UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Foi bonita a festa, / fiquei contente  /E inda guardo, renitente/ Um velho cravo para mim / Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar /  Sei também quanto é preciso, /  Navegar, navegar  

Já murcharam tua festa/Mas certamente Esqueceram uma semente/ Nalgum canto do jardim / Canta a primavera, / Cá estou carente/ Manda novamente/ Algum cheirinho de alecrim (Chico Buarque e Rui Guerra. Tanto Mar – 1978)

 

Em 1975, a primeira versão da canção de Chico Buarque, que falava sobre a Revolução dos Cravos e a esperança da democracia no Brasil, pôde apenas ser gravada em Portugal. Censurada pela ditadura no Brasil, a canção abordava a luta pela democracia, referindo-se inevitavelmente às relações luso-brasileiras.

Do lado de “cá”, a léguas de mar navegável, as relações com o “lá” vão além da língua. Encontram afinidades, no século XX,  questões graves como a falta de emprego e a miséria, causadas pela má divisão da terra e da riqueza, questões em que Saramago e Graciliano Ramos tocaram em seus textos, questões que inspirariam um  Chico Buarque a escrever a música Levantados do chão. Nesse caso, nada é mera coincidência.

As relações e laços ex-metrópole – ex-colônia, escancaradas nas literaturas dos dois países, vêm desde o momento em que o lado “de cá” se torna o Outro a partir do qual o lado de lá se definia. Segundo Cornejo Polar, (2000) ao inventar a América, a Europa inventa a si própria, sendo a configuração da imagem do Outro a principal estratégia para a definição da figuração de si mesmo. Em outras palavras, a identificação do mesmo se dá pela confrontação com a imagem do Outro, e neste processo ocorre, em um e outro lado, a conversão do heterogêneo e conflitivo em homogêneo e harmônico.  Todorov explicitaria ideia semelhante ao afirmar que   “cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu só estou aqui pode realmente separá-los e distingui-los de mim”. (TODOROV, 1983, p.5)

Se Pero Vaz de Caminha escreve o primeiro texto nosso, embora deles;  também nos textos escritos em Portugal, o Brasil se faz presente desde os primeiros contatos. Na verdade,   o duro processo que marcou os países coloniais tem desdobramentos que não ficam restritos às ex-colônias, mas contaminam também as ex-metrópoles. O que estamos querendo dizer é que, como afirma Said, falar sobre relações entre ex-colônias e suas ex-metrópoles é considerar também a retomada da história na literatura. Inevitavelmente, a história da metrópole está fadada a ser re-narrada de forma não unívoca, porque muitas são as vozes que narram, e o que narram são histórias que vão junto e contra o discurso dominante. 

Do lado de “cá”, recebemos, desde os primeiros tempos, as armas, os barões assinalados, a língua portuguesa e o próprio Camões. A utilização de um instrumento de expressão comum, a língua, acaba trazendo como resultado direto a aproximação e interlocução de poetas brasileiros com a poética camoniana. Como uma “sombra”, Camões segue pairando sobre as criações literárias desde o período colonial até e inclusive os períodos marcadamente nacionalistas e avessos à influência da ex-metrópole, como o Romantismo e o Modernismo. Gilberto Mendonça Teles, em seu estudo sobre a influência de Camões na poesia brasileira, apresenta vários exemplos de paródias de Os Lusíadas, apontando inclusive que uma história do humorismo e da sátira na poesia brasileira pode ser mais ou menos delineada através da influência camoniana.  Segundo Teles, dezoito anos após a publicação de Os Lusíadas, já se iniciavam  discursos paralelos, em forma de paródia, do texto.

Se o texto camoniano é sucessivamente relido e reescrito de outras formas no Brasil, a língua portuguesa também é implodida sutilmente, e antropofagicamente torna-se outra. É dessa forma que a imperícia dos falantes é transformada em qualidade estilística pelos autores modernistas, e, pela desobediência do escritor, a língua portuguesa já não é mais aquela do além mar.

Para além da “gramatiquinha do povo brasileiro”, fica a saudade. Talvez movido por qualquer coisa de intermédio, Ricardo Reis, heterônimo brasileiro transformado em personagem, tenha resolvido se exilar do Brasil após a queda do nosso Segundo Reinado. Nesse poeta brasileiro, o retorno ao país da saudade acaba se tornando na verdade o encontro e a descoberta de coisas estranhas e familiares e a reelaboração de uma condição de ser no mundo.

Nem mesmo um Ricardo Reis estaria imune, enquanto personagem, às interferências de um mundo em contínuo desconcerto. O fato é que a tormenta do oceano permanece invadindo as duas margens, transformando pedras, modificando a paisagem. Entre o “lá” e o “cá”, as marés tecem novas e imprevisíveis relações. Ainda assim, é preciso navegar. 

 

 

Bárbara Simões

Doutora em Literatura Comparada pela UFF

Professora do Programa de Pós Graduação em Letras – Estudos Literários da UFJF.

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