UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Nesta edição, buscamos estudar obras literárias nas quais o elemento político se torna central ou que evoquem eventuais aspectos de engajamento ou revolução da literatura, bem como aqueles escritos literários que se debrucem sobre a elaboração reflexiva e o registro de marcantes acontecimentos políticos da história humana. Ainda foram tratados aspectos teóricos acerca da relação entre literatura e política. Qual o interesse que a política desperta na literatura, para tornar relevante até no âmbito acadêmico tal relação?

Barthes vem ao nosso socorro nesta reflexão, ao afirmar que a própria sociedade é que “pede ao escritor que sustente a responsabilidade de sua obra; pois a moral social exige dele uma fidelidade aos conteúdos” (BARTHES, 2007, p. 16). A escrita é uma função estética vital e que consome o escritor. Ao mesmo tempo, ele sente a necessidade de ser acolhido, de se fazer comunicar e entender. Sua luta com a linguagem tem a ver com essa missão. Ele está em busca de seu leitor e por isso,

 

quem quiser escrever com exatidão deve se transportar às fronteiras da linguagem, e é nisso que ele escreve verdadeiramente para os outros (pois, se ele falasse somente a si próprio, uma espécie de nomenclatura espontânea de seus sentimentos lhe bastaria, já que o sentimento é imediatamente seu próprio nome). (BARTHES, 2007, p. 20, grifos do autor)

 

O objetivo da comunicação, diz Barthes, é ser afetiva e por isso ela teme o risco da banalidade. Também é esta a razão pela qual o escritor, para Barthes, não pode desenvolver sua função sem paixão, sem tomar partido, embora sua argumentação não signifique, necessariamente, um engajamento no sentido sartreano. Para Sartre, além do engajamento significar a tomada de uma posição no mundo ou tomar partido diante da realidade histórica, social, econômica e cultural, significa também a militância. Barthes também, no texto em tela, faz algumas críticas ao engajamento no modelo de Sartre, mas defende essa parcialidade oriunda da paixão:

 

Ninguém pode pois escrever sem tomar apaixonadamente partido (qualquer que seja o distanciamento aparente de sua mensagem) sobre tudo o que vai bem ou vai mal no mundo; as infelicidades e as felicidades humanas, o que elas despertam em nós, indignações, julgamentos, aceitações, sonhos, desejos, angústias, tudo isso é a matéria única dos signos. (BARTHES, 2007, p. 20)

 

Portanto, ao estudar a relação entre a literatura e a política, estamos perguntando pelo lugar dos estudos em torno do “fluxo subjetivo no qual sujeitos sociais (individuais ou coletivos) produzem narrativas sobre quem eles são como agentes políticos conscientes, isto é, como eles constituem a si mesmos politicamente” (JOHNSON, 2004, p. 94). Ele afirma que a literatura é um lugar no qual alguns esforços nessa direção são feitos. A compreensão do que seja a política assume, assim, maior amplitude, relacionada com os sujeitos e suas identidades, suas representações e os aspectos mais amplos da economia e da sociedade do que apenas as percepções partidárias do termo.

 

Os escritores estariam buscando, por meio dos signos, escrever em relação aos sentimentos, indignações, angústias que estão neles e ao seu redor. Buscam também “produzir alguma coerência e continuidade e, através disso, exercer algum controle sobre os sentimentos, as contradições e os destinos” (JOHNSON, 2004, p. 94).

 

Essa constatação de Johnson nos faz perceber que a Literatura não é uma produção de signos asséptica ou neutra. Ao contrário, propugna por novas formas de ser, de existir e estar no mundo e, nesse sentido, seu diálogo com a Política enquanto campo de conhecimento e de prática estabelece uma relação cheia de sentidos e novas possibilidades, que a pesquisa acadêmica se propõe, de tempos em tempos, a colocar em relevância, alcançando uma transformadora efervescência de práticas e ideias no seio das culturas.

 

Referências

 

BARTHES, Roland. Crítica e verdade. Tradução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2007.

JOHNSON, Richard. O que é, afinal, estudos culturais? In: SILVA, Tomaz Tadeu da. O que é, afinal, estudos culturais? 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 7-132.

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