso. Antonio Candido, Ángel Rama, Ana Pizarro, Beatriz Sarlo, dentre vários outros, já apontaram o caminho.

            É preciso, em tempo, reafirmar a inserção do Brasil nesse conjunto. Não é difícil ouvir alguém dizendo, em nosso país, algo como “lá na América Latina”, como se fizesse referência a um conjunto de países vizinhos – Argentina, Chile, Uruguai, etc – que fala espanhol e tem interesses e costumes totalmente diferentes dos nossos. E o contrário também é facilmente verificável, com nuestros hermanos nos considerando fora da citada região.      Ora, a América Latina fala espanhol, mas, também, fala português! E, aliás, fala inglês, guarani, diversas línguas indígenas, diversas línguas crioulas, holandês, francês…C’est ça?

            Nesse sentido, Elizabeth Cardoso (PUC-SP) analisa os romances Quatro-Olhos, do brasileiro Renato Pompeu, e A cidade ausente, do argentino Ricardo Piglia, para, através de uma investigação do uso do recurso da mise en abyme em ambas as obras, refletir sobre as ditaduras militares brasileira e argentina. Já Carolina Fernanda Gartner Restrepo (UFMT) analisa o conto “Un señor muy viejo con unas alas enormes”, do colombiano Gabriel García Márquez, buscando compreender como a presença, no texto, de vários símbolos teriomórficos traz à superfície grande parte do rico universo imaginário de Gabo.

            Na sequência das diferentes abordagens do tema central da edição, Hideide Brito Torres e Enilce Albergaria Rocha (UFJF) optam por mergulhar na produção poética da brasileira Vilmara Bello, estudando as metáforas do exílio em seu trabalho, através do conceito de entre-lugar, elaborado por Silviano Santiago, e da poética da relação, criada por Édouard Glissant. E, João Felipe Alves de Oliveira (UFRJ), efetua uma leitura do conto “O Amante do Teatro”, do mexicano Carlos Fuentes, mostrando como o autor, recorrendo ao insólito, reflete sobre o problema da solidão no mundo moderno.

            Da imensa teia de símbolos que forma a cultura latino-americana, Rosana Cristina Zanelatto Santos e Thais Ferreira Pompêo de Camargo (UFMS) retiram a produção poética do brasileiro Douglas Diegues. Com o portunhol salvaje, Diegues desenvolve uma obra que se move por diversas fronteiras lingüísticas e culturais da América Latina. Ainda, podemos conferir o artigo de Paula Queiroz Dutra (UNB) que, através de uma leitura comparativa dos romances O lugar sem limites, do chileno José Donoso, e Elvis e Madona: uma novela lilás, do brasileiro Luiz Biajoni, procura investigar as representações da homossexualidade nas obras citadas, refletindo sobre preconceito, violência e homofobia.

            Por outro viés, Leonardo Augusto Bora (UFRJ) pesquisa o livro Verdade tropical, do brasileiro Caetano Veloso, procurando investigar as relações entre a Tropicália e a Antropofagia. Há, ainda, no trabalho um interessante cotejamento dos discursos de Caetano Veloso com fragmentos do conto “Os funerais da Mamãe Grande”, de García Márquez. Já, Lucas da Cunha Zamberlan e André Soares Vieira (UFMS) propõem-se a analisar a dinâmica social de grandes metrópoles da América Latina, tomando por base a cidade São Paulo, descrita em Eles eram muitos cavalos, do brasileiro Luiz Ruffato, e, como aporte teórico, conceitos e ideias de Beatriz Sarlo e de Néstor García Canclini, dentre outros.

E, há artigos que enfocam uma perspectiva artística mais ampla, envolvendo a literatura e outras artes. O trabalho de André Rezende Benatti (UFRJ) enfoca a multiartista hispano-paraguaia Josefina Plá e várias questões relacionadas à cultura latino-americana encontradas em sua obra. Já, Ernest Bowes (Universidade de Coimbra) analisa o trabalho do artista plástico brasileiro Rubens Gerchman, estudando a maneira pela qual sua arte visual se apropria, na conturbada década de 1960, da cultura popular brasileira.

            Na sessão de resenhas – em que a temática é livre e não precisa, necessariamente, seguir a temática proposta na chamada da edição –, Maurício Silva, professor da Universidade Nove de Julho, analisa o livro A rua da literatura e a literatura da rua (2014), da professora Ivete Lara Camargos Walty (PUC-MG). Já, Lincoln Amaral (USP) disseca o livro Trilogia Amazônica: Hipócrates, o xamã e o escriba (2013), de sua própria autoria. E, Roberta Cristina de Oliveira Saçço (UFJF) resenha o livro organizado pela professora Jovita Maria Gerheim Noronha (UFJF): Ensaios sobre a autoficção (2014).

            Por fim, mas não menos importante, há a sessão de textos de criação artística, onde o leitor poderá encontrar contos e poemas escritos por diversos autores. Resta-nos agradecer a todos os autores e autoras por terem confiado à nossa revista a publicação de seus trabalhos. E convidar todos os nossos leitores a uma interessante e produtiva visita… Boa leitura!

 

Wagner Lacerda

Comissão Editorial da Darandina Revisteletrônica

 

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