UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

Você está em: Edições Anteriores > Volume 07 – Número 1 – Setembro/2014 > Editorial

             

            A criação, em 1996, da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP) aponta para a tentativa de aproximação e cooperação entre os países membros. Assim, é inevitável lembrar-se da célebre frase de Fernando Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Essa frase remete à opção pelo não pertencimento, pela não fixação a uma pátria no sentido de nação, de nacionalidade, logo, assinala a preferência por uma “morada que inventamos habitando poeticamente a Terra, [que] é antes de tudo a nossa língua[i]. Partilhar uma língua é inserir-se em um grupo cujas semelhanças unem seus integrantes, afastando-os de quem a ele não está circunscrito.

            Entretanto, o fato de alguns países compartilharem a língua portuguesa não é sinônimo de compreensão, harmonia e homogeneidade cultural. Pelo contrário, em cada uma das paragens a que chegou, a língua portuguesa foi (re)modelada, ganhando novos sons e sentidos a fim de atender às necessidades de expressão e à imaginação dos diferentes povos que a adotaram. No que concerne a Portugal e Brasil, o distanciamento deste em relação àquele teve início com a independência, em 1822, quando o Brasil afirma sua identidade, tentando afastar-se de tudo o que era lusitano.

            A partir da independência brasileira, consolida-se o entendimento de que, tal como indicou o eu poético de “A canção do exílio”, “as aves, que aqui [Portugal] gorjeiam, não gorjeiam como lá [Brasil]”[ii]. E o afastamento do Brasil de Portugal intensifica-se quando, mais tarde, o Brasil, no século XX, com o Modernismo, novamente repensa a identidade nacional perante a Europa.

            Ainda que ecos da voz do Velho do Restelo d’Os Lusíadas cheguem até nós, denunciando a cobiça e destruição geradas pela colonização portuguesa, não se quer aqui adotar a perspectiva dicotômica do colonizador versus o colonizado. Até porque não há como negar essa passagem da história brasileira, não se pode negar o pertencimento do Brasil ao mundo lusófono, uma vez que sem ele o país fica “suspenso de um tempo sem raízes”[iii].

            Como não adotamos uma perspectiva binária, tal como a de um rio dividindo duas margens e para reafirmar as relações entre Brasil e Portugal, nesta edição da Darandina Revisteletrônica, navegamos por essas duas margens e também por uma “terceira margem do rio”, como propõe Guimarães Rosa. Navegamos por caminhos que buscaram destacar as particularidades e diferenças, navegamos pela “terceira margem”, uma vez feita a opção pelo diálogo Brasil-Portugal, e também pelas águas que impulsionaram os paquetes dos versos de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos, e que trouxeram até as margens o que nos une, o que há de humano em outros portos: “Os paquetes que entram de manhã na barra/Trazem aos meus olhos consigo/O mistério alegre e triste de quem chega e parte./ Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos/Doutro modo da mesma humanidade noutros portos”[iv].  

            Assim, nesta edição da Darandina Revisteletrônica podemos ler um artigo, de autoria de Daniel Marinho Laks (PUC-Rio), em que há a investigação acerca do Modernismo e da identidade nacional mediante o diálogo das propostas estéticas de Mário de Andrade e de Almada Negreiros. No artigo de autoria de Antonia Marly Moura da Silva (UERN) e Maria Aparecida da Costa (UERN), há o diálogo entre o conto “Lixo e purpurina”, da obra Ovelhas negras (1995), de Caio Fernando Abreu, e o capítulo “O diário de Jenny”, do romance Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa, tendo como eixo norteador dessa análise as proposições de Philippe Lejeune sobre o pacto autobiográfico.

             Outra interessante análise comparativa ocorre no artigo de Romildo Biar Monteiro (UFC) e Elizabeth Dias Martins (UFC) que aproxima os contos “A feiticeira” (1893), de Inglês de Sousa, e “A Dama pé-de-cabra”, de Alexandre Herculano, levando em consideração o imaginário medieval e popular presentes nesses textos. No artigo escrito em conjunto por Ederson Luís Silveira (UFSC) e Moisés Gonçalves dos Santos Júnior (UNESP), há a comparação entre a poesia de Cecília Meirelles e Florbela Espanca, destacando o discurso metalinguístico e a consciência do fazer poético dessas escritoras. O artigo de Maria Laura Muller da Fonseca e Silva (UFJF) analisa a relação do intelectual — com destaque para Murilo Mendes — com seu lugar de origem e o lugar de trânsito, o que revela o cruzamento de culturas. 

            Além disso, esta edição da Darandina apresenta uma resenha de autoria de Rosimar Araújo Silva(UFF) da obra A pau a pedra a fogo a pique: dez estudos sobre a obra de Paulo Leminski (2010), organizada por  Marcelo Sandmann. Ainda sobre Paulo Leminski, esta edição traz a resenha, escrita por Rafael Fava Belúzio (UFMG), da obra Toda poesia (2013). Na seção “Textos de criação”, contamos com textos de Leyliane Gomes da Silva (UFRJ),  Deborah Castro (UFMG), Jorge de Freitas(UFMG), Daniella Amaral Tavares (UFBA) e Janete Silva dos Santos(UFT).

           

              Agradecemos aos nossos colaborados e desejamos a todos uma boa leitura!

 

 

Patrícia Ribeiro

Comissão Editorial da Darandina Revisteletrônica

 

 


[i] LOURENÇO, Eduardo. A nau de Ícaro e imagem e miragem da lusofonia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001,p.127, grifo do autor. 

[ii] DIAS, Gonçalves. Poesia. Manuel Bandeira (Org.). Rio de Janeiro: Agir, 1985, p. 16.

[iii] LOURENÇO, Eduardo. A nau de Ícaro e imagem e miragem da lusofonia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.173. 

[iv] PESSOA, Fernando. Poemas de Álvaro de Campos. Jane Tutikian (Org). Porto Alegre, RS: LP&M, 2007, p.61.

 

Darandina Revisteletrônica