UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Apresentação número 15 – Darandina

Celebro este número 15 da Revista Darandina por dedicar-se, após  quase sete anos de vida, às literaturas da região. E quando penso em uma região, penso num vasto entretecer de camadas discursivas míticas, simbólicas, históricas, geográficas, antropológicas, camadas discursivas também advindas do direito e das ideologias religiosas, estatais, democráticas e revolucionárias. Quando se entra na espessura de uma região, vê-se – desde um olhar contemporâneo – o quanto ingênua é a possibilidade de pensar no latino nas Américas.

Entretanto, percebemos nos estudos da região o potencial desestruturante daquilo que disputa as paixões envolvidas nas nações, nas literaturas nacionais, nas literaturas como patrimônio de uma língua. A região americana é aquele espaço fissurado que põe em luta simbólica permanente conceitos soberanos, porque a região, a princípio, é geografia, em constante mudança e desidentificação. É um espaço conquistado, colonizado, usado e abusado. É um espaço no qual as subjetividades constroem seus lugares de enunciação e suas práticas científicas, artísticas e culturais. Enquanto lugar é princípio de projeto, de luta simbólica. A região é também área de conhecimento e área de exploração, de importação de matérias-primas, de embate pela soberania do conhecimento. A região é área de conhecimento.

A falta de uma presença explica-se por muitas práticas e problemáticas inerentes às formas de construção do campo das artes, da literatura e do conhecimento no Brasil. Um exemplo muito claro são as rígidas graduações focadas apenas em literaturas de língua nacional – o português – ou aquelas que se produzem na mesma língua. A política linguística que sustenta tal formato é uma política do patrimônio, do capital cultural de uma língua, é uma política que esquece e não ensina a ouvir, a ouvir as ressonâncias, os ecos, as memórias de outras línguas, de outras linguagens artísticas, de outras poéticas políticas.

Os estudos da região se constroem por perspectiva e nela se desenvolvem. A perspectiva é sempre uma série, uma trama, um arquivo, seu método: comparativo. As Américas Indígenas, dos povos Originários, as Américas afro-americanas, as Américas latino-americanas, indo-americanas, indo-europeias, afro-indo-latino-americanas não são mais que perspectivas que estão sempre em luta, porque o nome não define o pesquisador, o artista, o escritor, porém sinaliza as perspectivas e os lugares de enunciação. O seu método é aquele que sempre provoca e desestrutura: o comparativismo é uma prática de ordem científica, do olhar do conhecimento, enriquecida pelo lugar de enunciação – esse espaço conquistado, colonizado, usado e abusado.

As artes verbais sempre presentes no continente e, desde tempos imemoriais, trançadas, entrelaçadas às artes visuais, musicais e corporais mostram que a pluralidade artística e a perspectiva levam o comparativismo a uma ampliação dos pontos de vista. Quem se exercita nessa forma de conhecimento, nessa prática metódica e metodológica, sabe que estudos da região não têm élan, têm sim uma imensa construção teórico-crítica por detrás, fruto de trabalho, horas de aula, bolsas, prêmios, revistas, periódicos, conferências, livros, livros e muitos livros.

 

 

Silvina Carrizo.

Profª Associada – PPGLetras; Licenciatura em Espanhol e suas literaturas (UFJF).

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