UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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           A arte, além de qualquer fator mercadológico, pode ser um elemento que cria oportunidades fora de um nicho estabelecido. Ainda que seja difícil para um artista colocar-se em um locus atemporal na prática, a literatura tem como característica essencial a capacidade de ser plástica o suficiente para efetivar-se como, ela mesma, um locus em que a novidade se faz.

            Acima da questão do estilo de época ou de escola literária, o fazer escritura ultrapassa as noções talvez limitadoras do fator tempo. Criar arte, em qualquer tempo, pode significar sempre algo diverso e divergente do fluxo majoritário – a arte não está presa à necessidade ou à continuidade de um padrão, uma ideologia ou um formato.          Isso ocorre porque a literatura é do domínio da criação. Criar não se prende necessariamente a um modelo, até porque a própria ideia primitiva do que seja criação é a novidade. Produzir literatura é, de certa forma, responder à vibração da vida, nas infinitas acepções que se possam atribuir a ela. Assim, ler ou escrever um texto literário é mergulhar em uma cartografia do humano, do sonho, da luta; enfim, de tudo que tem relação com a vida – e tudo pode ter, independente do que o calendário tenta impor.

            Apesar disso, nos parece claro, há os nichos mais ou menos uniformes de criação, temporalmente falando. Seriam essas criações uma limitação do potencial criador da literatura? Não parece possível afirmar. Como criação que tira sua potência da vida, não seria legítimo afirmar que José Saramago escreveu Levantado do Chão despregado de seu tempo e que o deveria ter feito em nome da criatividade, nem mesmo que Drummond tenha encontrado o Sentimento do Mundo em um sonho futuro. Escrever em seu tempo tem o peso e a importância que a vida exige no agora, e é um motif legítimo. Mas essa é a única resposta?

            De acordo com a noção de Giorgio Agamben, o contemporâneo ultrapassa a sincronia temporal. Ser contemporâneo, nessa noção, está mais relacionado ao movimento artístico que a relação estrita com o tempo presente. Para que haja a contemporaneidade, mais que afirmar que a obra foi produzida ontem, deve-se lê-la e perceber nela certo caráter anacrônico. Não é claro que Machado de Assis poderia ter escrito Dom Casmurro alguns anos atrás? E que Kafka está sempre tão atual que o impressionante O Processo parece ter sido escrito para os anos 2010?

            Nesta edição da Darandina Revisteletrônica, é possível ler artigos com grande diversidade de temas, provando que a literatura avant-garde se dá fora de qualquer tempo: artigos que contemplam desde a problematização da obra de Cristovão Tezza e João Gilberto Noll, escritores ainda vivos, Clarice Lispector e a relação entre autor, leitor e obra. Outros, fora da literatura brasileira, com análises do romance latinoamericano Xicoténcatl, de autoria anônima, até o húngaro Esterházy, ambos localizados no século XIX.

            Teremos também uma resenha acerca das tendências da literatura portuguesa para infância e juventude, Na seção de textos de criação, contamos com contribuições de Natasha Centenaro, Fabiano Santos Saito, com contos. Os poemas são das autoras Tereza Miranda e Eliane Testa.

            Agradecemos à equipe Darandina e aos autores pelas contribuições que fizeram possível mais um grande número da Darandina Revisteletrônica e desejamos a todos uma excelente leitura!

 

Joyce Scoralick

Comissão Editorial da Darandina Revisteletrônica

 

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